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terça-feira, outubro 09, 2018

A mesma luta


terça-feira, dezembro 01, 2015

Autofagia de "esquerda"



Autofagia de "esquerda"
O caso de Garcia Pereira, e do MRPP, fácilmente se converte numa anedota.
Só que ele revela um mal-estar muito mais generalizado, à esquerda, que se traduz em sucessivas crises de identidade e de ortodoxia.
Desde que deixou de poder exibir a bandeira do "socialismo real", nas suas diferentes versões, a esquerda foi deslizando para uma sucessão de divergências, e pequenas seitas, que tornaram o efémero "acordo" com Costa uma miragem apetecível.
Mas, pior do que isso, toda a esquerda se instalou no terreno da social-democracia que não pede mais do que um "capitalismo humanizado".
A acção política oscila entre o protesto semântico contra o discurso do adversário, o policiamento politicamente correcto, as demolições de carácter e a recusa de qualquer mudança no satus quo constitucional.
Enquanto não for forjada uma nova utopia mobilizadora, uma ideia nova de futuro, a esquerda viverá de fogachos, desilusões e autofagia.
E é pena.

sexta-feira, março 13, 2015

O meu strip-tease político



O meu strip-tease político
(dedicado a todos aqueles que continuam a chorar lágrimas de crocodilo pela “unidade de esquerda” e a sonhar com ela como panaceia para Portugal).
Soares e Otelo foram os coveiros da Revolução portuguesa e representam a antítese daquilo que desde jovem me levou a envolver-me na política.
Unidos pela megalomania distinguem-se nas motivações: um move-se pela ambição de poder e o outro pelo romantismo pateta.
Quando o fascismo foi derrubado só existia uma força política organizada e implantada no terreno; o PCP. A sua hegemonia no campo da esquerda era não só inevitável como natural. Nesse momento fundador, em vez do espírito de colaboração fraterna, quer o PS, por um lado, quer os esquerdistas, por outro, cavaram irresponsávelmente as fracturas que nunca mais se sararam na esquerda portuguesa.
O PS, capitaneado por Mário Soares, aliado com as forças mais retrógradas da sociedade portuguesa, sob a batuta do ciático Carlucci, isolou o PCP da classe média assustando-a com as tiradas extremistas dos esquerdistas.
Otelo serviu de pivot a todo esse tipo de concepções infantis e inconsequentes, nomeadamente quando se candidatou à Presidência da República, dessa forma dividindo e confundindo uma boa parte da juventude progressista. Os erros foram tantos e tais que ainda hoje não há espaço em Portugal para qualquer “Syriza” ou “Podemos”.
Por muito equivocadas que fossem as concepções do PCP nessa época elas não eram irremediáveis, como se provou ao longo das últimas décadas de integração no sistema democrático português. O seu isolamento político alienou o contributo da única força política coerente, determinada e consequente da esquerda portuguesa.
Seguiram-se longos anos de “normalização” em que o PS se converteu numa espécie de partido do regime, totalmente envolvido no “bloco central de interesses” e abandonando todas as suas referências ideológicas.
Os esquerdistas, por sua vez, passaram o tempo a cindir-se e a “reinventar-se”, sempre prontos para ir atrás de qualquer foguete de ocasião (Chavez ou Obama, Hollande ou Tsipras, etc,etc), incapazes de aprender com as sucessivas “desilusões”. Fico espantado com a perseverança com que esses velhos “revolucionários”, que eu tive que aturar durante a campanha do Otelo em 1980, continuam a cultivar hoje os seus radicalismos de café.
O PCP, por sua vez, não conseguiu ficar imune ao que se passava na esquerda à sua volta. Assimilou acriticamente a patranha do “Estado Social”, pactuou com muitas das bandeiras “fracturantes” dos esquerdistas e, lamentávelmente, deixou de cultivar a sua vocação chave para uma nova sociedade.
É hoje apenas uma espécie de super central sindical, e autárquica, de todas queixas e queixosos, sem cuidar sequer de prevenir incompatibilidades.
Dito isto, que vivi ao longo de décadas e acompanhei com empenhamento desinteressado, o que é que eu espero?
Espero uma regeneração do PCP, o meu partido de sempre, que eu abandonei por desilusão.
Continuo a acreditar num dia futuro em que a coragem de re-equacionar os princípios, e modernizar a teoria, gerem uma nova dinâmica de transformação social para o século XXI.
Os principios básicos de seriedade, dedicação e disciplina continuam lá. Só falta adicionar o racionalismo e a visão de futuro.

