sexta-feira, maio 01, 2026

PROJECTO GLOBAL


PROJECTO GLOBAL
O filme de Ivo Ferreira ajuda a repensar finalmente o radicalismo armado de esquerda dos anos 80, em plena democracia.
Ponho-me a pensar sobre o efeito deste filme em quem não viveu o 25 de Novembro e os "anos de chumbo" que se lhe seguiram. Não chego a nenhuma conclusão.
Quem, como eu, viveu esses tempos na militância do PCP esteve mais protegido dos desesperos e desvarios que o filme mostra. Ou seja, eu percebo como as pessoas das FP-25 chegaram ao ponto a que chegaram. Mas não aceito que a "esquerda folclórica" (como nós diziamos então) tenha transformado o seu irrealismo vagamente simpático numa tragédia sangrenta.
Eu sei que a ideia da insurreição, que o próprio 25 de Abril como que santificou, nunca foi posta nas suas proporções, ou seja, mesmo os partidos responsáveis nunca explicaram que as insurreições podem substituir regimes políticos mas não substituem sistemas sócio-económicos ("modos de produção" nos termos de Marx).
Por isso não faz sentido dar tiros em alguns "patrões" avulsos, por muito gananciosos que sejam, como forma de acabar com o capitalismo e, ainda menos, do imperialismo.
As ideologias mal assimiladas, aprendidas em panfletos de resumo, continuam infelizmente a existir passados 46 anos.
Entre o 25 de Novembro 75 e 1980, o início das FP-25, o povo votou duas maiorias da AD de direita, acima dos 45%. Nas presidenciais de 1980 Otelo, o símbolo do 25 de Abril, teve menos de 1,5% dos votos.
É preciso estar completamente alienado da realidade social, a funcionar num circuito fechado de amigos consensuais, para pensar que o povo só espera alguns atentados e bravatas para derrubar o capitalismo (mesmo que fosse claro o que seria posto no lugar dele).
Foi com nostalgia e assombro que assisti ao filme e ao descalabro inevitável em episódios que, conspirativamente, oscilavam entre o ridículo e o trágico.
Os espectadores interessados podem aprender muito com este filme de excelente manufactura. Por exemplo, o mal que pode vir das verdades absolutas e da diabolização dos adversários políticos. Também é importante perceber de onde vêm os verdadeiros perigos e que forma têm os mais perigosos adversários. Tal como em 1980 contiuamos a ver exorcizar o "fascismo", quando aquilo que realmente se perfila no nosso tempo vem sendo designado por "tecno-feudalismo".
Males que perduram e a que as redes sociais deram novo alento.
Não sei por que razão o filme é projectado com legendas em inglês. Alguém se esqueceu de que os portugueses estão, desde pequeninos, automatizados; quando surgem as letrinhas há que as ler rapidamente. Agora imaginem o inferno de estar a ler em inglês enquanto se ouve em português. É pena.

terça-feira, fevereiro 10, 2026

Presidenciais 2026


 

quarta-feira, dezembro 31, 2025

Batalha atrás de batalha


Batalha atrás de batalha
Não procure respostas neste longo filme de Paul Thomas Anderson. No fim do filme temos mais perguntas do que tínhamos ao entrar no cinema. Aqui vão algumas:
1. A acção (incessante) do filme é uma versão romanceada de coisas que aconteceram? De coisas que podiam ter acontecido? Ou de coisas que se prevê/deseja que venham a acontecer?
2. O filme quer falar-nos dos combates que travamos sem esperança de ganhar? São combates que nos fazem sentir vivos? Anarquia é só aquilo que nos resta?
3. A história do filme é uma metáfora do destino da esquerda?
4. A imigração massiva pode trazer para a América as revoluções típicas do terceiro mundo?
5. O que é que tudo isto tem a ver com Trump?
Não sei porquê, mas ainda bem que não perdi este filme

sábado, dezembro 06, 2025

A Esquerda à procura de nova Utopia

 


