terça-feira, junho 03, 2008

As provocações e as alfinetadas do costume


Sobre a “festa sessão” promovida por um conjunto de individualidades, todas oriundas da esquerda, em que se destaca Manuel Alegre e gente do MIC, do Bloco de Esquerda e da Renovação Comunista, além de pintassilguistas, se hoje esta designação tem algum significado, e que terá lugar hoje, no teatro da Trindade, já apareceram provocações e alfinetadas. Darei um exemplo de cada uma.

Assim, na edição electrónica do Semanário vem publicada uma intrigalhada sem pés nem cabeça. Para o autor anónimo deste artigo “Manuel Alegre pode estar a trabalhar para dar de bandeja a Sócrates uma solução política para não cair nos braços da direita em 2009”. Ou seja, a sessão não seria mais de que uma conspiração entre José Sócrates e Manuel Alegre, para o PS, se necessitasse e não tivesse maioria absoluta, poder dispor de um apoio à esquerda. E qual era o objectivo desta tramóia: “o PCP, impedindo-o de subir eleitoralmente”.
Já se sabe que esta descrição omite num série de factos que o articulista não publica ou então, isso é mais grave, aldraba deliberadamente. No primeiro caso está esta afirmação: “Também não é certamente por acaso que no PS parece haver ordem para não atacar o poeta e até lhe ir dando palmadinhas nas costas.” Ora isto não é verdade, dada a reacção que já houve de Vitalino Canas, porta-voz do PS, e de António Vitorino, nas Notas Soltas, da RTP I. Mais exemplos são desnecessários.

Para ilustrar o segundo caso, temos a citação que o articulista faz do célebre artigo de Mário Soares, que diz que quer avisar, “como amigo que é do PS, (d)o perigo real de o PC subir muito eleitoralmente se Sócrates não cuidar da vida dos mais desfavorecidos”. Esquecendo deliberadamente que Soares se referia igualmente ao BE. Mas, como isto não se enquadrava nas intenções do artigo foi omitido.

Este artigo escrito anonimamente num semanário de direita parece, no entanto, favorecer o PCP, o que é estranho. Já não nos admiraríamos tanto se soubermos que aqui há provavelmente mão da Soeiro e que este tipo de artigos, com o ar de quererem desmascarar a cabala, mais não pretendem ser do que insinuações rascas para leitores desprevenidos.

Quanto ao exemplo das alfinetadas, o caso fia mais fino, até porque eu tenho uma história passada, que aproveito aqui para contar, com o senhor das alfinetadas.

Vítor Dias no seu blog, por sinal bastante interessante, e muito menos monolítico que a maioria de outros que seguem a mesma orientação, resolveu recorrer aos seus métodos costumeiros, indo buscar ao passado de Manuel Alegre algumas declarações que entram em contradição como que ele teria dito na entrevista que fez para a SIC Notícias a propósito da tal festa sessão. O assunto até era marginal ao que se estava a discutir, referia-se ao tratado de Maastricht , mas o nosso bloguista não se esqueceu da sua veia estalinista – sabe-se que Estaline tinha um dossier completo de todos os seus colaboradores, para em momento oportuno os poder chantagear se eles fugissem da linha – e lá foi buscar à ficha de Alegre umas declarações que este teria feito ao Expresso, em 1996, que contraditavam o que tinha dito na referida entrevista.

Este método é costumeiro. Ainda a propósito das últimas eleições para a Câmara Municipal de Lisboa, Vítor Dias lá vem com a ficha do Bloco de Esquerda dizendo que este, ainda no mandato de Santana Lopes, tinha votado a favor da permuta de terrenos da Bragaparques e a CDU contra. Bem pôde o Bloco mostrar um vídeo da sessão da Assembleia Municipal, que enquadrava perfeitamente a situação em que aquela votação teve lugar. Mas o Sr. Vítor Dias, na sequência da campanha da CDU, não largava o osso e aproveitava todas as ocasiões para relembrar o facto, nunca tomando em consideração os esclarecimentos prestados.