quinta-feira, março 07, 2013

NUNCA GOSTEI DO CHAVEZ



 
ou seja, nunca gostei daquilo que Chavez representava.
Ele era o símbolo mais gritante da ilusão sobre o socialismo como uma espécie de caridade que os dirigentes "humanistas" praticam para salvar o povo da pobreza.
Mas nem todos têm petróleo e é uma grande mistificação pensar que uma nova sociedade, mais justa, depende da bondade súbita dos governantes em vez da transformação lenta e profunda das relações de produção.
Por isso, sem pôr em causa a sinceridade do seu populismo, e até simpatizando com a sua personalidade espontânea, acho que o seu "socialismo do Século XXI" causou grandes prejuizos ao progresso da humanidade.
Não quis deixar de o dizer agora que a fúria dos obituários amainou e que a reflexão talvez se torne, de novo, possível.


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quinta-feira, setembro 27, 2012

37 Anos Depois








37 Aanos depois e também no fim de Setembro.

Esperemos que Novembro não se repita igualmente.
(mensagem codificada para aqueles que já eram crescidinhos em 1975)

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sexta-feira, setembro 21, 2012

Erro de estratégia


 
A estratégia é a arte de escolher onde travar as batalhas.

Os organizadores da manifestação do 15 de Setembro receberam um brinde de Passos Coelho sob a forma de anúncio televisivo da subida da TSU.
Os dirigentes da opos
ição, revelando a sua habitual miopia e vacuidade, cavalgaram o sucesso da manifestação e puseram a queda do governo na ordem do dia.
Ao fazê-lo num momento em que não se vislumbra nem alternativa ao governo, nem sequer como construir tal alternativa, devolveram a Passos Coelho o brinde que ele, por inépcia, lhes oferecera.

Travaram portanto esta batalha no pior momento e o debate na AR demonstrou a inconsequência de toda a agitação dos últimos dias.
Por causa da sua irresponsabilidade os dirigentes da oposição vão provocar uma enorme desilusão aos manifestantes, que em muitos casos não tornarão a sair à rua.
Além disso reforçam o governo. É isso que acontece sempre que uma força sobrevive a um ataque que os seus adversários, imprudentemente, consideraram letal.





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domingo, janeiro 29, 2012

Banalização e umbigo

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Os políticos podiam economizar algumas asneiras que fazem se andassem de vez em quando de autocarro. Esse talvez tenha sido o erro de Cavaco Silva. Meia hora no 758 da Carris (Cais do Sodré - Portas de Benfica) e teria percebido que quem tem reformas com cinco algarismos não é a pessoa mais adequada para se queixar num país com reformas de três algarismos. Dito isto, estamos perante uma tolice, e só. Uma tolice todos podem dizer, até o Presidente da República. É certo que se errar é humano, nos políticos é bom motivo para cair-lhes em cima com críticas e Cavaco mereceu as críticas generalizadas. Mas depois milhares de pessoas assinaram uma petição para que o Presidente se demita, e isso é uma tolice sobre a tolice da frase presidencial. É uma censura ao inalienável direito de um Presidente dizer uma tolice impedir que ele a diga - tão grave quanto seria impedir o inalienável direito de dezenas de milhares de portugueses pedirem a demissão do Presidente por delito de opinião. Os assinantes da petição perderam uma boa oportunidade para não se igualarem ao Presidente em matéria de tolices. Já os promotores de levar moedinhas ao Palácio de Belém só são coerentes se forem bota-abaixistas do regime. Defendo o direito de eles exercerem essa ação, mas sou contra a intenção: preciso de um Presidente da República não amesquinhado. E forte para garantir as liberdades todas, incluindo as já ditas nestas linhas.


