segunda-feira, fevereiro 27, 2006

Athouguia em Estremoz



Um Exposição de pintura de Luís Athouguia estará no Museu de Estremoz de 11 de Março a 4 de Junho.

sexta-feira, fevereiro 24, 2006

Manuscritos de Pessoa com acesso universal



A primeira fase do projecto "Manuscritos de Pessoa em linha", desenvolvido pela Biblioteca Nacional (BN), através do seu Arquivo da Cultura Portuguesa Contemporânea, está disponível desde ontem, com a reunião, online, e num mesmo lugar, de toda a poesia de Alberto Caeiro, incluindo a que lhe é atribuída.

No endereço http/purl.pt/1000, que gradualmente acolherá todo o espólio literário pessoano, qualquer utilizador, seja ele investigador ou curioso da sua obra, poderá aceder às várias versões que o autor trabalhou, aos rascunhos que fez, às alterações que considerou necessárias - em papel de carta, em envelopes, em papel de sebenta, em fragmentos de papel; no fundo, em tudo o que tinha à mão, devolvendo-nos, a par do génio, também a dimensão do homem nas suas hesitações e na procura da palavra mais justa.

A complexidade de tratamento destes materiais - os célebres e numerosos "papéis de Pessoa" - foi, aliás, ontem salientada, na apresentação do projecto por Manuela Vasconcelos, técnica da BN que organizou a inserção online da documentação relativa à produção deste heterónimo, nos seus três núcleos: O Guardador de Rebanhos, O Pastor Amoroso e Poemas Inconjuntos. Complexidade que, percorrendo toda a obra de Pessoa, referiu, explica em larga medida "por que razão não existe ainda um inventário completo do espólio literário" do autor.

No caso dos manuscritos de Alberto Caeiro, e a par de problemas de datação divergente ou ausente, de decifração ou de natureza outra, vários casos há, lembrou, em que numa mesma folha de papel, dobrada várias vezes, coexistem fragmentos de diversos poemas sem ligação entre si. Também nestes casos, referiu Manuela Vasconcelos, houve a preocupação de dar a conhecer estes manuscritos na íntegra, como os demais, "de forma clara e legível".

O acesso universal à versão digital destes materiais terá também importantes reflexos em matéria de conservação dos originais. Tanto mais que, sublinhou Manuela Vasconcelos, é grande o "grau de deterioração dos papéis de Pessoa". Deterioração derivada, em muitos casos, das características do próprio suporte: "Ele escrevia muitas vezes a lápis, em papéis muito frágeis".
As próximas etapas do projecto "Manuscritos de Pessoa em linha" visarão a produção de Álvaro de Campos e de Ricardo Reis, anunciou, por seu turno, o director da BN. Lembrando que o acesso universal ao espólio de Pessoa via Internet vai abrir "um conjunto de novas possibilidades" de estudo e reflexão, Jorge Couto salientou a importância de, através de projectos desta natureza, se "associar a preservação [dos originais] à disponibilização dos fundos à guarda da BN". O que tem vindo a acontecer através da BNDigital.

À guarda do Arquivo da Cultura Portuguesa Contemporânea, no seio do qual se está a desenvolver o trabalho de digitalização/inserção em linha do espólio pessoano, estão hoje "130 espólios, compreendendo mais de três milhões de documentos", o que faz dele "um dos mais importantes arquivos literários a nível europeu e internacional". Um passo que, referiu ainda Jorge Couto, "vem contribuir para o aumento dos conteúdos em língua portuguesa na rede e para a afirmação da cultura e da língua portuguesa no mundo".

Saudando o passo dado pela BN, também a ministra da Cultura, Isabel Pires de Lima, recordou, na ocasião, a sua faceta de investigadora, ao definir os manuscritos de um autor como "objectos de paixão", cuja difusão alargada é hoje imperiosa. O acesso universal ao espólio de Pessoa, considerou, "vem também contribuir para a criação de uma outra mentalidade em matéria de acesso a materiais de investigação".

(Diário de Notícias 23 de Fevereiro 2006)

quarta-feira, fevereiro 22, 2006

Gripe das Aves



(Para ver outros cartoons clique AQUI)

domingo, fevereiro 19, 2006

O desemprego veio para ficar


O desemprego voltou a subir no último trimestre do ano passado e chegou aos oito por cento da população activa. Este valor, divulgado no dia 14 pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), equivale a 447 mil desempregados e corresponde a mais do dobro do registado no final de 2000, quando a taxa era de 3,8 por cento.
Notícias da Amadora


A verdade é que é cada vez mais difícil ter uma actividade lucrativa com base no trabalho assalariado.

Marx definiu as noções de valor e de mais-valia como sendo originados no acto da produção mas não explorou muito a questão da sua realização. Por outras palavras: a mais valia produzida só se traduz em lucro para o capitalista se ele vender a produção e realizar o valor que o trabalho criou.
Do ponto de vista do capitalista, do “empregador”, é irrelevante que os trabalhadores tenham gerado uma enorme mais valia se não lhe for possível fechar o ciclo D-M-D’ com um D’ muito maior do que D.
Marx falou do trabalho produtivo e do trabalho improdutivo mas “esqueceu-se” de falar do trabalho lucrativo.

A principal transformação dos pressupostos económicos com que Marx trabalhou será provavelmente esta, que os capitalistas se preocupam cada vez mais com a realização da mais-valia, quando acedem ao mercado como vendedores, e cada vez menos com a geração da mais-valia durante a fase da produção. Para o capitalista não faz sequer sentido distinguir entre a geração e a realização da mais-valia pois a ele só o satisfaz o resultado final dos dois processos.

