terça-feira, junho 30, 2020

João Cayatte



No meu 75º Aniversário, há cerca de um mês,
o meu filho Mário resolveu dar-me uma prenda, em forma de supresa. Pediu a um conjunto de 27 pessoas, artistas e outras figuras públicas, que relatassem as impressões que lhes causavam algumas fotografias minhas.
Nesse grupo estão alguns velhos amigos meus mas também pessoas que só conheço pelas suas obras ou actuações.
O Mário escolheu as fotografias tendo em conta as supostas idiossincrasias de cada convidado. Poucas ou nenhumas informações foram dadas sobre a data, e o local, da captação das imagens.
Estou a publicar um depoimento por dia.
Hoje é o dia do João Cayatte, a quem agradeço.
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segunda-feira, junho 29, 2020

Herman José


No meu 75º Aniversário, há cerca de um mês,
o meu filho Mário resolveu dar-me uma prenda, em forma de supresa. Pediu a um conjunto de 27 pessoas, artistas e outras figuras públicas, que relatassem as impressões que lhes causavam algumas fotografias minhas.
Nesse grupo estão alguns velhos amigos meus mas também pessoas que só conheço pelas suas obras ou actuações.
O Mário escolheu as fotografias tendo em conta as supostas idiossincrasias de cada convidado. Poucas ou nenhumas informações foram dadas sobre a data, e o local, da captação das imagens.
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domingo, junho 28, 2020

Filipe Faísca



No meu 75º Aniversário, há cerca de um mês,
o meu filho Mário resolveu dar-me uma prenda, em forma de supresa. Pediu a um conjunto de 27 pessoas, artistas e outras figuras públicas, que relatassem as impressões que lhes causavam algumas fotografias minhas.
Nesse grupo estão alguns velhos amigos meus mas também pessoas que só conheço pelas suas obras ou actuações.
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sábado, junho 27, 2020

Fernando Gomes




No meu 75º Aniversário, há cerca de um mês,
o meu filho Mário resolveu dar-me uma prenda, em forma de supresa. Pediu a um conjunto de 27 pessoas, artistas e outras figuras públicas, que relatassem as impressões que lhes causavam algumas fotografias minhas.
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Eurico Carrapatoso



No meu 75º Aniversário, há cerca de um mês,
o meu filho Mário resolveu dar-me uma prenda, em forma de supresa. Pediu a um conjunto de 27 pessoas, artistas e outras figuras públicas, que relatassem as impressões que lhes causavam algumas fotografias minhas.
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quinta-feira, junho 25, 2020

António Avelar de Pinho



No meu 75º Aniversário, há cerca de um mês,
o meu filho Mário resolveu dar-me uma prenda, em forma de supresa. Pediu a um conjunto de 27 pessoas, artistas e outras figuras públicas, que relatassem as impressões que lhes causavam algumas fotografias minhas.
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quarta-feira, junho 24, 2020

Ana Quintans


No meu 75º Aniversário, há cerca de um mês,
o meu filho Mário resolveu dar-me uma prenda, em forma de supresa. Pediu a um conjunto de 27 pessoas, artistas e outras figuras públicas, que relatassem as impressões que lhes causavam algumas fotografias minhas.
Nesse grupo estão alguns velhos amigos meus mas também pessoas que só conheço pelas suas obras ou actuações.
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terça-feira, junho 23, 2020

Alberto Gonçalves



No meu 75º Aniversário, há cerca de um mês,
o meu filho Mário resolveu dar-me uma prenda, em forma de supresa. Pediu a um conjunto de 27 pessoas, artistas e outras figuras públicas, que relatassem as impressões que lhes causavam algumas fotografias minhas.
Nesse grupo estão alguns velhos amigos meus mas também pessoas que só conheço pelas suas obras ou actuações.
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Anúncio, propaganda, etc.