FERREIRA FERNANDES no DN 28.01.2012




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Concordo totalmente e acrescento: o recurso irresponsável a petições e outras formas de luta, por tudo e por nada, é a melhor forma de esvaziar as suas potencialidades. Será que esta malta não percebe que a banalização os reduz ao seu círculo de amigos, totalmente isolados da massa do povo?


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quarta-feira, janeiro 25, 2012

ANO DO DRAGÃO

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Este texto do Expresso desta semana é dedicado a todos aqueles que ainda não perceberam a enorme evolução da China nos últimos 40 anos.
Curiosamente são muitas vezes os mesmos que têm na manga uma qualquer "verdade de classe" para nos iluminar.

quinta-feira, outubro 20, 2011

O método grego

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Há quem diga que estamos a seguir o caminho da Grécia mas, pelo menos por enquanto, isso é um exagero. Até agora ainda não tentámos resolver a crise à pedrada e à mocada. O método grego, ilustrado nesta fotografia, também parece não estar a produzir grandes resultados. A não ser que se considere o perdão da dívida um bom resultado.

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terça-feira, agosto 30, 2011

Sair de casa dos pais



A esquerda actual mantém com o capitalismo uma relação de adolescente. Faz lembrar aqueles trintões que vivem em casa dos pais, sempre a bramar contra as ingerências e limitações, mas que não estão dispostos a fazer os sacrifícios e correr os riscos de uma vida independente.

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terça-feira, junho 07, 2011

Período de reflexão



Nada pode escamotear a dimensão desta derrota para a esquerda portuguesa. Após anos em que teve uma sólida maioria sociológica no país, e após uma crise do capitalismo que lhe deu, temporariamente, uma hegemonia no discurso, com uma esquerda radical que tinha a maior proporção de votos da Europa, deixamos (eu incluo-me neste “nós”) o país nas mãos do FMI, do PSD mais neoliberal de sempre, e do CDS de Paulo Portas com o dobro dos votos do BE e do PCP. Não há ninguém de esquerda que possa olhar para este panorama e ficar satisfeito.
O discurso de “estivemos onde tínhamos de estar” e “estaremos onde tivermos de estar” é absolutamente inadequado para uma ocasião destas. Onde está a reflexão que permite saber onde se situa esse “onde”?
Nós à esquerda temos uma análise impecável desta crise. Impecável até demais. Sabemos onde falhou o sistema financeiro. Sabemos onde falhou o neoliberalismo. Sabemos onde falhou o centro-direita, e o centro-esquerda, e a social-democracia. Sabemos tudo, é fantástico. Só não sabemos responder a esta pergunta: onde falhámos nós?
Sim, porque nós havemos de ter falhado em qualquer coisa. Se não tivéssemos falhado, não teríamos a troika a tomar conta da casa. Se não tivéssemos falhado, não teríamos, dois anos depois de os bancos terem estourado com o sistema financeiro, o discurso hegemónico a estourar com o estado social em favor da mítica austeridade.
A esquerda não será séria se achar que fez tudo bem e que, para o futuro, só há que continuar a fazer o mesmo.
Para a esquerda, o tempo está virado do avesso. O dia das eleições foi ontem. O dia da reflexão só agora começou.
Ver este importante texto de Rui Tavares, completo, AQUI

quarta-feira, março 09, 2011

Não conspurquem o canto de intervenção

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Não me perturba nada que tenham ganho o festival. Estou-me nas tintas para o festival.
O que me perturba são os personagens, o "gel" e o outro. Representam o que de pior teve o PREC. Radicalismo boçal, pouco politizado.
Uma transferência demasiado rápida dos candidatos a galãs de bairro para a militância revolucionária.
Depreciam a luta, depreciam o (sublime) canto de intervenção português (um deles, com a sua boina e os seus óculos, tenta até imitar a imagem do Zeca Afonso).
Instilam uma imagem deplorável no espírito de quem não viveu Abril.

