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terça-feira, outubro 07, 2025

LAVAGANTE


LAVAGANTE
"Adaptado da novela homónima de José Cardoso Pires, o filme assinala o centenário do escritor e revive uma história de amor proibido e resistência em plena noite salazarista, onde a paixão se torna acto de desafio à censura e à violência da ditadura."
Trata-se de um belo filme de Mário Barroso, muito bem feito, a preto e branco, sobre o Portugal opressivo dos anos 60 e de algumas vidas precáriamente dedicadas à luta pela democracia. Algo que faz parte da minha experiência pessoal.
Neste filme os mais jovens poderão encontrar um retrato fidedigno do "ambiente" em que se vivia. O "ambiente" em que se vivia durante a ditadura é, na verdade, o mais difícil de "explicar" a quem nasceu em liberdade.
A actriz Julia Palha, no papel de Cecília, enche o filme com a sua bela e misteriosa expressão.
Não podemos deixar de recordar a grande Monica Vitti no filmes do grande Antonioni.

quarta-feira, abril 10, 2019

Terror e Miséria no Terceiro Reich




Terror e Miséria no Terceiro Reich
Bertolt Brecht/António Pires
O texto do Brecht, excelente, propunha-se denunciar a ascensão nazismo a partir do exílio na Dinamarca. Foi escrito entre 1935 e 1938, antes da guerra, e mostra o medo e a cobardia a fazerem o seu caminho na própria intimidade das famílias.
Trazer de novo esta peça aos palcos, neste momento, tem um significado. Retrata a compreensível preocupação com o crescimento dos movimentos populistas por toda a parte.
No entanto eu creio que a demonstração, mais uma vez, da irracionalidade do nazismo e da sua ferocidade talvez não seja a ferramenta ideal para o prevenir. Nem creio que tal demonstração tenha faltado desde que a guerra acabou.
Também duvido da eficácia de uma linha de argumentação baseada na implicita culpabilização do povo anónimo da Alemanha.
O que nós precisamos de estudar e compreender são os erros que os partidos tradicionais cometeram na Alemanha dos anos vinte e trinta. E também o contexto social e económico em que tais erros ocorreram.
O resto foram apenas consequências.
Mas se alguma coisa se pode aprender com este conseguido espectáculo é o valor da tolerância.
Quando assistimos aos jogos de palavras, à medrosa escolha das palavras, às insinuações baseadas em palavras ditas em público, não podemos deixar de nos lembrar do que se passa actualmente nas redes sociais.
Os linchamentos baseados em terminologia e a inquisição semântica em vigor nem sempre são praticados por nazis, nem sequer por pessoas de direita.
Ficha técnica:
Bertolt Brecht, texto; António Pires, encenação; Adriano Luz, Inês Castel-Branco, João Barbosa, Mário Sousa, Rafael Fonseca, Francisco Vistas, João Maria, Sandra Santos, Carolina Serrão, Jaime Baeta, Manuel Encarnação ou Tomás Andrade e Nicholas MacNair (músico), interpretação.

sexta-feira, novembro 25, 2016

Documento delicioso

Documento delicioso
Trata-se de um relatório, feito por "agentes fiscais", que descreve o famoso "Primeiro Encontro da Canção Portuguesa" que teve lugar no Coliseu a 29 de Março de 1974. A preocupação parecia ser a de verificar se os artistas cantavam algo que não tivesse sido aprovado pela censura.
Eu, como milhares de outros portugueses, estive no Coliseu nesta noite fantástica que, sem dúvida, prenunciava a Revolução de Abril.







