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quarta-feira, dezembro 14, 2011

O teatro e a política

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Há dias eu chamava a atenção para a teatralidade das lágrimas, em plena conferência de imprensa, de uma ministra italiana "forçada" a impor austeridade ao povo.
Agora são os manifestantes que, em vez de pessoas desesperadas e enraivecidas, surgem mais como performers de um teatro social que encanta os media.


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segunda-feira, março 28, 2011

Sinais errados



O jornal i relata hoje dois factos que constituem sinais errados enviados por um partido, o PSD, que se perfila como candidato à vitória nas próximas eleições.


Cavaco Silva prepara-se para promulgar a proposta da oposição que revoga o modelo de avaliação dos professores, sabe o i. O Presidente da República não irá atender ao pedido do governo e não irá enviar para o Tribunal Constitucional o diploma de revogação do modelo aprovado a semana passada pela Assembleia da República. Belém considera que o argumentário do Partido Socialista sobre a inconstitucionalidade da proposta da oposição não é juridicamente correcto.
Apesar de o agendamento da discussão e da votação desta proposta ter sido marcado antes de materializado o cenário de eleições antecipadas, a oposição, e principalmente o PSD, não se livraram da acusação de eleitoralismo. "Uma interrupção feita por uma oposição que está à beira de dissolução do parlamento, num momento em que não há dúvida para ninguém que o que se pretende é destruir aquilo que se construiu, parece-me realmente muito difícil de aceitar", considerou em entrevista à RTP a ministra da Educação. 


Ao menos José Sócrates, para que não digam que eu só mando o homem abaixo, ainda deu alguma luta às corporações. Só depois de muita luta acabou por ceder em toda a linha. O PSD começa já a submeter-se mesmo antes de ser eleito?

O PSD afastou a ideia de pedir, para já, um auditoria às contas públicas do Estado, por pressão do Presidente da República e das instituições europeias, mas não vai deixar que o tema seja omitido durante a campanha eleitoral que se adivinha. "O BPN e o sector empresarial do Estado não podem ficar fora do debate político", diz ao i fonte da direcção laranja. Este passo atrás do líder do PSD pode ainda ser usado como trunfo em Bruxelas para negociar, por exemplo, um empréstimo de curto prazo, se em causa estiver a solvabilidade do país. 
"Isto tem a ver com o medo do que se possa descobrir", refere ao i o economista João Duque, que confessou ter "sentimentos contraditórios" sobre a realização de uma auditoria às contas do Estado. Uma radiografia ao estado das coisas "dava alguma ajuda ao governo que viesse. Mas, por outro lado, correríamos o risco sério e o exercício poderia ter consequências dramáticas", diz o especialista. "Se forem encontradas situações de falseamento das contas, iríamos ver as taxas de juro disparar e iríamos sofrer cortes de rating", sustenta. Pedir uma auditoria nesta fase pode ser considerado uma espécie de "haraquiri nacional", numa analogia com os suicídios protagonizados pelos samurais. 

Isto é como alguém que fosse ao médico e ocultasse uma parte das radiografias. Continuamos numa de economia ficcional? Para isso tínhamos cá o senhor engenheiro que era mestre nessa disciplina.
O mais espantoso é andar um tema destes na primeira página dos jornais (já ontem o Expresso tratava disto).
Penso que o medo da revelação do verdadeiro tamanho do buraco é que justifica os esforços de Sócrates para evitar a vinda do FMI. Mas ficou decidido no recente Conselho Europeu, que Sócrates tanto dramatizou como manobra de diversão, que qualquer ajuda a países em dificuldades terá sempre intervenção do FMI.
O mais caricato disto tudo é verificar que o famoso PEC IV, que Sócrates levou a Bruxelas à sorrelfa, contém medidas em tudo similares às que que o FMI típicamente impõe. O Expresso desta semana publica até um quadro em que compara as medidas tomadas na Grécia e Irlanda, após a intervenção do FMI, com os nossos PEC I+PEC II+PEC III+PEC IV. A diferença não é grande.
Continuamos assim a cultivar o "faz de conta" e a "esperteza saloia" em vez de assumirmos que estamos num grande aperto e que só nos safamos se aceitarmos os sacrifícios necessários. A estratégia de varrer os problemas para debaixo do tapete, seguida ao longo do último ano, com pequenos PECs sucessivos, foi verdadeiramente catastrófica para o nosso futuro..

domingo, março 27, 2011

Para que servem afinal as eleições?





Tudo se complicou quando os discursos substituíram a realidade social pelas vicissitudes da política e as transformações do mundo deram lugar aos fait-divers partidários. Como no mau teatro, os actores foram fingindo que não fingiam, à frente de um cenário que não cessava de desmoronar.

Numa encenação/demissão recente o protagonista não esteve com rodeios. O recém eleito presidente é um parolo que empata a sua visão cosmopolita. O parlamento, eleito no mesmo acto de onde ele extrai legitimidade para governar, é um bando de interesseiros que o impede de continuar a salvar a nação (onde é que eu já ouvi isto?).

