domingo, setembro 04, 2022

O Facebook é a antítese do Marx.


 O Facebook é a antítese do Marx.

É uma "fábrica" que trabalha com matéria prima gratuita (que nós damos) e cujos trabalhadores se limitam a criar e manter a infraestrutura. Vendem publicidade mas no seu produto não há incorporação de trabalho vivo.
As televisões também vendem publicidade mas, para isso, todos os dias têm que produzir programas (a maior parte dos quais são realmente deploráveis, mas envolvem trabalho).
O Facebook pode aumentar as vendas para o dobro sem ter que contratar mais trabalhadores. Ou seja, não vive da exploração dos próprios trabalhadores mas sim dos otários que publicam fotografias e textos. Como no caso deste post, que deve ter feito Marx revolver-se no túmulo.

terça-feira, julho 26, 2022

Os slides que nunca mostrarei


 

Os slides que nunca mostrarei

Em 1996 fiz uma das viagens mais belas da minha vida, da qual guardo paradoxalmente uma memória triste.
Saímos de Sacramento, de casa da minha irmã, com os dois filhos (com 21 e 25 anos), numa "banheira" alugada.

Queria mostrar aos rapazes algumas maravilhas naturais da América.Passámos pelo Yosemite, atravessámos o parque das Sequóias Gigantes, e descemos até ao sul, à latitude de Los Angeles.Inflectimos para o interior, pelo deserto do Mojave, sempre dormindo nos motéis, como se estivéssemos num filme americano. Sempre a abrir no fast food, guardando senhas de um para obter desconto no próximo. Para os rapazes era o delírio.

Como não podia deixar de ser parámos em Las Vegas e deambulámos de casino em casino, ofuscados pelo neon.O passo seguinte foi o Grand Canyon, onde não tivemos coragem de descer mesmo até ao fundo, e depois o grande deserto pintado dos filmes do farwest. Acontece que chegámos já de noite e com uma trovoada de relâmpagos. O carro avançava na escuridão e, de vez em quando, um relâmpago mostrava os pináculos de rocha à nossa volta. Inesquecível.

Acordámos no dia seguinte, na pitoresca Mexican Hat, onde nos deliciámos com um pequeno almoço servido por "índias" e alegrado pelos colibris que bebiam nos ibiscos vermelhos.Então metemo-nos num jeep, com um velho navajo, e passámos o dia por rochedos e grutas, que tresandavam a desaparecidos rituais indígenas.Não quero maçar-vos com mais detalhes, que seriam muitos e saborosos, mas desapropriados.De barriga cheia, tomámos a direcção do regresso. Não sem antes dar um salto ao ponto mais baixo do planeta em Death Valley.

Eu tivera a precaução de reservar alojamento a uns 70 km de Los Angeles, para evitar entrar à noite naquele dédalo de autoestradas onde já antes havia penado.
O local aprazado da pernoita era S. Bernardino, e eu reservara dois quartos no motel. Quando lá chegámos percebemos que não era bem aquilo que tínhamos imaginado.Não por sermos os únicos brancos do bairro, isso não nos incomodava. A questão é que o nosso motel tinha uma frequência bizarra de travestis espadaúdos e "loiras" demasiado bronzeadas, e nas esquinas próximas pareceu-nos haver um correpio de comércio suspeito.Nunca me ocorreria classificar aquele motel como tendo "ambiente familiar".Acantonámos a família toda num dos quartos, o que nos permitiu imaginar como se sentiriam os bravos da cavalaria quando sitiados pela tribo Apache.

A noite decorreu sem sobressaltos e no dia seguinte visitámos Los Angeles, e depois tomámos a estrada do Pacífico até Monterey e S. Francisco.Uma viagem e peras que os putos nunca mais esqueceram nem esquecerão, durante a qual eu tinha feito uns vinte rolos de slides com a minha fiel Pentax.

Agora imaginem o que sentiriam se perdessem todas as imagens de uma viagem como esta, de certa forma irrepetível.Foi precisamente o que me aconteceu. Regressado a Lisboa, e tendo posto os rolos a revelar, foi-me comunicado pelo gerente da loja que um saco com todos os meus slides (cerca de 800) havia sido roubado.

É verdade que obtive uma indemnização, mas continuo a não me conformar com aquele "buraco" nas minhas extensas memórias fotográficas.