Na medida em que se consome cada vez mais produtos “superfluos” em vez de produtos “indispensáveis” a concorrência tende a ser cada vez maior e não abranje só os produtos similares nem só os produtos com origem geográfica identica.
O capitalista vê-se portanto forçado a reagir ao nível dos preços e ao nível da atractividade dos seus produtos.

Neste processo as tecnologias digitais são um instrumento que tanto pode ser usado para a automatização de tarefas, com dispensa de trabalhadores, como para o suporte informativo do trabalho não-repetitivo em que se baseiam os esforços de realização da mais-valia.
Em qualquer dos casos o desenvolvimento empresarial, sustentado no aumento da produtividade e nos factores de diferenciação, significará sempre a redução do trabalho assalariado.

Por essa razão são totalmente ilusórias as políticas de redução do desemprego como por exemplo o "Plano Tecnológico" sem que se verifique uma alteração do quadro económico actual.

Parece evidente que um quadro económico de novo tipo trará consigo relações de produção também de novo tipo.

quinta-feira, fevereiro 16, 2006

Fernando em Pessoa


A exposição estará patente todos os dias até 25 de Março, no seguinte horário:
Segunda a sábado, do meio-dia às 02h da manhã
Domingo, das 17 horas às 02h da manhã.

segunda-feira, fevereiro 13, 2006

Antigo ditado



(Para ver outros cartoons clique AQUI)

sexta-feira, fevereiro 10, 2006

Um novo blog em cada segundo



O relatório da Technorati mostra que o número de blogs duplica em cada 5 meses pois todos os dias são criados 75.000 novos blogs.

Esta autêntica avalanche de informação digitalizada está a converter-se, pela sua própria dimensão, num factor estruturador da actividade económica e não só.
Ela explica o sucesso explosivo do Google (que no fundo apenas vende "atenção" dos internautas para determinados conteúdos) e agora também as pretensões dos proprietários das redes de banda larga (que no fundo vendem apenas facilidade de acesso).

Um outro desafio, que talvez dê também origem a um grande negócio, é a dificuldade de garantir a perenidade da informação sob a sua forma digital.

Os hieróglifos ainda podem ser lidos vários milénios depois de terem sido produzidos mas a folha de cálculo antiquada que gravámos numa diskette de 5 polegadas pode estar irremediavelmente perdida.

A informação "normal" é directamente captada pelos nossos sentidos mas a informação digitalizada é invisível ao tacto, à vista, ao olfacto, ao paladar e ao ouvido.
Para podermos aceder-lhe necessitamos de dispositivos que convertam a informação digitalizada em imagens, sons, etc.

O que acontece com a vertiginosa progressão digital é que os suportes se sucedem e os dispositivos que os "lêem" vão-se tornando obsoletos e acabam por desaparecer.
Um bom exemplo disso são os discos fonográficos; quem é que hoje ainda tem a possibilidade de ouvir discos de 78 rotações ?
É necessário converter, de tempos a tempos, a informação contida nos suportes antigos para os novos suportes.

Mas essa não é a maior dificuldade.
Os sistemas de codificação da informação sucedem-se a um ritmo elevadíssimo como se surgissem e desaparecessem constantemente novos idiomas, novas formas de "falar" a informação.

Quando um "idioma" desaparece e é substituído por outro nem sempre são guardadas as gramáticas e os dicionários respectivos. Mais tarde, sem essas ferramentas, pode ser quase impossível interpretar os zeros e os uns da informação digitalizada no âmbito desses "idiomas" desaparecidos.

Podemos portanto dizer que a principal vantagem do digital, a extraordinária facilidade na produção de réplicas, constitui também a sua principal debilidade.

terça-feira, fevereiro 07, 2006

Match Point



Match Point é uma obra deslumbrante sobre a força do instinto de sobrevivência e sobre a sua precaridade.

Destino ou determinação individual ? Necessidade ou acaso ? Um dos temas mais antigos e recorrentes da humanidade tratado com grande maestria por Woody Allen.

Uma obra impiedosa que deixa o espectador a pensar sobre as atrocidades que seria capaz de cometer se o tentassem desapossar de algo para si essencial.

quarta-feira, fevereiro 01, 2006

Agora é tarde...

segunda-feira, janeiro 30, 2006

Os primeiros 3 meses de um fotógrafo



Sérgio Redondo começou apenas em Novembro de 2005 mas já tem excelentes trabalhos para mostrar.

(Veja aqui)

quarta-feira, janeiro 25, 2006

Ganhar o Rei sacrificando o Cavalo


(Para ver outros cartoons clique AQUI)


Em menos de um ano o governo suportado pela bancada socialista na Assembleia da República passou de detentor de uma confortável maioria absoluta para a condição de praça sitiada.
O cerco está montado pelas autarquias que perdeu, pelos sindicatos que não controla, pelas corporações que o abominam e, desde o dia 22, por um Presidente que se parece demasiado com um professor rigoroso.

Como foi isto possível ?

As razões de fundo são o vazio ideológico e a ausência de um projecto sócio-económico alternativo ao sistema actual o que reduz os objectivos estratégicos à simples obtenção do poder.
Mas mesmo nesse plano, este descalabro concreto explica-se por um conjunto de erros tácticos, que revelam incapacidade para definir prioridades e gerir expectativas.

Basta recuarmos até à partida de Durão Barroso para a Comissão Europeia, no Verão de 2004, para percebermos como a esquerda fez do bloqueamento da nomeação de Santana Lopes um objectivo prioritário. Essa questão foi pretexto para agressões verbais a Jorge Sampaio e levou mesmo à demissão da liderança do PS.

Assim que Santana foi empossado a pressão sobre o seu governo tornou-se impiedosa e atingiu uma escala sem precedentes mesmo antes que houvesse factos que a justificassem.
Nenhum dos partidos da esquerda, pareceu estranhar que várias forças e personalidades conotadas com a direita - Marcelo, Manuela Ferreira Leite, Pacheco Pereira, Cavaco - participassem nesse processo.
Pelo contrário, aceitaram alegremente a “ajuda” para a sua cruzada.

