segunda-feira, maio 20, 2024

Tratado para acabar, de vez, com uma discussão estúpida.


Tratado para acabar, de vez, com uma discussão estúpida.
Decidi proceder à exegese minuciosa do discurso que tem paralisado o país, de comoção, nos últimos dias. Dois singelos parágrafos bastaram para despromover ao segundo plano o aeroporto, a redução do IRS, as polícias, os professores e outras classes carenciadas.
A bolha política exige, no entanto, saber se a liberdade de expressão contém, ou não, o direito ao despautério e às ofensas imateriais.
Debruçado sobre o texto o que é que eu encontro:
1. O Ventura acha que nós estamos abaixo de cão (sem ofensa) pois só fazendo um grande esforço alcançaremos o nível de turcos, chineses e albaneses.
2. Nada diz sobre os aeroportos de Pequim e de Tirana mas assevera que o de Istambul só tardou cinco anos.
3. Menciona aquilo que, em sua opinião, é voz corrente sobre a falta de laboriosidade dos turcos. O Ventura parece querer contrariar tal ideia preconceituosa precisamente com base na realização do supracitado aeroporto.
4. Notem que o Ventura não se atreveu a mencionar a laboriosidade dos chineses ou dos albaneses. A dos chineses porque toda a gente sabe que têm as lojas abertas mesmo em domingos e feriados. Quanto aos albaneses creio que, já de há muito, ninguém faz ideia do que lá se passa.
5. É verdade que as generalizações são sempre problemáticas; os orientais nem sempre são lentos e os rurais podem não ser imprevisíveis. Mesmo os espanhóis, com quem detesto viajar pois receio a queda do avião em consequência da barulheira, devem também em certos casos ser pessoas normais (sem ofensa).
6. Conclui-se então que não houve racismo pois os turcos são tão caucasianos como nós e que os únicos ofendidos são os portugueses por causa das acusações de inépcia.
7. Assim sendo recomendo a todos os portugueses que não votem Chega nas próximas eleições

terça-feira, maio 07, 2024

Tricórnio


 

sexta-feira, abril 26, 2024

O Grande Azdak


 

sexta-feira, abril 05, 2024

O Adeus de Costa


 

O Adeus de Costa
Neste dia em que Costa se despede do cargo de Primeiro Ministro, depois de 8 anos de governos, decidi partilhar o que considero ser o seu pior legado; a emergência e crescimento do Chega.
Existindo partidos populistas de direita em países europeus há décadas faz sentido perguntar por que razão em Portugal isso aconteceu precisamente em 2019.
O partido de André Ventura foi criado na fase final do "governo da Geringonça". A tempo de umas eleições legislativas que tiveram o mais pequeno número de votantes do século XXI, o que pode legitimamente ser visto como resultado de uma sensação de impotência dos eleitores.
Quatro anos antes, em 2015, António Costa tinha quebrado um conjunto de práticas políticas como, por exemplo, aceitar o governo da força mais votada e eleger para presidente da AR o candidato da força mais votada.
Tais rupturas tiveram inúmeras consequências como ainda recentemente se verificou na eleição da presidência da AR; o que teria sido "normal" era o PS votar Aguiar-Branco logo na primeira votação, como era tradição.
O arranjo parlamentar que permitiu o "governo da Geringonça" levou a uma descrença no sistema eleitoral, um desencorajamento do voto, a sensação de que não bastava ter mais votos, a ideia de que nessas condições a direita dificilmente voltaria ao poder.
Quando se olha para os resultados eleitorais de 2024 tais temores parecem ridículos; ficou demonstrado, ao fim de oito anos, que a "aliança à esquerda" não constituía uma solução duradoira; foi um mero estratagema conjuntural que conduziu ao afundamento nas urnas dos parceiros do PS na Geringonça.
Mas o PS não se limitou a criar condições para o surgimento do Chega, passou os últimos anos a desejar e propiciar o seu crescimento convencido de que Ventura engordaria só à custa do CDS e PSD.
Agora que temos o "elefante" na AR, com base nos abstencionistas que a governação imprudente foi varrendo para debaixo do tapete, aqui-del-rei.
O Costa sai de cena com a questionável glória das "contas certas" depois da habilidade de transferir o "enorme aumento de impostos" dos directos para os indirectos, ou seja, "sem dor".
E de reduzir brutalmente o investimento, o que teve um impacto enorme na degradação da Educação, da Saude, da Habitação e até das Forças Armadas.
É caso para perguntar "ri de quê?".