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Mais uma grande ideia do Mário Redondo
Grato a todos os que me deram os parabéns de forma tão bonita

sexta-feira, junho 19, 2020

A Memória das Prateleiras (50/50) - Já fui



A Memória das Prateleiras (50/50)
Já fui

Chegámos à prateleira número 50. É tempo de parar.
Nos últimos dois meses, desde 15 de Abril, publiquei 50 crónicas de confinamento, neste tempo em que todos fomos forçados a olhar para o interior.
Quando percorro a casa os objectos vão sugerindo temas, que gravitam sempre à volta das minhas manias; fotografia, política, poesia, tecnologia, filmes, livros, viagens, música...
Até eu me surpreendi, tão numerosas as sugestões me pareceram. Tive a sensação de que poderia continuar eternamente às voltas pela casa, com coisas a saltar-me das prateleiras. Ainda por cima tenho prateleiras em duas casas.
Visto de outro ângulo o conjunto dos escritos resulta autobiográfico; somos todos, de certa maneira, novelos de histórias e obsessões.
Agora que estamos a desconfinar cada vez mais resolvi parar ou, digamos, suspender estes escritos (talvez haja uma segunda vaga de Covid).
Vou acrescentar algumas coisas à definição de mim próprio, feita há tempos, com base naquilo que já fui. Depois do Covid ficaram a faltar-lhe as palavras confinado, desconfinado, desinfectado, mascarado, distanciado.
Felizmente não tenho que acrescentar a palavra "contagiado" à lista que se segue:

JÁ FUI
Já fui criança, adolescente, adulto, maduro, cota e velho.
Já fui caixeiro, e fiz inquéritos a domicílio.
Já fui empresário, tecnólogo, dos sistemas engenheiro,
analista, programador e sindicalista.
Já fui poeta, marinheiro, combatente, tenente e fuzileiro.
Fui repetente, caminheiro, doente, paciente, mal da vista,
atleta, maratonista.
Já fui director, articulista, melómano, coralista, professor,
cineclubista, fotógrafo e artista.
Já fui amigo, inimigo, traído, embarretado e vivaço.
Já fui pobre, remediado, e abastado.
Já fui empregado, patrão, cliente, fornecedor, accionista,
reformado e distribuidor.
Já fui clandestino, fanático, militante, orador e talvez Irritante.
Já fui prisioneiro, conspirador, clubista, por mundo distante.
Já fui viajante, turista e navegante.
Já fui escritor, filatelista e coleccionador.
Já fui vizinho, proprietário, senhorio, condómino e arrendatário.
Já fui filho e neto, irmão e primo, tio e sobrinho, padrinho e afilhado.
Já fui marido, namorado e apaixonado.
Já fui pai e avô.
Ainda me falta ser defunto, mas o tempo
resolverá também esse assunto.
Poderei então dizer, em todos os sentidos,  e definitivamente
JÁ FUI

quinta-feira, junho 18, 2020

A Memória das Prateleiras (49/n) - Fábula para 2050



A Memória das Prateleiras (49/n)
Fábula para 2050

Alguém disse que os 1.300 milhões de chineses são, neste momento, o mais importante recurso natural do planeta e que o século XXI será, em grande medida, o resultado da forma como tal recurso vier a ser usado. 
Resistindo ao mecanicismo de tal opinião prefiro dizer que o futuro da sociedade humana será brutalmente influenciado por aquilo em que se tornarem os incontáveis chineses (e também os indianos). 
Estamos a redescobrir a China como se fosse um novo planeta, não só pelo seu gigantismo mas também pela estranheza que sentimos perante a sua cultura milenar, a sua caligrafia impenetrável e o ineditismo das suas soluções económicas e políticas.
Um partido comunista, com poderes quase absolutos, aceitou fazer singrar a economia com base num receituário que parecia, à partida, ideologicamente inaceitável. Vendeu a única coisa que tinha, uma gigantesca força de trabalho. Mas vendeu barato, como chamariz, para construir uma classe média.
Agora usa essa gigantesca classe média como forma de pressão sobre todos aqueles que dependem de tão enorme mercado para escoar os seus produtos. E a pouco e pouco vai aprendendo a substituir essas importações muitas vezes comprando as próprias empresas a quem adquiria os produtos.
Só que ninguém consegue perceber o que o que fará a China, para lá da tarefa hercúlea de tirar da miséria extrema centenas de milhões de homens e mulheres.
Esse enigma paira sobre as nossas cabeças: estarão apenas congelados os grandes princípios do comunismo, aguardando as condições económicas e tecnológicas para se realizar? ou aquilo a que estamos a assistir é um mero sonho nacionalista que apenas pretende vingar as humilhações históricas da China através do domínio económico do mundo globalizado?
Como não sou adivinho prefiro escrever uma fábula com horizonte em 2050:

Foi em 2020 que a tendência começou a ser notada.
Algumas empresas, médias e grandes, com antigas tradições europeias, transferiram as suas sedes para a China. Em certos casos encerraram as operações na Europa.
Por volta de 2030 o processo tinha-se tornado comum e alastrara aos Estados Unidos.
Só cá ficaram os pequenos comércios, fabriquetas e oficinas sem capacidade económica para partir.

