domingo, junho 08, 2008

O iceberg





"Camionistas de todo o país vão paralisar, a partir da meia-noite de hoje, por tempo indeterminado, até conseguirem apoios do Governo para fazer face ao aumento do preço do gasóleo, que, segundo a associação nacional do sector, representa 50 por cento dos custos das transportadoras e já provocou a falência de várias empresas."
As movimentações dos camionistas são a ponta do iceberg que aí vem. O governo, qual Titanic, continua a pensar que o aumento dos combustíveis é um "problema social" que se trata com abonos de família.
Quer se goste quer não, o impacto da paragem dos transportes de mercadorias assusta muito mais o governo do que o desfile de 200.000 manifestantes na Avenida. As manifestações sindicais têm-se repetido ao longo dos anos, já não impressionam. A entrada na dança dos pescadores e dos camionistas tem um significado muito diferente e o governo sabe-o.
Como eu disse AQUI e AQUI , as garantias de mobilidade são uma condição da sobrevivência económica e até das liberdades individuais. Não se resolvem com paliativos.

sábado, junho 07, 2008

As asas do pedal

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"Vem de bicicleta da Avenida 24 de Julho, onde mora, atravessa a Praça do Município e pára na Rua do Ouro, onde fica o seu gabinete - um andar que a Câmara Municipal de Lisboa ocupa no prédio da Caixa Geral de Depósitos e onde "depositou" os seus vereadores independentes, Helena Roseta e Carmona Rodrigues." DN, 07.06.2008

O DN fez uma maldade a Helena Roseta publicando esta fotografia. Para cumprir a agenda politicamente correcta ei-la montando a bicicleta, com notória instabilidade, pronta para provocar vários acidentes no seu curto percurso entre a residência e o emprego (não faria melhor indo a pé ?).

Espero que ela tenha ao menos o bom-senso de não invocar o seu exemplo quando tentar catequizar os cidadãos que vivem em Massamá e em S. Iria da Azóia.

sexta-feira, junho 06, 2008

Falemos claro



Falemos claro a propósito dos participantes no comício-festa do Trindade. Às portas do segundo semestre de 2008, atribuir identidade política, e a consequente legitimidade representativa, a ex-pintasilguistas é pelo menos caricato.


Quanto à Renovação Comunista, a outra ficção arregimentada para enfeitar o palco e que eu conheço bem, é uma organização que neste momento, infelizmente, está reduzida a um grupo de amigos que não representa ninguém. Quando surgiu, ainda nos tempos do saudoso João Amaral, despertou enormes esperanças e movimentações mas tudo isso se foi esvaindo por causa do sectarismo e vedetismo de meia dúzia de "dirigentes". Não será num táxi, mas num autocarro cabem certamente todos os dirigentes e as bases, que se conformaram em ser um apêndice do apêndice do BE.

Por isso são mais do que justas as análises que apresentam o comício do dia 3 como uma construção do BE, encenada como era hábito do PCP, com aliados que não têm existência própria e que obtêm, em troca, um destaque público completamente injustificado.
Em vez de procurar com trabalho e com afinco novos caminhos para a esquerda (unida, porque não ?) vive-se de parasitar influências e cargos com base numa fachada que nada tem por trás.
O facto de ainda ter na RC amigos, como o Jorge Nascimento Fernandes, não me obriga a pactuar com manobras políticas irresponsáveis.
O facto de ter rompido nos anos 90 com a militância no PCP não me leva a considerar correcta toda e qualquer actuação só porque é contra esse grande partido histórico.

quinta-feira, junho 05, 2008

Ainda a propósito de uma troca azeda de palavras


Não se passaram mais do que 24 horas sobre a minha resposta ao Vítor Dia garantindo-lhe que não alimentaria mais troca de palavras azedas entre os dois, quando vi o seu post sobre alguma desinformação que reinava na comunicação social a propósito da participação do PCP na tal festa-sessão do Trindade.

Isto porque eu próprio denunciei uma desinformação deliberada, porque foi repetida diversas vezes, promovida pela SIC Notícias e que não é referida pelo nosso bloguista. Provavelmente, não era esse o objectivo do seu artigo, mas era bom que de vez enquanto também se preocupasse com ela. Outra, num estilo que está a ser característico do Avante, encontra-se no artigo Ai que Alegria , de Anabela Fino, que denuncia com um sectarismo, invencionice e desinformação arrepiante a tal festa-sessão. Reconheço que não é esse o estilo do Victor Dias, mas não lhe ficaria mal, que de quando em vez também criticasse os seus amigos do Avante que escrevem prosa como aquela que referi.

Mas não é só por isto que volto ao comentário do Vítor Dias. Reconheço que citei a despropósito uma pessoa já falecida que não pode confirmar aquilo que me disse, nem defender-se dos ataques do Vítor Dias. Por esse motivo e em sua memória, lamento os inconvenientes daquela referência, que servia de justificação, para quem leu o meu texto , de ter passado a chamar Vítor Dias a todo os intervenientes no fórum, que vinham com prosas antigas de alguns renovadores.

Quanto, aos casos das declarações de Manuel Alegre ao Expresso, em 1996, e da votação do BE na Assembleia Municipal, são formas de ataque político de que eu discordo. Algumas chegam mesmo a ser de carácter, outras de desinformação política, como é o caso da referência constante à votação sobre a Bragaparques pelo BE, que mais não visa do que acusar o BE de estar a reboque dos interesses capitalistas. E quando na página da ORL do PCP se relatam “factos contra a política de direita na gestão PS/BE da Câmara de Lisboa” está-se mais uma vez em pleno desvario sectário e esquerdizante do PCP, de que nunca o Victor Dias se demarcou, que eu saiba.

Quanto às referências à veia estalinista de cada um de nós é preferível ficarmos por aqui, porque senão corremos o mesmo risco que atacou a discussão entre José Sócrates e Francisco Louçã. Ou seja, José Sócrates já sabendo que Manuel Alegre ia participar numa sessão-festa com Louçã , atiçou este, chamando-lhe mentiroso e covarde. Já se sabe que Louçã caiu na esparrela e respondeu-lhe no mesmo tom. Daí para a frente foi fácil passar a dizer que Manuel Alegre participava numa sessão ao lado de um inimigo do PS. Por isso, para não cairmos no mesmo mal, retiro o que lhe chamei, até porque as opiniões expressas no seu blog, no seu conjunto, não podem levar a esse epíteto.

Mas não gostaria de terminar sem um pouco de discussão política. Acaba o seu comentário com esta afirmação: “Inebriem-se JNF, o BE etc. quanto quiserem com Manuel Alegre. E depois, na próxima campanha eleitoral para as legislativas, quando ele voltar a fazer o papel que sempre tem feito nas campanhas eleitorais para o Parlamento - que é o ser a luva de esquerda para a mão de direita do PS - não se queixem nem se admirem.”
Só lhe gostaria de perguntar, num tempo em que as posições do PCP eram mais sérias e menos sectárias, o que foi que nós andámos a fazer com Ramalho Enes e o seu PRD? Nessa altura e bem considerou-se que havia um espaço entre o PS e o PCP que devia ser preenchido por um partido com as características do PRD. Não nos importámos de poder perder não sei quantos por cento de votos a favor dele e depois foi o que se viu, transferência directa para o PSD, de Cavaco Silva. São os riscos da unidade e da necessidade da reorganização das forças partidárias à esquerda do PS de Sócrates. Por isso não sejamos tão taxativos com aquilo que dizemos a propósito de Manuel Alegre. Já o vi ser muito bem recebido na Festa do Avante.