domingo, março 31, 2024

EQUADOR



Também já tive os meus cinco minutos de glória.
Precisamente em Agosto de 1967.
Fui colega, na revista "Equador", de nomes como Alexandre O'Neal, Eduardo Prado Coelho e outros que hoje veneramos. De todos eles só conhecia, e convivia, com o musicólogo e professor Mário Vieira de Carvalho (M.V.C.), dois anos mais velho do que eu e a quem, nesses tempos de juventude, chamávamos "Vieirinha".
A revista "Equador", obra do Diamantino Ramos de Almeida (que nunca mais vi), desapareceu logo a seguir. Pertencia à numerosa família das que só publicam o primeiro número.
A minha participação na revista, a convite do Diamantino, consistiu em figurar na capa e escrever um artigo sobre a história do cineclubismo (coisa em que então, nos meus 21 anos, estava envolvido).
A fotografia da capa (sou o da direita) foi feita em casa do arquitecto Sardinha, algures no largo da Graça. O Sardinha é o da esquerda e abarbatou-se ao cachimbo privando-me assim da farda de intelectual (que eu realmente praticava).
O texto que publiquei na "Equador" acerca do cineclubismo foi uma solução de recurso já que o convite inicial visava um poema; quando o material foi sujeito ao visto prévio da censura o meu poema foi alvo do lápis azul e teve que ser substituído.
A revista tinha tido uma longa e conturbada génese. Foi uma realização fantástica se considerarmos a época em que ocorreu, com todo o tipo de dificuldades económicas e políticas.
Quando o Diamantino anunciou as suas intenções no café Chaimite, à Paiva Couceiro, onde eu o tinha conhecido, o grupo de jovens a que pertencíamos considerou o projecto improvável.
O Diamantino Ramos de Almeida, a que toda a gente se referia como "o Doutor", trajava sempre um fato cinzento e gravata escura. Sofria de uma obscura doença (constava que se tratava de coreia) que se manifestava por movimentos bruscos e pouco controlados. Falava com dificuldade o que se notava nos movimentos do pescoço e no esgar facial na emissão das palavras.
Ou nunca soube, ou então não me lembro, por que razão lhe chamavam doutor.
À medida que o tempo ia passando sem que a revista saísse o maralhal, quase tudo estudantes universitários, foi subindo de tom na ridicularização do projecto. A coisa só não era mais achicalhante por beneficiar, o "Doutor", de consideração e estima geral.
E pronto, em Agosto de 1967, a "Equador" apareceu e com isso o Diamantino deu uma enorme lição aos seus detractores.
Um mês depois eu fui para a Marinha, e depois para a guerra da Guiné, e não tornei a ver o Diamantino. Restou-me um exemplar, certamente raro, da revista "Equador".

sexta-feira, março 22, 2024

A grande lição dos votos em Baleizão


A grande lição dos votos em Baleizão
O Expresso publicou uma entrevista com a filha de Catarina Eufémia, a heroína comunista do Baleizão.
Ela explica o que tornou possível o declínio do Partido, numa terra que foi o seu "santuário".
Em Lisboa, do alto dos grandes princípios abstractos, não se avistam as insignificantes aldeias alentejanas.
Quem não percebe o que é uma aldeia, uma taberna de aldeia, nunca perceberá as "sensações de insegurança" de que falava o outro.
Quem raciocina com base na média nacional da percentagem de emigrantes não percebe que em certas aldeias se está muito acima da média.
O problema é que as aldeias (e as sensações) são muitas e portanto os votos no Chega multiplicam-se.
Quem é que assume a responsabilidade por este desfecho?
Não basta arrancar os cabelos e gritar que "vem aí o fascismo"!!!

quinta-feira, março 21, 2024

Política de ficção




O regresso às urnas de milhares de portugueses, em 2024, provocou um cataclismo político. Percebemos subitamente que o “cenário” político em que temos vivido é uma ficção.
Um partido que, ainda há pouco, se temia pudesse perpetuar-se no poder com a sua maioria absoluta foi reduzido aos 28% de um momento para o outro.
Tudo isso se deve ao facto de termos, durante demasiado tempo, interpretado a abstenção como um sinal de desinteresse e apatia política; agora ficou claro que, pelo menos em parte, a abstenção resulta de irritação e impotência dos eleitores que se cansaram dos partidos “velhos” e não se revêem nos partidos “novos”.
Quando olhamos para o gráfico do número de votantes ao longo do século XXI podemos portanto perceber, pelo afastamento ou regresso dos eleitores, que governos os afastaram e que oposições os trouxeram de volta.
Nas eleições legislativas de 2005 verificou-se uma grande participação eleitoral (5.713.640) presumivelmente resultante da retórica com que Sócrates se candidatou, um tanto fora da caixa, com laivos de justiceiro contra os interesses instalados.
A partir de 2005 o número de votantes baixou sempre, atingindo o seu valor mais baixo em 2019 (5.251.064), logo a seguir ao governo da “Geringonça”.
Digamos que em 2019 a “gaveta” dos irritados e impotentes estava a abarrotar; talvez não por acaso foi nesse ano que se constituiu o partido Chega.
O aumento de votantes em 2022 (5.389.705) e a explosão da participação eleitoral em 2024 (6.473.789) não podem deixar de ser associados à emergência e afirmação do Chega.
Bem ou mal, os irritados e impotentes abstencionistas tinham finalmente encontrado uma forma de se expressar politicamente, e fizeram-no com estrondo.
A democracia adormecida que durante muito tempo varrera a contestação para debaixo do tapete, acordou do seu sonho. De repente já nada é como era, e percebemos todos que a nossa vida política tinha bases instáveis.
Mais perturbante ainda é o facto de na “gaveta” da abstenção ainda estarem muitas centenas de milhares de portugueses que esperam não sabemos o quê para voltar a votar.