Instalou-se um sentimento de perplexidade, de perda, perante esta nova emigração.
Muitas destas grandes empresas que partiam já anteriormente não pagavam impostos nos seus países de origem mas, enquanto tiveram empregados nesses países, os Governos tinham, ao menos, podido taxá-los para acorrer aos enormes gastos sociais.
Os sindicatos mostravam uma certa desorientação, não sabendo muito bem o que fazer sem capitalistas e sem os grandes grupos económicos..

Comissões  de especialistas nomeadas pelas autoridades concluíram que as empresas tinham deixado de achar interessantes, ou seja rentáveis, as suas operações na Europa.
Os europeus, diziam eles, já não eram atractivos nem como trabalhadores assalariados nem como consumidores. Comparativamente pouco numerosos estavam de tal forma endividados que tornavam penosa a operação de os espremer para tirar algum sumo.

Foi nesse momento, depois de perderem definitivamente o alibi de acusar quem os explorava, que os europeus inventaram uma nova forma de organizar a produção social que suplantou, em produtividade e humanismo, tudo o que o mundo até então conhecera.

quarta-feira, junho 17, 2020

A Memória das Prateleiras (48/n) - DL Juvenil




A Memória das Prateleiras (48/n)
DL Juvenil


Estava para começar este texto com uma referência, de passagem, ao Diário de Lisboa. De repente reparei que os meus leitores que tenham menos de quarenta e cinco anos nunca devem ter tido a oportunidade de comprar um exemplar do jornal.

Convém explicar-lhes que o DL era um vespertino que foi publicado entre 1921 e 1990. Nesses tempos "à atrasado" havia jornais que saíam ao fim da tarde, sim.
O cidadão lia os da manhã, com as noticias da véspera e podia ler também os da tarde, que já falavam de coisas acontecidas no próprio dia.
Convém lembrar que a SIC Notícias e os noticiários permanentes ainda não tinham sido inventados.

Para quem tenha curiosidade, e queira saber mais sobre o DL, informo que todos os números do jornal foram digitalizados e estão disponíveis no site da fundação Mário Soares.

Ora esse jornal tinha, nos anos 60, um suplemento chamado "Juvenil", coordenado pelo Mário Castrim e depois também pela Alice Vieira que se tornara sua mulher. Nesses tempos escuros da ditadura o jornal, em tamanho tabloide, disponibilizava quatro páginas para obras literárias enviadas por autores jovens.

Entre 1965 e 1967 publiquei lá quinze vezes, quase sempre poemas mas também uma reportagem e uma crítica de cinema. Depois, tudo se modificou. Em Setembro de 67 entrei na Escola Naval e passados oito meses estava em guerra na Guiné.

No Juvenil publicaram alguns jovens que vieram a prosseguir uma carreira literária e outros, como eu, que seguiram caminhos mais prosaicos. Em qualquer dos casos a obra de Mário Castrim, como fomentador de talentos, nunca será suficientemente elogiada.

Foi durante esse período em que escrevia no "Juvenil", e ia ansiosamente buscá-lo à Praça do Chile para não ter que esperar pela distribuição nas papelarias do bairro, que fui recrutado para o PCP. Um momento chave para o resto da minha vida.
Quando agora leio os poemas que publiquei no "Juvenil" em 1965, vejo um jovem à procura da sua identidade, mas quando leio os poemas de 1967 já consigo divisar o militante empenhado. Aqui ficam dois poemas que mostram este salto.