A Esquerda à procura de nova Utopia


Já ninguém nega a crise da esquerda, crise que eu lamento profundamente. Os maus resultados eleitorais começaram por atingir o PCP, desde os anos noventa, mas acabaram por estender-se ao BE e ao PS.
Para perceber melhor o que aconteceu decidi experimentar um quadro cronológico dos “modos” de ação dos principais partidos da esquerda e, por razões que explicaremos mais adiante, do Chega.
Os quatro “modos” são o “utópico”, o “pragmático”, o “sindical, e o “memória”. A caracterização dos “modos” está feita mais acima. Se tivesse de usar uma só palavra diria que a “utópico” associo esperança, a “pragmático” ligo segurança, “sindical” relaciono com protesto e “memória” rima com nostalgia.
No quadro apresentado mais acima, uma visão pessoal aberta a contestações, pode ver-se que:

Antes do 25A
PS e PCP eram os únicos partidos relevantes que funcionavam antes do 25 de Abril.
Operavam até essa data essencialmente em “modo utópico” dada a imprevisibilidade quanto à data da queda do regime e à natureza do que se seguiria. Também faziam reivindicações específicas, claro, mas a sua expressão nacional nesse aspeto era muito reduzida.
O PCP ganhou direito ao respeito e admiração da grande maioria dos portugueses pela tenacidade com que enfrentou a ditadura salazarista. Isso levou muitos jovens da minha geração (incluindo eu) a aderir à luta pelo derrube do regime, mas tal só aconteceu porque o PCP, para além da libertação do fascismo, tinha também o seu lado “utópico” de criação de uma sociedade de novo tipo.

O PS
Depois do 25 de Abril o PS, partido de governo, adotou o “modo pragmático” que consistia essencialmente na promessa de promover algo parecido com o que existia nas social-democracias do norte da Europa. Havia um modelo, portanto, que esteve na base de alguns sucessos eleitorais. As maiorias de Cavaco, entre 1985 e 1995, puseram em causa a liderança do PS na execução do modelo social-democrata. A bancarrota de José Sócrates abalou definitivamente essa liderança. Costa, com a sua “Geringonça” de esquerda, e a subsequente inoperância dos “casos e casinhos”, arruinou definitivamente imagem de pragmatismo do PS.
O partido foi remetido para o “modo sindical”, que só rende eleitoralmente em situações muito particulares.

O PCP
Nos pós 25 de Abril o PCP, para quem o “modo sindical” era congénito, dada a sua composição de classe, manteve em paralelo um intenso “modo utópico” até ao desaparecimento da URSS no início dos anos 90.
O lento declínio eleitoral do PCP veio na sequência do Cavaquismo e do desmoronamento da URSS.
Desaparecido o modelo de sociedade alternativa, e sem capacidade para se recriar, o PCP tornou-se essencialmente o mais eficaz dos partidos que praticam o “modo sindical”, recorrendo à sua implantação histórica na Intersindical e nas autarquias. Tal eficácia foi seriamente abalada pela participação na “Geringonça”, que lhe impôs cedências e conivências. O número de sindicalizados e as autarquias com maioria PCP têm vindo a diminuir ano após ano.
A incapacidade para interpretar o impacto das tecnologias do século XXI reduziu fortemente a credibilidade das suas reivindicações e propostas.
O envelhecimento da sua base de apoio, criada nos tempos do seu “modo utópico”, tornou o PCP um partido que atualmente vive em paralelo o “modo sindical” e o “modo memória”. Com forte erosão eleitoral.

