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quinta-feira, novembro 01, 2012

A Negação



A negação é um termo muito utilizado, no senso comum e no campo profissional, como um dos mecanismos de defesa utilizado pelo sitema psíquico para lidar com eventos caracterizados pela adversidade.
Mas limitar-mo-nos a culpar genéricamente a Merkel, o FMI, os bancos e o neoliberalismo é apenas uma forma de fugirmos ao encarar da nossa responsabilidade na construção do nosso próprio futuro.
Não nos levará a parte alguma.


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domingo, dezembro 04, 2011

O EFEITO "TITANIC"




Miguel Sousa Tavares no Expresso de hoje


A Itália está na iminência de pedir tam­bém resgate financeiro e a Espanha e a Bélgica estão apenas em fila de espera. A Inglaterra vai proceder a novo corte brutal da despesa publica para controlar o défice, ao mesmo tempo que tenta evitar a entrada em recessão, tal como a Franca e... a Alemanha. Os Estados Unidos, sem as limitacoes impostas ao Banco Central Europeu, fazem moeda sem querer saber da inflação mas apostados em evitar a todo o custo que o défice seja controlado á custa da economia. 


Neste mundo em desagregação, onde o poder politi­co se transferiu dos Estados pa­ra os mercados e a crise das dividas soberanas e o único factor económico que conta, os lideres politicos estão paralisados — uns por incompetência, outros por falta de coragem, outros por teimosia irracional. Sarkozy é um palhaço nas mãos de Angela Merkel e a chanceler alemã, com o navio a meter água por todos os lados, só se interessa em discutir as regras de navegação e castigar quem deixou entrar água a bordo. Vamos ao fundo, parece inevitável. O euro, segundo o "Financial Times", tem apenas mais umas semanas de vida; depois dele, vai a União Europeia e, depois dela, vai todo o sistema económico globalizado em que vivíamos como no melhor dos mundos.

Não e preciso ser particularmente inteligente para perceber que Portugal, no meio deste naufrágio geral, é menos do que um camarote de terceira classe a bor­do do "Titanic". Se o naufrágio se consumar, vamos perder tudo o que conquistámos nos ultimos vinte anos: euro, Europa, ajuda externa, crédito barato, bem-estar, reformas garantidas. Vamos retroceder vinte anos, mas nao te-mos, obrigatoriamente, de retro­ceder quarenta: não é preciso também sacrificar a democracia. 

A ultima coisa de que precisamos é de entrar em guerras fratricidas, do tipo "se me tiram o 13º mês tambêm têm de tirar o do meu vizinho". Esta estupida guerra antipatriótica (inaugurada por quem tinha a responsabilidade de dar o exemplo oposto, o Presidente da Republica) não vai conduzir a nenhuma repartição equitativa de sacrificios, mas apenas a uma luta feia e suicidária por um lugar a bordo dos salva-vidas do "Titanic". Já foi explicado, mas, pelos vistos, há quem faça questão de fingir que não entende: a razão pela qual o Governo vai retirar os subsidios de Na­tal e de férias à função publica e não aos trabalhadores privados, é porque os funcionários públicos são despesa do Estado e os outros não. E do que agora se trata é de diminuir a despesa públi­ca e não de sobrecarregar ainda com mais impostos uma econo­mia moribunda. Podia-se, de fac­to, acrescentar a receita do Esta­do com um imposto extraordinário que retirasse os subsidios a to­do o sector privado, mas isso ape­nas serviria para conduzir a me­nos poupança, menos consumo, mais falências no comércio e serviços, mais desemprego e mais recessão.

Na esteira das reflexões intempestivas do Presidente e abrigados por elas, logo tivemos ou­tros sectores, como as Forgas Ar­madas e a magistratura, a confundirem o corte dos seus subsi­dios com a questão central do momento e até com uma ofensa à Constituição e uma ameaça à democracia. Eles e o professor de Finanças Públicas que nos preside ignoram, por certo, o que seja a vida fora da protecção de um emprego público garantido para sempre, porque nunca a experimentaram. De certo não sabem que, antes mesmo de os funcionários públicos serem atacados pelo orçamento, já muitos trabalhadores do sector privado tinham visto os seus salários diminuídos e 300.000 deles viram o seu emprego acabar. Nao sabem que, "lá fora", e ao contrário do que acontece nas empresas públicas, a regra do jogo é simples: se uma empresa não consegue receitas que cubram as despesas, fecha.

