terça-feira, abril 28, 2020

A Memória das Prateleiras (7/n) - Filatelias





A Memória das Prateleiras (7/n)
Filatelias
Na estante do corredor está a parafernália dos ábuns de selos, catálogos e pagelas.
Nos anos 80, subitamente, interessei-me pela filatelia.
Talvez porque, sendo eu cioso dos meus silêncios e recatos, me visse forçado pelas circunstâncias a passar o dia numa roda viva de clientes potenciais, projectos informáticos, reuniões técnicas e militâncias plolítico-sindicais.
Não há nada mais fastidioso do que descolar selos, investigar selos nos catálogos, arrumar selos nos albúns e alinhar albuns de selos nas prateleiras.
Mas essas actividades têm um lado favorável; podem ser feitas enquanto se ouve um bom disco de música introspectiva. As estridências da ópera são contra-indicadas.
Ademais da sua qualidade estética os selos proporcionam alegrias de sociólogo e de arqueólogo. Com laivos de descobridor de tesoiros.
Mas é um coleccionismo crivado de tecnicidades, miudezas das serrilhas, impurezas nas gomas do verso, desmaio dos carimbos, datações penosas, vincos indesejáveis e mais uma infindável lista de cuidados e cautelas.
Tornei-me assinante dos CTT para receber as novas emissões e percorri as casas da especialidade à cata das raridades que me faltavam.
Comprava também sacos de selos avulsos, de países improváveis, só pelo prazer de neles descobrir algo de especial, numa espécie de raspadinha "avant la lettre".
Coleccionava "o que é nacional é bom" mas também os PALOPs.
Países como a Guiné serviram, a certo ponto, como "barrigas de aluguer" de emissões espampanantes de selos que nenhum guineense provavelmente lambeu antes de colar. Destinavam-se apenas ao mundo dos coleccionadores.
A certa altura também fiz uma incursão pela abordagem temática, procurando e adquirindo selos onde figurassem computadores e outras maquinetas equiparadas.
A filatelia, tal como veio assim se foi.
Deixou-me algumas prateleiras atulhadas de dossiés, caixinhas, lupas, pinças e guilhotinas para além de milhentos selos novos e usados, envelopes circulados ou virgens e uma caterva de catálogos e guias.
Cá fica tudo à espera de um descendente vindouro que os descubra durante alguma quarentena viral e, numa fúria, os despeje no lixo.

sábado, abril 25, 2020

A Memória das Prateleiras (6/n) - Lições de Mandarim



A Memória das Prateleiras (6/n)
Lições de mandarim
Na prateleira de baixo, muito disfarçados, lá estavam os manuais de mandarim.
Eu visitei a China em 2006 e o choque foi tremendo. Costumo dizer que a China é um planeta de que andámos demasiado tempo alheados, um pouco à maneira do belo filme "Melancolia" do Lars Von Trier.
Tanta gente, e tão laboriosa, sob uma batuta omnipresente dá que pensar.
Quando regressei, à boleia da curiosidade reinante, fiz várias exposições de fotografia com o material recolhido. A principal teve lugar no Centro Português de Fotografia, sediado no Porto.
O meu interesse pelo país tornou-se enorme e, para melhor entender a sua cultura (essa sim, alternativa) resolvi estudar a língua.
Lá andei, disciplinadamente, durante três anos, às voltas com os infindáveis tracinhos e com as especiosas entoações. Cheguei mesmo a fazer um exame de segundo nível, no Instituto Confucio de Lisboa.
Quando voltei à China em 2009 já conseguia trocar algumas frases triviais, sempre à beira do deslize na entoação que invalida imediatamente mesmo a frase mais bem construída.
Cheguei ao ponto em que, para poder progredir, teria que fazer um grande investimento pessoal. Eventualmente ir viver para a China durante algum tempo.
Como tal não era viável suspendi os estudos e entrei naquela rampa descendente em que os conhecimentos adquiridos se vão esfumando por falta de prática,
Mas o interesse pela China permanece, tal como o profundo respeito pelo seu povo e a sua cultura milenar.
Ainda hoje me revolta ouvir qualquer badameco falar do Império do Meio como se fosse uma freguesia da Beira Interior,
Essas pessoas não fazem a mínima ideia da dimensão das questões que criticam, e opinam com prosápia sobre os destinos de um povo antigo e numeroso que não compreendem na sua diversidade.
Uma economia que funciona de acordo com os padrões capitalistas e um Estado comandado por um partido comunista. Esta é uma mistura inédita cujo destina me intriga e interessa, Para já congratulo-me com o facto de centenas de milhões de chineses terem sido tirados da miséria extrema.
Eu sei que a China não é um modelo no que toca às liberdades individuais e à democracia multipartidária, mas tenho dúvidas de que um sistema mais aberto tivesse podido manter, e denvolver, um país tão gigantesco e que partiu de uma base tão precária.
O futuro é uma incógnita mas uma coisa é certa: o futuro da humanidade depende, em grande medida, do futuro da China.