O BE
O Bloco de Esquerda, de criação muito mais recente, começou a sua atividade com uma certa aura “utópica”, nomeadamente no plano da preservação ambiental e das “causas fraturantes”. Teve sucesso fulgurante nas camadas urbanas educadas, impulsionado por um acesso desproporcionado aos meios de comunicação. Praticando um vanguardismo por vezes arrogante, e sem implantação no “país real”, acabou por ser vítima da vacuidade das suas propostas e manifestações. A passagem pela “Geringonça” provocou uma certa erosão na sua imagem independente e radical. Está em decadência acelerada pois, ao contrário do PCP, não tem um lastro eleitoral.

O Chega
Deve ser mais do que uma coincidência cronológica o nascimento do Chega na sequência da “Geringonça”. Portanto no ponto mais baixo da credibilidade “utópica” e “sindical” dos partidos que costumavam ser os depositários de descontentamentos mais ou menos difusos.
O Chega apareceu para retomar o “modo utópico” de que certas camadas estavam carentes (omitindo aqui qualquer consideração sobre a bondade ou pertinência de tal utopia).
Os descontentamentos difusos são especialmente atreitos a soluções mágicas e redentoras.
A nova utopia, um mundo puro sem corruptos e sem vizinhos perturbadoramente exóticos, explica aparentemente a misteriosa transferência de votos de alguns partidos de esquerda, no Alentejo e na “cintura industrial”.
No discurso do Chega o “capitalista” é substituído pelo “corrupto” e o “capitalismo” é substituído pelo “sistema”. Novas categorias mais difusas, mais abrangentes e que requerem menos aptidões intelectuais.
A imigração, neste contexto, é o necessário inimigo externo tal como os corruptos são o inimigo interno. Ambos impedindo a pureza do povo para se afirmar e prevalecer como destinatário exclusivo da ação política.
O ar do tempo é favorável ao Chega.
As tecnologias proporcionadas pela nova IA tornam quase impossível a destrinça entre realidade e ficção, terreno em que o partido de Ventura vive como peixe na água.
A política internacional vai dando pistas ao Chega para singrar com a palavra de ordem “Fazer Portugal Grande Outra Vez”.

Para repensar a Esquerda
Os três partidos da esquerda, têm-se mostrado incapazes de reconstruir a sua aura “utópica”, mesmo quando os desenvolvimentos tecnológicos tornam mais credíveis novas relações de produção e novos níveis de democracia direta.
Num mundo em dramática e acelerada transformação a necessidade da utopia sobe em flecha; sempre foi e continua a ser a forma mais eficaz de interessar e motivar as pessoas para a ação política.
Mas esquerda passou ao lado das transformações do “povo votante”, e das novas formas de comunicar. Mais grave foi a sua omissão nos processos de transformação do capitalismo. Enquanto se preocupava com as relações de produção “arcaicas”, em vias de extinção, verificou-se a criação de uma casta de super-ricos digitais, que precisam cada vez menos de viver da exploração dos seus assalariados (basta-lhes explorar os utilizadores/clientes).
Mas não foi só o “modo utópico” que falhou; os partidos de esquerda partilham algumas práticas que tendencialmente vão minando a sua credibilidade enquanto “pragmáticos” e mesmo “sindicais”.
De uma forma genérica pode dizer-se que os partidos de esquerda tendem a responder aos problemas práticos com tiradas constitucionais, princípios abstratos e limitações legais.
No caso das greves ferroviárias na cintura de Lisboa, por exemplo, com graves problemas para centenas de milhares de pessoas, respondem com a imutabilidade da Lei da Greve, mesmo quando ela causa sofrimento aos utentes e não ao patrão.
Outro exemplo: as questões do sistema de saúde, as suas falhas e difícil acessibilidade. Os partidos de esquerda parecem quase sempre mais preocupados com a dicotomia público/privado do que em encontrar soluções viáveis.
Mesmo no que toca aos preceitos da Constituição há uma rigidez que não toma em consideração o carácter excecional do período em que foi concebida; o ambiente insurrecional ainda muito presente, influenciado pela experiência soviética numa lógica de omnipresença e omnipotência do Estado, na sociedade e na economia.
A omnipresença e omnipotência do Estado, na sociedade e na economia, coisa que a história já mostrou o que vale, continua aliás a ser a proposta utópica da esquerda, de forma mais ou menos assumida.
Um exemplo disso é a responsabilização do Estado pelo acesso de todos os cidadãos a uma “habitação digna” sem se perceber como, e com que meios, tal se realizará.
Estas e outras abordagens proclamatórias irrealistas, que omitem a realidade económica, são uma constante fonte de desilusão e desconforto. Como nunca houve clarividência para as atualizar por consenso das forças moderadas não é difícil prever que acabarão, um dia, por ser desfiguradas por alianças maioritárias com a extrema-direita.
O descontrole da imigração e os casos judiciais sem fim, como o da Operação Marquês, constituíram um poderoso combustível para as percepções (corrupção e caos étnico) em que assenta o crescimento do Chega.
Como se tudo o que já foi dito não bastasse há também a dificuldade em substituir os grandes líderes históricos da esquerda por políticos com um mínimo de estatura.
Sem se repensar todas estas questões não é possível uma nova dinâmica vitoriosa da esquerda em Portugal