quinta-feira, março 14, 2024

Já o avô dizia


 

sábado, março 09, 2024

Vergonha


Vergonha
50 anos passados do 25 de Abril a nossa democracia está doente. A campanha eleitoral que terminou ontem, nos termos em que foi feita, devia fazer-nos pensar maduramente.
É verdade que temos agora a praga do populismo, mas é preciso reconhecer que esses partidos já quase só se distinguem pelo grau de boçalidade. O debate político chega a ser mais irracional, e caótico, do que os programas televisivos do futebol.
Os candidatos "responsáveis", quase todos, mentem descaradamente, usam meias verdades, deturpam os discursos alheios e abusam de manipulações semânticas.
Os candidatos "responsáveis", quase todos, diabolizam os adversários, arrogam-se o exclusivo da defesa do povo, fazem apelo a todo o tipo de medos, fanatismos e baixos instintos.
Os candidatos "responsáveis", quase todos, fazem da política um concurso de promessas, mesmo as mais inverosímeis à luz da sua prática anterior e omitem os grandes desafios geopolíticos, tecnológicos e do ambiente.
Em suma, durante 50 anos pouco aprendemos.

sexta-feira, março 08, 2024

E SE?


 

E se, estas eleições que tanto nos excitam não passassem de uma encenação de António Costa, para fugir para a Europa e deixar a batata quente ao Montenegro ou ao Pedro Nuno?
E se o Costa tiver percebido que com a guerra a alastrar pelo mundo, pode vir aí uma nova inflação, o Trump vai regressar e vamos ter que gastar rios de dinheiro a recuperar as nossas forças armadas?
E se o Costa percebeu que os dinheiros europeus vão ser canalizados para a Ucrânia e as corporações profissionais estão todas de faca afiada para o próximo governo?
E se o Costa decidiu evitar esses tempos difíceis e perigosos para Portugal indo para um cargo europeu sem o ónus de ter fugido como Durão Barroso?
E se o Costa tiver pedido à PGR, que até foi escolhida por ele, que escrevesse um parágrafo que servisse de pretexto para a sua demissão?
E se o Costa preferir deixar governar a AD nos anos de crise internacional para depois o PS surgir, salvador, a virar a página mais uma vez?
E se o Costa, ao mandar o incauto Pedro Nuno para a cabeça do touro, matar afinal dois coelhos com uma cajadada?
E se o Costa com esta brilhante jogada se salvar ele próprio de uma derrota eleitoral, minando a carreira do Pedro Nuno e abrindo caminho ao seu delfim na próxima legislatura?
E se o Costa, depois de tudo o que fez, assistir a este filme confortávelmente instalado em Bruxelas?
Desejo-vos um bom dia de reflexão.

segunda-feira, fevereiro 05, 2024

Pobres Criaturas


Pobres Criaturas
A história, cruamente, é a seguinte: uma mulher grávida atira-se de uma ponte. Um cirurgião, ele próprio uma versão do Frankenstein, recupera os corpos recém falecidos e transplanta o cérebro do feto para o crânio da mãe.
Um percurso feito ao contrário; todos nós, no processo de crescer, recebemos algum do “cérebro dos pais” e não dos filhos.
Este estratagema inverosímil, criado pelo grego Yorgos Lanthimos, a partir de um livro de Alasdair Grey, vagamente situado no virar do século XIX para o XX, faz-nos percorrer uma via sacra de consequências exóticas e chocantes. Um cérebro infantil, que acaba de descobrir o mundo num corpo de mulher adulta, permite-nos espreitar o que somos antes de sermos o indivíduo social.
A trama desafia-nos ao longo de duas horas e meia para temas como a educação, o erotismo e o sexo, a parentalidade, as imposições da sociedade, a ética médica, a manipulação, o livre arbítrio, a “perversidade” infantil, etc, etc.
Presenciar “Pobres Criaturas” pode ser considerado uma experiência, mais do que um espectáculo, tão íntimas são as questões em que nos obriga a remexer.
Uma experiência da qual ninguém sairá como entrou.
Os ambientes criados para o filme são oníricos, talvez por pretenderem mostrar a maneira infantil de ver o mundo.
A certa altura a criança/mulher Bella Baxter (Emma Stone), escapa ao seu criador Godwin Baxter (Willem Dafoe), a quem sempre trata por God, para descobrir o mundo.
Nesse percurso passa por Lisboa com o seu amante, meramente instrumental, já que Bella não estabelece qualquer relação entre sexo e afectividade. A cidade que ela vê é fabulosa, com carros eléctricos pelo céu, e uma fonte compulsiva de pastéis de nata. Curiosamente, é num navio que parte de Lisboa para novas aventuras.
Quis o acaso que eu visse “Pobres Criaturas” quando estava a ler “A Civilização do Espectáculo”, de Vargas Llosa, e concretamente o capítulo “IV. O desaparecimento do erotismo”.
Uma parte substancial do filme são as peripécias resultantes da atracção sexual que Bella, uma bela mulher, desperta nos incautos masculinos; mostra como eles estão impreparados para um jogo em que a parceira, para seu desespero, quebra todas as regras.
O cérebro infantil ainda não tem a maturidade suficiente para perceber toda a teia de questões psicológicas e sociais que envolvem a actividade sexual, muito para além da componente meramente física e, no limite, meramente animal.
Ao ver como Bella descobre o seu corpo percebemos melhor as reservas postas por Llosa, no seu livro, relativamente aos “workshops de masturbação” organizados pela Junta da Estremadura, para meninos e meninas a partir dos 14 anos, com o delicioso nome “O Prazer Está nas Tuas Mãos”.
Termino com palavras de Vargas Llosa extraídas do livro acima mencionado:
“O sexo desempenhou um papel de destaque na criação do indivíduo e, como mostrou Sigmund Freud, nesse domínio, o mais recôndito da soberania individual, forjam-se as características distintivas de cada personalidade, o que nos é próprio e nos torna diferentes dos outros. Esse é um domínio privado e secreto e deveríamos procurar que continue a sê-lo se não quisermos tapar uma das fontes mais intensas do prazer e da criatividade, isto é, da civilização”.