sexta-feira, abril 24, 2020

A Memória das Prateleiras (5/n) - O milagre da música






A Memória das Prateleiras (5/n)
O milagre da música

Num canto da estante envidraçada fui descobrir os livros "de música". Entre eles avultam os catálogos de CDs "clássicos" que eu tanto folheei em busca da versão ideal desta ou daquela sinfonia.
Eu começara aos 18 anos, com um gira discos de plástico oferecido pelo meu pai. Comprava long-playings na rua do Forno do Tijolo, numa casa chamada "Lusolândia", ou algo do género.
As sinfonias do Beethoven, claro, mas também o Concerto Triplo que ainda hoje é uma das minhas preferências (pelo Oistrack, Rostropovich, Richter e Karajan).
O surgimento do CD parecia então fazer o milagre de libertar o ouvinte do crepitar, da mecânica dos gestos e do cotão na agulha para se concentrar na própria música.
Em 1985, na Konig Strass em Dusseldorf, meti um leitor de CDs na mala com que passei, a assobiar, na alfândega em Lisboa.
De Londres, da enorme HMV, trazia carradas de Deutsch Gramophones e mais não sei quantas marcas que ia descobrindo. Vasculhava asteriscos no catálogo da Penguin e lia muito sobre os maestros, pianistas e outros interpretes.
Passava horas e horas de puro prazer, ouvindo como eu dizia "com o corpo todo"; confesso que foi a cura para um longo estado depressivo. A música como uma espécie de pente do espírito.
Percorri todos os períodos e géneros, descobri novos interpretes e o que os distinguia. Esses milhares de horas de audição já ninguém me tira. Às vezes digo que os melhores livros da minha vida foram obras musicais.
Tinha por hábito, que intrigava os meus amigos, meter uma pequena ficha em cada capa onde registava a data das audições. Sabia sempre há quanto tempo ouvira cada disco pela última vez.
De paixão em paixão fui amealhando discos para a velhice, armários a abarrotar com um espólio cerca de 2.000 unidades.
Mas a vida não é linear, chega mesmo a ser traiçoeira. A dimensão da discoteca nada pode contra a perda de audição que vem com a idade.
Hoje, julgo eu, mais do que ouvir com os ouvidos eu oiço com a memória das audições antigas, O cérebro completa as frequências que os ouvidos já não captam.
Mas a música não tem paralelo nas minhas afeições artísticas.

quinta-feira, abril 23, 2020

A Memória das Prateleiras (4/n) - Autocolantes












A Memória das Prateleiras (4/n)
Autocolantes
O dossier contém 800 autocolantes do tempo do PREC, cuidadosamente colados em folhas de cartolina branca e lustrosa.
Náufragos de um tempo de entusiasmos que a pasmaceira actual faz parecer absurdos.
Não havia manifestação ou comício, e eu frequentei tantos que lhes perdi a conta, em que não formigassem por entre a turba os vendedores de autocolantes.
Era a famosa "recolha de fundos" para as mais variadas coisas; desde a construção do "centro de trabalho" até ao obscuro sindicato em dificuldades.
Depois colavam-se no peito, com a prosápia de quem tem a verdade na barriga.
Já nessa altura, mais raros, apareciam os coleccionadores, com mãosadas deles "para a troca". Por onde andarão?
A estética era, por norma, de uma ingenuidade comovente mas também apareciam coisas elaboradas, com origem nalgum coio de intelectuais ou artistas.
As datas raramente figuravam pelo que é hoje muito difícil saber as circunstâncias da sua produção.
Nesses tempos iniciais ainda havia muitas células de empresa, bem como CTs (comissões de trabalhadores).
Tais organizações, que se foram esboroando com o tempo, tinham um carácter, muito especial, de amigos que se deslocavam em grupo para aquelas romarias políticas típicas da época. Eram pessoas que trabalhavam todos os dias lado a lado, em que as sintonias e sincronismos estavam naturalmente garantidos.
Quando tudo começou a girar à volta dos grandes sindicatos e das "concelhias" perdeu-se esse lado convivial e de confiança mútua.
Deixei de frequentar manifestações há muitos anos, perdida por completo a fé na sua eficácia; costumo dizer aos meus amigos mais jovens que lá vão que, se as manifestações mudassem o mundo, nós teríamos implantado o socialismo em 1975. Tantas e tão vibrantes elas foram