terça-feira, outubro 07, 2025

LAVAGANTE


LAVAGANTE
"Adaptado da novela homónima de José Cardoso Pires, o filme assinala o centenário do escritor e revive uma história de amor proibido e resistência em plena noite salazarista, onde a paixão se torna acto de desafio à censura e à violência da ditadura."
Trata-se de um belo filme de Mário Barroso, muito bem feito, a preto e branco, sobre o Portugal opressivo dos anos 60 e de algumas vidas precáriamente dedicadas à luta pela democracia. Algo que faz parte da minha experiência pessoal.
Neste filme os mais jovens poderão encontrar um retrato fidedigno do "ambiente" em que se vivia. O "ambiente" em que se vivia durante a ditadura é, na verdade, o mais difícil de "explicar" a quem nasceu em liberdade.
A actriz Julia Palha, no papel de Cecília, enche o filme com a sua bela e misteriosa expressão.
Não podemos deixar de recordar a grande Monica Vitti no filmes do grande Antonioni.

sábado, abril 26, 2025

Cuido meu rio interior





sexta-feira, março 07, 2025

O maior perigo para a Europa


O maior perigo
Vai ser preciso unir todos os democratas contra este assalto. Quem não perceber este desafio é melhor deixar a política e dedicar-se à pesca.
Neste contexto é totalmente irresponsável o que tem sido a postura do Pedro Nuno Santos, reduzindo a política a um jogo de suspeições, ao estilo do Chega, com inversão do ónus da prova.
Se o PS nos atirar para eleições estará, inconscientemente, a abrir a porta das traseiras à barbárie.

quarta-feira, dezembro 25, 2024

O QUARTO AO LADO


 

O QUARTO AO LADO
é um grande filme de Almodóvar.
O ponto de partida é simples; uma amiga dispõe-se a acompanhar a eutanásia de uma mulher relativamente jovem.
Este primeiro plano da trama, sem dúvida emocionante, deixa perceber em "backstage" um emaranhado de histórias de vida afluentes, de parentes, amantes ou conhecidos.
São tão "extraordinárias" que parecem ficções de um autor sobrenatural que se entretem a inventá-las.
O filme ajuda-nos a perceber que nós, espectadores, vivemos também na condição de personagens de uma ficção que nos é alheia. E que, tal como no filme, passamos a vida a tentar escrever também um pouco do enredo. Martha, ao querer escolher a sua forma de morrer, está a tentar fazê-lo até ao fim.
Não é por acaso que as duas amigas (Ingrid e Martha) são, respectivamente, escritora de ficção e correspondente de guerra; uma no reino da pura invenção e a outra no estrito respeito dos "factos".
Mas os factos e a ficção vivem paredes meias. Os factos nunca são totalmente conhecidos e é nesse espaço vazio que nasce a ficção.
Quer as actrizes quer os textos/diálogos são de primeiríssima qualidade

sexta-feira, novembro 15, 2024

ANORA


 