PS.: já o post ia a meio, quando vi o seu último comentário, daí ter introduzido algumas respostas que não pensava dar-lhe.
A imagem que acompanha o texto refere-se ao nome do Blog do Vítor Dias o Tempo das Cerejas.
Este texto foi publicado igualmente em http://trix-nitrix.blogspot.com/

Noite alternativa


Dada a minha já provecta idade começo a chegar à maioria dos eventos com grande antecedência. É o mal dos velhos. Por isso, desta vez, achei que não devia chegar à festa sessão Aqui e Agora, que se realizou no Trindade, com muita antecedência. Tinha-me bastado a experiência de um jantar de comemoração do 25 de Abril, que se realizou na FIL, em que tendo chegado com um quarto de hora de antecedência, encontrei uma sala vazia e senti um desconforto acentuado. O jantar encheu-se, mas só quarenta e cinco minutos depois da hora marcada, típico dos portugueses.
Foi neste estado de espírito que fiz pontaria para chegar à sessão-festa aí com uns dez minutos de antecedência. Quando cheguei vi bicha para entrar no Trindade, o que já me espantou. Quando estava a meio, alguém, por gestos, informa que já não havia lugares. Não desisti, alcancei mesmo a porta principal. Encontrei conhecidos que perguntaram se eu era subscritor do abaixo-assinado. Disse que não, também ninguém me tinha convidado. Então, não podia entrar.
Havia as alternativas possíveis, a tal sala num segundo andar onde se podia seguir o espectáculo por uma televisão gigante, ou então, recorrer à velha prática dos nossos vinte anos, que era esperar que todos desistissem e depois alguém nos permitia a entrada. Não tive paciência para isso. Vim para casa pelo mesmo caminho que fui, de metropolitano.
Nunca pensei que o Trindade só tivesse 490 lugares. Helena Roseta, à porta, justificava, dizendo que não tinham conseguido outra sala. Já ouvi outras versões. A Joana Lopes, e com razão, achou no seu blog que havia pouca ambição (“medroso” foi a expressão que ela utilizou). Eu na altura, um bocado ingenuamente, pensei que o espaço era suficiente. É porque não frequento muito o Trindade.
Chegado a casa sintonizei a SIC Notícias que deveria ser a única estação televisiva que aquela hora mostraria alguma coisa da sessão. Não me enganei, a determinada altura uma locutora, muito agressiva, lá ia interrogando as personalidades da esquerda. Mas o prato forte da noite foi a entrevista, de quase uma hora, ao Miguel Urbano Rodrigues (MUR).
Quanto à SIC Notícias vale a pena referir que a sessão foi sempre apresentada, e isto foi sistemático, e ainda hoje se repetiu, como sendo “promovida pelo BE com a participação do Manuel Alegre”. Ou seja, devia haver ordem expressa do seu actual Director, António José Teixeira, para que fosse essa a denominação que se daria àquela sessão. Desinformação? Que ideia.
Quanto à entrevista ao MUR fiquei um bocado espantado. Qual a razão porque uma televisão do sistema, bem alinhada com a ideologia dominante, convida alguém que se sabe que é simpatizante das FARC e as defendeu na entrevista, quando a simples hipótese delas estarem representadas pelo seu jornal ou por alguém afim na Festa do Avante levanta tanta indignação. Penso até que o Governo chegou a ameaçar intervir se aparecesse um stand com qualquer representação daquela organização. São mistérios, mas como ninguém viu aquela entrevista, ainda não se levantou nenhuma vozearia. Pela minha parte não tenho nada contra, mas que é estranho é.
Já se sabe que o MUR foi insistentemente convidado a pronunciar-se sobre o que se estava a passar no teatro da Trindade e sobre a subida nas sondagens do BE e do PCP. MUR fugiu a esta última pergunta, dizendo que não comenta a pequena vida política nacional, mas sobre a sessão lá foi afirmando que não era com festas que se combatia as desigualdades, mas com as massas e fez referência, não explícita, às manifestações bem participadas da CGTP. Na mesma linha do Jerónimo que teria dito que esta era a esquerda falante enquanto que a do PCP era a esquerda actuante.
Já se sabe que não há contradição entre estes termos, porque não há uns que defendam que a luta seja por palavras e outros por manifestações. De um modo geral os que estiveram no teatro também estão nas acções da CGTP. E quanto a Manuel Alegre, sempre é melhor que esteja com quem fala contra as políticas do Governo, do que com este.
Quanto ao conteúdo da entrevista poupo-me a mais comentários. Já em tempos escrevi muitos posts criticando posições do MUR. Penso que estamos numa maré de unidade e que não vale a pena mais comentários.
Terminaria dizendo que para a próxima gostaria de poder entrar e não ficar à porta a rogar pragas.

Que viva Obama ?

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É com enorme prudência que recebo a notícia da vitória do Senador Obama nas primárias democráticas. Não sei se me devo regozijar ou se me devo lamentar.

Sempre que o vejo na televisão sinto que não alcanço a profundidade do seu discurso e o mesmo acontece com a Hillary; como estou viciado nos nossos debates não consigo perceber qual dos dois está à esquerda (ou à direita) do outro e isso deixa-me deprimido. Ainda por cima se um é negro, e constituiria uma novidade na presidência dos states, a outra é mulher o que não fica atrás em ineditismo.

Estou certo de que os americanos, calhados que estão com os meandros da mais perfeita democracia do planeta, não têm as dúvidas que eu tenho. Aqueles cartazes levantados na ponta de uma ripa, os gestos e poses dos candidatos, os trejeitos dos fans que se amontoam em segundo plano e a forma engenhosa como as palavras "mudança", "novo horizonte" e "política alternativa" são sequenciadas nos discursos já lhes mostraram claramente as diferenças e vantagens de cada candidato. Isto para não falar nas majorettes...


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quarta-feira, junho 04, 2008

Interlúdio (cómico)

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terça-feira, junho 03, 2008

As provocações e as alfinetadas do costume


Sobre a “festa sessão” promovida por um conjunto de individualidades, todas oriundas da esquerda, em que se destaca Manuel Alegre e gente do MIC, do Bloco de Esquerda e da Renovação Comunista, além de pintassilguistas, se hoje esta designação tem algum significado, e que terá lugar hoje, no teatro da Trindade, já apareceram provocações e alfinetadas. Darei um exemplo de cada uma.

Assim, na edição electrónica do Semanário vem publicada uma intrigalhada sem pés nem cabeça. Para o autor anónimo deste artigo “Manuel Alegre pode estar a trabalhar para dar de bandeja a Sócrates uma solução política para não cair nos braços da direita em 2009”. Ou seja, a sessão não seria mais de que uma conspiração entre José Sócrates e Manuel Alegre, para o PS, se necessitasse e não tivesse maioria absoluta, poder dispor de um apoio à esquerda. E qual era o objectivo desta tramóia: “o PCP, impedindo-o de subir eleitoralmente”.
Já se sabe que esta descrição omite num série de factos que o articulista não publica ou então, isso é mais grave, aldraba deliberadamente. No primeiro caso está esta afirmação: “Também não é certamente por acaso que no PS parece haver ordem para não atacar o poeta e até lhe ir dando palmadinhas nas costas.” Ora isto não é verdade, dada a reacção que já houve de Vitalino Canas, porta-voz do PS, e de António Vitorino, nas Notas Soltas, da RTP I. Mais exemplos são desnecessários.

Para ilustrar o segundo caso, temos a citação que o articulista faz do célebre artigo de Mário Soares, que diz que quer avisar, “como amigo que é do PS, (d)o perigo real de o PC subir muito eleitoralmente se Sócrates não cuidar da vida dos mais desfavorecidos”. Esquecendo deliberadamente que Soares se referia igualmente ao BE. Mas, como isto não se enquadrava nas intenções do artigo foi omitido.