quarta-feira, abril 22, 2020

A Memória das Prateleiras (3/n) - A Festa do Avante





A Memória das Prateleiras (3/n)
A Festa do Avante
Mais uma volta e dei com a colecção dos programas da Festa do Avante, Cuidadosamente guardados desde 1976, quando teve lugar na velha FIL, na Junqueira.
Não é fácil explicar nos dias de hoje o que sentia um militante naquele tempo. Entrar na "Festa", na única que podia ser designada com esta solitária palavra, era entrar numa catedral.
Para muitos, como eu, era também entrar numa obra produzida com as próprias mãos.
Durante alguns anos cheguei a "meter férias" para poder participar da construção, no tempo em que tal era ainda muito artesanal. Havia nisso um toque de aventura, desbravar o terreno (literalmente) e poder depois dizer: aquele mastro fui eu que o ergui.
Passei lá muitas noites, em claro, montando guarda aos materiais não se desse alguma investida da reacção.
Na minha empresa vendia bilhetes (EPs) às dúzias e os colegas de trabalho, classe média confortável, davam-me os parabéns no dia seguinte, Curtiam a "Festa".
A minha perda do entusiasmo militante coincidiu com a mudança para o local permanente na Quinta da Atalaia, no Seixal. Deixei de lá ir durante vários anos.
Voltei lá em 2018, com a neta Rafaela pela mão.
Aqui e ali dava de caras com certas caras que me tinham sido familiares nos anos 70 e 80. Uns acenos, por vezes abraços, e um hiato enorme pelo meio.
Lá comemos umas febras, ou uma feijoada, nos indescritíveis restaurantes da "Festa", e marchámos para o palco principal a ver os Gaiteiros de Lisboa.
A iconografia parece parada no tempo mas na "cidade internacional" os stands dos países, e dos "partidos irmãos" sofreram grandes solavancos. A sombra tutelar da gigantesca URSS paira ainda por cima de tudo, mas existe apenas nas memórias dos milhares de visitantes.
Felizmente Cuba, com o seu tabaco e o seu rum, é uma alegria que tudo compensa.
Famílias inteiras mantêm a "Festa" viva, numa espécie de milagre.
À espera da festa definitiva, a do socialismo que tarda em chegar.

