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domingo, outubro 12, 2008

DocLisboa

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O VI Festival de Cinema Documental 2008, o DocLisboa decorre de 16 a 26 de Outubro nos cinemas Londres e São Jorge, onde poderá ver 175 filmes.
A sexta edição tem a China como país convidado e é o mais extenso de sempre com 175 filmes "estimulantes, provocadores, perturbantes", segundo um dos programadores do festival, Sérgio Tréfaut.

"Temos uma das lendas vivas do documentário, Frederik Wiseman, que vem a Lisboa comentar os seus 11 filmes que nós escolhemos e isso é um dos luxos que poucos festivais internacionais têm", acrescentou.

"Temos uma programação chinesa que interroga a China com um olhar muito especial e que não é um programa institucional, antes pelo contrário. Se alguém quiser compreender o que é a resistência na China tem isso nos nossos filmes", destacou o programador.Em Lisboa estarão quatro cinestas chineses convidados, entre os quais Zhang Yuan e Huang Wen-Hai.

Uma excelente oportunidade para quem queira aprender mais sobre a realidade chinesa actual, para ultrapassar os clichés reinantes entre nós.

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sexta-feira, setembro 19, 2008

Blackguard Quingzi

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Num breve panorama do actual cinema chinês, intitulado "O Despertar da China", o Museu Fundação do Oriente tem dado a ver um conjunto de seis filmes de ficção de produção muito recente, multipremiados em festivais de cinema internacionais e quase todos inéditos nas salas portuguesas. Longe dos clichés prevalecentes nos media ocidentais, são filmes que mostram que histórias se inventam hoje sobre a vida naquele gigante asiático e como os percursos individuais estão a ser afectados pelas profundas transformações sociais, económicas e culturais em curso no país. Uma oportunidade para ver o novíssimo cinema chinês.


Ontem tive oportunidade de ver "Blackguard Quingzi" com realização de Wei Xue-Qui e interpretação de Zhu Hongwei, Meng Qiaohui.

Numa espécie de neo-neo-realismo vemos vidas desenraizadas que percorrem um espaço suburbano caótico.

O jovem Qiangzi sai da prisão. As enormes mudanças verificadas na sua cidade fazem-no sentir-se um estranho. Vai à procura, de memória, da sua casa, mas apenas encontra ruínas. Qiangzi quer refazer a vida, mas não é aceite pela sociedade. Todos sabem que ele era um marginal.

O filme consegue fazer-nos sentir o peso destas vidas duríssimas, plenas de solidão num mundo que não para de se reconfigurar. Com a consciência insuportavel de participar de um gigantesco espectáculo mas sem saber qual o papel que lhes está distribuído.

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quarta-feira, agosto 27, 2008

Meu querido mês de Agosto

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O filme de Miguel Gomes é um portento. A não perder de preferência antes de o mês acabar. Uma espécie de "Liga dos últimos" musical, dedicado aos pequenos conjuntos das aldeias, para as cidades verem como é o mundo impensável do pinhal interior quando os emigrantes voltam em busca de um mítico passado. Um país que nunca leu o "Arrastão" ou o "5DIAS" por incrível que pareça.

A realidade suculenta dos enchidos e das casas de granito vai-se dissolvendo no corrosivo ideário pimba, e na sua moral, e converte-se em (im)pura ficção. Os autores do filme aparecem nas últimas sequências, aturdidos, titubeantes, como se o filme lhes tivesse pregado uma partida.

"Aquele Querido Mês de Agosto" foi filmado durante os verões de 2006 e 2007, em concelhos da região centro: Arganil, Góis, Pampilhosa da Serra, Oliveira do Hospital e Tábua.
O filme conta no seu elenco com os actores não profissionais e naturais dos locais onde se desenrola a acção: Sónia Bandeira, Fábio Oliveira, Andreia Santos, Armando Nunes, Manuel Soares.
Conta ainda com a participação especial de Luís Marante, o mítico cantor e compositor romântico do Agrupamento Musical Diapasão.