segunda-feira, março 17, 2014

Uma teleobjectiva contra o fascismo

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Na Primavera de 1973 descobri, por acaso, que estava a ser seguido pela PIDE. Atravessei a Ponte Salazar por engano e, no regresso, estranhei ver de novo o Opel Manta castanho que já no percurso inverso rodava atrás de mim.
Acelerei a fundo o meu potente Alfa Romeo e consegui deixar o Opel para trás, mas de pouco valeu.
Já sabiam onde eu morava e montaram plantão à minha porta.
Eu, tal como a minha mulher, eramos nessa altura empregados muito bem pagos da maior empresa mundial das emergentes teconologias da informação.
Passámos a viver na eminência da prisão, com tudo o que isso significa de instabilidade e desespero. O meu filho mais velho tinha então apenas dois anos.
Cortei todos os contactos clandestinos com o meu partido, o PCP, e comecei a tentar desfazer-me das enormes quantidades de materiais comprometedores que havia em minha casa (em resultado de uma outra história, vivida com o Mário de Carvalho, que talvez um dia seja contada).
Às horas mais estranhas saía de casa, de repente, carregando uma ou duas malas, e arrancava no Alfa Romeo a grande velocidade. Violava sentidos proibidos e invertia a marcha em locais totalmente contraindicados para o efeito.
Rumava à serra de Montachique, aproveitando a longa subida para me certificar de que não era seguido. Procurava um local ermo e largava as malas cheias de panfletos e jornais. Depois voltava para casa e, dias depois, repetia este jogo de gato e rato.
Com a passagem do tempo fomos ficando cada vez mais cansados de espreitar os nossos guardas pela janela, de esperar o desfecho anunciado mas que não se cumpria.
Só assim se explica a reacção que num certo dia não consegui evitar.
Enrosquei a teleobjectiva 200mm na minha Pentax Spotmatic e saí porta fora a fotografar os pides. A teleobjectiva permitia-me obter, à distância de umas dezenas de metros, fotografias bastante nítidas das caras dos agentes que nesse dia montavam guarda junto à minha casa.
Disparei, disparei e eles, com a surpresa, mostravam-se atarantados. Alguns enfiaram-se no carro e desandaram, às pressas. Até houve um que apanhou o eléctrico em andamento e zarpou.
Eu nessa altura tinha em casa um laboratório fotográfico que me permitiu fazer a revelação das fotografias.
No dia seguinte, em envelope carimbado para parecer correspondência comercial, expedi para um amigo que eu sabia poder fazer chegar aquele material ao partido.
Soube mais tarde que essa carta nunca chegou ao seu destino.
Um ano depois deste episódio, a 18 de Abril de 1974, fui preso tal como a  minha mulher.

Gostava de um dia, por milagre, recuperar as imagens daquela inusitada sessão fotográfica…

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segunda-feira, maio 07, 2012

Auroras Douradas


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Os gregos estão a pedi-las e, infelizmente, penso que vão tê-las.

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terça-feira, novembro 23, 2010

Joaquim Gomes

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O Joaquim Gomes foi a enterrar no Domingo passado.
Esta notícia triste fez-me recordar os meus vinte e tal anos quando o conheci.
Eu tinha vindo da Guiné e retomara a minha actividade partidária no princípio dos anos setenta, antes da Revolução.
A primeira vez que nos encontrámos, em Campo de Ourique, depois dos complicados protocolos a que obrigava a clandestinidade, pareceu-me um calmo contabilista por causa do seu trajar convencional e austero.
Essa nossa reunião, de curta duração, decorreu enquanto caminhávamos pelas ruas daquele bairro tão característico de Lisboa.
Depois disso passámos a reunir em minha casa, nas Linhas de Torres, onde por vezes pernoitava. Longos serões de informação política e distribuição de tarefas.
Ele estava então na maturidade dos seus cinquenta e tratava-nos com afabilidade, demonstrando compreensão pelo nosso estatuto de quadros bem remunerados numa empresa multinacional.
Pela natureza das coisas eu não fazia ideia nenhuma de quem ele era nem da sua importância na estrutura do Partido.
Só depois do 25 de Abril, através dos jornais, soube o seu nome.

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sexta-feira, outubro 22, 2010

Variações

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Muda de vida se tu não vives satisfeito
Muda de vida, estás sempre a tempo de mudar
Muda de vida, não deves viver contrafeito
Muda de vida, se há vida em ti a latejar


Já toda a gente percebeu que vamos ter que mudar de vida. Que as políticas e práticas das últimas décadas foram, no mínimo, irresponsáveis e inconsequentes. Que vamos ter que encontrar novos actores, novo texto e nova encenação para podermos construir um futuro com dignidade.
Por isso não consigo compreender como o "circo mediático" se continua a ocupar dos fait-divers da aprovação do orçamento e, mesmo a esse nível, se fale mais dos aspectos processuais e psicológicos do que da substância das propostas e soluções.
Tem que haver alguém que, com revisão constitucional ou sem ela, faça uma ruptura com o passado e apresente aos portugueses uma nova visão da nossa economia e da nossa política. Para que seja possível acreditar que ainda há soluções e saídas possíveis.
Toda a pressão sobre o PSD para que aprove o OE 2011 parece pretender, no essencial, que tal ruptura não se dê e que tal alternativa radical não surja.
Mas os que fazem tal pressão deviam saber que se a alternativa não surgir de dentro dos partidos do regime acabará por eclodir contra o regime.