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quarta-feira, janeiro 26, 2011

Se isto não é o povo...onde é que está o povo ?

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No rescaldo das eleições há, surpreendentemente, uma data de tipos a listar os defeitos e as limitações do vencedor. É paradoxal pois isso costuma fazer-se antes de os votantes irem às urnas.

Ele é inculto, ele é crispado, ele é uma espécie de matrioska com um primeiro-ministro lá dentro, ele não sabe comer pão-de-ló, em suma ele não tem nível. A esquerda com Cavaco não tem resistido ao preconceito classista. Detesta o seu cheiro popularuncho.

Trata-se talvez de uma birra, uma demonstração de infantilidade (lembram-se da tal doença comunismo de que falava o outro?) destinada a vingar a desfeita perpetrada pelo povo.
Chamar burro ao povo justamente quando ele acabou de votar não parece ser políticamente inteligente e revela uma curiosíssima noção de democracia (depois acham estranho que as pessoas não votem).
Esta gente nunca mais percebe que democracia = "o povo tem sempre razão". Quando discordamos do voto popular somos nós que estamos a falhar alguma coisa.
O exercício, ou exorcismo, é absolutamente inócuo já que o destinatário deste vudu se livrou, precisamente no último Domingo, das peias que costumam alimentar o calculismo dos políticos. Já teve duas maiorias absolutas como primeiro-ministro e outras duas como presidente.
Depois disto a única coisa que se perfila no seu futuro é brincar com o combóio eléctrico dos netos.

Eu até acho que é precisamente de uma pessoa com as mãos livres que o país precisa para sair do circulo vicioso, e viciado, em que se afunda.
Não me parece é que Cavaco esteja à altura do desafio.

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segunda-feira, janeiro 24, 2011

O tamanho conta?