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Aliás, no turbilhão planetário em que estamos envolvidos, imaginar que a reposigao dos subsídios da função pública ou a mera invocação do boi sagrado que é a nossa Constituição, ajudaria a re-solver o que quer que fosse é menos do que ingenuidade. 
A Inglaterra vai despedir 700.000 fun-cionários públicos nos próximos três anos. Despedir: não é apenas cortar-lhes o vencimento ou os subsídios, o que já foi feito, também. E, apesar disso, que ninguém tenha dúvidas de que a Constituição inglesa, nao escrita, e a democracia inglesa vao resistir a isso, como resistiram a coisas bem piores. E seguramente que os tribunais ingleses não vão avocar um direito especial de serem oposição a um governo eleito. Porque, na hora em que o país está ameaçado, a nação une-se, para defender o essen­tial. 


A última vez que, a pretexto da crise financeira, nos esquecemos de que o essential é a demo­cracia e a liberdade, aconteceu o 28 de maio de 1926 e cinquenta anos de ditadura. É facil matar o mensageiro, quando não gostamos da mensagem: já o fizeram os gregos, os irlandeses, nós, os espanhóis e os italianos. Nenhum governo resiste a esta cri­se, mas, ao menos, caem por meios democráticos ou semelhantes. Mas, se forem os magistrados, os militares ou a rua a derrubar os governos legítimos, entregamos o poder a quem — ao Otelo? Aos meninos indignados? Ou a um novo Salazar?

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quinta-feira, janeiro 20, 2011

Um triste balanço da campanha




A campanha para as presidenciais vai chegar ao fim.
Em hora de balanço só me ocorre uma palavra: deplorável.
A esquerda demonstrou a sua inépcia escolhendo um candidato (e um conjunto de acólitos) sem qualquer hipótese de vencer.
Em vez de se penitenciar pela sua incompetência, ao pressentir a derrota eminente, optou por uma política de terra queimada. Mesmo sabendo que com grande probabilidade tal política está condenada à derrota. Sem perceber que centrando a sua acção na denúncia de casos desenterrados do passado mais não fazia do que confirmar a sua própria impotência política.
Quando, através de perguntas engenhosas se pretendeu insinuar que o actual Presidente da República é um corrupto, se não mesmo um gatuno, era a própria democracia que se estava a corroer.
Cavaco, goste-se ou não da personagem e do político, não é uma pessoa qualquer; por mais de uma vez o povo português deu-lhe acima de 50% dos votos. É também essa escolha do eleitorado que se veio agora, com fracas provas, verberar e pôr em causa.
Mas acontece que os portugueses conhecem, de experiência vivida, o que é ter Cavaco como Primeiro-ministro (10 anos) e como Presidente (5 anos). Dificilmente se convencerão de que a sua experiência não vale nada só porque alguém avança coincidências e insinuações.
Quem assumirá a responsabilidade por esta degradação do mais alto cargo do Estado quando, no dia 24, se iniciar mais um mandato de cinco anos do actual Presidente?
Continuamos, infelizmente, a constatar a degradação dos partidos e a inexistência de uma alternativa política de esquerda que os portugueses possam levar a sério.
Temos uma esquerda retórica e sem rumo ressuscitando, quando acossada como agora, os piores tiques do esquerdismo irresponsável que tanto mal fez à Revolução de Abril.
Este é o caminho que pode levar à destruição da nossa democracia.
Nenhum objectivo partidário, por mais convicto que seja, pode justificar tal destruição.

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domingo, dezembro 26, 2010

Vinho Verde Party


Fui recentemente convidado a aderir ao "Tea Party Portugal" e assim "manifestar a revolta dos cidadãos contra o massacre fiscal".