POR ENTRE AS GRADES (18 de Maio de 1965)

O meu problema
é nunca saber quem sou
O meu EU é uma multidão de eus
Um monte de máscaras
que se põem ao sabor do momento

Por vezes só vejo para além do que vejo
Outras sinto-me uma pedra entre as pedras
Um bicho no meio dos bichos
inconsciente

Ser lúcido é compreender isto
Se eu fosse só um
não era lúcido era só um
Se eu fosse só um
era um prisioneiro sem poder olhar por entre as grades


SAUDAÇÃO (9 de Maio 1967)

poema para childe, brecht,
komarov, apolinário e
para vós todos astronautas
para todos os que se esmagam
(mas principalmente para os que sobrevivem)
por perseguir horizontes

para todos os astronautas
de todas as fábricas a fazerem
parafusos e chapas e plásticos e ferramentas
com que se sonham as máquinas
que dão novas dimensões cósmicas
à liberdade de movimentos
do homem

para todos vós pescadores do futuro
o meu braço acena
das cavernas primitivas às crateras da lua
pois o mundo é passível de modificação
e eu recebi em plena face
trazida plo vento da tarde
a última mensagem da cápsula que se despenhava
e que dizia em código
que por cada flor estrangulada
há milhões de sementes a florir

terça-feira, junho 16, 2020

A Memória das Prateleiras (47/n) - Confesso que vi...vi!



A Memória das Prateleiras (47/n)
Confesso que vi...vi!
Há muitos anos vi o filme "Falstaff" (Chimes at midnight, 1965) de Orson Welles.
Desde então há uma frase que nunca mais esqueci: "Jesus, as coisas que nós vimos".
No filme Welles usa textos de várias peças de Shakespeare mas a cena que aqui me interessa está em Henrique IV (II), terceiro acto.
Dois velhos rememoram junto a uma lareira:

SHALLOW
Ha, cousin Silence, if only you’d seen what this knight and I have seen!
Ha! Am I right, Sir John?
FALSTAFF
We've seen the clock strike midnight, Master Shallow.
SHALLOW
We sure have, we sure have, we sure have. I swear, Sir John, we sure have. Our slogan was “Down the hatch, boys!” Come, let’s have lunch, let’s have lunch. Jesus, the days that we have seen! Come, come.

O próprio Welles, que além de realizador foi o interprete de Falstaff, considerava que o tema central do filme eram as amizades traídas. A mim, o que mais me tocou foi o peso da velhice, o peso do que foi visto durante uma vida longa (que inclui as amizades traídas, bem entendido).
Não falo genéricamente das memórias que carregamos no fim da vida, falo especialmente de tudo o que vimos com os olhos e o cérebro. A maior parte das nossas percepções e interacções com o mundo faz-se através da visão.
Esse filme que fizemos com os nossos olhos, durante 80 anos, é uma obra descomunal. Se qualquer casamento de uma sobrinha produz um video com dezenas de gigabytes, imaginem o que seria necessário para conter o filme da nossa vida.
É verdade que vamos fazendo a "compressão" da informação, temos muitas "pastas zipadas" na nossa mente (queira Deus que não se perca nunca o softare para as unzipar).
Também temos as câmaras fotográficas e as fotografias, claro.
Não deve ser por acaso que juntei quase quinhentas máquinas e com elas gastei centenas de rolos de filme. Reconstruindo memórias das próprias câmaras. objectos cuja principal função é criar memórias para os outros. Amor com amor de paga.
Esse processo de recuperar e dar sentido ao passado estende-se, no meu caso, a uma outra obsessão: manter organizadas e fácilmente acessíveis centenas de milhares de fotografias que fui fazendo ao longo dos últimos 60 anos. Imagens que nasceram sob a forma de filme, a preto e branco ou diapositivo, mas também as catadupas que o processo digital propiciou.
São imagens de todos os géneros, desde as estritamente familiares até às de viagem ou feitas para projectos de carácter artístico.
Este tipo de acervo, e o estudo do seu significado, fez-me um dia cunhar o termo vitafotologia. Pode ser que pegue.
Desde que nascemos e abrimos os olhos iniciamos um processo que nunca terá fim; interpretar e dar sentido àquilo que vemos. Começa por ser algo desfocado, manchas que se movem, depois rostos que se tornam familiares e o resto do mundo vem por arrasto.
Julgo que o fascínio da fotografia está aí. Na esperança que temos, até ao fim, de encontrar revelações emocionantes em cada imagem.
Se, fisicamente, somos aquilo que comemos, espiritualmente somos aquilo que vemos.
As milhentas imagens que me rodeiam, são uma memória exterior em permanente diálogo com a memória interior. Uma biblioteca imensa onde procurarei sempre, sem encontrar um livro com a minha verdadeira biografia.