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Paulo Portas com a sua habitual ratice, apressou-se na noite eleitoral a declarar a derrota do «embrião de aliança entre PS e BE que se manifestou nestas eleições».
À natural satisfação de Portas deve portanto corresponder uma reflexão de esquerda, para acabar com esta deriva irresponsável da esquerda que avança de derrota em derrota.
A candidatura de Alegre surgiu para concretizar a “esquerda grande” de que falava Louçã na Convenção do BE em Fevereiro de 2009.
A “esquerda grande” não é uma ideia muito original, sucede à “maioria de  esquerda” que foi, sem qualquer sucesso, consigna do PCP durante muitos anos.
Pode perguntar-se, como faz certa publicidade, se no ponto a que a esquerda chegou o tamanho realmente conta. Mas o que mais confrange nesta estratégia é a constatação do primarismo com que os dirigentes do BE pensaram que seria possível somar os dez por cento próprios com os trinta e cinco do PS.
Sem qualquer novo projecto para o país com que embalar o produto, acharam que Alegre bastaria como isco. Os resultados estão à vista.
O PS podia ter tido a clarividência de apoiar Cavaco na reeleição, como fez o PSD no segundo mandato de Mário Soares. Mas atemorizado pela chantagem do BE, enfraquecido depois da crise internacional ter mostrado o monstro que se oculta por trás do laborioso cenário, o PS deixou-se arrastar pelos cabelos para esta aventura.
Quando o desastre se tornou evidente optou por uma política de terra queimada, ineficaz e repugnante.
Nesta batalha, que a esquerda irresponsável travou nas piores condições estratégicas, foram usados os estafados estandartes do “estado social”, do “serviço nacional de saúde” e da “defesa da escola pública”. Por isso, ao sofrer uma pesada derrota, de uma penada, descredibilizaram a ideia da unidade de esquerda e gastaram as principais munições com que têm tentado defender-se do avanço do liberalismo económico.  
Estes estandartes, que Alegre enunciou significativamente no seu discurso de derrotado, constituem o principal equívoco em que a esquerda mergulhou nos últimos anos.
Chega a ser confrangedora a inconsciência com que esta gente abandonou qualquer veleidade de transformar o mundo.
É que o SNS não é um projecto de futuro, é antes o sinal de uma sociedade de escassez e de pobreza da qual nos devíamos estar a libertar.
A saúde é essencial? Claro que é. Mas a alimentação não o é menos e o Estado não a fornece de forma universal. Cada cidadão tem que encontrar os meios para satisfazer essa necessidade. Não passa pela cabeça a ninguém acabar com os restaurantes e propor que passemos todos a frequentar a cantina da Misercórdia.
A esquerda refugiou-se nas trincheiras do “estado social” que é um monstro de duas faces. De um lado sorri as benesses para os desvalidos e do outro mostra a carranca da burocracia e do endividamento.
Incapaz de entender o mundo actual e de enunciar respostas de novo tipo para fazer corresponder as relações sociais de produção ao avanço tecnológico, com estes dirigentes e com esta inépcia a esquerda caminhará, de aventura radical em aventura radical, até escancarar as portas a um fascismo do século XXI.
Por isso precisávamos não de uma “esquerda grande” mas de uma esquerda clarividente que, mesmo quando não ganhasse no presente, estivesse a construir um futuro. Com uma nova utopia.
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quarta-feira, outubro 07, 2009

O fetichismo da maioria de esquerda


Recorrentemente, e por maioria de razão em época de formação de um governo minoritário, regressa a “maioria de esquerda”.
Durante muitos anos, ainda o BE não tinha agrupado os grupelhos, foi um estandarte empunhado pelo PCP para invocar a salvífica convergência política, sempre postergada, com o Partido Socialista.
Com o crescimento acentuado do Bloco nos anos recentes agravou-se a tendência para falar do avanço da esquerda, embora em 2009 o somatório PS+BE+PCP tenha sofrido um retrocesso e o CDS em conjunto com o PSD tenham crescido cerca de 3%.
A própria “esquerda à esquerda do PS”, apresentada como fortíssima com os seus 18% e um milhão de votos, não alcança sequer o nível de 1983 e está muito abaixo de 1979.
Apesar de tudo isto fala-se como se o país fosse maioritáriamente habitado por esquerdistas que só a teimosia do PS impede de se realizarem politicamente.
Dando de barato que existe consenso sobre o que é ser de esquerda persistem ainda assim grandes interrogações sobre a existência da maioria de esquerda.
Já era altura de decidir se o PS, ou pelo menos uma parte dele, é de esquerda ou de direita. Conforme as conveniências o PS é apresentado antes das votações, para lhe caçar votos, como um componente da maioria de direita e depois das eleições, para formar governo, como um componente da presumida maioria de esquerda.
A maioria de esquerda é uma construção que supõe uma base comum em todos os votos do PS, PCP e BE. Mas não seria natural pensar que a fronteira esquerda-direita passa por dentro do PS o que implica, portanto, a necessidade de determinar que parte do PS somar à esquerda e que parte do PS somar à direita? Quantos votantes do PS aceitam, por exemplo, o casamento homossexual ou as nacionalizações no sector bancário?
A cabeleireira ou a lojista que votam no charme grisalho do senhor engenheiro, no parlapié mavioso de Louçã ou na “autenticidade” de Jerónimo são forçosamente de esquerda ?
Mesmo admitindo que haja homogeneidade nos votos do PS, do BE e do PCP ainda teríamos que encarar uma outra dificuldade. Os votos somados dos três partidos equivalem a 55% dos votantes, mas os votantes foram só 60% dos inscritos. Isto significa que nos “partidos de esquerda” realmente votaram apenas 33% dos inscritos.
Os que invocam a maioria de esquerda fazem de conta que os 40% de abstencionistas não existem. Confundem os resultados eleitorais com o “país sociológico” num primarismo de que se pode partir para todo o tipo de equívocos e de desastres.