Pela defesa das famílias
Pela decência na política
Pelo direito à verdadeira indignação nacional

Embora concorde com todos os objectivos propostos, e também com alguns omitidos, não consigo aderir ao movimento por uma razão básica; o chá. Não está nos meus hábitos.
Estou mais ao nível de um "Vinho Verde Party". Nesse caso, por desnecessário, nem é preciso incluir no título a referência a Portugal.  
 
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domingo, setembro 26, 2010

Sócrates, eSCUTa, o povo está em luta...

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Ontem tive que ir a Braga e, por razões que não interessam ao caso, a partir de Estarreja circulei pela A29 em vez de continuar pela A1 até ao Porto.
Tive assim oportunidade de experimentar, de borla, esta auto-estrada que foi construída ao lado da que já existia aparentemente para dispensar quem a use de pagar portagens. Não faz qualquer sentido.
A este propósito não me dispenso de citar João Duque que, no Expresso, ralativamente ao complicado esquema de isenções que o governo concebeu baseado no grau de desenvolvimento dos "concelhos limitrofes", escreveu mais ou menos o seguinte: "os utentes pobres dos concelhos ricos vão subsidiar os utentes ricos dos concelhos pobres".
É caso para gritar:

Sócrates, eSCUTa, o povo está em luta...

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sexta-feira, setembro 03, 2010

Os artistas e a República

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É inaugurada na próxima quarta-feira, dia 8 de Setembro, às 19 horas, a Exposição "Os artistas e a República", que terá lugar no excelente Centro de Exposições de Odivelas. Integra-se nas comemorações do centenário da implantação da República que decorrem por todo o país. 
Foi com muito gosto que aceitei o convite para participar nesta exposição para a qual contribuí com uma fotografia intitulada "República - Conceito".
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segunda-feira, março 01, 2010

A autoridade das autoridades

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As sociedades, e em especial a nossa, estão saturadas de autoridades aparentes. Alta Autoridade para a Comunicação Social, Autoridade Nacional Segurança Rodoviária, Autoridade para as Condições do Trabalho, Autoridade da Concorrência, Autoridade Nacional de Protecção Civil e não sei quantas mais que constituem um enorme aparelho de Estado paralelo. Todos temos a penosa sensação de que, em geral, são inoperantes ou mesmo inconvenientes.

Os acádémicos são os receptáculos do conhecimento, os tribunais são a encarnação da justiça, o parlamento é a casa da democracia e os sacerdotes são os porteiros do céu. Com base neste modelo criou-se nas sociedades um encastoado de grupos e confrarias, na economia tal como na saúde ou nas artes, que reproduzem o sistema da autoridade até ao nível mais baixo da pirâmide.

As últimas semanas da vida pública portuguesa têm sido marcadas pelas suspeitas de "abusos da autoridade", pelas invocações da "autoridade competente", pelas interpretações das "autoridades jurídicas" e pela falta de autorização para publicar as escutas.

É claro que precisamos de saber, em cada caso, quem em princípio tem competência para decidir ou impor a sua opinião. É verdade que em princípio as universidades detêm o melhor saber e que os tribunais fazem a melhor justiça mas nem sempre isso acontece. O princípio da autoridade não deve ser usado para descartar outras opiniões nem deve fomentar a aceitação acrítica de tudo o que emana quer das organizações socialmente aceites quer de grupelhos que quase sempre instituiram ad-hoc a sua própria autoridade.

A autoridade só é eficaz quando é naturalmente assumida e aceite. A sua imposição pela força ou por decreto é apenas mais uma forma de trabalho precário.

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segunda-feira, fevereiro 22, 2010

A democracia é um julgamento na praça pública

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"Faz bem à justiça ser feita ao ar livre. O vento levanta-lhe as saias e a gente vê o que ela traz por baixo."
Fala do Juiz Azdak em "O círculo de giz caucasiano" de Bertolt Brecht

Tem vindo a aumentar, justamente, o clamor contra os julgamentos na praça pública. As vozes indignadas vão desde o mais insuspeito, o líder do MRPP Garcia Pereira, até ao Presidente do Supremo Tribunal de Justiça. Entretanto verifico uma enorme lacuna. Ninguém acusou ainda a democracia de ser, ela própria, um autêntico julgamento na praça pública.