Parafraseando Pablo Neruda, e o título da sua autobiografia: Confesso que vi...vi!

segunda-feira, junho 15, 2020

Memória das Prateleiras (46/n) - Virar a mesa do jogo






Memória das Prateleiras (46/n)
Virar a mesa do jogo

Em 1993, como membro da CT da IBM, participei numa experiência muito interessante. Fizemos uma Assembleia Geral para votar as qualidades dos  directores de topo da empresa, incluindo o Director Geral. As suas qualidades tal como eram percepcionadas pelos empregados seus subordinados.

Eu estava na CT desde 1981, consecutivamente, e uma boa parte do tempo tratávamos de questões relacionadas com as "reformas antecipadas", coisa que foi muito fomentada pelos governos com o pretexto de arranjar emprego para as novas gerações. Hoje queixam-se do peso das pensões de reforma no Orçamento do Estado.

A motivação das empresas era admitir jovens que ganhavam ordenados muito inferiores aos trabalhadores, mais experientes, que eram substituídos.
A partir dos cinquenta anos os empregados da nossa empresa, como de outras, começavam a estar sujeitos a propostas de cessação do contrato de trabalho. Em contrapartida tinham direito a compensações financeiras para suportar os anos remanescentes até à idade da reforma estabelecida na lei.

A CT era muitas vezes chamada a analisar os aspectos económicos da proposta mas, em muitos outros casos, o trabalhador precisava era de apoio psicológico. Sempre que se sentia demasiado pressionado para sair ou quando tinha a sensação de que o seu trabalho estava a ser injustamente tratado como descartável.

Foi neste quadro que nos pareceu interessante fazer os gestores de topo sentirem "na pele" o que custa ser julgado e, eventualmente, injustamente avaliado. Abaixo deste grupo de nove directores do topo havia dois ou três díveis hierárquicos pelo que as chefias intermédias, numerosas, representavam à volta de vinte por cento do total dos efectivos.

O boletim de voto (imagem que figura neste post e em que os nomes dos gestores visados foram substituídos pela expressão "Director A, B, etc" foi distribuído três dias antes da Assembleia em que se realizou a votação. Para ser ponderadamente preenchido.

O boletim continha uma lista de qualidades "positivas" que se podiam, ou não, atribuir a cada um dos gestores, escolhendo uma classificação de 1 (aplica-se muito) até 5 (não se aplica de maneira nenhuma). A classificação de 1 a 5 era aquela que se usava na empresa para avaliação do desempenho de todos os trabalhadores.

Como se compreende o anúncio de uma tal iniciativa causou um certo alvoroço, tendo mesmo o Director Geral, ele próprio avaliado no "Inquérito",  feito publicar um comunicado manifestando a sua preocupação. A CT respondeu com a promessa de discrição na publicação dos resultados para o exterior e estranhando que eles fossem antecipadamente considerados  depreciativos para os visados.

No dia 3 de Junho de 1993 foram recolhidos quase 200 votos, que correspondiam a cerca de 30% da força laboral da empresa.

Cada um dos nove directores de topo da IBM ficou a conhecer o que pensavam dele, e por quê, os empregados que haviam participado na votação.

O director mais bem classificado obteve "muito bom" em 11 dos 14 critérios considerados. Os três piores classificados não obtiveram "muito bom" em qualquer dos critérios. O Director Geral em funções alcançou apenas um "muito bom".
Houve quem tivesse 4 ou 5 classificações de "muito mau".

Poucos meses depois a IBM procedeu uma grande remodelação da Direcção da Companhia e tornou-se evidente a influência dos resultados desta votação organizada pela CT. Com a saída dos "maus" e a promoção dos "bons".
A IBM mostrava mais uma vez não ser uma companhia qualquer.

Numa empresa com nível salarial muito elevado, condições de trabalho muito acima da média e dispersão dos trabalhadoes por projectos em grande parte executados "em casa" dos clientes, as formas de luta sindicais eram quase sempre invulgares.