Mais abaixo pode ouvir o tema que inspirou o título do filme, cantado por Dino Meira.

quarta-feira, agosto 13, 2008

Dark Matter

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"A neve caía num dia de Inverno em 1991 quando Lu Gang, um estudante chinês baixo e magro que recentemente concluíra o seu doutoramento em Física de Plasmas, entrou numa sala de aulas da Universidade de Iowa, pegou num revólver Taurus de calibre 38, e matou o professor Christoph Goertz, o seu orientador de tese, Robert A. Smith, membro do júri que avaliara a sua dissertação, e Shan Linhua, um outro estudante chinês de doutoramento, e seu rival.
De seguida, Lu dirigiu-se ao gabinete do coordenador do Departamento de Física e Astronomia, Dwight R. Nicholson, que estivera também no júri da sua tese de doutoramento, e disparou mais três tiros mortais. A seguir, foi até à Ala Jessup e exigiu falar com Anne Cleary, vice-reitora responsável pelos assuntos académicos. Quando ela saiu do seu gabinete, matou-a, e depois atirou na sua assistente de 23 anos. Finalmente, num auditório vazio, Lu encostou a arma contra a cabeça e suicidou-se.
Como teria um jovem, brilhante e trabalhador físico chinês, que aterrara nos Estados Unidos seis anos antes cheio de orgulho e esperança, chegado a um fim tão amargo é o tema de Dark Matter, o filme que se estreou recentemente nos EUA, dirigido pelo realizador Chen Shi-Zheng, ele próprio nascido na China. O actor Liu Ye é o protagonista, inicialmente idealista e ambicioso, depois humilhado e enraivecido (no filme aparece com o nome de Liu Xing); Aidan Quinn é o arrogante orientador da faculdade (fazendo de Christoph Goertz); e Meryl Streep é uma bondosa, se bem que ingénua, benemérita da universidade que recebe estudantes chineses.
Dark Matter pode à primeira vista parecer apenas mais um filme sobre assassínios em série num campus universitário norte-americano, embora com um toque chinês. Quando Liu Xing chega à Universidade de Iowa proveniente de Pequim, proclama com optimismo "a sua sorte por chegar à América, Meiguo, O Belo País. Possamos todos alcançar aqui o nosso sonho! Vou resolver o problema da Matéria Negra, vencer o Prémio Nobel, e casar com uma rapariga americana de olhos azuis!"
Mas gradualmente convence-se de que os professores conspiram para atrasar o seu doutoramento e negar-lhe o legítimo reconhecimento como académico. A sua paranóia aumenta quando o júri recusa aceitar a sua tese até ele refazer alguns dos cálculos, impossibilitando assim que ganhe o prémio da melhor dissertação. No final do filme, o seu profundo sentido de humilhação leva-o a um estado psicótico, e num acesso de raiva mata os professores."
Público, 10.08.2008

Este texto foi extraído de um extenso artigo de Orville Schell: "China, Humilhação e Jogos Olímpicos" (que pode ler aqui). Ele parte da descrição do filme "Dark Matter" para mostrar como são complexas as relações entre "o Ocidente" e a China, o que vem mesmo a propósito neste tempo em que qualquer um se sente habilitado a julgar e aconselhar o imenso e antiquíssimo país oriental. Diz Orville Schell:

"Quando se trata de aceitar críticas estrangeiras em relação a assuntos como os Jogos Olímpicos, Tibete, Darfur e Birmânia, os dirigentes chineses mostram-se invariavelmente impenetráveis. As suas reacções defensivas sugerem que as suas memórias de histórica fraqueza e humilhação ainda ardem com intensidade. E se críticas justas não devem ser caladas só porque os líderes chineses as consideram desagradáveis, também devíamos, enquanto estrangeiros em contacto com a China, ter mais em mente que muita da matéria negra gerada pela história ainda flutua no universo que nos é comum."
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quinta-feira, julho 17, 2008

O silêncio dos blogoesféricos





(texto de Rosa Redondo enviado para publicação pela autora)

O filme "Tropa de Elite" de José Padilha é um murro no estômago. Como era de esperar já disseram sobre ele os lugares comuns do costume e já lhe colaram os rótulos habituais. Curiosamente, em Portugal, em especial na blogoesfera, tem-se falado pouco sobre ele; talvez porque temos receio de ser confrontados com alguns cantos mais “obscuros” do nosso íntimo e de ter de pôr em causa alguns dos princípios “bonitos” em que nos apraz fundamentarmo-nos.