De tempos a tempos somos chamados a julgar um numeroso grupo de arguidos, que se auto-intitulam candidatos. Esses julgamentos baseiam-se em informações avulsas, obtidas sabe-se lá aonde e por que meios. Toda a gente fala ao mesmo tempo e a sessão do tribunal (a que chamam pomposamente campanha eleitoral) não se limita às praças, pois percorre até as avenidas e as vielas públicas. Não há qualquer validação da informação divulgada e das promessas delirantes que os arguidos fazem, apesar de estarmos em presença de versões contraditórias ou mesmo antagónicas.

Ainda recentemente, em Setembro de 2009, tivemos oportunidade de experimentar os malefícios destes desmandos. Fomos forçados a absolver o Partido Socialista (com a pena suspensa) baseados em informações incompletas ou mesmo deturpadas. O Procurador Geral da República, certamente para não nos desmoralizar, escondeu-nos durante o julgamento umas escutas cujas transcrições andava a ler. As agências de rating atrasaram vários meses a revelação de que Portugal está em falência técnica e, por isso, durante o julgamento, ainda estávamos convencidos de que o país vogava velozmente ao encontro do futuro, de TGV ou a partir do Novo Aeroporto. Os resultados destas e de outras omissões, e da sentença que então decidimos, estão à vista de todos.

É imperioso acabar com estes caóticos julgamentos na praça pública. Dentro em breve seremos de novo chamados a intervir como juízes. Os arguidos, está-se mesmo a ver, vão acusar-se mutuamente de ser os culpados pelo estado desesperado a que o país chegou. A prescrição dos remédios amargos que nos esperam, em resultado da incompetência e da ganância, ninguém a quererá assumir. Como vamos saber em quem confiar sem os rigorosos métodos da justiça e a validação das provas por quem de direito ?

Proponho desde já que nos recusemos a participar em mais este julgamento na praça pública, nesta autentica farsa, que põe em causa o Estado de Direito. Só devemos votar depois da sentença de um Tribunal competente ter transitado em julgado e de termos percebido quais foram afinal os arguidos/candidatos que o tribunal mandou encarcerar por responsabilidade na bancarrota do país.

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quinta-feira, fevereiro 18, 2010

Há mais vida para além de Sócrates

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Parafraseando o saudoso Presidente Sampaio, perante o nervosismo geral, apetece dizer "há mais vida para além de Sócrates".
O facto de a qualquer pessoa bem formada repugnar o acto de "espreitar pelo buraco da fechadura" não implica de forma alguma a inexistência dos factos observados por tal buraco.
Eu também preferia que a polícia pudesse dispensar o recurso a escutas mas tal não me leva a concluir que os factos escutados não existiram.

Independentemente daquilo que se possa pensar sobre a validade das escutas e da sua divulgação pública temos que considerar inadmissíveis os actos que elas revelam. O simples facto de o PM e seus colaboradores próximos tratarem ao telefone, que qualquer criança sabe ser um meio inseguro, assuntos que consideram reservados é antes do mais um caso de incompetência e irresponsabilidade. Pode perguntar-se que informações revelou entretanto o PM pelo telemóvel não já a um tribunal, como é o caso em apreço, mas a um qualquer agente secreto estrangeiro.

Ao contrário do que insinua a defesa demagógica de Sócrates nós não vivemos num país onde inúmeros políticos e dignitários em geral tenham sido destituídos e esquartejados em resultado de perseguições mediáticas e judiciais. Vivemos sim num país onde os desmandos e a corrupção campeiam, sem qualquer castigo, à frente dos olhos de todos. Não há memória de uma única condenação de gente importante.