Este artigo escrito anonimamente num semanário de direita parece, no entanto, favorecer o PCP, o que é estranho. Já não nos admiraríamos tanto se soubermos que aqui há provavelmente mão da Soeiro e que este tipo de artigos, com o ar de quererem desmascarar a cabala, mais não pretendem ser do que insinuações rascas para leitores desprevenidos.

Quanto ao exemplo das alfinetadas, o caso fia mais fino, até porque eu tenho uma história passada, que aproveito aqui para contar, com o senhor das alfinetadas.

Vítor Dias no seu blog, por sinal bastante interessante, e muito menos monolítico que a maioria de outros que seguem a mesma orientação, resolveu recorrer aos seus métodos costumeiros, indo buscar ao passado de Manuel Alegre algumas declarações que entram em contradição como que ele teria dito na entrevista que fez para a SIC Notícias a propósito da tal festa sessão. O assunto até era marginal ao que se estava a discutir, referia-se ao tratado de Maastricht , mas o nosso bloguista não se esqueceu da sua veia estalinista – sabe-se que Estaline tinha um dossier completo de todos os seus colaboradores, para em momento oportuno os poder chantagear se eles fugissem da linha – e lá foi buscar à ficha de Alegre umas declarações que este teria feito ao Expresso, em 1996, que contraditavam o que tinha dito na referida entrevista.

Este método é costumeiro. Ainda a propósito das últimas eleições para a Câmara Municipal de Lisboa, Vítor Dias lá vem com a ficha do Bloco de Esquerda dizendo que este, ainda no mandato de Santana Lopes, tinha votado a favor da permuta de terrenos da Bragaparques e a CDU contra. Bem pôde o Bloco mostrar um vídeo da sessão da Assembleia Municipal, que enquadrava perfeitamente a situação em que aquela votação teve lugar. Mas o Sr. Vítor Dias, na sequência da campanha da CDU, não largava o osso e aproveitava todas as ocasiões para relembrar o facto, nunca tomando em consideração os esclarecimentos prestados.

Ora estas fichazinhas do Sr. Vítor Dias parece que são antigas. Quando da crise entre renovadores e ortodoxo no PCP, estabeleceu-se aqui uma acérrima discussão entre uns e outros. E lá aparecia sempre, uma fichazinha com as posições antigas que Edgar Correia, João Amaral e outros renovadores tinham tomado e em que se provava que eles se contradiziam, ou seja, tinham afirmado uma coisa no passado e diziam outra no presente. Houve ainda outro caso, e essa discussão foi mais assanhada, sobre as posições relativas ao referendo sobre, na altura, a Constituição Europeia, sempre para mostrar as contradições sobre o que se agora dizia e o que se tinha defendido no passado. Eu, sabedor por intermédio do Edgar Correia, já falecido, de que o Victor Dias era pessoa para ter as fichazinhas de toda a gente e ir descobrir o que qualquer um tinha dito anteriormente, comecei a responder a todos os intervenientes e eram vários, chamando-lhes Vítor Dias, que nessa altura, verdade se diga, tinha a responsabilidade da agitação e propaganda, não sei se era este o termo, de todo o PCP. Penso que depois se afastou ou foi afastado dessas lides, o que resultou na feitura de um blog muito mais interessante e, por vezes, verdadeiramente informativo.

Quando já no tempo do seu blog, por impulso de colaboração, resultante dos meus conhecimentos, porque trabalhei muitos anos num cineclube, tentei corrigir-lhe o nome em português de alguns filmes de realizadores que ele publicitava, obtinha sempre como resposta uma troca do meu nome. A princípio pensei que fosse engano, depois percebi que era deliberado. Victor Dias, e com razão, estava-se a vingar de uma maldade que eu lhe tinha feito.

Nunca saberei se todas aquelas intervenções no tal fórum eram ou não dele. Que a prática pelo menos nos dois casos que citei é verdadeira, é um facto. Mas também reconheço que Vítor Dias tem uma boa memória, porque ressuscitou com muito pormenor e, penso, com grande verdade o caso da chegada de Álvaro Cunhal ao aeroporto de Lisboa e o chamado cerco da Constituinte (procurem no seu blog se estiverem interessados nos temas).

segunda-feira, junho 02, 2008

Há muitas maneiras de matar pulgas

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Mais de um quinto das empresas em actividade em 2004 funcionava sem empregar qualquer trabalhador, revela a Confederação Industrial Portuguesa (CIP). “Pelos dados oficiais confirma-se que, nesse ano, houve 81.003 empresas - cerca de 22,29% do tecido empresarial português - que, nas informações legais prestadas regularmente, declararam ter zero trabalhadores”, refere João Mendes de Almeida, director executivo da CIP.
O sector mais expressivo de empresas com zero trabalhadores é o do comércio (21.696 empresas), seguido pelo do imobiliário e serviços (20.183), da construção (11.354), da educação (7.051) e da restauração e alojamento (6.538). Expresso, 24.05.2008
Não é preciso ser muito imaginativo para entrever, nestes números intrigantes, múltiplos esquemas de fuga ao fisco e não só.
Mas há outras leituras que importa fazer, por exemplo a de um capitalismo que explora sem precisar de dar emprego. É disso que eu falo quando insisto para que a esquerda encontre novas maneiras de matar a mesma pulga.

A tomada da Bastilha

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domingo, junho 01, 2008

Alegre defende nacionalizações se for preciso

O Diário de Notícias refere hoje uma intervenção de Manuel Alegre, no Porto, onde terá defendido "se for caso disso, a renacionalização de sectores estratégicos da economia portuguesa".
O debate promovido pela corrente "Opinião Socialista" do PS/ Porto tinha como tema "Nova Esquerda e desigualdade: que políticas?"
Segundo o DN para Alegre, a esquerda só combaterá de forma eficaz as desigualdades se se libertar das ideais e da linguagem do neoliberalismo que a "colonizou" nos últimos anos. O capitalismo, disse, não é a etapa última da História. "Há muita gente a viver mal em Portugal, em dificuldade, e a classe média está a empobrecer. É preciso encontrar soluções" para a crise "deste modelo de sociedade". O grande de combate da esquerda nos dias que correm, segundo Alegre, é saber se é possível ou não outra lógica na economia.Alegre defendeu o direito do Estado a "renacionalizar" algumas empresas estratégicas. "Pode haver situações em que sejam necessárias nacionalizações para a própria sobrevivência da democracia". É uma hipótese, sublinhou, que "a esquerda tem de ter coragem de encarar

Esta luta por uma nova via para a esquerda merece todo o meu apoio, como venho repetindo, mas o que eu não consigo aceitar é que para o efeito Alegre não consiga referir senão as nacionalizações.
Ainda recentemente num post intitulado "E se houvesse um novo 25 de Abril ?" eu tinha afirmado que a esquerda se encontra, deste ponto de vista, onde se encontrava quando o "PREC" acabou. Alegre que na altura tanto combateu Vasco Gonçalves parece, 34 anos depois, querer dar-lhe razão.

Não me refiro apenas à exequibilidade de tais teses que Alegre apresenta como se vivesse na América Latina. O que mais me choca é o retorno a fórmulas datadas, que no mundo globalizado e desmaterializado em que vivemos cada vez fazem menos sentido por não garantirem os resultados que os seus proponentes pretendem.