Hoje já é claro para todos que a direita sacrificou um "cavalo", Santana, para assegurar a vitória do "rei", Cavaco. Caso Santana se tivesse mantido à frente do governo seria altamente improvável uma vitória da direita quer nas autárquicas quer nas presidenciais.

Aqueles que, como eu, sempre disseram que a esquerda não se devia precipitar no engodo e na facilidade de vencer Santana foram olhados como suspeitos de “santanismo”.
Aqueles que defenderam a construção de uma alternativa política sólida antes de amarinhar para as cadeiras do poder foram ostensivamente ignorados pois, para muitos, “as cadeiras do poder já” são mesmo a única coisa que consta dos seus projectos.

Se a Assembleia não tivesse sido dissolvida haveria tempo para preparar uma alternativa política e eleitoral, e depois usar o descontentamento gerado pelo governo de direita para fazer eleger um Presidente que incluisse no seu programa a intenção de demitir Santana. Pelo caminho ter-se-ia provavelmente ganho as autárquicas em Lisboa e no Porto.

Como se sabe foi tudo feito ao contrário.

A direita venceu em Outubro nas principais cidades e agora usa as reivindicações locais para pressionar o governo. Cavaco está numa posição confortável pois tanto pode apoiar o governo, se este fizer as políticas que lhe interessam, como cortar-lhe as pernas se ele se desviar do “bom caminho”.

Pretextos não faltarão já que não é previsível nos próximos anos um sucesso inquestionável das políticas económicas e, por outro lado, está ainda muito vivo o precedente da dissolução da Assembleia decidida por Sampaio apesar da maioria PSD/CDS.

A guerra fratricida entre Alegre, Sócrates e Soares torna tudo ainda mais fácil para Cavaco já que o PS tem a sua capacidade de reacção diminuída e corre mesmo o risco de cisão parlamentar.

Tanta incompetência no planeamento parece demasiada mas é, infelizmente, uma realidade.

Mais grave ainda é o facto de a esquerda não ter um projecto alternativo de desenvolvimento económico e social.
Enquanto oposição, faz uma crítica casuística e de bota-abaixo. Uma vez com as responsabilidades governativas e confrontada com os problemas do sistema, não sabe aplicar-lhes senão as soluções próprias desse mesmo sistema.
E por esse motivo, o historial das suas ascensões ao poder mostra que elas apenas servem para executar as políticas da direita e dispensá-la, assim, de pagar o preço da impopularidade.
Depois de fazer o “trabalho sujo” a esquerda é de novo arredada e tem início um novo ciclo de direita.

Desta vez não será diferente. Dentro de três anos, ou quem sabe até antes disso, a direita liberal terá um Presidente e uma Maioria; a preparação do Partido começa no já anunciado congresso do PSD.

É por isso que não desistiremos de defender a urgência da construção de um projecto alternativo de sociedade e de política evitando o que sempre tem acontecido; serem os objectivos secundários, as prioridades erradas e as lutas sem perspectiva a comandarem a actividade dos partidos de esquerda.

sexta-feira, janeiro 20, 2006

O último OUTDOOR



(Para ver outros cartoons clique AQUI)

terça-feira, janeiro 17, 2006

O Grande Pagode



Mário Soares afirmou hoje à TSF, com a maior candura, ter recebido uma chamada da China em que o ministro lhe pedira para sossegar os trabalhadores do Estaleiro de Viana acerca de uma temida privatização.

Este episódio, que roça o ridículo, vem confirmar a visão que Soares tem da política e é todo um tratado de amiguismo.

Como disse Garcia Pereira trata-se de um caso evidente de favorecimento de um dos candidatos por parte do Governo através do fornecimento de informação previlegiada, provavelmente executado com um telefonema pago pelos contribuintes.

É nestas chocantes impunidades que devemos procurar as causas da vitória de Cavaco.

Este abuso dos meios públicos faz-me lembrar as diskettes do "envelope 9" do julgamento da Casa Pia; ainda ninguém se questionou por que razão o erário público paga as chamadas de todos aqueles que constam da famigerada lista.


(Para ver outros cartoons clique AQUI)

sábado, janeiro 14, 2006

Mozart nasceu há 250 anos




Diário musical de Mozart "online"


Está desde ontem disponível na Internet, no site http://www.bl.uk/onlinegallery/ttp/ttpbooks.html (clique para ver), um diário musical de Mozart. Os utilizadores podem procurar páginas escritas à mão do catálogo do compositor austríaco e ouvir compassos de abertura raramente interpretados.
Num ano musicalmente dedicado a Mozart - a 27 de Janeiro comemoram-se os 250 anos do seu nascimento -, a British Library fez a digitalização de 30 páginas e 75 introduções musicais do Catálogo de todas as minhas Obras. O site inclui muitos das obras mais conhecidas de Mozart, como A Flauta Mágica, mas também contém Litle March in D, que, segundo a biblioteca, foi gravada pela primeira vez.
O catálogo foi comprado pela British Library em 1986 e contém 145 obras escritas por Mozart entre Fevereiro de 1784 e Dezembro de 1791, quando morreu. No lado esquerdo de cada página, Mozart incluiu cinco composições e acrescentou informação sobre quando cada uma foi terminada, os instrumentos utilizados, quem a encomendou e quem a tocou pela primeira vez. No lado direito, estão os compassos iniciais de cada obra. No site, estes compassos são tocados pelo Royal College of Music.
A British Library anunciou ainda que conseguiu reunir um manuscrito de Mozart, que foi cortado em dois e vendido separadamente pela sua viúva em dificuldades financeiras.
A folha de música foi escrita tinha 17 anos. Nessa altura ele estava de visita a Viena com o pai, Leopold, para concorrer a um lugar como músico da corte - não o conseguiu. Um dos lados do manuscrito são duas cadências para piano (passagens altamente virtuosas para serem interpretadas por um solista sem acompanhamento de orquestra) e do outro lado um minuete para um quarteto de cordas.
Em 1835, Constanze cortou cuidadosamente o manuscrito, acabando as duas cadências em folhas separadas, mas uma das notas foi deixada por engano na folha de cima. Ela mandou então para duas pessoas separadas para pagar um favor ou para receber dinheiro. "Isto era numa altura em que Mozart era muito popular e a fama espalhava-se. Qualquer coisa que tivesse a ver com ele tinha valor. Ela tinha o hábito de cortar as coisas para maximizar o lucro", diz Rupert Ridgewell, o conservador da biblioteca para as colecções musicais.
A parte de cima Constanze mandou para um músico em Darmstadt chamado Julius Leidke. A outra peça foi para um funcionário governamental local na Baviera chamado Sattler. Ambas se mantiveram em duas colecções privadas na Europa até 1950, altura em que a metade de baixo chegou à British Library. A parte de cima acabou de ser adquirida.