Não resta ao cidadão comum outro remédio senão colocar estas questões já que a "Justiça VIP", a tal que nunca encontra culpados, usa uns óculos de tal graduação que a realidade, se é que existe, nunca consegue ser nítida.
É a nós que compete decidir se este caso Face Oculta é apenas mais um em que os erros dos notáveis não têm consequências. A repetição de tais situações é sem dúvida a maior ameaça que paira sobre a democracia portuguesa.

Sócrates ainda só viu a ponta do iceberg. Podemos imaginar o que vai acontecer quando as escutas divulgadas contiverem conversas do próprio PM e não só dos seus amigos.
Nem Sócrates, nem nós, nem as agências de rating, podemos conviver com esta espada de Dâmocles sobre a cabeça do PM que pode vir a afectar gravemente o país.
Acho que ele, para pacificar os mercados e o povo, devia anunciar a sua partida logo após a aprovação do OE e do PEC, fazendo gentilmente companhia à Manuela Ferreira Leite.
Só lhe ficava bem.
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quinta-feira, fevereiro 11, 2010

O regresso do lápis azul





Este é um dia triste em que se assiste ao regresso do lápis azul da censura prévia a Portugal, crismado de providência cautelar.
O poder, cobardemente e por interposta pessoa, reduz a informação a uma face oculta com base em pretextos formais.
Voltaremos agora, como há 40 anos, a circular a informação em folhas fotocopiadas ? ou de forma actualizada sob o anonimato da blogosfera ?
Este é um dia de luto para os ideais de Abril.
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terça-feira, fevereiro 02, 2010

Metade estão lá para serem vistas

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DN- Como é que um português foi parar a bordo de um porta-aviões americano como enviado especial de um jornal espanhol no Haiti?
Eu nasci em São Sebastião da Pedreira, em Lisboa, o meu pai era o actor Rogério Paulo. Entrei no jornalismo em 1978, como fotógrafo no Diário de Lisboa. Fui correspondente de várias publicações em Cuba, estive na Venezuela, como correspondente para a América Latina do Independente. Agora vivo em Miami e trabalho para o El Mundo desde Outubro. No dia do sismo contactei o comando sul dos EUA e pedi para me levarem num voo. Eles deram-me hora e meia para estar numa base e o primeiro voo foi logo para o USS Carl Vinson.
DN- Não é a primeira vez que está no Haiti. O que é que mais o impressionou quando chegou ao terreno?
É a oitava vez que venho ao Haiti. Já vim por causa de furacões, de conflitos, mas desta vez o que mais me impressionou foi ver que os haitianos não perceberam que tinha acontecido um terramoto. As pessoas são pouco alfabetizadas e não perceberam que a terra podia ter tremido daquela forma. Levaram dias a perceber o que aconteceu. Estive no porta-aviões durante duas semanas mas ia sempre à cidade. Agora estou em Port-au-Prince. Devo regressar quarta ou quinta-feira. Mas penso voltar aqui dentro de dois ou três meses.
DN- Numa das suas peças citava fontes ocidentais que diziam temer uma espiral de violência. Há possibilidade de guerra civil?
Absolutamente. Há um medo de que isso venha a acontecer. Aqui não há trabalho, não há salários, não há impostos nem dinheiro. Mas há muita, muita fome. Então as pessoas vão viver de quê? Isto está a correr riscos de voltar a uma sociedade primitiva. Ainda há aqui muitos problemas. O que temo é que haja um pico da violência. Aqui há muita confusão. Metade das organizações não governamentais (ONG) não está aqui a fazer nada. Estão aqui para que as vejam, para que sejam vistas. O aeroporto está a abarrotar e já não tem capacidade.
DN- Encontrou aí jornalistas portugueses? Matou as saudades de cá?
Sim. Quando cheguei ao hotel onde fico sempre, fiquei surpreendido, pois estava cá o pessoal da SIC e da Visão. Eu não me considero nem um jornalista americano, nem um jornalista espanhol ou italiano - também faço coisas para o jornal La Repubblica. Eu sou jornalista português, tenho nacionalidade portuguesa e viajo sempre com o passaporte português. Se conseguisse trabalho, até regressava a Portugal, mas a última vez que voltei mandaram-se de volta outra vez para a América Latina (risos).