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segunda-feira, fevereiro 22, 2010

Hannah e Martin

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O Teatro Aberto dá-nos a ver um belíssimo espectáculo sobre as dolorosas tensões entre os grandes princípios e o dia a dia das relações afectivas.
Hannah Arendt e Martin Heidegger conhecem-se na condição de aluna e mestre na Alemanha. A sua relação amorosa passa pela tragédia da guerra e da diferença de pontos de vista sobre a realidade que os divide.

Nada é fácil e não há receitas prontas a usar nesta peça em que Ana Padrão e Rui Mendes lidam brilhantemente com a ambiguidade inevitável das personagens.

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sexta-feira, janeiro 15, 2010

A Moody's não nos conhece, e nós ?

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Vasco Pulido Valente, no Público de hoje faz algumas afirmações no mínimo curiosas, de que respiguei as seguintes:

A agência de rating Moody"s disse anteontem que a nossa economia não corria o risco de "morte súbita", mas corria o risco de "morte lenta". Para a Moody"s, sem uma considerável melhoria da competitividade (e, correlativamente, da receita fiscal) as coisas não têm salvação e o país pode "caminhar para um cenário de aumento de impostos, o que combinado com uma subida dos juros, irá pressionar ainda mais a sua saúde financeira".
... Em suma, para a Moody"s, Portugal está condenado a empobrecer pouco a pouco, sem grande esperança de um futuro, comparativamente, "normal".
... Para um americano, esta conclusão é trágica. Para um português, não é. Desde 1820 que Portugal sempre viveu na iminência de uma morte lenta.
... A Moody"s não nos conhece.

Quando analisamos o advento do liberalismo em Portugal, no início do século XIX, e o destino da Primeira República no dealbar do século XX constatamos que ciclicamente se têm registado em Portugal uns fogachos de progressismo iluminado, com decisiva influência maçónica. Por falta de sustentação económica e de autêntica participação popular tais experiências têm acabado por dar lugar a "longas noites".
O regime saído da Revolução de Abril parece estar a seguir o mesmo padrão.
Esta observação não é muito original e a minha competência para deduzir conclusões é muito precária mas confesso que isto me preocupa.
Parece-me que na nossa vida política, recheada de peripécias ridículas, esta questão tem sido quase sempre varrida para debaixo do tapete.

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sábado, abril 18, 2009

O estranho sabor da Liberdade


Há exactamente 35 anos, num dia anónimo como hoje, começou o meu 25 de Abril. Meia dúzia de pides conduziram-me a Caxias de onde só saí depois da Revolução, para uma Liberdade que mal sabia imaginar.
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domingo, fevereiro 15, 2009

Saudades ?

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Directas do PS reelegem José Sócrates com 96%, Convenção do BE confirma Francisco Louça por 79%, Comité Central do PCP mantém Jerónimo de Sousa com 4 abstenções, e CDS reelege Paulo Portas com 96%.

O único partido que, mais recentemente, se afasta deste padrão é o PSD que na última escolha do líder repartiu os votos por 3 candidatos, tendo Manuela Ferreira Leite saído vencedora com 38%.

E o que me deixa ainda mais intrigado nisto tudo é que o PSD é precisamente o único partido que desce nas sondagens. Será que temos algum gene avesso a escolhas? Ou será saudades da União Nacional?