terça-feira, abril 21, 2020

A Memória das Prateleiras (2/n) - Revistas de Informática







A Memória das Prateleiras (2/n)
Revistas de Informática

Hoje calhou a vez à minha colecção de revistas dedicadas aos computadores, que teve início nos anos 70.
Na sequência da Revolução andei muito envolvido numa luta que opunha os defensores da criação do Sindicato dos Informáticos àqueles que entendiam ser preferível uma associação profissional.
Eu militava entre os segundos, baseado na ideia de que um sindicato promoveria a divisão, nas empresas, entre os informáticos (já vistos como privilegiados) e os outros trabalhadores.Em cada empresa os informáticos eram uma pequena minoria, a não ser que o negócio da empresa fosse mesmo de venda de computadores.
Acabou por vencer a minha facção (suportada pelo PCP), e foi desse processo que nasceu a Associação Portuguesa de Informática em cuja génese também estive bastante activo.
Guardo a minha colecção de revistas, de que mostro uns exemplos, pois já na altura em que as guardei tive a percepção de que rápidamente se tornariam relíquias arqueológicas,
Meu dito, meu feito. Os jovens de hoje, dos tablets e do instagram deve fartar-se de rir se tiverem pachorra para as folhear.
Para terminar deixo aqui um texto que escrevi no início deste século para que não se perca a raiz das maravilhas que hoje possuímos.
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O conceito digital
inventado por Boole, consiste na representação da informação utilizando apenas dois símbolos ou dígitos binários: “0” e “1”.
Fazendo uma analogia simples: Para escrever um texto em português usamos um conjunto de 23 símbolos ou letras; combinando-as segundo certas regras gramaticais podemos representar todas as palavras da nossa língua. Usando a representação digital, e seguindo também certas regras, bastam-nos 2 símbolos para o mesmo efeito.
Mas enquanto as letras do alfabeto apenas servem para escrever texto, os dígitos binários podem igualmente representar qualquer imagem ou som. Na verdade, na medida em que a informação digital é hoje tratada por dispositivos electrónicos, em vez de “símbolos” será mais correcto falar de “estados”. Todo o dispositivo que possa assumir dois estados, por exemplo “aceso” ou “apagado”, está em condições para tratar informação digital. Por exemplo, uma simples lâmpada com um interruptor, num dado momento ou está acesa ou apagada e esses estados podem ser interpretados como “1” e “0” respectivamente.
Teòricamente, com uma lâmpada poderíamos compor e transmitir um texto. Tudo dependeria do seu tamanho e da velocidade de manipulação do interruptor! Na prática os dispositivos electrónicos têm circuitos que efectuam biliões de mudanças de estado por segundo. Como todos podemos comprovar os nossos computadores pessoais apresentam-nos em fracções de segundo textos mais ou menos longos e imagens mais ou menos complexas que estão registados nas memórias de armazenamento em enormes sequências de dígitos binários organizadas segundo certas regras, e que os processadores convertem em imagens ou frequências sonoras captáveis pelos nossos sentidos.
Esta extraordinária simplificação permite às máquinas lidar com informação complexa sem que essa complexidade afecte o rendimento; e é por isso que se tem verificado um aumento galopante da velocidade de processamento e da capacidade de armazenamento que não se traduz, antes pelo contrário, num aumento do preço dos dispositivos.
Outro aspecto muito importante da representação digital da informação é a sua fiabilidade, nomeadamente quando está em causa a transmissão à distância. É mais fácil garantir a exactidão de apenas 2 símbolos, mesmo que ocorrendo em grande numero, do que por exemplo a da infinidade de frequências sonoras de uma peça musical.
Sem a invenção da representação digital, não teria sido possível a explosão do acesso planetário à informação através das redes de computadores, e não se teriam registado os progressos científicos das últimas décadas. No entanto, esta revolução iniciada no sec XIX, está longe ainda de ter esgotado as suas virtualidades e, tal como aconteceu com a invenção da imprensa, é previsível que acabe por provocar uma viragem profunda em termos de civilização

domingo, abril 19, 2020

Parábola da árvore chamada "Estado"




Parábola da árvore chamada "Estado"
(fotografia de Louis Dallara)

Era uma vez um campo abandonado.
Como acontece em casos que tais as ervas proliferavam numa alegre sinfonia de verdes.
E viviam muito felizes ao sabor das estações; na Primavera deitavam as suas flores, quando as tinham; no Verão amadureciam e mirravam com a canícula, o que no Outono dava ao campo um ar despido e raso; no Inverno suportavam as geadas e as inundações pluviais.
Eram todas quase do mesmo tamanho, raramente excediam dois palmos de altura.
Até que um dia houve uma, mais introspectiva, que lhes disse:
"Amigas, a nossa vida seria muito mais agradável se pudéssemos evitar os abusos do sol e do vento.
Precisávamos de ter um obstáculo que impedisse esses dois flagelos."
Toda a assembleia, que por natureza estava sempre reunida, concordou com o reparo.
E houve alguém que lançou uma ideia:
"Se tivéssemos uma árvore entre nós ficaríamos protegidos. Vamos escolher uma das ervas e ajudá-la a crescer muito para além da nossa altura"
Assim fizeram, durante anos a erva escolhida foi alvo de todas as protecções e substâncias favoráveis.
Deu de crescer que era uma lindeza. Ramo após ramo ergueu-se sobre as suas amigas.
Baptizaram-na "Árvore do Estado".
Anos a fio protegeu a comunidade vegetal com a sua sombra no pino do estio, e com a sua copa quando se armava vendaval e desabava o céu em dilúvio.
Viveram tempos de prosperidade e harmonia.
Mas, como sempre na vida, as coisas lentamente começaram a mudar.
A árvore nunca mais parou de crescer.
Eram pernadas e mais pernadas, folhagem e mais folhagem, até que começou a ajoujar com o peso da estrutura.
Por baixo deixou de ser ver o sol, quer de Verão quer de Inverno.
As raízes estendiam-se num enorme raio e drenavam a humidade e os alimentos de que as pobres ervas necessitavam para subsistir.
Como se tal não bastasse no Outono as folhas caídas da Árvore Estado aterravam sobre as ervas criando uma camada, cada vez mais espessa, que as subterrava.
A pouco e pouco as ervas foram desaparecendo.
A Árvore do Estado ficou só, no meio do campo
Já ninguém percebia o sentido da sua existência.