Entrevista de Rui Ferreira ao DN (02.02.2010)

Aqui está uma voz descomprometida e que não se resume aos lugares comuns e aos aproveitamentos da desgraça alheia que enchem os noticiários.

segunda-feira, janeiro 11, 2010

Que raio havemos de chamar a isto ?

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Há um ano falava-se da crise e de como ela mostrava as mazelas do capitalismo. 2009 prometia ser o ano da regulação, de novas regras, quiçá da morte e substituição do sistema.
Um ano depois a grande excitação da esquerda, que deixou outra vez de falar do capitalismo como um moribundo, é o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Uma espécie de vingança dos impotentes que foi aprovada essencialmente porque irrita e escandaliza os "burgueses" que continuam a mandar na economia e a maioria do povo que não votou como devia.

Há um ano o governo do engenheiro Sócrates prometia, custasse o que custasse, tudo fazer para impedir que as pretensões carreiristas dos professores se sobrepusesse aos interesses da generalidade dos cidadãos.
Um ano depois todo o leque parlamentar rejubila pela paz nas escolas al(can)çada pela aceitação de uma avaliação em que 95,5% dos professores são bons, muito bons ou excelentes e uma carreira que, para todos, "é o reino dos céus". Os partidos só discutem a quem atribuir os louros de tal façanha.

Isto em que vivemos no dealbar da nova década já não é propriamente uma democracia mas não sei que raio de nome lhe havemos de chamar. Os tiques democráticos continuam presentes mas funcionam como mero formalismo e servem de álibi ao constante favorecimento de corporações e grupos de pressão (para além do tradicional "poder económico" que agora até se pode queixar de concorrência desleal).

Sucedem-se incontáveis trapalhadas administrativas, fracassos e adiamentos da justiça, uma opacidade generalizada e suspeitas de corrupção ou manipulação a torto e a direito (hoje surgiram dois novos casos: as irregularidades administrativas e económicas no Ministério da Justiça e as promoções irregulares no Ministério das Finanças).
Qualquer funcionário se sente no direito de sonegar informação ao público. Presidentes disto e daquilo, e até ministros, julgam poder recusar-se a estabelecer prazos para a conclusão das tarefas para que foram nomeados. Os nossos dinheiros são gastos de forma muito pouco transparente e só por acaso isso chega ao conhecimento público.
Ninguém é responsabilizado, ninguém é preso e os vários partidos lá se entendem para sobreviver neste pântano que o outro desdenhou. Uma casta vive suspensa acima das nossas cabeças e tem do nosso mundo uma ideia ficcionada. Somos apenas um tema literário dos discursos.

Isto em que vivemos já não é propriamente uma democracia no sentido do “governo do povo e para o povo”. Mas também não é uma ditadura.
Que raio havemos de chamar a isto ?
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sexta-feira, outubro 30, 2009

As lições de Moçambique

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Os resultados preliminares das eleições presidenciais, legislativas e provinciais de quarta-feira em Moçambique apontam para uma vitória folgada da Frelimo, desde 1975 no poder, e para um segundo mandato do Presidente, Armando Guebuza, eleito em Dezembro de 2004 para substituir Joaquim Chissano.
Os primeiros resultados oficiais, divulgados ao princípio da noite de ontem, mostravam que, com 17 por cento dos votos escrutinados, a Frelimo conseguiria 76 por cento dos votos, enquanto Armando Guebuza surgia com 77 por cento, muito à frente dos candidatos da oposição.
Público 30.10.2009
É caso para felicitar os moçambicanos por terem realizado as eleições de forma impecável. A sua maturidade é tal que conseguiram votar no mesmo dia as presidenciais, as legislativas e as provinciais enquanto que os portugueses não se abalançaram sequer a ter em simultâneo as legislativas e as autárquicas.
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quarta-feira, outubro 21, 2009

Saramago no Olimpo

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Se defendemos, justamente, que Saramago tem o direito de expressar as suas opiniões sejam elas quais forem, então há uma coisa que não podemos fazer: negar esse mesmo direito a quem o critica.
Mas é isso que têm estado a fazer muitos críticos dos críticos de Saramago.