Uma excepção é a inteligente crítica que Jorge Leitão Ramos publicou no Expresso de 12 de Julho (“Tiro e Queda”) e que perfilho quase sem reticências.

Acrescentarei só que uma das coisas que o filme nos mostra é que o “sistema” cujos indícios vemos na corrupção “hard” da policia, na corrupção “soft” das ONG, no poder brutal dos bandos da droga, não pode ser desmantelado de dentro, porque se auto-regenera. E o conceito de “de dentro” é muito amplo; inclui o modelo produtivo, social e governativo, o corpo legislativo e judicial, a organização policial...

Há uma frase do capitão Nascimento que não pára de me ressoar na cabeça: “Só rico com consciência social é que não sabe que guerra é guerra.”

Outra grande questão “quente” é a da legalização da venda e consumo de droga. É preciso ter a coragem de a abordar sem moralismos. É já um lugar comum, mas nem por isso é menos verdade, que a “Lei Seca” foi a fortuna dos gangsters.

A ver. Absolutamente.

Rosa Redondo, 17.07.2008

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quinta-feira, julho 03, 2008

Isto é uma Pandalheira

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Estou farto de ver nas televisões referências ao novo filme da Dream Works acerca de um panda que quer aprender Kung-fu. Hoje saltou-me a tampa quando, quase a abrir o noticiário da RTP das 20 horas, o José Rodrigues dos Santos introduziu o tema sem se perceber porquê.
Também a "estação de serviço público" se presta a estes favores ? O marketing não respeita qualquer barreira, já sabemos, mas alguém tem que o impedir de abusar.

segunda-feira, junho 23, 2008

O sexo da cidade

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Fui ao cinema ver "O sexo e a cidade", arrastado mas fui. É mais longo do que uma noite de amor falhada e, por isso, acabamos por nos fartar das piadas engraçadas. O retrato das mulheres que nos é mostrado, que considero desiquilibrado e injusto, fez-me compreender as virtualidades de ser gay. No entanto, para meu grande espanto, as "revistas do social" dizem que o filme tem grande sucesso precisamente junto das mulheres e dos gay.

sexta-feira, maio 23, 2008

Nightwatching

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O novo filme de Peter Greenaway é uma longuíssima dissertação sobre as relações entre a arte e o poder. Mostra o famoso quadro de Rembrandt "A Ronda da Noite" não como o desfile prazenteiro de uma confraria mas como a denúncia, pelo pintor, de lutas intestinas sustentadas por crimes. Denúncia pela qual paga um elevado preço.

A arte e o poder - e o poder da arte- num filme esteticamente impressionante.

O filme assume uma actualidade insuspeitada quando a sociedade holandesa do Século XVII nos é mostrada na sua faceta marcadamente mercantilista; uma sociedade onde tudo parece ter um preço e onde tudo se paga.