sexta-feira, dezembro 15, 2023

REVER MELANCHOLIA


REVER MELANCHOLIA
Não foi por acaso que me lembrei de Melancholia, um filme de Lars Von Trier que é, antes de mais, uma enorme provocação.
Põe-nos perante a catástrofe eminente num tempo, como é o nosso, repleto de ameaças de catástrofe global.
Podemos interrogar-nos se já estamos a viver um filme idêntico sem nos dar conta.
Todos os dias, nos jornais, espreita a possibilidade da guerra atómica, pelo carregar do botão de um Putin qualquer.
Há também a ameaça omnipresente da hecatombe climática, que nos é escancarada em intervenções cada vez mais radicais dos militantes anti-sistema.
Num outro plano sentimo-nos à mercê de uma nova pandemia descontrolada que, a qualquer momento, pode ser desencadeada pela nova promiscuidade das espécies que o aquecimento global propicia.
E como se tudo isto não bastasse ainda temos todos a nossa catástrofe pessoal do envelhecimento e do fim da vida.
Ou seja, o problema de enfrentar uma catástrofe definitiva nunca está suficientemente longe e a necessidade de o encarar é uma questão permanente, mesmo quando tentamos pô-la para trás das costas.
A catástrofe mostrada neste filme não é uma catástrofe qualquer, é a irremediável e radical aniquilação da humanidade, de todas as formas de vida e da própria Terra, provocada pelo choque iminente com outro planeta significativamente chamado Melancholia.
Na medicina arcaica o termo "melancholia" era usado para designar aquilo que hoje chamamos estados depressivos.
O motivo imediato do filme é o casamento de Justine, uma jovem bastante "melancólica", que decorre num palacete opulento erguido numa extensa propriedade rural. De crise em crise, de episódio em episódio, a depressão de Justine leva ao abortar da festa e do próprio casamento.
Os convidados, e o próprio noivo, acabam por debandar, deixando Justine na companhia da irmã, do cunhado e de um sobrinho ainda criança.
Quando a inevitabilidade da colisão dos planetas se confirma, e após o suicídio do cunhado de Justine, às duas irmãs e à criança nada mais resta do que soltar os cavalos e aguardar a chegada do planeta Melancholia que se agiganta no horizonte.
A grande originalidade do filme, e a força do seu impacto, estão no tratamento intimista que adopta contra todos os clichés das superproduções holywoodescas.
A riqueza, o marketing (Justine é figura de proa numa agência de publicidade) e a ciência (incapaz de prever a trajectória dos planetas), os grandes ídolos pagãos do nosso tempo, são reduzidos a uma escala ridícula.
A dimensão da hecatombe e a inevitabilidade do seu desfecho transformam tanto o medo como a tristeza em coisas totalmente deslocadas e quase absurdas.
As imagens iniciais do filme, uma espécie de prólogo que permite diferentes interpretações, são como que uma premonição da destruição final, mostrada com uma beleza extrema e pungente. Cavalos afundam-se no solo e pássaros caem do céu, em câmara lenta e ao som da música de Tristão e Isolda.
A experiência de ver este filme é sem dúvida inesquecível e, no limite, uma catarse de todos os medos e inseguranças. Num plano quase religioso do tipo panteísta.
Pela sua ambição e intemporalidade constitui uma obra prima.
E o planeta Melancholia pode afinal ser apenas uma criação horrenda e metafórica da depressão profunda que esmaga Justine.

segunda-feira, outubro 02, 2023

O Sol do Futuro


 



sábado, setembro 30, 2023

CADERNO REIVINDICATIVO Dos Trabalhadores do Facebook (que somos todos nós)