Mas a correcta adequação das reivindicações, e a imaginação no desenho das formas de luta, deveriam na verdade ser uma preocupação constante em qualquer sector de actividade e em qualquer tipo de empresa.

sábado, junho 13, 2020

A Memória das Prateleiras (45/n) - Pula Lei e Pula Grei




A Memória das Prateleiras (45/n)
Pula Lei e Pula Grei

Muito se tem dito e escrito sobre a melhor forma de comemorar os grandes acontecimentos em tempos de pandemia.
Ainda recentemente o nosso querido Presidente Marcelo Rebelo de Sousa apresentou a sua versão, desunindo meia dúzia de pessoas em cadeiras tresmalhadas no vetusto claustro dos Jerónimos.
O 25 de Abril decorreu na Assembleia da República, em forma adelgaçada, sob uma chuva de críticas quiçá injustas. O Presidente da Assembleia declarou, enfático, que não alinhava em mascaradas mas ninguém o levou muito a sério.
O primeiro de Maio teve lugar na Alameda. Com os participantes alinhados e respeitando a geometria das engenhosas marcas colocadas no relvado. (Eu sei que é inconveniente mas não consegui enxotar da memória umas coisas em que participei, contra vontade, no Estádio Nacional, ao serviço da Mocidade Portuguesa).
Nos dias subsequentes discutiu-se interminávelmente o trajecto dos autocarros até ao local da manifestação e o tipo de objectiva que tinha sido usado nas fotografias feitas durante o dispersar da multidão. Com uma teleobjectiva, dizia-se, é possível mostrar qualquer grupo de cidadãos como se fosse sardinha em lata ou carruagem da linha de Sintra. Jogando com a perspectiva.
Mais a Norte muita gente iria à Cova de Iria, mas na verdade, ninguém lá foi.
Com todas estas vicissitudes em mente, e bastante preocupado, encontrei esta reportagem de umas comemorações não sei de quê, ocorridas num país que não lembro, em ano que não recordo.
Talvez possamos tirar dela alguns ensinamentos para o futuro. Aqui vai:
À hora aprazada, abriram-se as portas do salão nobre e começaram a surgir na varanda alta, de mármore, os presidentes.
O senhor presidente da comissão comemorativa, os senhores presidentes dos partidos da oposição, o senhor presidente do partido do governo, o senhor presidente da assembleia, o senhor presidente da câmara, o senhor presidente do governo e o senhor presidente da república.
Por trás, em magote, avultavam aqueles que nestas coisas fazem sempre de cenário.
As colunas da fachada suportavam a custo o peso de tantas gravatas, comendas, faixas e medalhas que, ao longo das décadas, fizeram do país aquilo que ele é hoje.
E então começaram os discursos comemorativos.
Um dos oradores explicou piedosamente que “comemorar” significa relembrar em comum. Como vivemos em democracia, no povo que enchia a praça fronteira, vinte metros mais abaixo, havia quem pensasse que as arengas eram demasiado “cume moratórias”.
No momento mais solene a banda tocou o hino e a bandeira foi içada.
Sem que nada o permitisse prever, os notáveis da varanda galgaram um degrau invisível e ficaram empoleirados no parapeito de pedra, de mãos dadas, gritando “pula lei e pula grei”. Logo pularam para o vazio, esmagando-se no empedrado.
Foi um gesto supremo de abnegação republicana, que deixou o povo um pouco enojado e com cara de orquestra que se vê obrigada a tocar sem maestro.
Só muito mais tarde se percebeu que esse acto heróico o tinha finalmente convencido a assumir as suas próprias responsabilidades.
O povo tomou o destino nas suas próprias mãos, e estrangulou-o.