quarta-feira, abril 16, 2008

Leituras de um convalescente – O nazismo e o fim de Hitler


Saí do hospital com uma contratura lombar. Um jeito, ao deslocar-me na cama, no último dia de internamento, fez com que em vez de sair do hospital pelo meu próprio pé tivesse que ser transportado numa cadeira de rodas. Daí resultou que a primeira semana em casa fosse passada deitado na cama, com um saco de água quente nas costas. E, para entreter o tempo, livros à volta. Já não era a primeira vez que isto me sucedia e em qualquer dos casos pude sempre pôr em dia as minhas leituras.
Começar por onde? Por aquele que me pareceu mais simples e mais descritivo. Assim, estriei-me com o livro de António Louçã e de Isabelle Paccaud, O Segredo da Rua do Século, Ligações perigosas de um dirigente judeu com a Alemanha nazi (1935-1939) (Fim de Século, 2007). É a descrição do desmoronar de uma reputação, de alguém acima de qualquer suspeita, que sempre, no entanto, tivera com o fascismo português as melhores relações, mas de quem não se suspeitava até ao momento que tivesse sido condecorado pela Alemanha nazi. Livro bastante interessante, relata inclusivamente o papel que o jornal O Século desempenhou na propaganda daquele regímen entre nós. Estas revelações provocaram alguns engulhos à comunidade judaica portuguesa, que não acredita naquelas ligações e apareceu em força em sua defesa. Quanto a mim não me restam dúvidas. Sempre me recordo o nome do Moses Amzalak como um dos figurões do salazarismo.
Passei em seguida para A Queda, Hitler e o fim do Terceiro Reich, de Joachim Fest (Guerra e Paz, 2007). Em jeito de chamariz a editora acrescenta na sua capa “O livro que deu origem ao Filme”. De facto, este livro juntamente com o depoimento da última secretária de Hitler, Traudl Junge, expresso em Até ao Fim, Um relato verídico da secretária de Hitler (Dinalivro, 2005), que eu já tinha lido, inspiraram o argumento do filme A Queda, Hitler e o fim do Terceiro Reich, do realizador alemão Olivier Hirschbiegel. Este filme tinha provocado em mim um grande impacto na altura em que se estreou, ao ponto de ter comprado o DVD respectivo quando este apareceu à venda e tê-lo visionado quase fotograma a fotograma. Isto porque me impressionou de sobremaneira o universo claustrofóbico em que os dirigentes do III Reich tinham vivido os seus últimos dias, bem como o suicídio dos principais dirigentes nazis, que é amplamente mostrado no filme. Conhecia o caso de Hitler e da sua mulher, de Goering, que não é relatado no filme, e que se verificou durante o julgamento do responsáveis nazis em Nuremberga, provavelmente já teria lido referências ao de Goebbels, mas nunca ao da sua mulher e ao assassinato dos seus cinco filhos e muito menos ao da oficialidade mais responsável, que na parte final do filme, e penso que com veracidade, quase que praticam um suicídio colectivo.
Do livro não me ficou mais do que aquilo que eu sabia do filme. Quem, como eu, tiver a curiosidade de conhecer os últimos dias do nazismo pode de facto ler os dois livros que serviram de inspiração ao filme. Mas penso que seria igualmente interessante contar a história do cadáver de Hitler, ou do que restou dele, e como a sua falsa ausência alimentou durante tanto anos a Guerra-fria. Um trabalho documentado e sério sobre isto exige-se, eu pelo menos não o conheço.
Por último, e integrado neste conjunto de livros li o O Livro de Hitler (Alethëia, 2006), que de acordo com o que é dito na capa constitui um “Dossier secreto do NKVD, encomendado por Josef W. Estaline, organizado com base no interrogatório feito em Moscovo, entre 1948 e 1949, a Otto Günsche, oficial das SS e responsável pela agenda político-militar de Hitler, e a Heinz Linge, mordomo de Hitler”. O livro tem um prefaciador e dois organizadores. O prefácio é um pequeno compêndio de revisionismo histórico na linha de que Hitler estava bem para Estaline. Cito alguns exemplos, só para recordar aos meus leitores em que consiste esta nova maneira de tratar a história da Segunda da Guerra Mundial. Interroga-se o prefaciador: “o que terá levado ao interesse mútuo entre os líderes das duas mais fanáticas ideologias que, no século XX, precipitaram Europa no abismo?” Ou seja, para este prefaciador, a responsabilidade pela II Guerra Mundial é de Hitler e Estaline, os estados ocidentais nada tiveram a ver com isto. Mas para além de outros mimos, bem mais graves, temos igualmente este: “A vitória militar, que ditava a ofensiva contra a União Soviética, levou-a a aliar-se a Estados Ocidentais com ideologias pelo menos tão opostas como a da Alemanha de Hitler, nomeadamente os Estados Unidos e a Grã-Bretanha”. Ou seja, o prefaciador esquece que em Junho de 1941, quando Hitler invadiu a URSS, os Estados Unidos ainda não tinham entrado na guerra, e que foi Churchill, sozinho a enfrentar o esforço de guerra contra a Alemanha nazi, quem propôs de imediato uma aliança com a URSS.
Não será este o espaço indicado para debater este novo revisionismo histórico, encabeçado hoje pela direita e por alguma esquerda sem referenciais históricos. Quanto ao livro em si é uma história, que engloba os últimos dias do nazismo e de Hitler, redigida para agradar aos soviéticos, já que os narradores estavam prisioneiros daqueles. Não retive na memória nada que merecesse especial destaque.
Em próximo capítulo irei fazer referência a outras leituras sobre temas diferentes.
PS.: Este texto foi publicado igualmente em http://trix-nitrix.blogspot.com/