CADERNO REIVINDICATIVO
Dos Trabalhadores do Facebook
(que somos todos nós)
Antes de mais queremos deixar claro que, até ao momento, aqueles que se apresentam como "trabalhadores do facebook" são apenas os colegas dos Serviços de Manutenção e do Departamento Comercial.
Uma coisa é cuidar das infraestruturas e vender o produto, outra bem diferente é produzir uma mercadoria vendável.
Ora a mercadoria do Facebook são as audiências, poder garantir aos anunciantes que terão destinatários da publicidade.Somos nós, ao passar horas no Facebook, quem produz as audiências, essa mercadoria que tão bem se vende.
Mas a questão é mais vasta. Nós publicamos textos, fotografias e videos. Os nossos conteúdos, atraiem novos utilizadores da plataforma e engordam, dessa forma, as audiências que o Facebook vende por bom preço.
Reivindicamos portanto uma parte dos lucros do Facebook a calcular da seguinte forma:
1. Um euro por hora de interacção com o Facebook
2. Cinco cêntimos por cada acesso aos nossos conteúdos
3. Dez cêntimos por cada "like" nos nossos conteúdos
4. Vinte cêntimos por cada "coraçãozinho" nos nossos conteúdos
5. Trinta cêntimos por cada comentário ou "share" dos nossos "posts".
Damos um prazo de três dias para uma resposta.
Se tal não acontecer informamos que nos desligaremos e deixaremos de fazer publicações.

quarta-feira, julho 05, 2023

Viagem a Itália


  
 Viagem a Itália

Em Junho 2023 fiz a minha sétima viagem a Itália. A primeira foi em 1976, durante um mês, de automóvel. A segunda durou dois meses, em 1979, em trabalho. Seguiram-se outras visitas em 1991, 1992, 1998 e 2005.
Voltei agora por causa de uma neta, a quem queria mostrar por onde começar a folhear aquele enorme livro.

Desenrasco-me bem naquele país, e foi assim desde o primeiro dia, por ter visto muitos filmes italianos na minha juventude; o neorealismo, os grandes cómicos, e os "Antonionis" todos.

"Questa volta", pela primeira vez, parti de Portugal já com várias coisas reservadas (e em alguns casos pagas) pela internet. Aluguei carro, comprei bilhetes de combóio e de barco, reservei entradas em monumentos e, claro, reservei alojamentos.
Como já sou velho não tenho tanta paciência para aventuras e incertezas.
Há 47 anos andei por lá um mês sem saber onde dormiria na noite seguinte, sem cartões de crédito e sem telemóveis.

Resolvi entrar por Bolonha, ao centro, de onde podia dar um salto a Veneza, confortávelmente, de combóio. E depois partir de carro para sudoeste ao encontro de Florença, Pisa e Luca ou, mais para sul, Siena e San Gimignano. Em La Spezia fiz um pequeno cruzeiro para ver, pela primeira vez, o colorido das Cinque Terre debruçadas sobre o mar da Ligúria.

Já conhecia quase todos os lugares por onde passei excepto:
- La Spezia, cidade portuária no Mediterrâneo, sem comentários
- As "Cinque Terre", antigas aldeias de pescadores, agora transformadas em coqueluche turística; ruas estreitas apinhadas, praias escassas e com "areia de cascalho". Abaixo das expectativas criadas pelos folhetos turísticos. Salva-se a paisagem.
- Lucca. Esta excedeu as expectativas pela beleza das suas igrejas e pela encantadora praça oval que foi construída sobre os restos de um anfiteatro romano. É pena deixarem lá entrar camionetas de reabastecimento das lojas.

Mas também houve revelações nas cidades já conhecidas:
Bolonha 
- O museu onde podemos, através de um dispositivo de "realidade virtual", visitar a cidade no tempo do império romano, na idade média ou no século XVIII.
- A basílica de S. Stefano, um encantador complexo de sete igrejas amalgamadas, cujo perímetro foi crescendo ao longo de muitos séculos.
Siena 
- Tive finalmente a oportunidade de ver desfilar na Piazza del Campo as bandeiras das "contrade", uma espécie de confrarias dos nascidos em cada uma das 17 freguesias da cidade
San Gimignano
- Voltei a maravilhar-me com as suas torres medievais mas, desta vez, descobri os maravilhosos frescos do seu duomo. Fabuloso.
Pisa
- Subi, pela primeira vez, ao topo da famosa torre inclinada para mostrar à minha neta que ainda não estou arrumado.
Veneza
- Desta vez fui de combóio, a partir de Bolonha. Saí do combóio, atravessei uma pequena praça, tomei o vaporetto para a Piazza San Marco. Prático, e cómodo.

Em geral tive a sensação de menores multidões de turistas, talvez por ser ainda Junho.
O serviço nos restaurantes, e não só, pareceu-me descuidado e um pouco caótico.
Somos também surpreendidos por coisas um tanto arcaicas como lançar moedas numa gaveta para pagar a autoestrada. Ou então ter que indicar a matrícula do automóvel quando se tira um talão de estacionamento numa máquina de rua.

Mas a quantidade e qualidade histórica e estética é esmagadora. 
E ao charme do país é impossível resistir. 