Ora estas fichazinhas do Sr. Vítor Dias parece que são antigas. Quando da crise entre renovadores e ortodoxo no PCP, estabeleceu-se aqui uma acérrima discussão entre uns e outros. E lá aparecia sempre, uma fichazinha com as posições antigas que Edgar Correia, João Amaral e outros renovadores tinham tomado e em que se provava que eles se contradiziam, ou seja, tinham afirmado uma coisa no passado e diziam outra no presente. Houve ainda outro caso, e essa discussão foi mais assanhada, sobre as posições relativas ao referendo sobre, na altura, a Constituição Europeia, sempre para mostrar as contradições sobre o que se agora dizia e o que se tinha defendido no passado. Eu, sabedor por intermédio do Edgar Correia, já falecido, de que o Victor Dias era pessoa para ter as fichazinhas de toda a gente e ir descobrir o que qualquer um tinha dito anteriormente, comecei a responder a todos os intervenientes e eram vários, chamando-lhes Vítor Dias, que nessa altura, verdade se diga, tinha a responsabilidade da agitação e propaganda, não sei se era este o termo, de todo o PCP. Penso que depois se afastou ou foi afastado dessas lides, o que resultou na feitura de um blog muito mais interessante e, por vezes, verdadeiramente informativo.

Quando já no tempo do seu blog, por impulso de colaboração, resultante dos meus conhecimentos, porque trabalhei muitos anos num cineclube, tentei corrigir-lhe o nome em português de alguns filmes de realizadores que ele publicitava, obtinha sempre como resposta uma troca do meu nome. A princípio pensei que fosse engano, depois percebi que era deliberado. Victor Dias, e com razão, estava-se a vingar de uma maldade que eu lhe tinha feito.

Nunca saberei se todas aquelas intervenções no tal fórum eram ou não dele. Que a prática pelo menos nos dois casos que citei é verdadeira, é um facto. Mas também reconheço que Vítor Dias tem uma boa memória, porque ressuscitou com muito pormenor e, penso, com grande verdade o caso da chegada de Álvaro Cunhal ao aeroporto de Lisboa e o chamado cerco da Constituinte (procurem no seu blog se estiverem interessados nos temas).

6 comentários:

F. Penim Redondo disse...

Caro Jorge

Aqui vai mais uma alfinetada: até pode argumentar-se que esta iniciativa do BE/Alegre favorece a Manuela Ferreira Leite, aumentando as suas chances de ganhar a Sócrates em 2009.

Penso que tu és a última pessoa a poder protestar contra estas elocubrações pois és useiro e vezeiro em analizar as opiniões alheias, por exemplo as minhas, com base no favorecimento que hipoteticamente produzem das forças políticas da direita.

Sempre que se está perante a convergência avulsa e inexplicável de forças políticas, sem base programática sólida (como sucedeu em Itália com efeitos desastrosos para a esquerda), as especulações de toda a ordem nascem como cogumelos.

Um abraço e bom comício.
Deve ser uma experiência tão racional e consequente como assistir a um jogo da selecção nacional. Viva o sempre alegre Ronaldo.

Jorge Nascimento Fernandes disse...

No desejo de dizeres qualquer coisa que pusesse em cheque o meu post, penso que acertas ao lado do que eu disse. Assim, dei o exemplo do artigo do Semanário, porque ele não se baseia em especulações avulsas ou em simples comentários, é uma demonstração de que ao defender-se uma determinada posição, que não é inocente, se altera a realidade e os textos para inculcarmos o nosso veneno. Ora parece-me que não é isso que eu faço, nunca alterei os factos ou os textos para justificar os meus pontos de vista. Assim quando te acuso disto ou daquilo, tento encontrar argumentos racionais para o fazer.
Quanto ao Victor Dias, e tu aí penso que não te referes ele, é uma situação diferente e que foi prática constante do PCP, ou seja, a despropósito de tudo pretende-se desvalorizar as afirmações do adversário, relembrando-lhe declarações antigas, que muitas vezes têm uma justificação histórica ou são desinseridas do contexto em que foram proferidas.
Por isso, penso que não tens razão naquilo que dizes a meu respeito. Quanto à falta de base programática para a reunião desta noite não estou interessado em retomar a discussão do outro dia.
Um abraço