(in Publico de 13 de Janeiro de 2006)

Avalancha de eventos para lembrar Amadeus Mozart
Casa da Música celebra 250 anos do nascimento de Mozart

.

quarta-feira, janeiro 11, 2006

Graça Morais - A não perder



Entre Julho e Outubro de 2005, a convite da Câmara Municipal, Graça Morais, uma das mais prestigiadas pintoras portuguesas contemporâneas, realizou uma residência artística em Sines com o objectivo de criar uma exposição para abrir o novo Centro de Artes de Sines.

domingo, janeiro 08, 2006

Presidenciais num planeta diferente ?


Aconteceu, por mera coincidência, eu ter estado exposto em simultâneo às notícias da campanha presidencial e às novidades vindas de Las Vegas, por ocasião do “CES - Consumer Electronics Show”. De um lado o fim de uma “pré-campanha” que se arrastou durante meses a discutir abstracções com resultados nebulosos enquanto do outro um pequeno grupo de potentados repartia, em poucos dias, gigantescos negócios globais.

Um resumo das notícias de Las Vegas: a Google anunciou a venda de filmes da CBS e imagens dos jogos de basketball via internet , a Sony lançou um aparelhinho portátil que pode conter 80 livros e mostrá-los no seu visor para leitura, a Apple vendeu dez milhões dos seus iPods para entretenimento enquanto se dá um passeio, a Motorola anunciou a disponibilização das buscas do Google nos seus telefones portáteis e o Yahoo divulgou dispositivos que permitem a partilha da informação pelos televisores, computadores e telefones.

Por cá os nossos candidatos cruzavam acusações a propósito da divulgação, ou não, dos nomes dos financiadores das campanhas eleitorais.
Também se discutia se o primeiro-ministro apareceria, ou não, na campanha de Soares e se o Marques Mendes seria admitido nos comícios de Cavaco.
Alegre invectivava Soares e Cavaco por se terem encontrado, sem ranger os dentes, com Valentim Loureiro e com Jardim.
E assim por diante...

De repente tive a penosa sensação do anacronismo de uma campanha que quase pode ser imaginada a decorrer no século XIX.

Tenho a sensação de que a informação digitalizada do mundo está a ser repartida por meia-dúzia de grupos empresariais enquanto os nossos candidatos parecem estar completamente alheados do facto e mesmo inconscientes das suas implicações para o futuro da humanidade.

Continuaremos até dia 22 com a lana caprina ? como se estivessemos num planeta diferente ?


(Para ver outros cartoons clique AQUI)

terça-feira, janeiro 03, 2006

Cavaco vai ganhar. Porquê ?


Cavaco vai ganhar. Porquê ?


Não vale de nada fingir que não estamos a perceber que Cavaco vai ser o próximo Presidente da República em Portugal.
Importante é percebermos a natureza dos erros cometidos pelos partidos de esquerda que tornaram este resultado praticamente inevitável. Pelo menos podemos aprender alguma coisa.


Os antecedentes

Nos últimos anos os partidos de esquerda ajudaram a reforçar a imagem de especialista rigoroso que Cavaco sempre tentou cultivar.

Ainda recentemente, com o engodo de derrubar Santana Lopes, a palavra de Cavaco era citada, enaltecida e apresentada como indiscutível.
Tal foi, por exemplo, o caso do artigo publicado no Expresso acerca da "boa e da má moeda". Se dão a Cavaco o poder de definir a boa e a má "moeda" então é porque consideram que ele está num plano superior e é, ele próprio, uma "moeda" muito boa.

O mesmo sucedeu no episódio em que Cavaco recusou, hoje percebe-se porquê, a inclusão da sua fotografia num cartaz da campanha para as legislativas. Foi apresentado pela esquerda como um acto de coragem e um empobrecimento dos apoios a Santana.
Ora se a exclusão de Cavaco diminuía a força de Santana é necessário concluir que Cavaco tem muito valor.

Apesar dos alertas que alguns, como eu, foram lançando a esquerda continuou a "engordar" o prestígio não só de Cavaco como dos seus apoiantes mais destacados (caso caricato da “liberdade de expressão” de Marcelo contra a TVI e de Manuela Ferreira Leite contra Bagão Félix).

Esta política insensata, que se dispôs a pagar qualquer preço em troca da cabeça de Santana, vai agora a dar os seus frutos.

É o que acontece quando não se tem qualquer projecto que não seja ganhar as próximas eleições, e quando não se tem qualquer argumento que não seja a dramática diabolização do adversário.