(texto roubado no "a presença das formigas" com a devida vénia)

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quinta-feira, fevereiro 12, 2009

Ideias perigosas e bolos de creme

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Anda pela Europa uma estranha vaga de pensamentos que faz lembrar um sujeito mal-afamado, de bigode curto e ambições largas. Um inquérito recente, realizado em sete países europeus e noticiado anteontem em diversos jornais, revela que 31 por cento dos inquiridos considera os judeus culpados pela crise económica global. Não só: também acham que falam demasiado do que lhes aconteceu no Holocausto; que são mais leais a Israel do que ao seu próprio país; que têm demasiado poder nas finanças internacionais; e que têm demasiado poder no mundo dos negócios, velho estereótipo que conduziu o mundo ao que se sabe.
Surpresa: a Espanha é um dos países onde tais preconceitos anti-semitas revelam maior adesão, 64 por cento quanto à "lealdade", 74 por cento quanto ao excessivo poder financeiro.Estas percentagens correspondem a um universo de 3500 adultos que, entre 1 de Dezembro e 13 de Janeiro, puderam expressar a sua opinião em países como a Áustria, França, Hungria, Polónia, Alemanha, Espanha e Reino Unido.
...
E Portugal, onde não perguntaram nada sobre o assunto? Vai bem, obrigado. Voltaram os temas fracturantes, gozo de uns e irritação de outros. Os casamentos gay para depois das eleições, primeiro há-de vir o voto, que já puseram a Igreja em alvoroço. Ou a eutanásia, que um grupo de bravos socialistas vai levar ao congresso do PS. Caíram ambos com estrondo em cima do Freeport, como saudavelmente convinha.
Mas, acima de tudo, foi ontem revogada em Diário da República a Lei 4/90, que estabelecia "as características gerais a que devem obedecer os bolos e cremes de pastelaria". Já não é necessária. Há uma lei europeia sobre "critérios microbiológicos aplicáveis aos géneros alimentícios" onde os bolos de creme cabem muito bem.
"Ideias perigosas e bolos de creme", Nuno Pacheco, Público 12.02.2009 (excertos)

sábado, novembro 22, 2008

A oligarquia das corporações

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Esta imagem, publicada em 1911 pelo Industrial Worker mostra como, naquela época, era vista a pirâmide social. Talvez esteja na altura de a reformular por forma a integrar o fenómeno actual das corporações.
As corporações são grupos sociais que se caracterizam pela uniformidade de interesses profissionais ou económicos e pela influência determinante em serviços ou actividades sensíveis ou críticas. Encontram-se nesta categoria os farmacêuticos, os médicos, os militares, os professores, os magistrados e os camionistas por exemplo.
A influência das corporações não tem necessáriamente a ver com poder económico. As classes burguesas tradicionais continuam sem dúvida a exercer na sociedade o poder da sua riqueza. A limitação e controle desse poder, sem dúvida insuficientes, não são objecto deste texto mas esse facto não deve ser invocado para desculpar as corporações.
As corporações conseguem para os seus membros uma influência nos centros de decisão, e as consequentes vantagens profissionais e económicas, que não estão ao alcance da generalidade dos cidadãos. E conseguem-no através da ameaça, mesmo que velada, de fazer perigar os serviços ou actividades cuja realização delas depende.
Nos últimos anos a sociedade portuguesa assistiu a um sem número de querelas, manifestações, greves e boicotes desencadeados pelas corporações contra as decisões do Governo e do Estado ao mesmo tempo que desapareciam as notícias sobre as lutas dos trabalhadores contra os seus patrões privados, estas sim as formas por excelência da luta de classes. Sem correr o risco do despedimento, aproveitando a proximidade dos centros de decisão, tirando partido da sucessão dos governos, as corporações vêm acumulando privilégios enquanto que o grosso da população empobrece e se afasta da democracia.
No espaço público as corporações têm tratamento de luxo. De tal forma que por vezes criam a ilusão de que não há povo para além delas. A educação é discutida pelos professores e a saúde pelos médicos, por exemplo, como se esses serviços não interessassem ao conjunto da população e como se a opinião dos outros portugueses fosse dispensável ou mesmo indesejável.
Estamos assim perante um sistema duplamente viciado. Não só os serviços são enviesados por forma a responder, em primeiro lugar, aos interesses das corporações que os prestam como se obriga o conjunto dos cidadão a pagar, com os seus impostos, toda a sorte de ineficiências, regalias e condições excepcionais.
O caso recente da avaliação dos professores como antes o da saúde, que acabou na demissão de Correia de Campos, excedem em muito a sua importância imediata. Revelam uma contradição do sistema democrático que urge esclarecer sob pena da sua destruição. A "corporação dos deputados", a única que o conjunto dos portugueses, bem ou mal, realmente escolhe, está cada vez mais impotente para resistir à chantagem das corporações "não eleitas" e, como se tem visto, usa frequentemente tais chantagens como arma de arremesso na luta partidária.
A discordância e oposição às decisões de orgãos de soberania são legítimas mas não se podem eternizar. Têm que obedecer a regras muito claras que não tolerem a desobediência a partir do momento em que as leis tornem as decisões políticas definitivas. Tais leis terão então que ser incondicionalmente acatadas sob pena de esboroamento da autoridade democrática do Estado.
Façam-se as alterações legislativas que for necessário e tenha-se a coragem de responder sem hesitar, seja qual for o preço eleitoral a pagar, a qualquer desafio das corporações à autoridade do Estado democrático.
Se tal não acontecer caminharemos para a ingovernabilidade, a oficialização de castas e a oligarquia das corporações.
Depois o caos e uma nova ditadura.
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quinta-feira, novembro 13, 2008

