quinta-feira, junho 30, 2005

Estado - a exploração de segundo nível





Aqueles que defendem o chamado “Estado Social” laboram num erro grosseiro: estão convencidos de que ele é pago pelos ricos a quem "foi imposto pela justa luta das classes trabalhadoras".

A verdade dos números é bem diferente: quem paga o “Estado Social” são os próprios trabalhadores já que, no conjunto, pagam muito mais em impostos e todo o tipo de contribuições do que recebem do “Estado Social”.

Nas últimas semanas, com a “zanga das comadres”, os jornais deram-nos abundante material para esboçar uma lista dos destinos que têm sido dados à diferença entre aquilo que os trabalhadores pagam ao Estado e aquilo que dele recebem:

- Obras públicas que custam três ou quatro vezes mais do que o valor orçamentado (a Casa da Música, no Porto, é apenas o último e significativo exemplo)

- Medicamentos e exames de diagnóstico comprados em excesso e por preços leoninos (em 2002 foram gastos pelo SNS nestes artigos 2.774 milhões de euros, ou seja 556 milhões de contos)

- Ordenados exorbitantes de gestores de empresas públicas que os próprios se auto-atribuem (sempre acompanhados de uma miríade de complementos como cartões de crédito, seguros de vida, prémios de gestão, despesas de representação 14 meses por ano e outros)

- Pensões de reforma cujos elevados montantes não têm qualquer correspondência com os descontos efectuados pelos beneficiários (o caso do Ministro das Finanças, reformado ao fim de seis anos de trabalho e com 48 de idade, é apenas um entre milhares).

- As propinas escolares, o custo dos cuidados médicos e de todos os outros serviços prestados pelo estado aos estratos sociais ou profissionais cuja fuga ao fisco é encapotadamente tolerada (como é o caso da maior parte das profissões liberais e certos estratos do empresariado).

- Os múltiplos ordenados dos “eleitos locais” obtidos nas empresas municipais por eles criadas

- As subvenções mensais vitalícias e subsídios de reintegração atribuídas aos políticos.

- As contribuições da República para os partidos políticos

- Os ordenados dos funcionários públicos excedentários que, em muitos casos, foram admitidos apenas por serem filhos ou afilhados do “senhor Director Geral” quando não sobrinhos da porteira.

- Os custos de serviços do Estado redundantes, ou mesmo prejudiciais, que não produzem nada de útil e até contribuem para empatar as iniciativas válidas.

A lista podia ser muito mais longa mas estes casos bastam para configurar aquilo que podemos designar como uma exploração de segundo nível.
Marx explicou a exploração como a apropriação pelos capitalistas da diferença entre o valor produzido e o montante dos salários mas não podia adivinhar que em pleno século XXI um segundo nível de exploração se viria sobrepor.

O salário que os trabalhadores deveriam levar para casa, já amputado da mais-valia, é ainda “assaltado” pelo IRS e pelas contribuições para a Segurança Social, quando metem gasolina ou compram tabaco, quando compram casa, quando vão ao supermercado, em suma, constantemente.
Em muitos casos este segundo nível de exploração é ainda mais intenso do que a exploração convencional.

Os beneficiários desta exploração são:

- os industriais, comerciantes e prestadores de serviços que vendem leoninamente ao Estado, com a conivência dos compradores ou beneficiando do desleixo e da desorganização

- Os altos funcionários da Administração Pública (são 6.960) e das Empresas Públicas (são 461)

- Os estratos sócio/profissionais tacitamente “dispensados” de pagar impostos

- Os políticos no activo, os que já foram, e todos os acólitos que frequentam os partidos à babugem dos favores.

Estes grupos interpenetram-se e os seus elementos vão passando continuamente de uma condição para outra não havendo memória de qualquer penalização por mau desempenho. Os favores trocados e os lobbies de interesses mantêm-se na penumbra e a coberto das instituições formais que baseiam a sua legitimidade no sistema democrático.

Configuram uma casta que se apoderou da nossa democracia e que, pelos seus erros e cupidez, acabará por a destruir.

segunda-feira, junho 27, 2005

Cá estou eu de novo a ver navios!




Fui a Estocolmo, e como todo o turista que se preza fui ver o Museu do navio Vasa.