sexta-feira, junho 12, 2020

A Memória das Prateleiras (44/n) - Excursões de Finalistas




A Memória das Prateleiras (44/n)
Excursões de Finalistas

Naquele tempo as excursões de finalistas ainda não eram uma indústria, nem faziam títulos de jornais.
Em 1961 eu era finalista do equivalente ao nono ano actual e fiz a minha primeira viagem internacional, a Madrid. Em 1964, quando já frequentava a universidade, no ISCEF, participei numa viagem do Técnico a Paris.
Ambas as deslocações foram feitas de combóio, quase sem dinheiro, num ambiente que pouco tinha a ver com o que se passa hoje. Mas não se pense que estou a falar de puritanismo. Como verão, as viagens também tiveram o seu lado picante.
Foam jornadas longuíssimas, com certos troços ainda feitos em combóios a vapor.
No caso da ida a Madrid, ainda me lembro de ter passado a noite no combóio. Havia paragens em desoladas povoações de Castela, com um ar poeirento que contrastava com o muros caiados do nosso lado da fronteira.
Chegámos a Madrid ao amanhecer e fomos transportados para umas instalações estudantis, na Casa de Campo, com bastante frio. Tudo era frugal, as camas muito básicas e os duches não tinham água quente.
Levaram-nos depois, em romagem, como era de esperar, ao Vale dos Caídos.
Houve duas coisas que me impressionaram imenso em Madrid; haver semáforos em todos os cruzamentos e as guapas salerosas e pestanudas, que subiam e desciam a Gran Via (o centro de Madrid teve entretanto a degradação de todas as grandes cidades e agora, quando lá vou, lamento não sentir o deslumbramento daqueles tempos).
A noite de regresso a casa, com toda a malta estafada e amontoada a esmo, e as carruagens na semi-obscuridade, selou alguns primeiros beijos de namoros juvenis.
A viagem a Paris, feita três anos mais tarde, durou umas intermináveis 34 horas, incluindo um transbordo; largando um combóio em Irun e tomando outro Hendaye. Os alojamentos em Paris situavam-se no Quartier Latin, em àguas furtadas, como se fossemos artistas românticos. Eu, com 19 anos, conseguira espremer do meu pai umas parcas centenas de escudos para viver nove dias na dispendiosa “cidade luz”.
Na manhã seguinte precipitei-me, porta fora, para me ir encontrar com uma correspondente (sim, nessa época trocávamos cartas), que vivia em Chartres mas prometera encontrar-se comigo junto ao obelisco da Place de la Concorde.
Ainda estou para saber como me orientei no Metro, algo novo para mim. Ao sair no destino, quando subia a escada para a superfície, avistei um casal que se beijava longamente na boca. Olhei em volta, à espera de ver um polícia interropmpê-los. Era essa a experiência que levava de Lisboa. Percebi então que me encontrava num mundo diferente (ao longo dos anos, até à Revolução de 1974, sempre que ia a Paris, passava o tempo no cinema para ver uma carrada de filmes proibidos em Portugal).
Mas voltemos à Place de la Concorde. Estou ao pé do obelisco, uma enorme peça de pedra vinda de Tebas, onde durante milénios tinha ornamentado a entrada do palácio de Ramsés II. Mas isso não interessa nada pois o meu radar girava em volta, tentando descobrir a tal moça de Chartres.
Esperei, esperei e desanimei. Quando me preparava para abandonar o infausto local fui interpelado por um senhor de bigode (ver na fotografia) que me pediu para o retratar ao pé do pedregulho.
Confidenciou ser saudita e estar em Paris para uma reunião de trabalho; era empregado, como não podia deixar de ser, numa petrolífera (vim a conhecer mais tarde um saudita numa reunião internacional; o homem não conseguia perceber as nossas discussões sobre salários brutos e salários líquidos pois desconhecia o flagelo dos impostos).
O nosso saudita de la Concorde fez-me então uma proposta surpreendente. Como carecia de um compincha propôs-me acompanhá-lo durante aqueles dias, e que não me preocupasse com as despesas.
Ora eu, que já praticava remo no CNL, e alcançava um bom palmo a mais que o Abdulah, não me sentia em risco de me tornar vítima de abuso sexual. Por isso aceitei confiadamente.
Durante uma semana fomos companheiros inseparáveis, e fizemos um bom inventário de Pigalle e de outros centros culturais. Fomos ao Crazy Horse, ao Moulin Rouge e a muitos outros animados santuários femininos. Coisas que teriam sido impossíveis sem os subsídios do Abdulah.
Quando acabaram esses dias felizes, em que fui eu a viver à custa dos xeques (e dos cheques) do petróleo, e não o costumeiro inverso, sentia-me a cinderela ao soar das doze badaladas.
Abasteci na mercearia, com os poucos francos que me sobraram, uns yogurtes e umas maçãs e lá embarquei no combóio para Lisboa com tal farnel.
Ao pararmos em Irun, para o transbordo, já me encontrava bastante depauperado. Não resisti, e pedi ao meu amigo Jorge a caridade de uma sandes jamon. A melhor que comi em toda a minha vida.