sábado, junho 17, 2023

Impressões do Japão


Impressões do Japão
Passei dez dias no Japão em Maio 2023. O Japão nunca tinha sido uma prioridade. A China, por duas vezes, a Índia e o Vietname tinham vindo primeiro.
Os filmes clássicos, bem ou mal, tinham criado a sensação de uma sociedade demasiado codificada, marcada por uma lógica feudal que perdurou demasiado tempo.
Por outro lado é impossível não ver o Japão à luz da China, o primo muito mais velho, muito maior, de onde o Japão recebeu a escrita, a cultura do arroz, os modelos dos templos e dos trajes, e a influência religiosa budista.
Ao ler agora sobre as tentativas de invasão do Japão pelos chineses descobri finalmente a origem do termo Kamikaze, tristemente célebre durante a segunda guerra mundial, que eu só conhecia como designação dos pilotos japoneses suicidas. Quando no Séc. XIII Kublai Khan, imperador mongol da China, tentou conquistar o Japão, a sua enorme frota foi destruída por um tufão providencial a que os japoneses resolveram chamar Kamikaze (vento divino).
Também as limitações físicas me parece terem muita influência naquilo que o Japão é; a insularidade, a predominância do relevo limitativo da agricultura e da urbanização, a frequência dos sismos, dos tufões e da actividade vulcânica, tudo isso me pareceu marcar a forma de viver dos japoneses.
Na minha viagem tive permanências em três grandes cidades; Osaka, Quioto e Tóquio. Nos percursos entre elas passei por zonas “rurais”, tradicionais e turísticas, com destaque para o Monte Fuji.As cidades são muito densas e intensas; densas no construído e intensas no comércio ou, melhor dizendo, na promoção de produtos, serviços e divertimentos. Os templos e palácios antigos (as mais das vezes reconstruídos) são as bolsas de calma e de natureza.
Tal como na China vários factores limitam muito a existência de monumentos e sinais construídos do passado: a construção em madeira (que se degrada e arde), as catástrofes naturais, a guerra e os bombardeamentos. Grande parte dos magníficos templos são reconstruções do pós-guerra. Não é fácil encontrar nas cidades bairros que sejam o equivalente de Alfama ou mesmo do Bairro Alto. Quem vai de uma cidade como Lisboa sente a falta de "pedras velhas" na malha das cidades, de vestígios de vidas antigas de centenas de anos.
Em contrapartida não são visíveis nas grandes cidades os habituais “sem-abrigo”.
Toda a gente parece deslocar-se com um propósito; vêm-se muitos estudantes fardados e os adultos que aparentemente se dirigem para o trabalho também trajam de forma bastante padronizada.Os transportes são excelentes e não se vêem trotinettes ou coisas desse género (as bicicletas não abundam). São muito comuns os pisos com guias para os cegos. Não vi engarrafamentos.
Andei no “comboio bala” que, tal como tudo o resto, obedece a um rigoroso horário. As grandes estações ferroviárias centrais fazem corar de vergonha o nosso pobre aeroporto.
O Metro em Tóquio,por exemplo, tem uma cobertura excelente da imensa cidade e os comboios sucedem-se a intervalos muito curtos. Também fui empurrado para dentro de uma carruagem apinhada mas tal só acontece, julgo, em algumas estações centrais nas horas de ponta.
Para além do Metro também existe em Tóquio um comboio circular de superfície, que nos permite ao fim de uma hora regressar ao ponto de partida.Conjugando um passe diário de Metro e outro do comboio circular, que no conjunto me custaram menos de dez euros, visitei inúmeros locais saltando de uma rede para a outra ao sabor das minhas necessidades.
Algumas coisas que me perturbaram no Japão:
- A inacreditável televisão, com publicidade por baixo, ao lado e por cima dos conteúdos. E vi também uma "pimbalhada" ridícula, mesmo não percebendo a língua.
- Sermos perseguidos por "vozinhas" nos elevadores, carruagens, escadas rolantes, etc ainda por cima sem as percebermos
- Ter a sensação de que o pequeno comércio de rua já é quase só "lojas de conveniência" e incontáveis "máquinas de vending"
- Ver na rua mais pares de jovens raparigas do que pares de namorados
- Ter comido um pequeno almoço igual nos seis hotéis, de cidades diferentes, por onde passei
- Encontrar por todo o lado a "bonecada" da BD e dos filmes de animação. Desde a publicidade gigantesca até às miniaturas penduradas das mochilas (mesmo em adultos). Posso estar, por ignorância, a cometer uma grande injustiça mas fiquei convencido de uma certa infantilização e escapismo.
- Ter dificuldade em contactar os japoneses, e perceber melhor o que pensam e sentem, por haver muito poucos a falar um inglês que permita uma conversa.
O que mais gostei:
- Comer sushi rodeado de japoneses
- As paisagens do Monte Fuji
- O antigo mercado do peixe Tsukiji, transformado em zona de restaurantes de peixe e mariscos
- Que as moças aluguem fatos tradicionais para envergar durante a visita aos monumentos
- A rua Takeshita, em Tóquio, pelo seu ar e trajar caótico.
- Alguma arquitectura moderna ainda que não seja comparável com a China
- O bairro Dotombori, em Osaka, onde se pode comer petiscos na rua durante os passeios nocturnos, iluminados a neon
- Os maravilhosos jardins dos templos e palácios
- A velhotas, muito velhinhas, muito pequeninas, muito magrinhas mas com o ar de formigas imparáveis.
- A incrível boa vontade dos japoneses para nos ajudarem mesmo quando não percebem uma palavra do que dizemos

quarta-feira, abril 19, 2023

Imperdoável !!!


 

segunda-feira, abril 17, 2023

Boa! Ventura.