A história do barco é curta e simples:
Mandado construir no sec. XVII pelo rei da Suécia e sendo o navio de guerra mais poderoso e rico do seu tempo, afundou-se na viagem inaugural à saída do porto de Estocolmo porque não tinha a estabilidade necessária para aguentar um golpe de vento!
E lá ficou, durante mais de 300 anos, 32 m debaixo de água até que em 1956 um pesquisador o localizou e a nação sueca decidiu resgatá-lo.
A história do projecto é bem mais longa e rica do que a do barco!
Quando atrás referi “a nação sueca”, não estava a fazer estilo. Trata-se de um verdadeiro projecto nacional em que Estado, empresas e particulares colaboraram de variadas formas: por exemplo, a empresa que efectuou os trabalhos de resgate não cobrou nada por isso; a Armada forneceu pessoal, meios, apoio logístico; os cidadãos contribuíram para várias subscrições.
Os trabalhos iniciaram-se em 1957 e o VASA emergiu em 1961. Logo várias equipas multidisciplinares começaram os trabalhos de limpeza e restauro, estudo dos achados materiais e humanos, preservação e enquadramento num primeiro museu provisório, enquanto os mergulhadores prosseguiam a procura de materiais.
Em 1990 foi inaugurado o novo local, uma construção de 5 andares de galerias em varanda à volta do enorme navio, mantido em condições ideais de luz, temperatura e humidade. Até 2001, tinha recebido 20 milhões de visitantes (o preço do bilhete ronda os 6€).
Este museu mostra-nos muitas coisas.
O barco e o seu enquadramento histórico e social, mas também e não menos importante, o projecto de recuperação e o modo como foi efectivado.
É admirável como os suecos conseguiram, a partir de um único barco dar-nos de forma agradável uma panorâmica tão completa da sua vida no período histórico em que tiveram relevância politica na Europa. Até sugerem uma importância maior do que aquela que de facto tiveram, porque localizada no espaço (norte e centro-leste da Europa) e no tempo (sec. XVII).
Eles mostram-nos como era a Suécia na época do VASA: as actividades económicas, os ofícios, a estrutura social, a habitação, o vestuário, a alimentação, a religião, as festas, a justiça, a guerra, etc.
Com a ajuda de uma dúzia de objectos do quotidiano encontrados a bordo, mas principalmente de muitas maquetes e shows multimédia. Uma das mostras mais interessantes é a do estudo antropológico de 25 restos humanos, em que se discorre visualmente sobre o tipo de alimentação, os cuidados de higiene e saúde e até os hábitos daquelas pessoas; tudo isto culminando na apresentação computorizada da reconstituição facial de 3 deles e a sua reprodução em manequim com as roupas e o aspecto que provavelmente terão tido, enquanto que a instalação sonora debita frases nos dialectos que provavelmente terão usado!!!

Isto traz-me de volta a uma questão que me “visita” desde que Lisboa albergou a XVII Exposição, passando pela EXPO 98 e todas as exposições temporárias que se relacionam com os descobrimentos: a necessidade de Portugal ter uma Mostra Permanente da Expansão Marítima Portuguesa.
Sem qualquer ranço de patrioteirismo nacionalista, temos de concordar que poucas nações foram tão mundialmente importantes como Portugal nos séculos XV e XVI. E principalmente que nenhuma outra daquela época deu, directa e indirectamente, contributos de tão grande alcance futuro para o desenvolvimento económico, social, científico e filosófico.
Assunto e material dos melhores não nos faltariam para uma exposição permanente: a reconstituição de viagens; os naufrágios; os contactos com outras civilizações; a chamada “evangelização”; o comércio e a rapina; a partilha dos novos mundos e o equilíbrio de forças politicas; a navegação à vela e a construção naval (desde o pinhal de Leiria); as transformações sociais com os Descobrimentos; Lisboa, cidade cosmopolita; a miscigenação de culturas (alimentação, vestuário, mobiliário, etc); novas terras e mares, novas plantas e animais, novas línguas e palavras, etc. etc. etc.
Temos especialistas e técnicos que já mostraram saber organizar mostras que além de conteúdo, têm um fundo didáctico e um aspecto lúdico.

Só não há iniciativa, ou vontade política... É verdade que se esperarmos pelo Estado, o melhor é sentarmo-nos (veja-se o triste exemplo da colecção Berardo...).
Mas será que os Belmiros de Azevedo deste país não achariam interessante criar, não um Museu mas um Parque Temático da Expansão Marítima Portuguesa?

Aceder ao site do Museu do Navio VASA

E o Japão ali tão longe



Regressei há poucos dias de uma viagem ao Japão. Globalmente não tive grandes surpresas, mas algumas realidades ultrapassaram o que esperava.

Claro que previa tecnologia por toda a parte, os complicados viadutos de Tóquio, as multidões despejadas para o Metro quando os escritórios se encerram, o combóio “Bala”, os museus de Hiroshima, os templos e os jardins. Mas não imaginava que ia encontrar uma sociedade tão organizada e tão cívica, ao pé da qual alemães e escandinavos parecem latinos desordeiros.
Apesar das permanentes multidões, não há papéis nem beatas no chão (e há muitos japoneses fumadores), as casas de banho dos locais públicos estão tão limpas como nos hotéis de cinco estrelas, não é pensável que um combóio se atrase um minuto e que cada carruagem não pare exactamente onde o seu número é indicado no cais (e onde os futuros passageiros esperam, ordeiramente e em fila).
Todas as ruas dos centros das cidades e os locais públicos têm uma espécie de calhas no meio das áreas destinadas a peões, onde os cegos se deslocam. Quando a calha termina ou há um cruzamento, o relevo é diferente para que o utilizador, ao detectá-lo, se possa orientar. São milhares de quilómetros de listas amarelas que nos ficam na memória.
Quanto a recolha e reciclagem de lixo, cheguei a contar doze tipos diferentes de contentores lado a lado.
Por decoro, não descrevo todas as funcionalidades de que dispõe uma simples sanita.