A "festa/sessão" do dia 3, com Alegre e o Bloco de Esquerda, promete...

sábado, maio 31, 2008

Vai bonito o insulto no PSD

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Ouvi hoje na televisão, mas não consegui encontrar o registo vídeo destas declarações, por isso reproduzo-as como vêm noticiadas pela Lusa:

Lisboa, 31 Maio (Lusa) - O presidente demissionário do PSD, Luís Filipe Menezes, criticou hoje a "canalha" que lhe fez "a vida negra" e que "não tem carácter", lançando um duro ataque a Pacheco Pereira, apoiante de Manuel Ferreira Leite.
"Vou mostrar logo à noite [quando forem conhecidos os resultados] como sou diferente dessa canalha que me fez a vida negra, que não tem carácter", disse, adiantando que o grupo a que se referia inclui "pessoas como aquele senhor de barbas que participa na Quadratura do Círculo", numa alusão a Pacheco Pereira, apoiante de Manuela Ferreira Leite e um dos mais ferozes críticos da presidência do autarca de Gaia.
Questionado pelos jornalistas hoje de manhã em Gaia após votar nas directas do PSD, Menezes afirmou que respeitará "os resultados [das directas] sejam eles quais forem".
A propósito, criticou os "tristes, infelizes e barbaramente obcecados" que quando foi ele eleito para a presidência do partido não tiveram a mesma atitude.
"Não pertenço a essa laia", salientou.”

Que eu, um simples mortal, chame canalha a alguém, e há uns que bem merecem, vá que não vá. Mesmo assim, que eu me recorde, não utilizei ainda esta “bonita expressão” na net. Que o Sr. Filipe Menezes chame canalha ao Pacheco Pereira, com todas as letras e em canal aberto, é um espanto. Assim vai este PSD, que em tempos pretendeu ser comandado por dois miríficos políticos nacionais, os Srs. Sá Carneiro e Cavaco Silva.

We are the world

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Ontem um amigo enviou-me este video da célebre gravação que eu não ouvia há anos e que, no fim dos anos oitenta, pela constante repetição quase se tornou insuportavel. Agora achei empolgante.



sexta-feira, maio 30, 2008

O sexo dos anjos



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Continuamos a ver a crise dos combustíveis tratada por gente responsável como se fosse mais um fait divers. Se, pelo contrário, se trata de uma ameaça séria à mobilidade tal como a conhecemos então estamos perante uma ameaça letal à nossa civilização.
São muito famosos os sistemas de abastecimento de água às povoações desenvolvidos durante o Império Romano. Uma marca civilizacional que só foi recuperada e retomada, na Europa, vários séculos depois. Estaremos nós, com a crise dos combustíveis, perante um fenómeno ainda mais grave ?
Em 2007 todos os dias entraram em circulação, só na China, 13.000 automóveis.
Cada vez que entra em circulação mais um automóvel num país emergente as nossas hipóteses de continuar a circular livremente, como costumavamos fazer, reduzem-se mais um pouco.
Será esta a forma actual da "invasão dos bárbaros" ?
Não quero ofender os chineses mas apenas estabelecer um paralelo com a derrocada do Império Romano e com o hiato civilizacional que se lhe seguiu.
Calculo que em Roma também se discutia o orçamento enquanto os bárbaros se acercavam das muralhas, como em Bizâncio se discutiu depois o sexo dos anjos.

EU NÃO VOU

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Julgo que os protestos deviam também ser contra os impostos elevadíssimos e o que eles representam. Ainda assim penso que este movimento colectivo, independentemente dos resultados, é um bom exercício.

Sessão festa no Teatro da Trindade promovida pela esquerda plural


Vai realizar-se 3º-feira, dia 3 de Junho, às 21h30, no Teatro da Trindade, em Lisboa, uma festa sessão, em que serão oradores Manuel Alegre, Isabel Allegro, professora universitária e antiga colaboradora de Maria de Lourdes Pintasilgo, e o deputado bloquista José Soeiro.

A festa terá como tema Aqui e Agora, 1974-2008 Abril e Maio. Apesar do lema da convocatória falar Contra o pensamento único, a injustiça e a desigualdade a sua mobilização está a ser feita na base de um Apelo subscrito por 85 personalidades, de algumas importantes correntes de esquerda: Manuel Alegre e alguma esquerda do PS, o Bloco de Esquerda, a Renovação Comunista e alguns independentes.

Segundo declarações do próprio Manuel Alegre, este encontro visa estabelecer um diálogo à esquerda, entre gente que tem andado desavinda. E refere-se a Abril e Maio, o primeiro como o mês da conquista da Liberdade e, o segundo, como o da luta pela igualdade social.

quinta-feira, maio 29, 2008

Foi você que pediu um Berlusconi ?

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Tem vindo a ser anunciada uma "festa/sessão", com base num "Apelo" rubricado por um vasto conjunto de personalidades que incluem Manuel Alegre, Francisco Louçã e ex-PCPs. Terá lugar no Teatro da Trindade no dia 3 de Junho.

Depois da decadência dos partidos do centro - PSD e PS - estamos agora perante um típico fogacho do esquerdismo oportunista que, como de outras vezes na história, pode vir a ser antecâmara de ditaduras da direita. Quando o povo tiver perdido totalmente a confiança nos partidos “moderados”, sujeito a grandes dificuldades diárias, os pretextos proporcionados por tiradas extremistas farão surgir, do nada, um Berlusconi português ou, quem sabe, um Salazar da era digital.

O problema desta gente, que as sondagens animam, é que não faz os trabalhos de casa; não tem qualquer ideia prática sobre a forma de realizar a justiça que reclama. Nesse aspecto vale mais o Jerónimo, e a sua União Soviética “que ainda há-de vir”, pois ao menos sabe-se do que estamos a falar.
Eles pensam que basta cavalgar as últimas estatísticas sobre a pobreza, mas disso até o Santana Lopes já se tinha lembrado. Não vamos lá com descrições inflamadas da miséria que não são mais do que um disfarce da miséria das alternativas.

O que importa é inventar e preparar um novo mundo que funcione, que convença a maioria, em vez de organizar "AGORA AQUI" festas e sessões à babugem das eleições que se aproximam.

O PSD a passos de coelho

O PSD, e as eleições dentro do PSD, são também o lado lúdico da política. Dão a possibilidade aos portugueses de se divertirem a apostar num possível vencedor quando, em boa verdade, não sabem muito bem o que pensar daquela trapalhada.

Eu aproveito esta oportunidade para "jogos de azar" e aposto em Passos Coelho. Porquê ? Porque acho que o PSD tem uma necessidade absoluta de fingir que vai começar tudo de novo.
Além do mais é um candidato fotogénico que as senhoras gostarão de ver em despique, civilizado, com o nosso engenheiro Sócrates.

Foi também o único que fez uma proposta diferente e em que toda a gente reparou: a redução dos impostos. Mais vale parecer irresponsável do que parecer irrelevante.

quarta-feira, maio 28, 2008

Duas novas revistas on-line


Passaram a ser distribuídas on-line duas novas revistas, editadas pela Zion Edições. O primeiro número de qualquer delas é gratuito, depois terá que se pagar a sua assinatura. Não sou proprietário de nenhuma, nem seu colaborador, mas pelo seu inegável interesse recomendo, pelo menos, a consulta dos primeiros exemplares electrónicos.
A primeira é a edição portuguesa da célebre revista marxista norte-americana Monthly Review, fundada em 1949, por Paul M. Sweezy (ver fotografia aqui ao lado), em colaboração com Leo Huberman. O primeiro foi um dos mais reputados estudiosos, do ponto de vista marxista, do desenvolvimento do capitalismo e do imperialismo. Qualquer deles já falecido.
O sumário do primeiro número é o seguinte:
Estados Unidos da insegurança, entrevista com Noam Chomsky
A crise alimentar mundial, Fred Magdoff
O colapso do subprime, Karl Beitel
Sweezy em perspectiva, John Bellamy Foster
Este último o seu actual director.
Quanto à segunda revista, que será editada simultaneamente com a anterior, é uma revista portuguesa, que se chama Shift – revista do pensamento crítico radical. É dirigida por Fernando Ramalho e com um conselho redactorial formado Bernardino Aranda, Fernando Ramalho, Paulo Fidalgo, Ricardo Noronha e Rui Duarte. O primeiro número tem como título geral O fim do neoliberalismo ou a segunda morte de Milton Friedman.
O sumário deste número é composto pelos seguintes artigos:
Editorial: Das últimas ilusões à vida imprevisível, Fernando Ramalho
O financeiro contra o económico, Carlos Pimenta
Mecanismos de formação das crises económicas, Guilherme da Fonseca-Statter
Poder mundial e dinheiro mundial, Robert Kurz
Recensão: Socialismo sem dogma, Ricardo Noronha
Pelo exposto parece-me pois que valerá a pena a consulta ao site da editora, sendo possível a partir daí, desde que nos registemos, obter gratuitamente o primeiro exemplar de cada uma delas.
Desejo pois às duas grande sucesso .