1º Colóquio sobre Pavel

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(clique para abrir)


O resistente antifascista e o homem de cultura - uma homenagem no centenário do seu nascimento. 22 de Novembro às 16 horas, Biblioteca-Museu República e Resistência / Espaço Cidade Universitária.

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quinta-feira, julho 17, 2008

O silêncio dos blogoesféricos





(texto de Rosa Redondo enviado para publicação pela autora)

O filme "Tropa de Elite" de José Padilha é um murro no estômago. Como era de esperar já disseram sobre ele os lugares comuns do costume e já lhe colaram os rótulos habituais. Curiosamente, em Portugal, em especial na blogoesfera, tem-se falado pouco sobre ele; talvez porque temos receio de ser confrontados com alguns cantos mais “obscuros” do nosso íntimo e de ter de pôr em causa alguns dos princípios “bonitos” em que nos apraz fundamentarmo-nos.

Uma excepção é a inteligente crítica que Jorge Leitão Ramos publicou no Expresso de 12 de Julho (“Tiro e Queda”) e que perfilho quase sem reticências.

Acrescentarei só que uma das coisas que o filme nos mostra é que o “sistema” cujos indícios vemos na corrupção “hard” da policia, na corrupção “soft” das ONG, no poder brutal dos bandos da droga, não pode ser desmantelado de dentro, porque se auto-regenera. E o conceito de “de dentro” é muito amplo; inclui o modelo produtivo, social e governativo, o corpo legislativo e judicial, a organização policial...

Há uma frase do capitão Nascimento que não pára de me ressoar na cabeça: “Só rico com consciência social é que não sabe que guerra é guerra.”

Outra grande questão “quente” é a da legalização da venda e consumo de droga. É preciso ter a coragem de a abordar sem moralismos. É já um lugar comum, mas nem por isso é menos verdade, que a “Lei Seca” foi a fortuna dos gangsters.

A ver. Absolutamente.

Rosa Redondo, 17.07.2008

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quinta-feira, maio 29, 2008

Foi você que pediu um Berlusconi ?

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Tem vindo a ser anunciada uma "festa/sessão", com base num "Apelo" rubricado por um vasto conjunto de personalidades que incluem Manuel Alegre, Francisco Louçã e ex-PCPs. Terá lugar no Teatro da Trindade no dia 3 de Junho.

Depois da decadência dos partidos do centro - PSD e PS - estamos agora perante um típico fogacho do esquerdismo oportunista que, como de outras vezes na história, pode vir a ser antecâmara de ditaduras da direita. Quando o povo tiver perdido totalmente a confiança nos partidos “moderados”, sujeito a grandes dificuldades diárias, os pretextos proporcionados por tiradas extremistas farão surgir, do nada, um Berlusconi português ou, quem sabe, um Salazar da era digital.

O problema desta gente, que as sondagens animam, é que não faz os trabalhos de casa; não tem qualquer ideia prática sobre a forma de realizar a justiça que reclama. Nesse aspecto vale mais o Jerónimo, e a sua União Soviética “que ainda há-de vir”, pois ao menos sabe-se do que estamos a falar.
Eles pensam que basta cavalgar as últimas estatísticas sobre a pobreza, mas disso até o Santana Lopes já se tinha lembrado. Não vamos lá com descrições inflamadas da miséria que não são mais do que um disfarce da miséria das alternativas.