Se Saramago pode dizer: “Deus é vingativo, rancoroso e não é de confiança" então, para sermos coerentes, os seus críticos podem igualmente usar adjectivos pesados para qualificar o escritor.

Não podemos defender a liberdade de expressão, por um lado, e pretender limitá-la, por outro.
Se assim não fosse, se negássemos a possibilidade de o criticar, então Saramago gozaria de um estatuto superior às igrejas e a Deus.
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sexta-feira, setembro 18, 2009

Ir ou não ir à missa

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Pensamento do dia:
Para ter sucesso e ser estimado em Portugal é imprescindível ir à missa (qualquer que ela seja).
Espíritos livres, críticos e independentes não são apreciados. Amen.
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segunda-feira, maio 11, 2009

Casos de polícia

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É verdade que não se pode "suspender a democracia" para resolver os problemas do país como, certamente por lapso, referiu Manuela Ferreira Leite.

Mas também não se pode desculpar o banditismo e os comportamentos criminosos crismando-os de "questões sociais" como, certamente de boa-fé, fez Jerónimo de Sousa.

Os direitos cívicos e a ordem pública, em democracia, não são moeda de troca em circunstância alguma.

(Ver a este propósito o texto de Ferreira Fernandes no DN)

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quarta-feira, março 11, 2009

O Texas é cá




Elizabete Silva chegou a casa no sábado à noite – depois de trabalhar o dia inteiro e ter ido visitar o marido internado no Hospital de Santa Maria, em Lisboa – e deparou-se com a porta arrombada. Lá dentro estavam pelo menos quatro mulheres ciganas. "Comodamente instaladas", descrevem vizinhos ao CM.
Apesar de ser branca, Elizabete foi ajudada por várias mulheres africanas a reaver a sua casa. 'A partir daí começaram as ‘bocas’ entre as mulheres. E a violência descambou quando uma africana grávida foi agredida. Os irmãos vieram defendê-la. Os ciganos foram buscar armas e os africanos responderam com pedras.'
Este foi apenas o último episódio de uma convivência involuntária, que começou há cerca de 15 anos. Segundo o CM apurou, o bairro Portugal Novo, ou bairro Azul das Olaias, nasceu em regime de cooperativa de habitação na década de 80. 'Na altura chegámos a pagar oito contos [40 euros] de quota por mês', conta ao CM Leontina Pereira, 72 anos, há 23 no bairro Portugal Novo. 'Depois vieram os problemas. A cooperativa foi à falência e isto ficou entregue à sua sorte. As casas nunca tiveram escritura e, mesmo os que queriam, não sabiam a quem pagar a renda. Os velhos foram morrendo e as casas acabaram ocupadas, muitas com violência.'
'Houve casos em que os filhos dos proprietários queriam ficar com a casa dos pais e foram agredidos e ameaçados de morte. Nunca mais voltaram', acrescenta a testemunha do tiroteio que anteontem pôs a nu a paz podre num bairro que não é de ninguém, mas do qual todos querem ser donos.
Certo é que ninguém sabe quantas pessoas há no bairro – nem o presidente da junta (ver discurso directo) – nem quem são os legítimos donos das casas. E ninguém paga por elas.
Esta situação envergonha um país que se diz civilizado. Não há nenhuma "autoridade" que assuma a correcção desta situação caótica ? António Costa vai, também ele, pactuar com esta impunidade inadmissível ?
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sexta-feira, fevereiro 13, 2009

KAFKA na DGV

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No Público de hoje vem esta hilariante trapalhada que mostra a falta de respeito pelos cidadãos, especialmente quando são automobilistas. Uma raça maldita.