Combustíveis e luta de classes

Nicolau Santos produziu no Expresso uma síntese excelente:


Ou seja, acabou a comida barata, a energia barata, os combustíveis baratos ou a água barata. Por outras palavras: bens democráticos, a que a generalidade dos cidadãos tinha acesso, como a água, pão, electricidade, gasolina ou gasóleo estão a tornar-se bens de luxo ou quase, a que cada vez terão mais dificuldade de acesso as classes médias e de menores rendimentos.

As consequências também serão várias - e todas elas potencialmente explosivas, porque a fome, a sede e a miséria não são boas conselheiras. A primeira é que a possibilidade de violentas convulsões sociais, com impactos fortíssimos a nível político e mesmo riscos para os sistemas democráticos é fortíssima. A segunda é que, à luz da História, situações destas acabam por resolver-se através de conflitos bélicos mundiais, que dizimam milhões de pessoas e reequilibram as condições de vida no planeta.

Perante este enunciado o cidadão tem que colocar-se muitas questões.

Como é possível que o governo português ainda recentemente tratasse a questão dos combustíveis como uma birra dos condutores mal habituados, subordinada em termos de importância ao equilíbrio orçamental ? Onde estão as previsões e as medidas preventivas que seriam de esperar de um governo responsável ?

Como se explica a resignação e passividade da Europa perante o encarecimento acelerado de produtos de que dependem os seus mais básicos padrões de vida, ao ponto de ter que ser acordada por um Manuel Pinho ansioso por encontrar bodes expiatórios ?

São todos incompetentes e irresponsáveis ou há outras explicações para este fenómeno ?

Convém talvez compreender que, mesmo dentro de um país como o nosso, nem todos são afectados da mesma forma e alguns até podem sair beneficiados destas crises. Quem exporta para Angola e é pago pelos rendimentos do petróleo talvez não tenha razões de queixa, ou quem é accionista da Galp, ou quem exporta para a Venezuela às cavalitas do governo de Sócrates, ou quem tem sempre os combustíveis, e não só, pagos pela empresa ou pelo Estado.

Esta questão dos preços do petróleo, do crédito e dos produtos alimentares pode afinal ser, no essencial, mais uma forma de certas classes expoliarem outras.

Também ao nível internacional, nomeadamente na Europa e EUA, conviria perceber quem ganha e quem perde com este terramoto. Para sabermos se estamos perante aprendizes de feiticeiro que jogam um perigoso xadrez contra as potências emergentes, em que as peças são poços de petróleo e mísseis nucleares.

O exagero militante


O Daniel Oliveira, no seu blogue Arrastão, usou este boneco para promover uma campanha de boicote à GALP e outras gasolineiras.

O que o pobre do homem não podia prever, ele que tem sempre posições tão politicamente correctas, é que iria ficar sob a alçada da ASAE "anti-homofóbica".

A sugestão do sexo anal como uma coisa dolorosa, que a imagem aparentemente contém, foi detectada pelos sempre vigilantes fiscais.

Os comentários ao post no Arrastão têm vindo a transitar da questão dos combustíveis para a obsessão "anti-homofóbica", numa ilustração do exagero militante em que hoje vivemos.

De que lado está afinal a intolerância ?

terça-feira, maio 27, 2008

Assaltar ou possuir uma gasolineira ?

No Água Lisa pode ler-se um texto de João Tunes que explica:

Para segurança energética nacional, prevenindo uma calamidade em que o petróleo momentaneamente “desapareça” do mercado, há muitas décadas que o Estado português, como a maioria dos Estados, impõe à aprovisionadora e refinadora nacional (Galp) um stock de segurança que permita haver refinação e abastecimento do mercado nacional mesmo que durante alguns meses o país se veja privado da capacidade de se abastecer de petróleo bruto. São quantidades enormes que a Galp é obrigada a aprovisionar em permanência (o que nada tem a ver com uma gestão de stocks caso a companhia não tivesse o constrangimento imposto) e cujo custo de imobilização é enorme. Como a reposição de stocks é automaticamente obrigatória para manter o stock de segurança, se saem 100 toneladas para refinar, têm de entrar 100 toneladas para armazenar. Assim, em conta corrente, a companhia refinadora está sempre a comprar a preços do momento pelo menos a quantidade de produto que está a ser comercializada. E, em termos práticos, podendo estar a refinar produtos a “preços anteriores” (e inferiores), em custo de matéria-prima nas contas globais, é como se cada partida que sai para os postos de abastecimento tivesse sido refinado com o petróleo do “último preço” (pois o que se escoa do stock em refinados é compensado imediatamente no stock de matéria-prima com crude ao preço do momento).

Ou eu estou completamente baralhado ou isto é uma falcatrua. Como os preços estão sempre a subir cada lote é sempre vendido como se tivesse custado muito mais caro do que custou na realidade.
Porque não vendem cada lote de acordo com o custo que teve ou, na pior das hipoteses, ao preço médio do stock em cada momento ?

Parafraseando Brecht: qual é a diferença entre assaltar uma gasolineira e possuir uma gasolineira ?

As alternativas de André Freire



André Freire publicou ontem um texto com título prometedor, " Crise do capitalismo neoliberal: alternativas". Respigo do Público:

Vivemos de novo a "estagflação", agora sob a hegemonia do neoliberalismo. Estaremos de novo em fase de mudança de paradigma? No artigo citado, expressei algum cepticismo e preocupação: "O nosso (do Ocidente, da Europa, do mundo) maior problema é a dificuldade em se afirmarem alternativas ao capitalismo neoliberal." Exemplifiquei com um editorial de Manuel Carvalho (PÚBLICO, 6/04/08), no qual este reconhecia os males do capitalismo desregulado, mas, simultaneamente, não perspectivava quaisquer alternativas. Prometi, por isso, reflectir sobre as alternativas: é o que venho fazer, de uma forma necessariamente esquemática e nada exaustiva.