quarta-feira, fevereiro 06, 2008

Sweeney Todd, uma comparação

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Passou pouco mais do que um mês sobre o fim da carreira do Sweeney Todd no Teatro Aberto (que analisei AQUI) e já temos em exibição nos cinemas a versão Tim Burton/Johnny Depp.
Torna-se inevitável uma comparação mesmo que, para o efeito, eu me considere suspeito. Esclareço desde já, para ganhar alguma condescendência dos leitores, que se por um lado tenho ligações afectivas com alguns dos intervenientes na versão do João Lourenço, por outro sou um admirador de longa data tanto de Tim Burton como de Johnny Depp.

O filme é uma obra admirável, digo-o sem reservas, com uma cenografia e uma fotografia portentosas e servido por excelentes actores, com destaque para Depp. A questão que se coloca é, no entanto, como comparar enquanto espectador a fruição do filme com a da versão teatral.

O filme, com os enormes meios de que dispôs, conseguiu uma fabulosa recriação de ambientes e de espaços. Pela sua própria natureza pode mostrar-nos grandes planos dos actores e dos objectos. Usou recursos orquestrais muito potentes e teve a possibilidade de equilibrar as várias fontes sonoras em cada momento.
Em contrapartida, a riqueza dos meios visuais e a sofisticação sonora do filme entram por vezes em contradição com o tom intimista da trama e com o carácter da música.

Os actores são excelentes na representação mas não têm capacidade vocal para dar senão uma pálida imagem dos fabulosos temas musicais escritos por Stephen Sondheim.
A quem só viu o filme recomendo que procure, por outra via, aceder às belíssimas "árias" do Sweeney Todd.

A perturbante dialética entre a comicidade (irresistível no teatro) e o horror perde-se de alguma forma no filme já que opta permanentemente por um registo sombrio.

O casting não terá sido o ideal; a Mrs. Lovett criada por Helena Bonham Carter está físicamente longe da decadência matreira que o personagem exige.
O empregado Toby resulta melhor na versão teatral pois no cinema, que usa uma criança, perde-se grande parte do dramatismo das cenas finais.
Algumas cenas irresistíveis cantadas por Carlos Guilherme foram cortadas no filme, talvez por não estarem vocalmente ao alcance dos interpretes.

Como espectador, resumo a comparação desta forma: a versão teatral de João Lourenço impressionou-me mais, resultou mais divertida e musicalmente muito mais rica.

Mas não tirem conclusões precipitadas: eu acho imprescindível ver o filme.

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sábado, janeiro 05, 2008

PIN UP Girl




"Call Girl", o filme de António Pedro de Vasconcelos, não adianta muito sobre os esquemas de influências, chantagens e negócios à custa do espaço público, embora deva reconhecer-se que os ambientes e as situações são bem recriados e os actores muito credíveis nos seus personagens, com destaque para o consagrado Nicolau Breyner e para a bela Soraia Chaves.
A prostituta de luxo que corrompe um autarca bonacheirão chega a ser uma figura intrigante no seu mecanicismo fingido.
O Senhor Presidente da Câmara de Vilanova mostra bem como uns vagos idealismos preservacionistas são impotentes contra a força avassaladora dos PINs.
Muitos PINs, Projectos de Interesse Nacional, conceito lançado e promovido por Sócrates, desestabilizam hoje o sonolento país real prometendo mundos e fundos às cavalitas dos omnipresentes campos de golfe.
Confesso que me escapa o interesse despertado pelo golfe; se alguém quer deambular pelo campo porque não o faz por entre chaparros e prefere uma versão de relvado pechisbeque para o fazer ?
A traulitada na bola não seria bem mais saborosa se arrancasse polens das gramíneas selvagens e tivesse como objectivo acertar num vetusto sobreiro em vez de decorrer num simulacro campestre cuja manutenção dá uma trabalheira e gasta imensa água ?
Enfim, os gostos não se discutem...
Voltando ao filme eu diria que o mais interessante é, precisamente, trazer para a ribalta uma versão mais realista da sigla PIN: Putas, Influências e Negociatas.