Assim sendo, se os eleitos são como ele diz, resta perguntar porque é que continuamos a fazer eleições e a esperar que delas resulte uma solução para o país. O engenheiro e os seus apoiantes, fundados numa razão transcendente que só a eles ilumina, troçarão de qualquer resultado eleitoral que não entrone o padroeiro.

Por isso o período que nos separa do próximo acto eleitoral, que o fanatismo tornará inútil, é uma lenta agonia para o país.
Depois da substituição da realidade pela política assistiremos à substituição da política pelo mais boçal clubismo.
Os devotos de Sócrates, por um lado, e os gentios infiéis, por outro, numa orgia de irracionalidade, como nos estádios, tratarão de forma soez as respectivas mães e gritarão o proverbial "fora o árbitro".

Até que o dinheiro se acabe e venha finalmente o papão.

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sexta-feira, março 25, 2011

Areia para os olhos

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Como já disse encontro-me na ilha da Boavista, em Cabo Verde.
Nesta época do ano as belíssimas praias são varridas por uma brisa constante que transporta consigo uma areia fininha.
Mas ao contrário do que poderia pensar-se não foi na praia, mas frente à televisão, que me foi atirada mais areia para os olhos.

Sócrates conseguiu arranjar maneira de esconder seis anos de governação irresponsável atrás de uma única votação da Assembleia da República. O homem é mesmo um artista português. Palavras para quê?
Já ninguém fala do aumento de 2,9% aos funcionários públicos, em 2009, nem das fortunas gastas num aeroporto "jamais" e num TGVirtual. Sócrates foi eleito em 2009 prometendo mundos e fundos e desdenhando da "velha" que insistia em dizer que estávamos à beira da bancarrota.
Nada disso conta agora. Ele apresenta a AR como um bando de irresponsáveis que o impediu de salvar a nação.

A rejeição do PEC 4 mostrou a toda a Europa que o primeiro-ministro de Portugal se tinha ido comprometer, irresponsávelmente, com medidas para as quais não obtivera prévio consenso. 
A manobra de alto risco destinou-se a entalar a oposição. Sabendo que a Finlândia, em período eleitoral, não permitiria obter uma ajuda externa disfarçada, Sócrates optou por uma cilada ao seus adversários para poder culpá-los da indisfarçável "ajuda externa" que aí vem.

Com acesso previlegiado aos meios de comunicação pôs todos os ministros a debitar a cartilha que tenta convencer o povo da desgraça que é a "ajuda externa" e culpar a Assembleia da República por esse insucesso.

Os problemas de Portugal não são, portanto, o gigantesco endividamento que ele promoveu e a falta de competitividade da nossa economia. O grande problema de Portugal é não o terem deixado fingir que não era "ajuda externa" a "ajuda externa" que ele estava a mendigar na Europa para se manter no poder.

A saída de Sócrates pode não ser suficiente, mas era sem dúvida condição necessária para sairmos do pântano em que nos afundamos.

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terça-feira, março 15, 2011

Go Home

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Emprestado por wehavekaosinthegarden.blogspot



Ele nunca devia invocar a sua legitimidade eleitoral pois ganhou as eleições em 2009 com base numa gigantesca mentira. Omitiu e ocultou o sufocante endividamento do país e prometeu obras faraónicas.
Ele devia perceber que a sua saída se tornou imprescindível na medida em que a maioria dos portugueses já não confia nas suas palavras. É cada vez mais penoso assistir à esquizofrenia dos seus discursos que alternam, trimestralmente, o optimismo delirante com a inevitabilidade dos PECs.
Agora, em mais um golpe de habilidade, vendeu um PEC à Europa, à revelia, e espera entalar os adversários com o facto consumado. Quando lhe disserem que não, demitir-se-á e dirá que não o deixaram salvar o país.

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sábado, fevereiro 12, 2011

Em suma, estamos lixados


A moção de censura do BE, se for rejeitada como tudo leva a crer, constituirá um brinde magnífico para José Sócrates.

Com a sua inegável prosápia, na sequência de uma censura abortada ao governo, voltará a maravilhar os portugueses com a habitual panóplia de sucessos imaginários para perpetuar a colonização do Estado pelos incontáveis boys.
Se os alemães se resignarem a abrir os cordões à bolsa lá virá de novo o fascínio saloio pelas tecnologias, mais uma girândola de renováveis e mesmo novas miragens de obras faraónicas. O Estado Social a crédito pode até vir a render, como sempre tem rendido, um resultado eleitoral geitoso.

À esquerda, o PCP e o BE, incapazes de se reinventar, continuarão a remoer os sonhos inconfessados do capitalismo de estado, disfarçado com o activismo sindical, num caso, e com as propostas fracturantes, no outro.

À direita, o PSD e o CDS, reféns dos velhos poderes económicos, tergiversarão sobre o liberalismo económico. Uma aventura que a população, anestesiada com o biberom dos subsídios e do paternalismo estatal, hesita em aceitar. Mesmo com a expectativa de uma maioria absoluta no parlamento a direita sabe que soçobrará na rua qualquer veleidade de transformação.  

Em suma, estamos lixados.

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