ANORA
O filme conta uma grande história e, como todos os bons filmes, diverte e emociona.
Uma striper novaiorquina é pedida em casamento pelo filho de uns mafiosos milionários russos.
O filme mostra a trabalheira que é anular um casamento, mesmo em Las Vegas. Uma boa surpresa para quem, como eu, pensava ir só ver um thriller.
(Anora é o nome da noiva e nada tem a ver com o parentesco embora ela seja "a nora" dos russos)

segunda-feira, outubro 28, 2024

A Chantagem da Publicidade




A Chantagem da Publicidade
A decisão do governo de acabar com a publicidade na RTP, gradualmente ao longo de três anos, desencadeou várias reações de partidos de esquerda que considero surpreendentes.
Toda a gente parece ter interiorizado que não temos outro remédio se não aturarmos os abusos da publicidade.
Ninguém se insurge contra a publicidade, sequer contra os seus excessos e desmandos. Nem os que sempre verberam a influência dos “privados”, nem os ambientalistas perante a promoção do consumismo, nem os puristas da cultura mesmo quando Mozart é posto a ajudar na venda de sapatos, nem os zelosos da alimentação saudável quando vêem promover hamburgueres de sete pisos, nem os caçadores de “fake news” quando as encontram por todo o lado nos spots publicitários.
Nos anos 70, depois da revolução em Portugal, começou a ser viável visitar a URSS. Muitos dos que lá iam revelavam uma certa desilusão por um motivo algo caricato; não tinham visto anúncios publicitários nas ruas de Moscovo.
Também hoje parece não se conceber uma televisão sem publicidade. E a verdade é que, com excepção da RTP, as televisões, tal como funcionam, não conseguiriam sobreviver sem publicidade.
Temos assim uma situação estranha; os meios de comunicação, que são um pilar da democracia, só conseguem sobreviver com publicidade. Aqueles que desconfiam constantemente da interferência dos poderosos nos conteúdos da informação não acham isto perigoso? Quando o dinheiro dos anunciantes serve para pagar comentadores desde a estrema esquerda à estrema direita podemos ainda falar, sem receios, da liberdade de imprensa?
E os “conteúdos de entretenimento”, tantas vezes meras fábricas de audiências para despejar publicidade, não os achamos deprimentes, ou até pavorosos?
Já sei que me vão dizer: sem a publicidade não haveria isto nem aquilo nem aqueloutro.
Conformamo-nos então com esta chantagem?

sexta-feira, outubro 11, 2024

Envelhecer


 

terça-feira, outubro 01, 2024

PALESTINA


 

quinta-feira, agosto 22, 2024

Please


 

Please

segunda-feira, agosto 12, 2024

Deixemos a baixa como sala de visitas


Deixemos a baixa como sala de visitas,
onde recebemos e confraternizamos com os estrangeiros que nos procuram. Ninguém leva as visitas para o quarto de dormir.
Lisboetas a viver na Baixa seriam sempre uma ínfima minoria de endinheirados.
Passei ontem a tarde na Baixa. Fui visitar o MUDE. Os estrangeiros dão à Baixa um ar de festa, não me incomodam nada.
Vivo na freguesia da Portela e Moscavide. Tenho jardins, estacionamento e calma. Quando me quero divertir vou à Baixa onde não gostaria de viver (mesmo antes de haver lá muitos turistas)

terça-feira, agosto 06, 2024

O centro de Lisboa como “mito urbano”


O centro de Lisboa como “mito urbano”