A escolha do candidato do PS

Quer se goste quer não o candidato escolhido pelo PS tem sempre a pretensão de ser aquele em que a esquerda, mesmo engolindo sapos, se vê forçada a convergir numa hipotética segunda volta. A escolha de Mário Soares como candidato presidencial é, nessa perspectiva, um verdadeiro "hara-kiri" para a esquerda.

Essa escolha deve-se, antes de mais, às guerras internas no Partido Socialista; Sócrates e os seus não podiam admitir que um adversário, que há poucos meses disputou a liderança do PS, acabasse entronizado na Presidência da República.
As outras figuras prestigiadas que o PS poderia lançar na corrida presidencial (por exemplo Vitorino ou Constâncio) não se disponibilizaram, e isso foi interpretado pelo eleitorado como o reconhecimento, por eles, da inevitabilidade da vitória de Cavaco.


Mário Soares é um candidato inconveniente por várias razões:

- A idade. Quer se queira quer não, constitui um problema. A probabilidade de uma pessoa com 81 anos ter problemas de saúde incapacitantes, na duração de um mandato presidencial, é muito elevada.

Embora Soares aparente boa forma física já vai revelando preocupantes sinais de senilidade, que se revelam na sua impaciência no trato com os jornalistas e no desprezo pelas regras de conduta socialmente consagradas, como foi patente no debate com Cavaco.

Só por isso muitos portugueses considerarão um risco votar em Soares.

- A repetição do exercício de um cargo, especialmente no topo da carreira, é em geral considerada aberrante. O homem da rua resume isso na expressão "o Soares já lá esteve".

- A guerra com Alegre. Mário Soares ainda hoje fala da inexistência de candidatos disponíveis como razão da sua candidatura, o que corresponde a desconsiderar de forma um tanto grosseira a candidatura de Alegre.

Ora as sondagens têm mostrado que Alegre seria numa segunda volta, a única que verdadeiramente interessa, um adversário mais difícil para Cavaco.

Depois desta crispação Soares terá muita dificuldade em recuperar os votantes de Alegre para uma hipotética segunda volta.

- A imagem de Soares. Mal ou bem os portugueses criaram de Soares uma imagem de falta de rigor, de amiguismo como critério político (confirmado pela história incrível dos telefonemas dos amigos europeus a dizer mal do Cavaco), de retórica em vez de soluções, em suma, o "nacional-porreirismo" em todo o seu esplendor.

Ao fim de vinte anos de presidências desse tipo os portugueses parecem querer experimentar um estilo diferente, já não lhes basta que o presidente seja bonacheirão e se passeie descontraídamente entre o povo.
Por enquanto parecem querer apenas alguém mais exigente e austero (lá está o Eanes a apoiar Cavaco). Esperemos que o degradar da situação e a insensibilidade dos “políticos” não os leve, dentro de algum tempo, a exigir um estilo claramente autoritário. A história pode repetir-se.


A campanha


A campanha eleitoral de Soares, da forma como vem sendo conduzida, teria que se considerar completamente desastrada se o objectivo real fosse a derrota de Cavaco mas pode ser entendida no quadro da resposta à "dissidência" de Manuel Alegre.

Há vários traços equívocos na campanha de Soares:

- A visão minimalista do papel do Presidente, que é apresentado como figura decorativa, contradiz os "papões" associados à eventual eleição de Cavaco.

- A pretensão de ser um candidato unificador dos portugueses que é desautorizada pela proliferação de candidatos na própria área socialista e pelo discurso “fracturante” baseado na dicotomia direita/esquerda.

- A tentativa de se apresentar como o único candidato capaz de forjar consensos e evitar crispações que é desmentida pelo radicalismo dos anátemas e a deselegância dos ataques e insinuações de índole pessoal.

- A desvalorização de Cavaco como primeiro-ministro, esquecendo que ele próprio era o Presidente nesse período, o que mostra um Soares incapaz de assumir a inevitável co-responsabilidade pelo bom ou mau que realmente tenha então acontecido.

- A dramatização do “perigo da direita” enquanto a maioria parlamentar do PS realiza as mesmas políticas que Santana Lopes foi acusado de tencionar executar e que deram a maioria a um Sócrates que parecia saber como evitá-las.

O apoio do primeiro-ministro em funções não é coerente com o "altermundismo serôdio" do candidato Soares. O discurso de Soares, que parece ter como objectivo ganhar as "primárias" da esquerda, não tem qualquer fundamento na sua acção política passada.

Todas estas incoerências permitem a Cavaco aparecer como alguém que quer ter um papel activo na superação da crise actual e que, estando mais próximo da política do governo, garante a estabilidade institucional de forma mais convincente.

Cavaco pode assim continuar a afirmar, formalmente, o seu respeito pelos poderes presidenciais consignados na constituição já que Soares se encarrega de alimentar a esperança dos muitos que gostariam que Cavaco não estivesse a ser totalmente sincero.

Cavaco beneficia dessa ambiguidade e dos votos que ela representa.


(Para ver outros cartoons clique AQUI)

sábado, dezembro 31, 2005

Bom Ano

sexta-feira, dezembro 30, 2005

Leis que existem para ser ignoradas



Pode parecer irrelevante mas não é.
É um sintoma, mais um, dos males profundos que afectam a cultura política em Portugal.

O Decreto-Lei 319-A/76, de 3 de Maio, é suposto regular as eleições para a Presidência da República e, em concreto, a campanha eleitoral.
Diz, por exemplo, que a campanha eleitoral se inicia no 14º dia anterior às eleições e termina à 24 horas da véspera (artº44).
Diz, por exemplo, que aos candidatos devem ser dadas oportunidades idênticas (artº 46).
Diz, por exemplo, que as entidades públicas devem garantir a neutralidade (artº 47).