São os slides que nunca mostrarei e, pior do que isso, os slides que eu próprio nunca vi. 

quinta-feira, julho 21, 2022

"The cold is in the head"


 

"The cold is in the head"
Passámos um Agosto chuvoso na Irlanda, com os rapazes. Foi em 1993.
Uma parte do tempo deambulámos por Dublin e por Cork, com a música sempre presente nas ruas e nos bares.Depois aventurámo-nos, de automóvel, pelas imensas colinas verdes e pela margem dos lagos.
O arranque do Ford alugado, com o volante à direita, proporcionou uma das cenas mais divertidas vividas em família. As tentativas de meter mudanças com a manivela do vidro da janela ficaram para sempre nas nossas memórias.
As estradas eram, nessa época, de uma pobreza franciscana e, quando se saía das principais, era comum roçar nas silvas com ambos os lados do carro.
Outra coisa que nunca esquecerei, porque me causou grandes transtornos, eram os letreiros indicando destinos imediatamente depois do cruzamento em que devíamos ter virado.
Saltávamos de "Bread & Breakfast" todos os dias, beneficiando de uma rede densa que cobre todo o território, aproveitando para ver os interiores das casas irlandeses. Quase sempre deparávamos com imagens do Papa e até da Senhora de Fátima.A paisagem verde só perde a monotonia quando os rebanhos criam, nas encostas, padrões inesperados.
Os constantes muros de pedra à beira da estradas faziam-me lembrar o norte de Portugal e as raízes celtas que por lá ficaram. Monumentos arcaicos e as abadias em granito soam-nos familiares.
A comida, com excepção da Guiness, não entusiasma e sou levado a pensar que a música que tocam nos bares, excelente, foi inventada para nos distrair do que estamos a comer.
Também os penhascos rochosos de Kerry nos lembram muito a costa portuguesa do Oeste ou do Sudoeste Alentejano. Mas com chuvinha diária.
Ao largo, a oito milhas da costa, encontram-se a ilhas Skellig. A maior das duas tem nome em gaélico; Sceilig Mhichíl, que significa "rocha do Miguel".Como somos povo de marinheiros não resistimos e navegámos até lá.
Quando avistei a embarcação, em Portmagee, a minha experiência na Armada segredou-me que o fundo era demasiado chato. Guardei para mim tal ideia e tive esperança de estar enganado.Quando acabámos de descer o canal e ficámos expostos ao Oceano os efeitos não tardaram; uma boa parte dos turistas vomitou enquanto se agarrava como podia.
As ilhas são enormes rochedos triangulares, cravejados de aves marinhas, onde no Século VI uma comunidade de monges fundou um mosteiro. Não duvido que o local é especialmente indicado para a introspecção; custa imaginar um inverno naquele local, com as comodidades medievais e isolados do mundo pelas enormes vagas do atlântico.
Foi com alívio que regressámos a terra firme para seguir em direcção a Galway, o ponto mais ao norte onde chegámos antes de inflectirmos de volta a Dublin.Foi nesse percurso que pernoitámos em Killkee, uma simpática vilória que cresceu à volta de uma praia em forma de concha.
Chegámos ao fim da tarde e depois de largarmos as malas no alojamento saímos, enregelados, à procura de uma sítio para comer.Na marginal deparámos com um simpático coreto, fustigado pelo vento de oeste, que na ocasião era o único instrumento que ali se tocava.
Na rua quase deserta veio ao nosso encontro um tipo com ar alucinado, num tipo de embriaguez muito para além do álcool. Sem que nós tivéssemos tempo de dizer alguma coisa ele gritou, gesticulando: "The cold is in the head, the cold is in the head".E desandou tal como chegara.
Depois de conduzir, pela esquerda, muitas centenas de quilómetros, regressei a Dublin com uma horrível dor nas costas.

quinta-feira, junho 30, 2022

Quando há demasiados aeroportos


 

quarta-feira, abril 27, 2022

Adeus Senhor Haffman


 

Um filme estupendo de Fred Cavayé.
Uma grande história vivida num terrível momento histórico (a ocupação de Paris pelos nazis).
As personagens, quer os heróis quer os vilões, são tudo menos caricaturas. Quase lhes podemos tocar.
A inexistência de lugares comuns, de estereótipos, dá ao filme uma enorme força.

terça-feira, abril 19, 2022

O IMPLICADO


 

O IMPLICADO

Fui ver, há dias, o filme com este título dedicado à vida de Salgueiro Maia e, em particular, à forma como o "regime" lidou com a sua "rebeldia".

Não é fácil retratar um homem que carrega o fardo da pureza revolucionária, na morte tal como em vida.
Tenho muitas dúvidas acerca da atribuição destes epítetos, como se estivéssemos a estabelecer um padrão ideal de comportamento.