Partidos jovens, ou influenciados por jovens, falam constantemente de um mítico “centro de Lisboa” e propõe-se voltar a um tempo bucólico que não existiu.
Culpam os turistas e o “alojamento local” da “gentrificação”, como se a Baixa tivesse sido alguma vez um bairro popular onde as vizinhas pediam salsa umas às outras pela janela.
Por acaso trabalhei numa loja da Rua Augusta nos anos cinquenta e nunca vi tal coisa. Em Alfama, Mouraria e quejandos esse mundo existiu mas até há pouco tempo não passava pela cabeça a ninguém ir morar para aquelas casas decrépitas, sem comodidades.
Na baixa os bancos tomaram conta de quarteirões inteiros e ninguém tinha dinheiro para comprar lá uma casa, mesmo que quisesse viver no meio do frenesim.
As pessoas da classe média, do funcionalismo, procuravam casas modernas em ruas desafogadas nas avenidas novas, na Avenida de Roma ou em Alvalade.
Os menos endinheirados, os pequenos lojistas, os pequenos empregados e caixeiros, iam para mais longe.
Os meus pais foram para a Alameda das Linhas de Torres para viverem numa casa moderna.
Eu próprio, nos anos setenta, com dois bons ordenados da IBM, fui viver para a Urb da Portela, entre Moscavide e Sacavém.
Se alguém me tivesse então sugerido o “centro de Lisboa” teria soltado umas boas gargalhadas.
Haja pachorra

terça-feira, junho 25, 2024

Resolvam e calem-se


 

segunda-feira, maio 20, 2024

Tratado para acabar, de vez, com uma discussão estúpida.


Tratado para acabar, de vez, com uma discussão estúpida.
Decidi proceder à exegese minuciosa do discurso que tem paralisado o país, de comoção, nos últimos dias. Dois singelos parágrafos bastaram para despromover ao segundo plano o aeroporto, a redução do IRS, as polícias, os professores e outras classes carenciadas.
A bolha política exige, no entanto, saber se a liberdade de expressão contém, ou não, o direito ao despautério e às ofensas imateriais.
Debruçado sobre o texto o que é que eu encontro:
1. O Ventura acha que nós estamos abaixo de cão (sem ofensa) pois só fazendo um grande esforço alcançaremos o nível de turcos, chineses e albaneses.
2. Nada diz sobre os aeroportos de Pequim e de Tirana mas assevera que o de Istambul só tardou cinco anos.
3. Menciona aquilo que, em sua opinião, é voz corrente sobre a falta de laboriosidade dos turcos. O Ventura parece querer contrariar tal ideia preconceituosa precisamente com base na realização do supracitado aeroporto.
4. Notem que o Ventura não se atreveu a mencionar a laboriosidade dos chineses ou dos albaneses. A dos chineses porque toda a gente sabe que têm as lojas abertas mesmo em domingos e feriados. Quanto aos albaneses creio que, já de há muito, ninguém faz ideia do que lá se passa.
5. É verdade que as generalizações são sempre problemáticas; os orientais nem sempre são lentos e os rurais podem não ser imprevisíveis. Mesmo os espanhóis, com quem detesto viajar pois receio a queda do avião em consequência da barulheira, devem também em certos casos ser pessoas normais (sem ofensa).
6. Conclui-se então que não houve racismo pois os turcos são tão caucasianos como nós e que os únicos ofendidos são os portugueses por causa das acusações de inépcia.
7. Assim sendo recomendo a todos os portugueses que não votem Chega nas próximas eleições

terça-feira, maio 07, 2024

Tricórnio


 

sexta-feira, abril 26, 2024

O Grande Azdak


 

sexta-feira, abril 05, 2024

O Adeus de Costa


 