F. Penim Redondo disse...

Descontrai-te, não está em causa nem a salvação da pátria nem a hecatombe. Por isso é melhor descontrair

VÍTOR DIAS disse...

As referências que neste «post» Jorge Nascimento Fernandes faz à minha pessoa conduzem-me, tão secamente quanto possível, a cinco observações que me dispenso de justificar largamente:

1. J.N. F. acusa-me de «estalinista»; eu estou convencido de que ele usa métodos de «estalinismo intelectual» e não sabe e, por isso, atribui a outros aquilo que porventura terá estruturado o seu pensamento e resistido a mudanças de posição (não seria caso raro, pos ele mesmo cita um tristemente já falecido seu companheiro de «renovação» que era um caso típico disso mesmo).

2. É extraordinário que JNF cometa o dislate de escrever que soube através de Edgar Correia que eu tinha «fichas» de toda a gente, dando assim crédito ao maior coleccionador de papéis e apontamentos de reuniões e outra documentação que à época havia no PCP.

3. Informo JNF que não tenho fichas de ninguém; acontece sim é que, ao longo de 20 anos ou mais,devo ter escrito mais de 700 crónicas e artigos e é por memória de ter abordado certos temas ou por pesquisa no disco rigido do computador que reconstituo certos temas, assuntos ou declarações.

4. Descubro com alguma surpresa que afinal JNF é um contentinho com as amnésias reinantes e que detesta a reconstituição de posições passadas. Lá deve ter as suas razões e conveniências para as duas coisas.

5. Por fim, quanto ao caso Bragaparques e BE, quem não liga aos esclarecimentos que prestei é JNF, designadamente quando finge não saber ou perceber que uma deliberação da AM que o BE votou favoravelmente tinha um significado politico e os efeitos práticos que se viram e já a Resolução com que o Bloco procurou salvar a face era um voto pio que, tal como na AR, não vincula ninguèm nem teria quaisquer consequências práticas.

6.Inebriem-se JNF, o BE etc. quanto quiserem com Manuel Alegre. E depois, na próxima campanha eleitoral para as legislativas,quando ele voltar a fazer o papel que sempre tem feito nas campanhas eleitorais para o Parlamento - que é o ser a luva de esquerda para a mão de direita do PS -não se queixem nem se admirem.

Jorge Nascimento Fernandes disse...

Resposta a Vítor Dias

Ora ainda bem que me leu, pois andávamos a brincar ao rato e ao gato por entrepostas referências. Pela sua resposta sei que me ficou com bastante raiva. Eu por mim e como disse no post até admiro o seu blog. Não lhe irei responder no mesmo tom às suas críticas.
Fiquemo-nos por aqui, que eu quando tiver alguma crítica aos seus post a farei na devida altura

VÍTOR DIAS disse...

É sempre o mesmo truque: JNF atribui-me «veia estalinista» e depois vem dizer que eu «fiquei zangado» e pelos vistos terei usado um «tom» excessivo. Chama-se a isto atirar a pedra e depois não só esconder a mão como dizer que se levou uma pedrada de terceiro.
É claro que eu reparei nas referências de certo apreço que JNF dedicou ao «tempo das cerejas».
Mas não era esse o fundo da discussão e eu não tenho que matizar as minhas obervações criticas sobre questões fundamentais só porque JNF é mais equilibrado e sério que outros na avaliação do meu blogue.
Dito isto, até qualquer dia.