O que importa é inventar e preparar um novo mundo que funcione, que convença a maioria, em vez de organizar "AGORA AQUI" festas e sessões à babugem das eleições que se aproximam.

quarta-feira, maio 21, 2008

Quem é Ricardo?




Curta-metragem de José Barahona, com argumento e diálogos de Mário de Carvalho, sobre um interrogatório na PIDE

terça-feira, maio 20, 2008

50º Aniversário da Candidatura de Humberto Delgado a Presidente da República


Sei que estes posts também se fazem de memórias e que nem sempre sou obrigado a escrever prosa “séria”, mal de que muitas vezes padeço.

Tinha 14 anos quando Humberto Delgado se candidatou às “eleições” presidenciais de 1958. Faria 15 anos pouco depois da sua “derrota”.

O que fazia e o que sabia sobre a Oposição.

Vivia em Lisboa, sempre vivi, e estudava no Liceu Gil Vicente. Estava no 4º ano do liceu, com um atraso de um ano escolar em relação à idade. Era filho de uma família oposicionista, que me mantinha mais ou menos bem informado sobre as notícias que fervilhavam na Baixa lisboeta. Os meus pais trabalhavam no Terreiro do Paço. Estava pois a par dos mexericos, dos reboliços, dos abaixo-assinados, das cartas-abertas e de alguns comunicados da Oposição Democrática. Nunca por minha casa, que eu visse, passou o papel de bíblia dos comunicados do Partido Comunista.

Não me lembro se fui informado antecipadamente da chegada do Humberto Delgado à Estação de Santa Apolónia, regressado da sua visita triunfal ao Porto. Soube depois da repressão sobre aqueles que o tinham ido esperar. Um amigo meu contou-me mais tarde que tinha ido com a sua mãe, como quem vai esperar um familiar, à Estação ver o General.

O clima estava criado, todos os dias iríamos ouvir falar daquelas eleições e de Humberto Delgado. Nem eu, nem os meus pais, participámos em qualquer manifestação ou comício, mas todos os dias o tan-tan das notícias me chegava da Baixa.

Os meus amigos à época, que eram colegas de escola, não se interessavam por política. Eram jovens entre os 14 e 15 anos, mais virados para catrapiscar as raparigas que saíam da Escola Voz de Operário, que, na altura, era uma Escola Comercial para o sexo feminino, ou então para jogar bilhar no Largo da Graça. Eu, um pouco mais espigadote intelectualmente, já era mais dado a leituras.

Sei, no entanto, que o furacão Delgado impressionou a todos, foi motivo de conversa e de apoio. Mesmo aqueles que estavam a leste de qualquer preocupação política não deixaram de se entusiasmar com a personagem.

Não me recordo de muitas mais coisas, sei, no entanto, que alguns dos meus amigos foram ou tentaram ir ao célebre comício do Liceu Camões, aquele em que Santos Costa, pôs a tropa na rua. Tive depois a descrição de repressão e do que se passou nas imediações da praça José Fontana.

Lembro-me também que havia um grupo no meu liceu, em que participava o Mário Vieira de Carvalho, que tempos depois se tornou um bom amigo, muito desenvolto, que fazia às claras propaganda do General. Fui avisá-los, com a minha proverbial prudência, que não se expusessem demasiado.

Recordo-me igualmente de uma tia que tinha visto passar Humberto Delgado em Almada e que vinha excitadíssima com a loucura que tinha sido a sua recepção naquela localidade.

Pouco me recordo da campanha do Arlindo Vicente, outro dos candidatos da Oposição, que desistiu a favor do Delgado. Sabia que este tinha sido apoiado pelo Partido Comunista, enquanto que Delgado inicialmente não tinha sido.

Os meus pais, que me recorde, não foram votar, porque não achavam as eleições livres e tinham provavelmente medo de represálias nos seus locais de trabalho. É preciso dizer que os votos estavam separados e facilmente, dada a cor do papel, se distinguia o voto na Situação do da Oposição.