As escolhas que Maia fez na sua vida, são legítimas e mesmo louváveis; mas delas não pode resultar uma condenação em abstracto de quem tenha tomado caminhos diferentes.
Depois de uma revolução realizada por militares não é própriamente um crime que alguns de entre eles queiram ter carreira política na fase posterior. O que eles fizerem, e a forma como eles o fizerem, deverão ser a base de qualquer julgamento que deles queiramos ter.

Da mesma forma se procedeu quanto à "antiguidade" da militância política. Mesmo quando se dizia: "este acordou para a política quando tal deixou de ser perigoso e passou até a ser uma forma de vingar na vida".
Mesmo nesses casos não passou de um dichote sem consequências notórias.

Outra "clivagem", que nunca teve efeitos nefastos, poderia ter ocorrido entre os militantes políticos clandestinos que lutaram durante décadas contra o fascismo, e os militares que o derrubaram num acto súbito e de curta duração. Nunca houve grandes queixas por terem sido os militares a receber os louros do 25 de Abril apesar de os militantes políticos também terem feito um longo e silencioso sacrifício para o alcançar.

Voltando ao nosso Salgueiro Maia, o filme retrata-o como alguém que assumia com veemência os "valores militares" embora de forma crítica que não fechava os olhos a injustiças.
Havia nele também as qualidades e os defeitos do provincianismo, uma reprovação tácita dos gestos mundanos e cosmopolitas.
A sua convicção, e a sua coragem, tinham algo de telúrico. A sua coragem em momentos chave pode realmente ter decidido a sorte do 25 de Abril.

Em consequência desta renovada atenção dada ao Salgueiro Maia acabei por descobrir algumas afinidades e coincidências.

Ele, tal como eu, chamava-se Fernando José. Uma fórmula que há muito passou de moda. Hoje não conheço nenhum jovem com tal nome.

Tínhamos quase a mesma idade, ele nasceu em 1944 e eu em 1945. Ele nasceu imediatamente antes e eu depois de a Grande Guerra terminar.

Ele, tal como eu, fez a guerra da Guiné. Chegou lá dois anos depois de eu ter regressado a Lisboa.

Mas o que mais me encantou foi descobrir uma fotografia de Salgueiro Maia quando era criança e compará-la com outra que me foi tirada na mesma idade (eu sou o da esquerda).

O penteado, a roupa, o sorriso e a postura são extremamente parecidos, quiçá obedecendo às mesmas regras de um ritual da época (meados dos anos cinquenta).

Um toque irresistível é dado pelos emblemas na lapela. Ele era do Benfica e eu, já então, do Sporting.
Nesse plano estávamos em lados opostos mas algo me diz que ele seria um daqueles benfiquistas com quem até gosto de trocar brincadeiras.

segunda-feira, abril 11, 2022

O Poder do Cão


O Poder do Cão

Um enorme filme de Jane Campion, que talvez só pudesse ser feito por uma mulher.

sexta-feira, março 04, 2022

Os Predadores


Os Predadores
Um digno herdeiro da riquíssima tradição da comédia italiana.

quinta-feira, fevereiro 17, 2022

António Passaporte em Cascais

 


Entrevista a propósito da minha participação na exposição de homenagem a António Passaporte

domingo, janeiro 09, 2022

Em Tianjin é assim...



Na cidade chinesa de Tianjin (onde estive em 2009) vão testar 14 milhões de pessoas por terem detectado dois infectados com Omicron. Contam fazê-lo em 24 horas !!!!

terça-feira, dezembro 28, 2021

Num Futuro perto de si

 


Num Futuro perto de si

quarta-feira, novembro 10, 2021

ANDALUZIA


ANDALUZIA
Já lá não ia há muitos anos. Fiquei surpreendido.
Todos sabemos que a Andaluzia tem preciosidades como Sevilha, Granada e Córdoba. Mas tem muito mais.
Nesta viagem descobri Ronda, outra jóia, os "pueblos blancos", os dolmens de Antequera, o "Caminito del Rey" e a cidade de Málaga.
Qualquer uma destas coisas merece o esforço da visita.
Na Andaluzia proliferam as oliveiras, aos milhões, pelas planícies e pelas serras. Num alinhamento que quase choca.
As cidades são cuidadas e cheias de monumentos e museus.
Basta dizer que em Málaga existe um museu do Picasso, uma "delegação" do Thyssen e outra do Guggenheim.
Um pouco mais a sul são as praias mediterrânicas, que pouco distam da Sierra Nevada com os seus 3000 de altitude.
Há muito para explorar na Andaluzia que, penso, é a mais interessante região turística de Espanha.