Ora pode dizer-se que esta é mais uma lei que existe para ser ignorada o que é muito estranho visto estar em causa a eleição do Orgão que, supostamente, deveria ser o garante supremo do cumprimento da Constituição.

Desde que, em 31 de Agosto 2005, Mário Soares divulgou no Hotel Altis a sua "Declaração de Candidatura" entrou-se numa intensa campanha eleitoral "de facto" que parece estar agora a terminar quando, por lei, se estar devia iniciar.

Mesmo entidades públicas, como a RTP, não hesitaram em promover debates entre os candidados apesar de não se saber ainda quantos e quais seriam validados pela Comissão Nacional de Eleições, o que não garante de forma alguma a igualdade de oportunidades.

Este desleixo das instituições e impunidade dos prevaricadores são um lamentável exemplo do incumprimento das leis.

Para além disso mostram como a classe política parece convencida de que o povo não tem mais nada para fazer do que ouvir os seus brilhantes discursos.


(Para ver outros cartoons clique AQUI)

quarta-feira, dezembro 28, 2005

Os poderes constitucionais do Presidente



A esquerda parece não perceber que está a fazer o jogo do Cavaco quando se atira como “gato a bofe” à proposta de um Secretário de Estado para lidar com as empresas potencialmente “deslocalizáveis”.

A generalidade dos votantes desconhece, ou não quer mesmo saber, quais são os poderes formalmente estabelecidos para o Presidente. A generalidade dos votantes, a um Presidente muito cumpridor das regras, prefere um Presidente que contribua para resolver os problemas.

As acusações feitas a Cavaco acabam por apresentá-lo como o único que tem essa intenção e provocam na maioria dos votantes uma reacção do tipo:

"Está o Cavaco a tentar propor algo concreto para resolver o problema da deslocalização e do consequente desemprego e vêm estes tipos, só para o entalar, com a tal macacada dos poderes constitucionais".


(Para ver outros cartoons clique AQUI)

segunda-feira, dezembro 26, 2005

Mais uma crónica de Natal…


Mais uma crónica de Natal…
por Miguel Poiares Maduro


Hoje é dia de natal, o que exige uma crónica de Natal. Mas como escrever mais uma crónica de Natal sem repetir as banalidades do Natal? É possível dizer algo mais sobre o Natal? Dúvido. E o que é que se pode dizer contra o Natal? Nada. Tudo o que escrever será consensual. O Natal é uma ditadura da bondade. Alegremente aceite por todos e que ninguém gosta de contestar.
Claro que há os cínicos de Natal. Os Grinches que, como o personagem de cinema, se divertem a desmistificar o Natal, gritando contra o consumismo e a falsa solidariedade. Para eles, o Natal foi capturado pelo consumo e apenas serve para fazer negócio e lavar as consciências. Seria uma espécie de eleições em que todos somos candidatos. Passamos uma semana a fazer promessas e o resto do ano a encontrar justificações para não cumprir as mesmas (as circunstâncias mudaram...) Não é, no entanto, que se critique o Natal, o que se critica é aquilo em que o Natal se tornou: o nosso Natal já não seria fiel ao espírito de Natal.
Mas nenhum destes discursos de Natal permite fugir ao terror do Natal: a banalização. No fundo, o fabuloso do Natal é também o seu problema. A comunhão de certos valores está associada à banalização das palavras que os exprimem: paz, fraternidade, amor, solidariedade, são palavras inflacionadas nesta altura do ano. Todos as usam mas com isso também as fazem perder valor. Mas a banalização estende-se aos gestos: os sms enviados em cadeia por programas de computador ou os cartões assinados mecanicamente e distribuídos pelas listas de contactos das empresas. E também às imagens e à música (a música é a mesma em qualquer loja ou centro comercial: seja ela apresentada na versão electrónica mais comum, na versão, "nos gostamos das criancinhas", Coro de Santo Amaro de Oeiras ou na versão, "nos somos intelectuais", à la Diana Krall). Hoje, com a ajuda das lojas chinesas, até os presentes se banalizaram. Todos merecem presentes, mesmo aqueles que mal conhecemos. Por um lado, isso até promove um dos valores do Natal: olharmos para além de nós e dos nossos. Mas ao dar-mos a todos também deixamos de distinguir uns dos outros e com isso perde-se a mensagem particular que queríamos dar a alguém: a de que é ou são especiais para nós.
Muitos temem que o espírito de Natal não sobreviva à banalização do Natal. O paradoxo é que a banalização do Natal também serve para manter o espírito de Natal. Até a explosão consumista promove a solidariedade e a fraternidade no Natal. Muitos economistas realçam o impacto positivo do aumento do consumo nesta altura do ano (aproximadamente um quinto do consumo anual concentra-se no Natal), aumentando o investimento e fazendo crescer o emprego. Eis um belo presente de Natal para a economia portuguesa. É verdade, no entanto que se trata de um crescimento largamente artificial e puramente sazonal. Sobretudo, um grupo de economistas dedicou-se a estudar o desperdício de eficiência inerente aos presentes de Natal. A tese é simples: na maior parte dos casos as pessoas não estariam dispostas a pagar para ter o presente que lhes é oferecido ao preço pelo qual foi comprado, logo há uma perda de eficiência pois esse dinheiro poderia ser utilizado com mais utilidade para as pessoas noutras coisas (pagamos mais do que o valor que aquele bem realmente tem). Se seguíssemos à letra esta tese o melhor seria passarmos todos a oferecer cheques de presente… Só que estes economistas esquecem o valor sentimental dos presentes. É óbvio que nunca receberam presentes meus! (tenho a certeza que há inúmeras pessoas que estariam dispostas a pagar mais do que eu paguei pelos presentes que ofereço…).
Seja como for, e por muito anti-intuitivo que pareça, consumir é sempre um instrumento de solidariedade e ainda mais se for para distribuir pelos outros. O que nos irrita é a percepção que ao usarmos e abusarmos do Natal desvalorizamos a sua importância: aquilo que se vulgariza deixa de parecer tão especial. É como um cliché: se algo se tornou um cliché é devido a ser uma verdade reconhecida e partilhada por todos mas repeti-lo parece deixar de ser importante e tornar-se apenas ridículo. O fantástico do Natal reside precisamente nesta capacidade de resistir aos clichés e à sua banalização. Por vezes, há uma linha muito ténue entre o ridículo e o sublime. Porque é que o kitch deixa de ser kitch e passa a ser arte quando falamos do barroco ou do design contemporâneo do Philippe Starck? Ou, ao contrário, como é que o retrato da Mona Lisa passa de belo a ridículo quando compramos uma cópia perfeita em vez do original? E o que distingue as mesmas palavras empregues de forma diferente num soneto de amor de Shakespeare ou numa canção do Tony Carreira? Só tenho uma resposta: a capacidade de suspender a realidade e os nossos preconceitos, deixando-nos ser dominados pela arte e não fazer um juízo sobre ela. No Natal não deixamos de discordar, ser diferentes ou ter gostos opostos. O que acontece é que no Natal todos aceitamos suspender a nossa realidade por um momento e com ela os nossos preconceitos e juízos críticos. Aceitamos e promovemos o inverosímil. Partilhamos uma mesma emoção que transforma em sublime o que de outra forma seria ridículo. Neste contexto, e enquanto recordarmos isto, o banal não deixa de ser especial: feliz natal!