 

quinta-feira, março 16, 2023

Era o que nos faltava


 

domingo, março 12, 2023

O ovo da serpente


 

terça-feira, janeiro 31, 2023

Eutanásia


 

Vão continuar a encontrar ambiguidades nas definições abstractas. Mas é tão simples perguntar a quem sofre se o seu sofrimento é ou não insuportável

terça-feira, janeiro 10, 2023

A última vez que fomos felizes


 

A última vez que fomos felizes
O futuro parecia radioso na segunda metade dos anos 90.
Ainda me lembro da sensação de progresso e da reconfortante (aparente) ausência de ameaças.
Cavaco fora substituído por Guterres, com o seu discurso doce e cheio de bondade ecuménica.
Em 1996 Soares deu lugar a Sampaio na Presidência, também ele um perfil humanista e brando.
A Guerra Fria e o terror atómico eram uma coisa do passado.
Não havia guerra na Europa, nem pandemias.
A ameaça climática global era um assunto remoto.
Lisboa Capital da Cultura, em 1994, trouxera-nos uma aura cosmopolita que seria confirmada, em 1998, com a grande Expo Mundial.
E no mesmo ano Saramago recebeu o prémio Nobel, fazendo vibrar o nacionalismo cultural.
A economia cresceu entre 1995 e 2000 a um ritmo que nunca mais aconteceu até aos dias de hoje.
A Dívida Pública ainda não era um problema.
Estávamos todos galvanizados com a ideia de vir a usar a mesma moeda que os países da Europa desenvolvida.
É difícil de explicar aos mais jovens a bonomia daqueles tempos.
Com a viragem do século tudo mudou.
Tivemos a debandada de Guterres e de Durão Barroso.
Vieram as trapalhadas do Santana como prólogo ao pesadelo Sócrates.
Em 2004 a Dívida Pública já era o dobro da de 1995.
Talvez por obra da Expo, da Ponte Vasco da Gama e dos estádios do Euro 2004 (que nem sequer ganhámos).
Em suma, fomos imprudentes e desleixados.
Levados por discursos piedosos e irrealistas dos governantes, gastando demais, inebriados por ilusões de progresso sem alicerces nem sustentabilidade.
Esta parábola parece-me adequada ao início de um novo ano.
Talvez faça pensar.

domingo, janeiro 01, 2023

01.01.2023


 

quinta-feira, dezembro 22, 2022

É Natal


 

domingo, dezembro 11, 2022

Como se não bastasse


 

sábado, novembro 05, 2022

É à balda


 É à balda

domingo, setembro 04, 2022

O Facebook é a antítese do Marx.


 O Facebook é a antítese do Marx.

É uma "fábrica" que trabalha com matéria prima gratuita (que nós damos) e cujos trabalhadores se limitam a criar e manter a infraestrutura. Vendem publicidade mas no seu produto não há incorporação de trabalho vivo.
As televisões também vendem publicidade mas, para isso, todos os dias têm que produzir programas (a maior parte dos quais são realmente deploráveis, mas envolvem trabalho).
O Facebook pode aumentar as vendas para o dobro sem ter que contratar mais trabalhadores. Ou seja, não vive da exploração dos próprios trabalhadores mas sim dos otários que publicam fotografias e textos. Como no caso deste post, que deve ter feito Marx revolver-se no túmulo.

terça-feira, julho 26, 2022

Os slides que nunca mostrarei


 

Os slides que nunca mostrarei

Em 1996 fiz uma das viagens mais belas da minha vida, da qual guardo paradoxalmente uma memória triste.
Saímos de Sacramento, de casa da minha irmã, com os dois filhos (com 21 e 25 anos), numa "banheira" alugada.

Queria mostrar aos rapazes algumas maravilhas naturais da América.Passámos pelo Yosemite, atravessámos o parque das Sequóias Gigantes, e descemos até ao sul, à latitude de Los Angeles.Inflectimos para o interior, pelo deserto do Mojave, sempre dormindo nos motéis, como se estivéssemos num filme americano. Sempre a abrir no fast food, guardando senhas de um para obter desconto no próximo. Para os rapazes era o delírio.

Como não podia deixar de ser parámos em Las Vegas e deambulámos de casino em casino, ofuscados pelo neon.O passo seguinte foi o Grand Canyon, onde não tivemos coragem de descer mesmo até ao fundo, e depois o grande deserto pintado dos filmes do farwest. Acontece que chegámos já de noite e com uma trovoada de relâmpagos. O carro avançava na escuridão e, de vez em quando, um relâmpago mostrava os pináculos de rocha à nossa volta. Inesquecível.

Acordámos no dia seguinte, na pitoresca Mexican Hat, onde nos deliciámos com um pequeno almoço servido por "índias" e alegrado pelos colibris que bebiam nos ibiscos vermelhos.Então metemo-nos num jeep, com um velho navajo, e passámos o dia por rochedos e grutas, que tresandavam a desaparecidos rituais indígenas.Não quero maçar-vos com mais detalhes, que seriam muitos e saborosos, mas desapropriados.De barriga cheia, tomámos a direcção do regresso. Não sem antes dar um salto ao ponto mais baixo do planeta em Death Valley.