Tudo isto terminou de um modo muito triste para mim e para a Nação. Recordo que fui passar umas férias, das muitas que tínhamos, a casa de um tio, um fascista um pouco encapotado, que no dia em que a Oposição decidiu protestar contra a fraude eleitoral – devia ser Julho –, propondo que todos pusessem luto, não fossem a espectáculos e tomassem outras medidas que ilustrassem a sua indignação, me propôs irmos ao cinema para verificarmos in loco se as pessoas tinham aderido ao boicote. A minha ingenuidade e o desejo de ir ao cinema levaram-me a participar, um pouco a contra gosto, na farsa.

No ano escolar seguinte, acho que mudei de amigos, passei a reunir-me com eles ao cimo da R. Angelina Vidal, facto que já comentei num post anterior. Encontrava-me, para o Fernando Penim Redondo que os conhece, como Victor e o Osvaldo. Um dia, primeiro a medo e depois claramente, começaram-me a falar do “nosso homem”. Este não era outro senão o general Humberto Delgado. A partir daí criou-se entre nós uma amizade, a que depois se juntaram muitos outros, também adeptos do “nosso homem”, que durou para o resto da vida. Todos esses jovens aos poucos foram entrando para o Partido Comunista, alguns, como eu, já lá não estão, mas mantiveram sempre com a esquerda uma forte relação.
PS.: Este texto foi publicado igualmente em http://trix-nitrix.blogspot.com/

sábado, abril 26, 2008

O meu 26 de Abril



Acordei com um barulho inusitado. Não fazia ideia nenhuma de quanto tempo dormira ou mesmo de como viera do interrogatório dos pides até à cela.
A verdade é que não era normal ouvir tanto ruído através daquela porta.
De repente um grito: "assassinos, querem-me matar !"
Saltei da cama e cambaleei até à janela. Um fuzileiro rondava lá em baixo com a G3 às costas, como eu tantas vezes vira fazer nos quartéis da marinha. Algo tinha acontecido pois normalmente não se avistava ninguém daquela janela.
O ruído no corredor da prisão não cessava de aumentar e, sem mais, abre-se o postigo da porta e vejo aparecer a barbicha do rapaz da cela em frente à minha, que eu só conhecia por espreitar pela fresta quando lhe entregavam a marmita da comida (soube mais tarde tratar-se do Miguel Judas);
"diz que houve uma revolta militar e que vamos ser libertados", e desapareceu.
Ainda a tentar encaixar o significado daquilo que ouvira vejo a porta da cela projectar-se para trás e aparecer a figura imponente do "calhau com olhos", tenente Xavier num contexto mais formal.
Era um latagão de um metro e noventa, quadrado, com uma cara enorme pontuada por algumas bexigas. Fora meu instrutor nos fuzileiros e depois, ao mesmo tempo que eu, fizera a comissão na Guiné.
Olhou para mim e disparou: "qué que fazes aqui ?". Eu não tinha qualquer razão para supor que o "calhau com olhos" fosse um gajo de esquerda, antes pelo contrário; "sou acusado de pertencer ao partdo comunista", balbuciei. Fez uma expressão de incredulidade.
"Vai lá para fora" foi o mais elucidativo que o "calhau" conseguiu articular.
Soube depois que o grito que eu ouvira minutos atrás "assassinos, querem-me matar" fora de um preso que vira entrar o "calhau" na sua cela, de G3 a tiracolo, a dizer-lhe, sem mais nem menos, "lá para fora".
No corredor da prisão havia um caos total, cada um tentando perceber se íamos ser fuzilados ou libertados. Ao fim de algum tempo lá apareceu um oficial mais polido que nos explicou o que estava a acontecer.
Então foi só esperar que a junta de Salvação Nacional aceitasse libertar todos os presos e não apenas alguns. A comunhão dentro da prisão era completa e reencontrei a minha mulher que estivera noutra ala.
A meio da noite fomos libertados através de um corredor que rompia uma multidão de milhares de pessoas, que gritavam e erguiam punhos, numa experiência absolutamente inesquecível.
Quando dei com os meus sogros e o meu filho de três anos verifiquei que tinham o para-brisas partido. Alguém que circulava entre a multidão fora acusado de pertencer à PIDE e, na refrega, o vidro partira-se.
Mas quem é que se ralava com uma ninharia dessas ? desandámos todos para casa.
O "calhau com olhos" nunca mais o vi. Gostava de lhe agradecer.
Disseram-me há dias que já morreu. As voltas que a vida dá...
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