Mais uma crónica de Natal…
por Miguel Poiares Maduro

sexta-feira, dezembro 23, 2005

Bom Natal para todos

quinta-feira, dezembro 22, 2005

Borafone ??




(Para ver outros cartoons clique AQUI)

terça-feira, dezembro 20, 2005

SEM MEDO




(Para ver outros cartoons clique AQUI)

sábado, dezembro 17, 2005

O sucessor do malabarista


O debate entre Soares e Louçã na SIC constituiu um acontecimento notável.
Não por aquilo que foi dito mas pela maneira como foi dito, pelo puro gozo do jogo da retórica, pelo triunfo absoluto da forma sobre o conteúdo.

Durante os outros debates televisivos fui anotando os temas abordados e acabei com uma folha bem preenchida, desta vez a folha está quase vazia.
Ao fim de um minuto eu tinha percebido que os temas eram irrelevantes constituindo apenas as raquetes com que cada um dos jogadores devolvia a bola para o campo do adversário.
Estou certo de que poucos recordarão sobre que falaram quer o malabarista velho quer o malabarista novo.
Um e o outro podem defender qualquer argumento, ou o seu contrário, o que aliás têm feito perante o atordoamento dos seus anteriores oponentes.

O deleite dos espectadores era o mesmo que sentiam os malabaristas que acompanhavam com visível gáudio a preparação de cada golpe pelo adversário.
Soares assistiu embevecido à maestria com que Louçã lhe explicou, a ele, o primado da indiscutível liberdade democrática.

Estava com cara de quem pensa: “Temos homem, agora sim, em Janeiro já posso retirar-me”.



(Para ver outros cartoons clique AQUI)

quinta-feira, dezembro 15, 2005

Teimosias na TV




(Para ver outros cartoons clique AQUI)

quarta-feira, dezembro 14, 2005

O Dilema do Bolo



O debate entre Cavaco e Jerónimo teve aspectos curiosos, quase arriscaria que os contendores nutrem simpatia mútua. Talvez seja por partilharem um sentimento de "não fazerem parte do baralho", ou pela sua modesta origem ou por ambos não serem muito dotados para a esgrima da retórica.

Cavaco apareceu descontraído como eu nunca o vira e nem se ofendeu quando Jerónimo, embora de forma indirecta, lhe chamou mentiroso. Com sinceridade ou sem ela deu-se ao luxo de esvaziar alguns dos "papões" associados à sua figura (caso das privatizações) e, para meu espanto, chegou quase a ser simpático.

Este debate, ao contrário de outros, falou do mundo real da produção e dos trabalhadores deixando em segundo plano as questões que afligem os burocratas e as corporações.

O que se destaca de tudo o que foi dito e que resume a diferença entre Cavaco e Jerónimo é o dilema do bolo, ou seja, se o problema é o bolo ser muito pequeno ou se o problema é o bolo estar mal dividido.

Apesar de todos sabermos que ambos têm razão pois o bolo não só está mal repartido como, ainda por cima, é bastante pequeno a verdade é que esta formulação, de resto habitual, acaba por favorecer Cavaco.

Os candidatos da esquerda aparecem sistematicamente como alguém que só pensa em comer um bolo que o Cavaco tanto se preocupa em fazer crescer.

Este acesso de gula deriva de pensarem, erradamente, que só ganham muitos votos dando coisas às pessoas já. Como as seitas religiosas têm mostrado pode ser muito mais intenso o efeito das promessas de mundos maravilhosos mesmo que num futuro incerto.

A esquerda só terá verdadeiro sucesso quando convencer o povo de que a sua luta pela justiça na distribuição não só não põe em causa o desenvolvimento económico como é a única forma de o crescimento dar um salto qualitativo.


(Para ver outros cartoons clique AQUI)

segunda-feira, dezembro 12, 2005

O regular funcionamento das Revoluções



O DEBATE ALEGRE vs LOUÇÃ


Estes debates entre candidatos de partidos que nunca tiveram responsabilidades governamentais e/ou candidatos que se apresentam à margem dos partidos têm um carácter singular: são uma espécie de lamentação pública, uma queixa feita ao povo pelos candidatos por o país estar como está, a europa ser como é e o mundo insistir em ser caótico.