Eu tivera a precaução de reservar alojamento a uns 70 km de Los Angeles, para evitar entrar à noite naquele dédalo de autoestradas onde já antes havia penado.
O local aprazado da pernoita era S. Bernardino, e eu reservara dois quartos no motel. Quando lá chegámos percebemos que não era bem aquilo que tínhamos imaginado.Não por sermos os únicos brancos do bairro, isso não nos incomodava. A questão é que o nosso motel tinha uma frequência bizarra de travestis espadaúdos e "loiras" demasiado bronzeadas, e nas esquinas próximas pareceu-nos haver um correpio de comércio suspeito.Nunca me ocorreria classificar aquele motel como tendo "ambiente familiar".Acantonámos a família toda num dos quartos, o que nos permitiu imaginar como se sentiriam os bravos da cavalaria quando sitiados pela tribo Apache.

A noite decorreu sem sobressaltos e no dia seguinte visitámos Los Angeles, e depois tomámos a estrada do Pacífico até Monterey e S. Francisco.Uma viagem e peras que os putos nunca mais esqueceram nem esquecerão, durante a qual eu tinha feito uns vinte rolos de slides com a minha fiel Pentax.

Agora imaginem o que sentiriam se perdessem todas as imagens de uma viagem como esta, de certa forma irrepetível.Foi precisamente o que me aconteceu. Regressado a Lisboa, e tendo posto os rolos a revelar, foi-me comunicado pelo gerente da loja que um saco com todos os meus slides (cerca de 800) havia sido roubado.

É verdade que obtive uma indemnização, mas continuo a não me conformar com aquele "buraco" nas minhas extensas memórias fotográficas.

São os slides que nunca mostrarei e, pior do que isso, os slides que eu próprio nunca vi. 

quinta-feira, julho 21, 2022

"The cold is in the head"


 

"The cold is in the head"
Passámos um Agosto chuvoso na Irlanda, com os rapazes. Foi em 1993.
Uma parte do tempo deambulámos por Dublin e por Cork, com a música sempre presente nas ruas e nos bares.Depois aventurámo-nos, de automóvel, pelas imensas colinas verdes e pela margem dos lagos.
O arranque do Ford alugado, com o volante à direita, proporcionou uma das cenas mais divertidas vividas em família. As tentativas de meter mudanças com a manivela do vidro da janela ficaram para sempre nas nossas memórias.
As estradas eram, nessa época, de uma pobreza franciscana e, quando se saía das principais, era comum roçar nas silvas com ambos os lados do carro.
Outra coisa que nunca esquecerei, porque me causou grandes transtornos, eram os letreiros indicando destinos imediatamente depois do cruzamento em que devíamos ter virado.
Saltávamos de "Bread & Breakfast" todos os dias, beneficiando de uma rede densa que cobre todo o território, aproveitando para ver os interiores das casas irlandeses. Quase sempre deparávamos com imagens do Papa e até da Senhora de Fátima.A paisagem verde só perde a monotonia quando os rebanhos criam, nas encostas, padrões inesperados.
Os constantes muros de pedra à beira da estradas faziam-me lembrar o norte de Portugal e as raízes celtas que por lá ficaram. Monumentos arcaicos e as abadias em granito soam-nos familiares.
A comida, com excepção da Guiness, não entusiasma e sou levado a pensar que a música que tocam nos bares, excelente, foi inventada para nos distrair do que estamos a comer.
Também os penhascos rochosos de Kerry nos lembram muito a costa portuguesa do Oeste ou do Sudoeste Alentejano. Mas com chuvinha diária.
Ao largo, a oito milhas da costa, encontram-se a ilhas Skellig. A maior das duas tem nome em gaélico; Sceilig Mhichíl, que significa "rocha do Miguel".Como somos povo de marinheiros não resistimos e navegámos até lá.
Quando avistei a embarcação, em Portmagee, a minha experiência na Armada segredou-me que o fundo era demasiado chato. Guardei para mim tal ideia e tive esperança de estar enganado.Quando acabámos de descer o canal e ficámos expostos ao Oceano os efeitos não tardaram; uma boa parte dos turistas vomitou enquanto se agarrava como podia.
As ilhas são enormes rochedos triangulares, cravejados de aves marinhas, onde no Século VI uma comunidade de monges fundou um mosteiro. Não duvido que o local é especialmente indicado para a introspecção; custa imaginar um inverno naquele local, com as comodidades medievais e isolados do mundo pelas enormes vagas do atlântico.
Foi com alívio que regressámos a terra firme para seguir em direcção a Galway, o ponto mais ao norte onde chegámos antes de inflectirmos de volta a Dublin.Foi nesse percurso que pernoitámos em Killkee, uma simpática vilória que cresceu à volta de uma praia em forma de concha.
Chegámos ao fim da tarde e depois de largarmos as malas no alojamento saímos, enregelados, à procura de uma sítio para comer.Na marginal deparámos com um simpático coreto, fustigado pelo vento de oeste, que na ocasião era o único instrumento que ali se tocava.
Na rua quase deserta veio ao nosso encontro um tipo com ar alucinado, num tipo de embriaguez muito para além do álcool. Sem que nós tivéssemos tempo de dizer alguma coisa ele gritou, gesticulando: "The cold is in the head, the cold is in the head".E desandou tal como chegara.
Depois de conduzir, pela esquerda, muitas centenas de quilómetros, regressei a Dublin com uma horrível dor nas costas.