Como tenho andado, desde há vários anos, a clamar e a escrever acerca da inexistência de tais alternativas fiquei interessadíssimo em perceber até onde as reflexões de André Freire o teriam levado.
Como é comum nestas coisas seguiu-se a decepção.
O tema não se presta a atenções repentinas e portanto o texto não passa de mais uma piedosa declaração de intenções.
Cita as propostas da Attac, que como todos sabemos são apenas paliativos, e também os economistas Thomas Palley e Ha-Joon Chang que algures enunciaram vagas propostas de moderação do "capitalismo selvagem".
Esta obsessão de certa esquerda (incluindo Mário Soares) relativamente ao capitalismo "selvagem", "desregulado" ou "neoliberal" e não ao capitalismo tout court, sem adjectivos, é muito elucidativa quanto à sua falta de horizontes.
Mostra duas coisas:

(1) condescendência para com o capitalismo tout court que parece só incomodar quando se constipa com alguma "selvajaria"
(2) falta de trabalho para compreender os mecanismos próprios do capitalismo na sua forma actual já que o concebe como uma aberração

Por isso André Freire termina a sua "reflexão" no mesmo ponto onde a começou:

Perante os sucessivos problemas do capitalismo desregulado, é urgente pensar nas alternativas. O jornalismo de referência tem aqui um papel fundamental, caso contrário estará a funcionar, voluntária ou involuntariamente, como um mero reprodutor das ideias dominantes. Mas os cientistas sociais que não se revêem no mainstream neoliberal têm também uma certa responsabilidade na fraca divulgação destas alternativas: mais empenhamento cívico precisa-se! As alternativas podem ser de difícil exequibilidade, sobretudo no curto e médio prazo, pois implicam uma alteração nas orientações políticas das grandes potências e das instituições internacionais (UE incluída), mas existem. Mais, ou reflectimos sobre elas e pensamos nas vias mais curtas e pragmáticas para a sua implementação, ou corremos o risco de, perante uma recessão mais cavada ao nível mundial, se entrar numa profunda deriva proteccionista e, quiçá, num novo conflito bélico mundial.

segunda-feira, maio 26, 2008

O valor da mobilidade

Continua na ordem do dia a discussão a propósito do abaixamento do imposto sobre os combustíveis (ISP) que agora até já divide os candidatos à presidência do PSD.

Aqui ficam alguns contributos para quem queira formar opinião:

1. A utilização da gasolina e do gasóleo não são exclusivo dos "irresponsáveis ecológicos" que se entretêm a dar umas voltas com a namorada, como o governo dá a entender.
Milhões de trabalhadores, de todos os níveis salariais, dependem todos os dias dos seus automóveis ou dos autocarros e outros transportes públicos que funcionam com combustíveis derivados do petróleo.
Há também um gigantesca cadeia logística que chega a milhares de vilas e aldeias, ao longo do território, que leva os jornais, o correio, os medicamentos e as mercadorias e trás de lá tudo o que os seus habitantes pretendam enviar para o mundo.

2. Ao contrário do que irresponsávelmente se pretende fazer crer a situação descrita anteriormente não é passível, a curto ou médio prazo,de ser substituída por outra muito mais favorável do ponto de vista energético (o que não significa que os esforços para tal não devam fazer-se desde já).
Se todos os utentes de carro próprio decidissem de um dia para o outro passar a usar os transportes públicos nas grandes cidades o caos resultante demonstraria como tais teses são descabeladas.
O mesmo se passa com a rede logística pois a esmagadora maioria das povoações não é servida por qualquer transporte alternativo.
Ao contrário do que insinua o governo, o cidadão comum não tem realmente o poder de decidir, num acto de abnegação, salvar o país através da mudança dos seus "reprovaveis" hábitos.

3. Perante a escalada dos preços do crude os países que continuam a depender do petróleo em larga escala são obrigados a transferir uma parte crescente da sua riqueza para quem o comercializa. É uma inevitabilidade.
Se para além disso o Estado, nesses países, sobrecarregar o preço já de si elevado dos combustíveis com alcavalas e impostos então, para além do empobrecimento acima referido, haverá um outro resultante da perda de competitividade internacional e do definhamento da economia respectiva.
Em termos comparativos os produtos de cada país irão reflectir o peso dos derivados do petróleo na sua estrutura produtora e distribuidora. Das fábricas sairão produtos mais caros e o transporte desses produtos até aos clientes, nacionais ou internacionais, aumentará ainda mais a diferença para os seus concorrentes.
Ou seja, pode haver países que não sendo produtores de petróleo apesar disso beneficiem do agravamento dos preços. O exemplo da Espanha e de Portugal, com níveis de impostos bastantes diferentes, ajuda a perceber esta ideia.

4. A mobilidade é a circulação sanguínea da economia mas também da vida em sociedade e condição das liberdades individuais. Não é admissível o cenário das populações acantonadas nas suas vilas e cidades, num retorno à idade média, com trocas esporádicas e voltando cada um a viver do que produz. Mas também não se podem tornar inviáveis as viagens com o intuito de ver espectáculos, receber formação ou conhecer novas experiências.
Ao pôr em causa a mobilidade piora-se também as condições, económicas e outras, que deveriam propiciar o desenvolvimento de energias alternativas.

5. A mobilidade é um bem que tem que ser absolutamente preservado, mesmo que o Estado tenha que sacrificar algumas outras das suas funções menos importantes.
Quando a mobilidade estiver em causa pelo facto de o Estado precisar dos impostos que cobra na venda dos combustíveis então isso significa, provavelmente, que o Estado está a gastar demais ou a gastar mal; que o Estado está a viver acima das suas possibilidades.



Quadro publicado no blogue "Fumaças" em 26.05.2008

sexta-feira, maio 23, 2008

Nightwatching

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O novo filme de Peter Greenaway é uma longuíssima dissertação sobre as relações entre a arte e o poder. Mostra o famoso quadro de Rembrandt "A Ronda da Noite" não como o desfile prazenteiro de uma confraria mas como a denúncia, pelo pintor, de lutas intestinas sustentadas por crimes. Denúncia pela qual paga um elevado preço.

A arte e o poder - e o poder da arte- num filme esteticamente impressionante.

O filme assume uma actualidade insuspeitada quando a sociedade holandesa do Século XVII nos é mostrada na sua faceta marcadamente mercantilista; uma sociedade onde tudo parece ter um preço e onde tudo se paga.


A demagogia nos combustíveis

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"Utilizar o dinheiro de todos os portugueses para financiar a gasolina já se fez no passado, mas com consequências horríveis para a economia portuguesa. Isso é transferir (o peso do custo da gasolina) do consumidor para o contribuinte", afirmou o chefe do Executivo, invertendo papéis para perguntar aos jornalistas: "Acham bem que quem não tem carro financie a gasolina?".

Sócrates está a "ver o filme ao contrário" e a ser demagógico. Não se trata de pôr quem não tem carro a financiar a gasolina. Quantos portugueses que não têm carro pagam realmente impostos ? Os cidadãos que usam automóveis é que são tratados e taxados como nababos ou delinquentes. A verdade é que quem compra gasolina está a pagar um imposto especial, enorme, para alimentar a celulite do Estado.

Sócrates já devia ter percebido que hoje a gasolina é um artigo de primeira necessidade, que ter carro não é nenhum acto sumptuário. Os mais abastados até têm muitas vezes a gasolina paga pelas empresas (ou pelo ministério no caso de Sócrates), que depois "reflectem" os custos sobre os consumidores (o famoso mexilhão).

Os combustíveis são aliás um produto que, ao aumentar de preço, acaba por se repercutir no nível geral de preços ao consumidor, incluindo nos transportes públicos. Por isso afecta toda a gente mesmo os tais "que não têm carro". Mas os que têm carro e não têm a gasolina "à borla" sofrem duplamente; quando enchem o depósito e também pelo aumento do preço de todos os outros produtos.

Por isso o governo devia estabelecer um limite para o preço da gasolina no retalho e garanti-lo durante pelo menos um ano através das reduções que fossem necessárias do Imposto sobre Produtos Petrolíferos. Mais tarde ou mais cedo será obrigado a fazê-lo sob pena de rupturas sociais e de insuportáveis limitações à mobilidade de consequências inimagináveis. Os cidadãos já apertaram o cinto suficientemente, agora é a vez do Governo reduzir as despesas para evitar a progressiva paralização do país.