A maioria de esquerda, sem dúvida desejável, deve ser vista como uma hegemonia ideológica e organizativa a construir pela adesão da maior parte dos portugueses a princípios e projectos humanistas e emancipadores.
Não é um estatuto conjuntural para exercício do poder por vanguardas iluminadas, assente em equívocos, omissões e cálculos que um próximo ciclo político desbarate e dissolva.
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sexta-feira, fevereiro 20, 2009

Esquerdismo serôdio

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Quando alguém diz, como ontem dizia na sua coluna neste jornal Maria José Nogueira Pinto, que "não se pode tratar da mesma forma o que é diferente", falando de "usurpação" a propósito do desejo dos homossexuais de aceder ao instituto do casamento e ao que ele simboliza - a assunção e dignificação social de uma relação -, está a falar a língua da exclusão.
Fernanda Câncio, no
Jugular

Ambos os meus filhos vivem, felizes, em união de facto.
Acabo de descobrir, estupefacto, que para a FC se trata de uma relação a que falta "dignificação social".
Nunca pensei ouvir pessoas de esquerda, com pretensões progressistas, defender o casamento como acto dignificador. O Maio de 68, que tantos oportunistas incensaram recentemente, está aparentemente morto e enterrado.

De exagero em exagero os defensores do "casamento gay" (por mandato de quem ?) estão a provocar, eles sim, um autêntico retrocesso na justa luta pela dignidade dos homossexuais.

A radicalização da linguagem, os anátemas sobre quem discorda e o empolamento de um capricho que nada de substancial resolve estão a provocar uma clivagem absolutamente indesejável na sociedade portuguesa.
Uma clivagem no ponto errado, pelos motivos errados e no momento errado.
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terça-feira, fevereiro 17, 2009

As noivas de S. Sebastião

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O presidente da CIP, o patrão dos patrões Francisco van Zeller, declarou ontem acerca dos despedimentos em empresas com lucros: "Na situação actual, parece-me um bocadinho mais vergonhoso".
Apesar do diminuitivo revela estar preparado para aceitar a proibição de tais despedimentos, ou seja, a proposta mais radical que Francisco Louçã conseguiu apresentar na recente convenção do BE.
O povo fica um bocadinho atónito e desconfiado deste consenso em torno do"capitalismo social".

Também recentemente, na sua moção de candidatura, Sócrates não se conteve e roubou uma bandeira ao BE ao incluir, com grande destaque, o "casamento civil" entre pessoas do mesmo sexo.

Só falta agora o senhor Cardeal Patriarca anunciar que celebrará, ele próprio, na Sé de Lisboa, o casamento gay, colectivo, das "noivas de S. Sebastião", para afastar qualquer suspeita de discriminação já que existem as "noivas de S. António".

Assim não há condições para estar na política. As pessoas matam a cabeça para inventar propostas provocatórias, convencidas de que entalam os adversários mas estes, sem vergonha, apressam-se a tentar caçar também os mesmos votos.

Isto coloca até um problema grave de identidade: afinal quem é quem neste imbróglio? Afinal quem é que é de esquerda e quem é que é de direita?

Por este andar só resta mesmo fazer como antigamente e propor algo de substantivo, uma nova organização social e económica, uma revolução, um socialismo. Dá é mais trabalho e chatices.
Sempre estou para ver se o CDS depois também adere...
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segunda-feira, fevereiro 09, 2009

O megafone, doença infantil

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"Uma esquerda grande contra a ganância do capital" foi o destaque maior da Convenção do BE no fim-de-semana passado.
Segundo Louçã para combater a exploração e a ganância - que é o "nome próprio do capitalismo" - é necessária uma "esquerda grande".