quarta-feira, junho 10, 2020

A Memória das Prateleiras (43/n) - Uma parábola para Saramago



A Memória das Prateleiras (43/n)
Uma parábola para Saramago

Descobri Saramago com "Levantado do Chão", que me maravilhou, muito antes de ele se tornar famoso. O "Memorial...", o "Ricardo Reis...", "O cerco de Lisboa" e o "Evangelho..." também deixaram em mim marcas muito fortes. Não tenho dúvidas sobre a sua enorme estatura literária.
Tenho, porém, cada vez mais dificuldade em ler os seus últimos livros. Estou convencido de que, em arte, é muito mais importante mergulhar nas dúvidas, nas perguntas e na complexidade, do que partir de uma base simplista de certezas.
A grandiosidade das metáforas de Saramago cada vez mais me parece inquinada por uma arrogância apologética que é, por natureza, o contrário da arte tal como a concebo. Por alguma razão Saramago convenceu-se de que lhe competia vestir-se como um misto de juiz e de pitonisa o que costuma, tarde ou cedo, levar à produção de obras enfadonhas.
Esta nova fase de Saramago é uma afloração do vício que vem atacando o pensamento progressista, ou que assim se julga. De modo um tanto infantil julga-se que todas as chagas do mundo têm que ter um culpado, e um culpado que faz o mal de propósito. Nos casos mais agudos da doença esse culpado é sempre o mesmo.
Explicando melhor, em linguagem futebolística: são como aqueles avançados que tendo à sua frente espaço para progredir, ou boas "linhas de passe", insistem em ir ao encontro dos defesas para os fintar e acabam por perder a bola.
A mim o que me atormenta são os fanatismos, o vício humano de querer impor aos outros, de forma mais ou menos violenta, os comportamentos "correctos". E, como Saramago devia saber, os fanatismos não são exclusivo das religiões e baseiam-se quase sempre em livros.
Nesta conformidade resolvi, também eu, produzir uma parábola de pendor moralista, que dedico ao nosso genial Prémio Nobel. Aqui vai:
De repente as pessoas começaram a perder a memória. Levantavam-se de manhã e não sabiam quem eram. A memória do eu desvanecia-se em poucos instantes, como aqueles sonhos que sonhamos e se esvaiem por entre os dedos mal nos levantamos.
As pessoas que agora descobriam uma existência sem identidade não marchavam, imaculadas e atónitas, por entre os clubismos dos outros. Os clubismos tornam-se impossíveis quando ninguém sabe quem verdadeiramente é.
Ninguém sabia qual o seu clube, nem o seu partido, nem a sua condição social, nem a sua família. De um momento para o outro também tinham desaparecido antigas embirrações, melindres e ódios.
Ninguém ousava a violência por não saber se quem a sofreria não era afinal o seu amigo ou o seu irmão. Ninguém acusava ou incensava os outros por não saber que pecados próprios, ou heroísmos, carregava consigo sem saber.
Não havia remorsos nem vaidades. Cada um tinha que conviver com a sua natureza mais profunda finalmente liberta das camadas que a etiqueta social lhe sobrepusera, numa espécie de nudismo do espírito.
Os dias eram feitos de interrogações sobre o porquê de se estar ali e todos partilhavam as deduções, pois só em comum tinham a possibilidade de inventar um significado para as suas vidas.
Durante as primeiras semanas ainda houve os que tentavam resistir ao sono para preservar, por mais algum tempo, as descobertas de cada dia. Acabavam sempre por adormecer e esquecer.
Até que todos se convenceram de que não restava aos homens senão redescobrir-se e redescobrir os outros, renascidos sem rótulos, todos os dias da sua vida.
Foi então, que um tipo mais empreendedor, criou uma app para telemóvel que, mal é ligado, nos faz um update e nos informa de tudo o que importa saber para sermos aquilo que somos.
Ganhou uma pipa de massa.