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quinta-feira, janeiro 29, 2009

Síndrome "avião de Sá Carneiro"

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Síndrome é o agregado de sinais e sintomas associados a uma mesma patologia e que em seu conjunto definem o diagnóstico e o quadro clínico de uma condição médica. Em geral são um conjunto de determinados sintomas, de causa desconhecida ou em estudos, que são classificados, geralmente com o nome do cientista que o descreveu ou o nome que o cientista lhes atribuir. Um síndrome não caracteriza necessariamente uma só doença, mas um grupo de doenças.
(WIKIPÉDIA)

O meu amigo Jorge continua no Trix-Nitrix a sua saga Freeport (já no quarto episódio) e queixa-se da indiferença da blogosfera relativamente ao assunto. "Os outros blogs de referência ignoram-no olimpicamente. Estão no seu direito", diz ele.
Passei alguns segundos a cogitar sobre as razões que ditam a minha própria indiferença quanto ao Freeport e cheguei à Síndrome "avião de Sá Carneiro", que ocorre com grande frequência numa faixa da Península Ibérica, a Ocidente, com cerca de duzentos quilómetros de largura.

Em que consiste esta síndrome ? Aqui vai a minha explicação: é uma tendência patológica para nunca actuar quando os factos estão a acontecer, ou pelo menos em tempo útil, e para regressar aos casos muitos anos depois, quando já não se pode provar nada e os "relatórios técnicos", às dezenas, são totalmente contraditórios.

Tem-se verificado que, quando ocorre, a síndrome se manifesta por um grande formalismo; não interessa se é ou não importante, se foi ou não prejudicial, o que interessa é se os trâmites foram cumpridos mesmo que os trâmites sejam a capa da tramóia.
Não se trata de prejuízos e penalizações quantificadas mas sim do cumprimento, rigoroso ou não, de elevados padrões éticos abstractos e incomensuráveis.

Claro que não passa pela cabeça de ninguém encontrar, e ainda menos punir, qualquer responsável. Não há memória de tal coisa ter alguma vez acontecido.

Seria aliás absolutamente indesejável chegar-se a uma qualquer conclusão pois ela impediria-nos-ia de continuar, saborosamente, a discutir se foi acidente ou atentado.
Trata-se apenas de arranjar temas para os discursos, as capas dos jornais e as conversas do Zé Povinho.
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domingo, janeiro 25, 2009

Com tranquilidade...

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Quase sem distinção, surgem novos processos de fraude ou de corrupção. Já não lhe conhecemos os nomes ou as designações. Há bancos que estão em vários, do "furacão" aos "off-shores", das "facturas" ao "apito", da contabilidade paralela ao favoritismo, passando pela promiscuidade. Há gente que acumula irregularidades. Que todos conhecem, menos as entidades ditas reguladoras e a justiça. Ou, pior ainda, que talvez as entidades reguladoras e a justiça também conheçam...
O próprio primeiro-ministro pôs em causa a eficácia e a orientação ou do Ministério Público ou a de uma certa imprensa com acesso às "fugas" orientadas. Os processos de políticos, de grandes empresários, de banqueiros, de dirigentes de futebol, eventualmente de autarcas, de artistas e de atletas... não começam ou não chegam ao fim. Ou não se esclarecem. Ou chegam tarde. Ou prescrevem. E entretanto, o criminoso fugiu, o bandido desapareceu, o vigarista recomeçou vida...
Em qualquer dos casos que vem até ao proscénio, os protagonistas não se cansam de repetir que aguardam, "com serenidade", que justiça seja feita. Todos afirmam que respeitarão a justiça portuguesa e que nela confiam. Muitos pedem que se faça justiça rapidamente e bem. "Até ao fim", dizem. "Até às últimas consequências, doa a quem doer", acrescentam. É o que se diz. É lugar-comum obrigatório.
Mas a certeza é que ninguém espera com tranquilidade. Nem vítimas, nem culpados.
António Barreto, Público 25.01.2009


A descrição do problema está correcta mas discordo das conclusões.
Se os culpados dizem que aguardam "com serenidade" que a justiça seja feita não é por ser "lugar comum obrigatório" mas por saberem que nunca serão condenados.
Parafraseando Paulo Bento: haverá muita gente em Portugal que encara a justiça "com tranquilidade" mas não serão certamente as vítimas.
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