sexta-feira, outubro 22, 2021

O imposto silencioso


 

segunda-feira, outubro 11, 2021

O burro


Como os combustíveis estão caríssimos optámos pelo burro.
É mais barato e salva o planeta. Mas vai carregadinho, coitado.

sexta-feira, outubro 08, 2021

NOBEL


 

quarta-feira, outubro 06, 2021

Leitura obrigatória


 

sábado, setembro 18, 2021

Clint Eastwood morreu


Clint Eastwood morreu
mas apenas em sentido figurado, ao fazer o seu novo filme "Cry Macho".
Nunca o devia ter feito.
"Unforgiven" -1992- foi um dos poucos filmes que me pôs em lágrimas (assim de repente lembro-me de dois filmes sobre racismo "To kill a mockingbird" -1962- e "Invictus" (2009) que tiveram o mesmo efeito).
Clint fez muitos outros filmes inesquecíveis como "Absolute Power", "Mystic River" e Million dollar baby", para não ir mais longe.
Nos últimos anos o cowboy Clint Eastwood perseguia implacavelmente outra "injustiça", a velhice.
"Gran Torino" de 2008 e "The Mule", de 2018, fizeram dele um símbolo de resistência e sobrevivência.
Os velhos como eu estavam sempre à espera que ele mostrasse o seu charme e aplicasse alguns inesperados murros naqueles que se atreviam a zombar da sua idade.
Por isso não devia ter filmado "Cry Macho", onde surge de tal forma depauperado que a sua proverbial fleuma perde toda a graça. E os socos que dá não são credíveis.
Tudo muito fraquinho, previsível e piegas.
Em suma, com esta morte simbólica do Clint perdemos mais uma fonte de conforto psicológico.

sexta-feira, agosto 27, 2021

Testa di Moro


Testa di Moro

Já em 1989, em Siracusa, eu ficara apaixonado pelos jarrões em forma de cabeça, esmaltados e quase sempre polícromos. As lojas que se dedicam a esse comércio tinham sido, e voltaram a ser em 2014, locais de deslumbramento.
Vim a saber que às “testas di moro”, que é como se chamam, está associada uma lenda que, dizem, remonta ao domínio muçulmano por volta do ano 1100.
Uma bela rapariga siciliana, de olhos cor de mar, terá então atraído as atenções de um “mouro”, por quem se apaixonou. O romance ficou em perigo quando se soube que o amante deveria regressar à sua terra natal, onde o esperavam a mulher e os filhos.
Desesperada, a moça decapitou o “mouro”, enquanto ele dormia, e usou a sua cabeça para plantar uma flor no seu terraço. Todos os dias a regava com as suas próprias lágrimas e a flor cresceu bela e desmesuradamente.
Os vizinhos, espantados com tal sucesso, resolveram imitá-lo fazendo, também eles, vasos em forma de cabeça. Assim terá nascido esta tradição siciliana.
Percorridas várias lojas, para poder fazer uma escolha fundamentada, lá tomei a difícil decisão de escolher a que vos mostro.

sexta-feira, agosto 06, 2021

Um dia olhei o espelho e vi um velho


 

Um dia olhei o espelho e vi um velho. Com surpresa mas sem mágoa. Desde criança que invejo os velhos, como baús desconjuntados a transbordar memórias.

Nós somos provavelmente a primeira geração que teve a possibilidade prática de registar, em fotografia, o que viveu do nascimento até à morte. Ao longo de milénios o passado dos velhos só podia ser "visto" em longos monólogos ou, melhor ainda, intuído num inesperado brilho dos seus olhos cansados.
Os velhos são a infinita liberdade de quem não espera nada, de quem espera o nada.

domingo, julho 25, 2021

O Costistão


 

sábado, julho 03, 2021

O regresso à cidade medieval ?

O regresso à cidade medieval ?
Vão-se multiplicando os acidentes envolvendo ciclistas, trotinetes, peões e motoretas das Ubers.
Isso não me espanta pois as ruas das cidades estão cada vez mais caóticas, com vários tipos de veículos a entrecruzarem-se manobrados por pessoas com diferentes motivações e conhecimento do código da estrada (e mesmo língua e da geografia citadina).
Nuns casos predomina a atitude lúdica descontraída (mas o trânsito é uma coisa muito séria), noutros a azáfama do trabalho à tarefa (conduzindo motoretas a olhar para o GPS do telemóvel), e na maioria o tradicional stress dos movimentos pendulares casa/trabalho/casa (horas roubadas à vida familiar).
Esta mistura de coisas tão diferentes no mesmo espaço viário tem forçosamente que produzir graves consequências.
Os poderes públicos têm que decidir de uma vez se deixam que se instale o caos medieval nas cidades ou se impedem que carros, autocarros, eléctricos, bicicletas, motoretas de distribuição de pizzas e trotinetes se misturem nas mesmas faixas de rodagem.

sexta-feira, junho 04, 2021

Elefante branco


 

sábado, maio 15, 2021

Vida militar


 Visita dos cadetes fuzileiros aos paraquedistas em 1967/8.