quinta-feira, abril 16, 2020

A Memória das Prateleiras (1/n) - A Vida Soviética









A Memória das Prateleiras (1/n)
A Vida Soviética

Deambulando pela cave fui dar com as encadernações da "Vida Soviética". Todos os números desde 1975 até 1985, forrados a vermelho e com letras doiradas.
Há quem não tenha a noção de que a URSS durou apenas 17 anos depois da Revolução Portuguesa.
Até se desintegrar em Dezembro de 1991 exerceu um enorme fascínio sobre os militantes comunistas e outros progressistas portugueses.
Os traumas dos anos sessenta nunca tinham encontrado uma alternativa às "velhas" democracias burguesas e, nesse vazio, impunha-se o poderio da URSS.
Derrubado o fascismo, no momento em que tudo parecia possível, não havia outro modelo que rompesse com o status quo capitalista e com o odiado imperialismo americano cujos feitos no Vietname haviam marcado toda uma geração.
A revista "Vida Soviética", que surgiu em Maio de 1975, uns meses antes do balde de água fria do 25 de Novembro, cumpria a missão de ilustrar as bondades do gigantesco país dos sovietes.
Nela se podiam confirmar, com belas fotografias, as grandes realizações sociais como a igualdade das mulheres, os feitos no desporto e nas artes e até as percursoras preocupações juvenis com o ambiente e a natureza.
Também se mostrava que a URSS dispunha de imensos recursos naturais, fazia avanços decisivos nas tecnologias espaciais e dispunha de umas forças armadas ao nível de qualquer ameaça. Com a derrota patriótica do nazismo sempre presente.
Visitei a URSS em 1980 (Moscovo, Cazaquistão e Sibéria) e em 1988 (Moscovo, Kiev e Leninegrado). Antes e depois do início da Perestroika.
Em 1985, curiosamente, sobem ao poder, quase em simultâneo, Gorbatchov e Cavaco Silva.
Os anos que se seguiram, entre 1985 e 1991, foram de grande perturbação para os partidos comunistas, em todo o lado, e os militantes comunistas foram postos perante um desmoronamento insuportável. A influência dos comunistas nunca mais foi a mesma.
Eu tinha 48 anos quando vivi esta experiência dolorosa de ver acontecer algo, o desaparecimento da URSS, considerado impossível.
Quis o Covid 19, e o confinamento geral que ele impôs (outro impossível que acabou por acontecer), que eu me cruzasse de novo com a "Vida Soviética".
Os últimos 17 anos da Guerra Fria, entre 1974 e 1991, foram o período políticamente mais rico da minha vida.
A eles voltarei uma e outra vez.
Especialmente agora que tantos neo-soviéticos, as mais das vezes sem saber que o são, demonstram de novo a inexistência de uma outra verdadeira alternativa económica e social para um mundo que revela sinais de degenerescência.

terça-feira, abril 14, 2020

Os velhinhos



Costa admite que idosos possam ficar confinados mais tempo. "Não é guetização, é proteção"

A "preocupação" actual com os "velhinhos", e a ameaça de confinamento prolongado, é especialmente revoltante quando vem daqueles que deixaram que nos lares de idosos, sem sair à rua, morressem como tordos.

sexta-feira, abril 10, 2020

Confinamento na cidade ou confinamento no campo?


Confinamento na cidade
ou confinamento no campo?
As insistências na limitação das deslocações, nomeadamente as operações stop na estrada, podem constituir um erro grosseiro.
As pessoas que pertencem a grupos de risco, mas não só, deviam até ser aconselhadas a fazer confinamento nas suas segundas casas em zonas de baixa densidade populacional, onde a probabilidade de encontrar pessoas é muito pequena.
Ao morar num prédio de dez andares em Lisboa, ou noutra zona urbana, somos forçados a partilhar o elevador e outros espaços comuns com outras 20 famílias sempre que precisamos de ir às compras ou à farmácia.
As casas secundárias no campo, ou junto à costa, têm muitas vezes logradouros onde se pode viver o confinamento de forma mais saudável para o corpo e o espírito.
O confinamento não deve ser tratado como um castigo mas estritamente como um meio de tornar os contágios mais improváveis.