O Adeus de Costa
Neste dia em que Costa se despede do cargo de Primeiro Ministro, depois de 8 anos de governos, decidi partilhar o que considero ser o seu pior legado; a emergência e crescimento do Chega.
Existindo partidos populistas de direita em países europeus há décadas faz sentido perguntar por que razão em Portugal isso aconteceu precisamente em 2019.
O partido de André Ventura foi criado na fase final do "governo da Geringonça". A tempo de umas eleições legislativas que tiveram o mais pequeno número de votantes do século XXI, o que pode legitimamente ser visto como resultado de uma sensação de impotência dos eleitores.
Quatro anos antes, em 2015, António Costa tinha quebrado um conjunto de práticas políticas como, por exemplo, aceitar o governo da força mais votada e eleger para presidente da AR o candidato da força mais votada.
Tais rupturas tiveram inúmeras consequências como ainda recentemente se verificou na eleição da presidência da AR; o que teria sido "normal" era o PS votar Aguiar-Branco logo na primeira votação, como era tradição.
O arranjo parlamentar que permitiu o "governo da Geringonça" levou a uma descrença no sistema eleitoral, um desencorajamento do voto, a sensação de que não bastava ter mais votos, a ideia de que nessas condições a direita dificilmente voltaria ao poder.
Quando se olha para os resultados eleitorais de 2024 tais temores parecem ridículos; ficou demonstrado, ao fim de oito anos, que a "aliança à esquerda" não constituía uma solução duradoira; foi um mero estratagema conjuntural que conduziu ao afundamento nas urnas dos parceiros do PS na Geringonça.
Mas o PS não se limitou a criar condições para o surgimento do Chega, passou os últimos anos a desejar e propiciar o seu crescimento convencido de que Ventura engordaria só à custa do CDS e PSD.
Agora que temos o "elefante" na AR, com base nos abstencionistas que a governação imprudente foi varrendo para debaixo do tapete, aqui-del-rei.
O Costa sai de cena com a questionável glória das "contas certas" depois da habilidade de transferir o "enorme aumento de impostos" dos directos para os indirectos, ou seja, "sem dor".
E de reduzir brutalmente o investimento, o que teve um impacto enorme na degradação da Educação, da Saude, da Habitação e até das Forças Armadas.
É caso para perguntar "ri de quê?".

domingo, março 31, 2024

EQUADOR



Também já tive os meus cinco minutos de glória.
Precisamente em Agosto de 1967.
Fui colega, na revista "Equador", de nomes como Alexandre O'Neal, Eduardo Prado Coelho e outros que hoje veneramos. De todos eles só conhecia, e convivia, com o musicólogo e professor Mário Vieira de Carvalho (M.V.C.), dois anos mais velho do que eu e a quem, nesses tempos de juventude, chamávamos "Vieirinha".
A revista "Equador", obra do Diamantino Ramos de Almeida (que nunca mais vi), desapareceu logo a seguir. Pertencia à numerosa família das que só publicam o primeiro número.
A minha participação na revista, a convite do Diamantino, consistiu em figurar na capa e escrever um artigo sobre a história do cineclubismo (coisa em que então, nos meus 21 anos, estava envolvido).
A fotografia da capa (sou o da direita) foi feita em casa do arquitecto Sardinha, algures no largo da Graça. O Sardinha é o da esquerda e abarbatou-se ao cachimbo privando-me assim da farda de intelectual (que eu realmente praticava).
O texto que publiquei na "Equador" acerca do cineclubismo foi uma solução de recurso já que o convite inicial visava um poema; quando o material foi sujeito ao visto prévio da censura o meu poema foi alvo do lápis azul e teve que ser substituído.
A revista tinha tido uma longa e conturbada génese. Foi uma realização fantástica se considerarmos a época em que ocorreu, com todo o tipo de dificuldades económicas e políticas.
Quando o Diamantino anunciou as suas intenções no café Chaimite, à Paiva Couceiro, onde eu o tinha conhecido, o grupo de jovens a que pertencíamos considerou o projecto improvável.
O Diamantino Ramos de Almeida, a que toda a gente se referia como "o Doutor", trajava sempre um fato cinzento e gravata escura. Sofria de uma obscura doença (constava que se tratava de coreia) que se manifestava por movimentos bruscos e pouco controlados. Falava com dificuldade o que se notava nos movimentos do pescoço e no esgar facial na emissão das palavras.
Ou nunca soube, ou então não me lembro, por que razão lhe chamavam doutor.
À medida que o tempo ia passando sem que a revista saísse o maralhal, quase tudo estudantes universitários, foi subindo de tom na ridicularização do projecto. A coisa só não era mais achicalhante por beneficiar, o "Doutor", de consideração e estima geral.
E pronto, em Agosto de 1967, a "Equador" apareceu e com isso o Diamantino deu uma enorme lição aos seus detractores.
Um mês depois eu fui para a Marinha, e depois para a guerra da Guiné, e não tornei a ver o Diamantino. Restou-me um exemplar, certamente raro, da revista "Equador".