Sou o segundo em cima à esquerda

quarta-feira, abril 21, 2021

Incontornável


 

quinta-feira, abril 08, 2021

O meu avô dos olhos claros




O meu avô dos olhos claros
era homem de longos silêncios
interrompidos por pragas
que eu, miúdo da cidade, não entendia
"ah codorniz, peixeira do mar"
O meu avô dos olhos claros
talvez uma semente que ficara
de alguma invasão francesa
contorcia um bigode arruivado
sobre dez réis de gente
O meu avô dos olhos claros
sacou uma dúzia de filhos
da pequena leira à volta da casa
onde a avó de tez cigana
estendia os panos de secar figos
O meu avô dos olhos claros
bebia o seu copito, de raiva,
contra uma pobreza que nem imaginamos
e resmungava antigos ditados
quando as centopeias minavam o pão
O meu avô dos olhos claros
levou-me à pequena eira
e deixou-me pisar as uvas na adega
mas acho que nunca o conheci
acho que nunca ninguém o conheceu
O meu avô dos olhos claros
acabou na prosaica Amadora
tolerado em casa de uma filha
e pedia esmola à porta da estação
para ter a sensação de estar vivo
O meu avô dos olhos claros
desapareceu no silêncio
tal como sempre viveu
com os olhos cada vez mais claros
do que viu e do que sofreu
O meu avô dos olhos claros
morreu há um ror de anos
nunca teve cinco minutos de fama
os filhos foram-se todos
e dos netos pouco resta
O meu avô dos olhos claros
visitou-me hoje, inesperadamente,
e eu soçobrei à sua tragédia vulgar
e senti a sua herança como nunca
agora que só eu o posso lembrar

sábado, abril 03, 2021

Farto de discursos piedosos


 

quinta-feira, março 25, 2021

O confinamento é um meio e não um fim.


Racionalidade no combate à pandemia (3)
O confinamento é um meio e não um fim.
Duas frases equívocas marcaram recentemente as nossas vidas: "Vai ficar tudo bem" e "Fique em casa".
O "Vai ficar tudo bem" teve os resultados conhecidos.
O "Fique em casa" entranhou-se de tal forma que nos esquecemos da razão do seu aparecimento.
Ficar em casa é uma maneira de evitar contágios, ou seja, é um meio e não um fim. Só existe porque os cidadãos são tratados como patetas incapazes de gerir os seus comportamentos de forma a evitar os contágios, em casa ou fora dela.
Estar num descampado, ou dentro do automóvel, é tão pouco contagiante como estar dentro de casa. Estar a mais de dois metros de alguém e usar máscara é, em termos práticos, tão pouco contagiante como estar fechado em casa.
Mas neste momento estamos obcecados com a "letra da lei" em vez do "espírito da lei", já não se discute se um dado comportamento é de risco mas sim se o estado de emergência o permite.
As "forças da ordem" dão-se ao luxo de importunar, e identificar, cidadãos que passeiam numa praia deserta em vez de andarem a evitar ajuntamentos e confraternizações em praças e miradoiros das nossas cidades.
E o nosso orgulho cívico, que nunca foi grande coisa maltratado por décadas de ditadura, tarda em se fazer ouvir.

terça-feira, março 23, 2021

Racionalidade no ataque à pandemia (2)


Racionalidade no ataque à pandemia (2)
Num país como o nosso, em que as segundas casas são muito comuns, devia ser legislado um “pacote casa citadina-carro-casa secundária” para efeitos de confinamento. Em que as casas e o carro fossem englobados como fazendo parte da residência. O isolamento sanitário é o mesmo em qualquer dos interiores.
E não são só os ricos que têm casas fora da cidade. Há até pessoas modestas que cultivam hortas e têm criação para consumo próprio e necessitam de lá se deslocar com regularidade.

quinta-feira, março 11, 2021

11.03.1975


 Onde eu andava, neste dia, há 46 anos

sábado, fevereiro 13, 2021

Imperdível.


Gonçalo M. Tavares publicou ontem no Expresso esta pérola. Imperdível.