A enumeração e descrição dos múltiplos problemas que afectam a humanidade funciona como uma insinuação de que o discursante tem alguma ideia luminosa para os resolver, mas essa tal ideia (ou alternativa, como se diz) nunca chega a aparecer. É verdade que o Sócrates conseguiu assim uma maioria absoluta mas, no caso dele, havia um adversário chamado Santana Lopes.

Durante uma hora inteira o debate conseguiu evitar falar da actividade económica concreta, das empresas e da organização da produção, dos trabalhadores, das relações de produção e da concorrência internacional. Fez como se isso, que é o mais importante, não existisse. Como se o emprego, considerado pelos candidatos o maior problema do país, fosse apenas uma questão que alguns burocratas iluminados tivessem que resolver.

Mais uma vez os únicos trabalhadores mencionados foram os funcionários públicos e, nomeadamente, os professores. Já Jerónimo tinha feito outro tanto com os militares e os juízes.

Num passe de mágica a economia real desaparece e desaparecem os empresários e as relações capitalistas da produção para nos falarem de um mundo em que só existem funcionários, deputados, orçamento de estado, leis etc.
O pior é que toda essa máquina da burocracia, e também os candidatos à presidência, estão à espera que os tais empresários exploradores, omitidos no discurso, criem riqueza para o sistema continuar a funcionar (mesmo que mal).

Esta esquerda não lhe passa pela cabeça que lhe compete, preciamente a ela, inventar uma nova maneira de funcionar em sociedade. Uma forma qualquer de superar os tais problemas que tanto a afligem (os lucros exorbitantes das empresas, a constituição neo-liberal da europa, o desemprego, o diabo a quatro).

Esta esquerda como não faz o trabalho que lhe compete vinga-se por vezes em bravatas caricatas como aquela do Louçã que quer demitir o Alberto João Jardim (e depois ficar com cara de parvo quando ele regressar com maioria absoluta).



(Para ver outros cartoons clique AQUI)

sábado, dezembro 10, 2005

Campanhas Presidoxais




A sensação de que algo não está certo, de que um equívoco qualquer afecta as “campanhas presidenciais” a que estamos assistir deve-se, quanto a mim, ao facto de todas elas terem o seu quê de paradoxais.



Cavaco

Quer capitalizar o generalizado anseio de mudança e a desconfiança popular relativamente aos políticos e aos partidos. Essa linha, que promete bons resultados, é contrariada pela sua atitude cordata em relação ao governo de Sócrates e às repetidas garantias de respeito pelos actuais poderes constitucionais.
Não parece fácil contentar ao mesmo tempo os que desejam que o presidente deixe de ser uma figura decorativa e aqueles que receiam um presidente “sidonista”.

Soares

Baseia quase tudo na exploração do “perigo Cavaco”, para a arraia miúda, enquanto tenta capitalizar a alergia “classista” dos sectores mais cosmopolitas relativamente ao seu adversário. Mas as “deficiências culturais” de Cavaco e a sua condição de classe só podem favorecê-lo junto da arraia miúda.
Por outro lado, para ilustrar o “perigo” Cavaco, diaboliza a acção deste como primeiro-ministro. Ora como Soares era o Presidente no tempo dos governos de Cavaco resulta que as "maldades" de Cavaco acabam por ser uma demonstração da inutilidade de Soares na ocupação de tal cargo.

Soares também pretende apresentar-se como alguém capaz de “unir os portugueses” mas tal é contraditório com a incapacidade para evitar a candidatura de Alegre e a proliferação à esquerda.

Alegre

Tenta mostrar-se como um combatente corajoso, movido por ideais e valores, que não precisa dos aparelhos e compromissos partidários. No entanto deixou prolongar a controvérsia pública que torna patente que esta situação não foi desejada. Não consegue esconder que a “traição” do seu partido, que fingira apoiá-lo por omissão, é algo que não perdoa e deixa campo à suspeita de ser essa a sua principal motivação ao concorrer.

Jerónimo e Louça

Toda a gente sabe ao que vão; desancar as políticas de Sócrates para tirar dividendos partidários. Esse objectivo é porém desacreditado se forem forçados a recomendar o voto no candidato de Sócrates numa eventual segunda volta, ou se forem acusados de ter facilitado uma vitória de Cavaco na primeira volta.

A grande dúvida que persiste é a de saber se o povo votante dá muita ou pouca importância às frenéticas movimentações da campanha.

Perante os paradoxos referidos pode acontecer que o povo resolva ignorar as campanhas e basear a sua decisão no muito que sabe sobre os candidatos.
Pelo menos os mais velhos tiveram a oportunidade de observar in loco um Cavaco primeiro-ministro, e um Soares presidente, durante dez anos a fio.

Afinal não é todos os dias que os votantes podem beneficiar daquilo que os americanos chamam “try and buy”, ou seja, experimente antes de usar.



(Para ver outros cartoons clique AQUI)

quarta-feira, dezembro 07, 2005

100 ANOS DEPOIS

____________________________ 1900 - Rafael Bordalo Pinheiro



100 ANOS DEPOIS

Grande parte da intelectualidade portuguesa converteu-se na aristocracia do latifúndio chamado Estado; vive dos pergaminhos e não produz nada de que o povo possa viver.

Não é exemplo nem utopia. Não se interroga e não se questiona.

O povo, que considera relapso e contumaz, é apenas um pretexto e um ornamento.

Abomina empresários e mercadores, que finge desprezar, mas é deles que reclama a prosperidade da nação, o conforto do mecenato e o emprego para os filhos.

______________