Em paralelo é necessário garantir condições práticas para reduzir aceleradamente a "dependência do crude". Isso é que devia estar a ser discutido, e feito, neste momento.

quinta-feira, maio 22, 2008

Os monstros que vivem dentro de nós

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Que alguém mate no auge de uma fúria eu até compreendo. Que alguém mate para sobreviver eu até compreendo. Mas há uma diferença enorme entre matar de um golpe e fazer alguém arder, vivo, durante horas.
É perante coisas como as que estão a acontecer na África do Sul que a nossa esperança definha, quando temos que admitir que receamos os monstros que vivem dentro de nós.

quarta-feira, maio 21, 2008

Quem é Ricardo?




Curta-metragem de José Barahona, com argumento e diálogos de Mário de Carvalho, sobre um interrogatório na PIDE

terça-feira, maio 20, 2008

50º Aniversário da Candidatura de Humberto Delgado a Presidente da República


Sei que estes posts também se fazem de memórias e que nem sempre sou obrigado a escrever prosa “séria”, mal de que muitas vezes padeço.

Tinha 14 anos quando Humberto Delgado se candidatou às “eleições” presidenciais de 1958. Faria 15 anos pouco depois da sua “derrota”.

O que fazia e o que sabia sobre a Oposição.

Vivia em Lisboa, sempre vivi, e estudava no Liceu Gil Vicente. Estava no 4º ano do liceu, com um atraso de um ano escolar em relação à idade. Era filho de uma família oposicionista, que me mantinha mais ou menos bem informado sobre as notícias que fervilhavam na Baixa lisboeta. Os meus pais trabalhavam no Terreiro do Paço. Estava pois a par dos mexericos, dos reboliços, dos abaixo-assinados, das cartas-abertas e de alguns comunicados da Oposição Democrática. Nunca por minha casa, que eu visse, passou o papel de bíblia dos comunicados do Partido Comunista.

Não me lembro se fui informado antecipadamente da chegada do Humberto Delgado à Estação de Santa Apolónia, regressado da sua visita triunfal ao Porto. Soube depois da repressão sobre aqueles que o tinham ido esperar. Um amigo meu contou-me mais tarde que tinha ido com a sua mãe, como quem vai esperar um familiar, à Estação ver o General.

O clima estava criado, todos os dias iríamos ouvir falar daquelas eleições e de Humberto Delgado. Nem eu, nem os meus pais, participámos em qualquer manifestação ou comício, mas todos os dias o tan-tan das notícias me chegava da Baixa.

Os meus amigos à época, que eram colegas de escola, não se interessavam por política. Eram jovens entre os 14 e 15 anos, mais virados para catrapiscar as raparigas que saíam da Escola Voz de Operário, que, na altura, era uma Escola Comercial para o sexo feminino, ou então para jogar bilhar no Largo da Graça. Eu, um pouco mais espigadote intelectualmente, já era mais dado a leituras.

Sei, no entanto, que o furacão Delgado impressionou a todos, foi motivo de conversa e de apoio. Mesmo aqueles que estavam a leste de qualquer preocupação política não deixaram de se entusiasmar com a personagem.

Não me recordo de muitas mais coisas, sei, no entanto, que alguns dos meus amigos foram ou tentaram ir ao célebre comício do Liceu Camões, aquele em que Santos Costa, pôs a tropa na rua. Tive depois a descrição de repressão e do que se passou nas imediações da praça José Fontana.

Lembro-me também que havia um grupo no meu liceu, em que participava o Mário Vieira de Carvalho, que tempos depois se tornou um bom amigo, muito desenvolto, que fazia às claras propaganda do General. Fui avisá-los, com a minha proverbial prudência, que não se expusessem demasiado.

Recordo-me igualmente de uma tia que tinha visto passar Humberto Delgado em Almada e que vinha excitadíssima com a loucura que tinha sido a sua recepção naquela localidade.

Pouco me recordo da campanha do Arlindo Vicente, outro dos candidatos da Oposição, que desistiu a favor do Delgado. Sabia que este tinha sido apoiado pelo Partido Comunista, enquanto que Delgado inicialmente não tinha sido.

Os meus pais, que me recorde, não foram votar, porque não achavam as eleições livres e tinham provavelmente medo de represálias nos seus locais de trabalho. É preciso dizer que os votos estavam separados e facilmente, dada a cor do papel, se distinguia o voto na Situação do da Oposição.

Tudo isto terminou de um modo muito triste para mim e para a Nação. Recordo que fui passar umas férias, das muitas que tínhamos, a casa de um tio, um fascista um pouco encapotado, que no dia em que a Oposição decidiu protestar contra a fraude eleitoral – devia ser Julho –, propondo que todos pusessem luto, não fossem a espectáculos e tomassem outras medidas que ilustrassem a sua indignação, me propôs irmos ao cinema para verificarmos in loco se as pessoas tinham aderido ao boicote. A minha ingenuidade e o desejo de ir ao cinema levaram-me a participar, um pouco a contra gosto, na farsa.

No ano escolar seguinte, acho que mudei de amigos, passei a reunir-me com eles ao cimo da R. Angelina Vidal, facto que já comentei num post anterior. Encontrava-me, para o Fernando Penim Redondo que os conhece, como Victor e o Osvaldo. Um dia, primeiro a medo e depois claramente, começaram-me a falar do “nosso homem”. Este não era outro senão o general Humberto Delgado. A partir daí criou-se entre nós uma amizade, a que depois se juntaram muitos outros, também adeptos do “nosso homem”, que durou para o resto da vida. Todos esses jovens aos poucos foram entrando para o Partido Comunista, alguns, como eu, já lá não estão, mas mantiveram sempre com a esquerda uma forte relação.
PS.: Este texto foi publicado igualmente em http://trix-nitrix.blogspot.com/

Reflexões em aberto sobre o Maio de 68


Num programa de Júlio Isidro, por sinal de uma piroseira indescritível, dedicado ao Maio de 68 e que passou na RTP I, na passada quarta-feira, Fernando Rosas, um dos convidados, considerou, por outras palavras, que, em oposição à visão de Sarkosy, que considerava que era necessário “liquidar a herança do Maio de 68”, o legado daqueles acontecimentos abriu as portas à modernidade dos nossos dias.


I – O revisionismo da direita

Aquela proposta de liquidação do Maio de 68, insere-se num certo revisionismo histórico, que sendo coisa demasiado complicada para um político fogo-de-vista, como é o Sr. Sarkosy, percorre no entanto muito do pensamento conservador contemporâneo e pode, por isso, ser perceptível mesmo para políticos menos dotados para as “questões filosóficas”.

Hoje a direita conservadora, com o apoio de alguma esquerda bem-pensante, tenta eliminar da história todos os momentos de grande transformação social, que, por essa razão, são portadores de uma dose, por vezes não controlada, de violência. Assim valoriza unicamente a Revolução Americana, de que resultou a independência da América do Norte e, segundo ela, a formação das sociedades democráticas do Ocidente, opondo-a à Revolução Francesa, principalmente à fase de domínio jacobino, o chamado período do Terror. Abomina a Revolução Russa, considerando que Estaline é o continuador, para pior, dos métodos de Lenine, que por sua vez já se fora inspirar em Marx.

Depois, mais recentemente, o nazismo não seria mais do que uma resposta ao comunismo e a II Guerra Mundial só terminou com a queda do Muro de Berlim, porque primeiro se derrotou o “totalitarismo” nazi, que no princípio estava associado ao comunismo, e depois o “totalitarismo” comunista com a “libertação” dos povos do leste Europeu (Bush dixit: ver notícia no Público e a prosa reaccionaríssima de um comentador americano, traduzida para brasileiro). Para alguns conservadores, só por acaso, é que houve uma aliança entre as democracias e os comunistas, que na altura, e bem, se chamava antifascismo, e se realizou uma conferência de Yalta, em que o principal representante das democracias, Roosevelt, era, para aqueles, um chefe débil e à beira da morte. Sobre todos estes assuntos ver a prosa interessantíssima de António Figueira aqui e aqui .