sexta-feira, março 22, 2024

A grande lição dos votos em Baleizão


A grande lição dos votos em Baleizão
O Expresso publicou uma entrevista com a filha de Catarina Eufémia, a heroína comunista do Baleizão.
Ela explica o que tornou possível o declínio do Partido, numa terra que foi o seu "santuário".
Em Lisboa, do alto dos grandes princípios abstractos, não se avistam as insignificantes aldeias alentejanas.
Quem não percebe o que é uma aldeia, uma taberna de aldeia, nunca perceberá as "sensações de insegurança" de que falava o outro.
Quem raciocina com base na média nacional da percentagem de emigrantes não percebe que em certas aldeias se está muito acima da média.
O problema é que as aldeias (e as sensações) são muitas e portanto os votos no Chega multiplicam-se.
Quem é que assume a responsabilidade por este desfecho?
Não basta arrancar os cabelos e gritar que "vem aí o fascismo"!!!

quinta-feira, março 21, 2024

Política de ficção




O regresso às urnas de milhares de portugueses, em 2024, provocou um cataclismo político. Percebemos subitamente que o “cenário” político em que temos vivido é uma ficção.
Um partido que, ainda há pouco, se temia pudesse perpetuar-se no poder com a sua maioria absoluta foi reduzido aos 28% de um momento para o outro.
Tudo isso se deve ao facto de termos, durante demasiado tempo, interpretado a abstenção como um sinal de desinteresse e apatia política; agora ficou claro que, pelo menos em parte, a abstenção resulta de irritação e impotência dos eleitores que se cansaram dos partidos “velhos” e não se revêem nos partidos “novos”.
Quando olhamos para o gráfico do número de votantes ao longo do século XXI podemos portanto perceber, pelo afastamento ou regresso dos eleitores, que governos os afastaram e que oposições os trouxeram de volta.
Nas eleições legislativas de 2005 verificou-se uma grande participação eleitoral (5.713.640) presumivelmente resultante da retórica com que Sócrates se candidatou, um tanto fora da caixa, com laivos de justiceiro contra os interesses instalados.
A partir de 2005 o número de votantes baixou sempre, atingindo o seu valor mais baixo em 2019 (5.251.064), logo a seguir ao governo da “Geringonça”.
Digamos que em 2019 a “gaveta” dos irritados e impotentes estava a abarrotar; talvez não por acaso foi nesse ano que se constituiu o partido Chega.
O aumento de votantes em 2022 (5.389.705) e a explosão da participação eleitoral em 2024 (6.473.789) não podem deixar de ser associados à emergência e afirmação do Chega.
Bem ou mal, os irritados e impotentes abstencionistas tinham finalmente encontrado uma forma de se expressar politicamente, e fizeram-no com estrondo.
A democracia adormecida que durante muito tempo varrera a contestação para debaixo do tapete, acordou do seu sonho. De repente já nada é como era, e percebemos todos que a nossa vida política tinha bases instáveis.
Mais perturbante ainda é o facto de na “gaveta” da abstenção ainda estarem muitas centenas de milhares de portugueses que esperam não sabemos o quê para voltar a votar.