Este discurso faz-me temer mais uma daquelas ondas emotivas em que a esquerda tem sido pródiga e ineficaz. Em plena era digital ataca-se o capitalismo com o velho arsenal dos adjectivos da revolução industrial.
Sem cuidar de encontrar novas formulações e novas respostas cavalga-se a conjuntura que nos caiu do céu aos trambolhões. Mas uma esquerda, mesmo que grande, não pode deixar de ser esclarecida e inteligente.

À falta de verdadeiras propostas de futuro as atenções são agora polarizadas em torno de Manuel Alegre. Por vezes tenho a sensação de regressar à campanha presidencial de Otelo em 1976, com as mesmas esperanças infundadas e com o mesmo tipo de militantes, retóricas e radicalismos.

Neste tempo em que o sistema revela as suas fraquezas e limitações importaria, em vez de gritar a ganância, demonstrar a necessidade e inevitabilidade de uma alternativa ao sistema e não só ao governo.

Neste tempo em que milhares são lançados no desemprego, com reduzidas probabilidades de regressar ao "mercado de trabalho", um partido como o BE devia estar a explicar que o trabalho assalariado não é uma solução natural e muito menos obrigatória. Devia estar a apoiar iniciativas dos desempregados para refazerem as suas vidas em novas bases, adoptando a lógica das cooperativas.

O BE em vez de estar a exigir a proibição dos despedimentos, na prática a continuação da exploração e da "ganância", devia era estar a exigir o apoio do Estado para formas alternativas de organização da produção e da distribuição. Para recusar aos patrões gananciosos o seu bem mais precioso: o trabalho (dos outros) que cria valor.

Fazer crer que o capitalismo é mau porque os patrões são gananciosos induz a falsa ideia de que ele seria aceitável se os patrões fossem moderados.
Ou se trata de uma visão teórica paupérrima ou, ainda pior, de uma forma de convencer "as massas" assumindo que tal só é possível na base das imagens simplistas e da manipulação.

terça-feira, dezembro 16, 2008

Atamancar a política

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Acho extraordinário que um tipo que não conseguiu, apesar de ter desfrutado de duas oportunidades, acertar com os sapatos no George Bush se tenha convertido em herói por todo o vasto mundo islâmico (esta coisa de atacar os inimigos com armas simbólicas nunca foi o meu forte).
Mais extraordinário ainda é o facto de o novo herói do arremesso ter também admiradores laicos na nossa blogosfera.
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domingo, novembro 23, 2008

CARA Left

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"Por sobre tudo isto há um murmúrio de vozes a que ninguém liga quase nada. São as vozes dos jornais, da política, as nossas vozes, que contam muito menos do que imaginamos. São pouco mais do que um murmúrio, visto de baixo como alheio e hostil - no fundo somos "nós" que governamos - e visto de cima como decisivo e importante.
Vale muito pouco para a vida comum da maioria das pessoas e valerá muito menos se se afundar em irrelevâncias, se engolir tudo o que o Governo quer que engula, se se tornar numa patrulha política do pensamento - será que fui racista ao falar do ucraniano? Será que posso descrever os "jovens" assim? Será que estou a favor da evasão fiscal das pequenas e médias empresas? Será que tenho que fazer a rábula da "esperança"? Há de facto muito pouca paciência para estas patrulhas do pensamento que proliferam em tempos de crise."
Público 22.11.2008

Este desabafo, pungente, de Pacheco Pereira é um sinal inequívoco do aprofundamento da crise.

Se um VIP dos jornais, um membro do "Jet Set" mediático e do "beautiful people" dos comentadores se queixa da "patrulhas do pensamento" que diremos nós !?
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