Também, o conservadorismo nacional tenta rever a nossa história contemporânea. É a reabilitação do Rei D. Carlos e o estigma dos regicidas, com a tentativa de impedir a transladação de Aquilino Ribeiro para o Panteão. É a República transformada em antecâmara da ditadura, pois seria tão prepotente como que aquela (veja-se as declarações de Rui Ramos ao Primeiro de Janeiro ou ao programa Diga Lá Excelência ). É o PREC transformado em ditadura comunista (ver este artigo do Diário de Notícias sobre a morte do cónego Melo).

Chegou agora a vez do Maio de 68 e é vê-los em bicha, desde o Vasco Pulido Valente até ao João Carlos Espada, a combaterem a herança do Maio de 68.


II – O adquirido civilizacional progressista

Retomando as declarações iniciais de Fernando Rosas, lembremos outras que ele fez ao P2, do Público, de 2 de Maio. A propósito das afirmações de Sarkosy considera que “mais tarde ou mais cedo, a lógica neoliberal do discurso político tinha que ir a Maio”. E acrescenta “os adquiridos civilizacionais progressistas de Maio só estarão seguros quando se escorarem numa verdadeira alternativa de poder à agenda e aos valores do neoliberalismo. Maio não é um fecho é uma abertura. Abre um campo de possibilidades muito actuais. Toda a nova esquerda europeia só pode ser pensada em função desse momento original e genético que são as revoluções de Maio”.

O discurso é empolgante, fala-se mesmo em revoluções, e não só no Maio de 68 francês. Mas é indispensável fazer uma reflexão mais fina. Pela minha parte tentarei fazê-la.

A parte mais consensual das heranças dos diversos Maios consiste talvez na conquista da igualdade de género, com a libertação da mulher das suas limitações sexuais, devido ao aparecimento da pílula, e com a sua independência económica, resultante do acesso maciço ao mercado de trabalho. Qualquer delas estarão mais ligadas a toda a década de 60 do que unicamente ao Maio de 68.

Quanto à transformação das mentalidades, o surgimento de um novo relativismo de valores e de uma maior liberdade individual – cada um por si –, é efectivamente um adquirido que eu continuaria a considerar mais da época do que do Maio de 68, mas que radica numa transformação social do assalariado de que irei falar a seguir.


III – A transformação da classe operária e da sua representação política

Penso que as greves operárias de 68 em França foram as maiores, na Europa Ocidental, da segunda metade do século XX, mas que constituíram também o fim de uma certa classe operária, como a entendíamos no pós-fordismo, integrada em grandes fábricas e fazendo parte de uma infindável linha de montagem, tal como era representada nos Tempos Modernos, de Chaplin. Em Portugal, com todos os atrasos que nos são característicos, tivemos também um exemplo dessa classe operária. Estava localizada na margem esquerda do Tejo e era constituída pela Siderurgia, pela CUF do Barreiro ou pelos estaleiros da Lisnave e Setenave.

Esta classe operária foi destruída. Terceirizou-se ou reformou-se. O que resta dela são hoje os operários de bata branca da Auto-Europa, ou então foi substituída por trabalhadores de Leste, por africanos ou brasileiros.

No resto da Europa a situação não foi muito diferente. Os grandes partidos operários desapareceram. Do PCF e do PCI já quase nada resta. Thatcher acabou por destruir a ala esquerda do Labour inglês. A social-democracia alemã está hoje muito mais desfigurada do que a que existia nos tempos de Willy Brandt .

Tudo isto teve efeitos devastadores, por um lado, na composição da esquerda europeia, por outro, na organização das forças capazes de resistir à ofensiva neoliberal.

Por isso, custa-me a perceber que um filósofo respeitável como Daniel Bensaïd, em entrevista à Visão História, Abril de 2008, possa afirmar que “os trabalhadores estão menos organizados e, por isso, menos capazes para resistir à brutalidade da ofensiva neoliberal. Mas, por outro lado, estão menos controlados por aparelhos e mais livres para lutas espontâneas.” Ou seja, de acordo com dados por fornecidos pelo entrevistado, a CGT tinha na altura “3 milhões de filiados, hoje tem menos de 700 mil, já contando com os reformados. O Partido Comunista tinha entre 20 a 25% dos votos e tinha o controlo, quase o monopólio, sobre a maioria dos trabalhadores. Por isso, entre estudantes e trabalhadores, em 68 havia um muro de desconfiança. Não era uma desconfiança espontânea, mas construída, principalmente pela CGT e pelo PCF. Hoje esse muro foi destruído. Isso é positivo”. Estranho que alguém, sabendo o que é a ofensiva neoliberal, e a dificuldade de resistência dos trabalhadores a essa ofensiva, possa ainda acreditar, em nome da espontaneidade das lutas, que a destruição dos sindicatos operários e dos seus partidos foi benéfica para combater essa ofensiva (ver igualmente uma entrevista sobre o Maio de 68 de Daniel Bensaïd ao Rebelion).


IV – Crítica à herança política do Maio de 68

Voltemos ainda às declarações de Fernando Rosas à Visão História, repetindo as suas afirmações finais: “toda a nova esquerda europeia só pode ser pensada em função desse momento original e genético que são as revoluções de Maio”.

Estou bastante em desacordo com esta afirmação. Primeiro como já o afirmei no ponto anterior, lamento não considerar como estruturante de uma nova esquerda a destruição das mais importantes centrais operárias, nem dos seus partidos, mesmo que isso corresponda a uma maior espontaneidade das lutas.

Segundo, que podemos nós hoje pensar da herança maoista, há muito renegada no seu centro de origem, e que constitui sem dúvida um dos piores momentos de sectarismo e de esquerdismo do movimento marxista, não correspondendo de modo algum a visão humanista e rigorosa dos seus fundadores.

Terceiro, que podemos nós hoje dizer, que interesse verdadeiramente à transformação social da Europa e à luta contra a ofensiva neoliberal, que tenha haver com o guevarismo – com a teoria do foco ou a criação de um, dois ou três Vietnames –, ou com o respeitável pensamento de Trosky, só provavelmente com a sua crítica à burocracia do antigo “socialismo real”.

Que pode hoje a esquerda, a que se reclama do Partido da Esquerda Europeia, retirar do Maio de 68 senão nostalgia e recordação dos bons velhos tempos. Politicamente, lamento dizer, mas Maio está morto desse ponto de vista. Hoje o nosso trabalho é outro. Temos que ir provavelmente apanhar os cacos daquilo que deixámos pelo caminho: Gramsci em primeiro lugar, o austro-marxismo, algum do marxismo ocidental, tão renegado pela ortodoxia soviética, Rosa Luxemburgo e a sua crítica ao centralismo bolchevique, provavelmente a Bukarine e a defesa do mercado no socialismo.

Por isso, afirmei em post recente “que bem exprimido o Maio de 68, na sua forma comemorativa e retórica, pouco nos deixou que verdadeiramente seja transformador das sociedades hodiernas”.

Considero que esta afirmação é discutível, e que se pode confundir com os ataques da direita. Contudo, penso que ao comemorar o Maio de 68 não o podemos reduzir a adorno da mediatização triunfante, que tudo transforma em espectáculo, ou de uma certa esquerda que dele se serve para ajustar umas contas com os antigos partidos comunistas. Tal como em todas as comemorações, temos que valorizar o que ainda hoje está válido e qual a sua contribuição para o processo transformador, tendo sempre em conta que o nosso discurso se integra na luta ideológica que quotidianamente travamos com a ideologia dominante.
PS.: Este texto foi publicado igualmente em http://trix-nitrix.blogspot.com/