Noutro registo e com todas as limitações de uma visão de simples turista, impressiona, evidentemente, o elevado nível de vida e o que se vai ouvindo e lendo. É verdade que os japoneses dizem estar apenas a sair de um longo período de recessão, que acabaram os empregos para a vida inteira e chegaram o trabalho precário e os contratos a prazo.
Importam 60% do que comem porque é mais barato do que produzir. Criam poucas vacas, mas as que por lá crescem são massageadas e bebem cerveja para a carne ficar mais tenra – o que se sente, no prato e na carteira, quando se tem a sorte de encontrar um bife.
Com a idiossincrasia do medo da invasão dos produtos chineses, era inevitável procurar saber o que se passa num país com preços tão astronomicamente altos e geograficamente tão próximo da China. Sim, há lojas chinesas com produtos mais baratos, mas isso não parece ter importância. O que é essencial é que a China continue a crescer e consistentemente – é que o Japão exporta tanto para aquele país e investe tanto em empresas chinesas que seria um desastre se se desse qualquer tipo de “crash”.

Outra coisa que impressiona é que o Japão parece um país fechado sobre si próprio. Se estamos habituados, há muitos anos, aos turistas japoneses no ocidente, o que é verdade é que há 123 milhões a alimentarem sobretudo um turismo interno muito forte. E vêem-se tão poucos ocidentais que não é raro cumprimentarem-se quando se cruzam na rua. Na Expo Universal de Aichi, onde passei um dia, não vi um único não oriental fora dos respectivos pavilhões. (A propósito da Expo, não vale mesmo a pena a deslocação. Parece que alguns pavilhões temáticos são bons, mas as filas de espera são de várias horas. Quanto aos outros, formam um conjunto que nem sequer é bonito e já nem constituem grande novidade. Mas há uns melhores que outros e deve ser difícil encontrar algum pior que o de Portugal. O mínimo que se pode dizer é que é soturno - não encontro palavra adequada mais meiga para o caracterizar.)
É difícil o turista encontrar fora dos hotéis quem fale razoavelmente inglês, o que não é de estranhar porque há poucos estrangeiros. Levantar dinheiro em ATM’s que aceitem cartões internacionais também é uma odisseia porque são raros. Comprar bilhetes para o Metro em máquinas com instruções em japonês é uma experiência a não perder – o que vale é que há sempre um simpático nipónico por perto que, com gestos e vénias, lá vai explicando o que é preciso fazer.

Dito isto, gostei do Japão? Gostei muito de lá ter ido.
O campo é muito bonito, mas achei as cidades feiosas (Xangai dá cartas a Tóquio e de que maneira!), as pessoas feíssimas (porque será que tantas têm as pernas tão tortas, como se tivessem vivido sempre a cavalo?), a comida intragável.
Gostei dos japoneses? Não deu para os entender. São extremamente delicados mas adivinha-se que podem tornar-se facilmente violentos, pragmáticos mas altamente supersticiosos, aparentemente ocidentalizados mas com raízes profundamente diferentes.

Nos últimos anos, faz-me sempre impressão olhar para a Europa vista de fora.
Foi a partir de Tóquio que segui a cimeira do Conselho Europeu em Bruxelas.
Assim não vamos para parte nenhuma. E há outros que vão indo – aparentemente, para onde querem.

quinta-feira, junho 23, 2005

Corot em Madrid




Leitura interrompida, c. 1865-1870



Visitei a magnífica exposição das obras de Corot, vindas de todo o mundo, no Museu Thyssen de Madrid. O que eu prefiro são as paisagens urbanas dominadas por um certo abstraccionismo e também os poderosos retratos como aquele que antecede este texto.

Para ver mais sobre a exposição de Corot clique no quadro.

Sugestões para outras exposições na Europa : clique aqui

sábado, junho 18, 2005

A Felicidade






A Felicidade
Miguel Poiares Maduro
miguel.maduro@curia.eu.int


O que é que se passa no céu? Todos temos uma ideia clara do que nos acontecerá se formos parar ao inferno: mais coisa menos coisa, ardemos lentamente sujeitos às maiores torturas… Mas e no céu? Em que é que as almas ocupam o seu tempo? A jogar às cartas, ouvir música e ver cinema? A conversar com as pessoas que amaram? (e se forem várias, quem fica com quem?). E como se evita o aborrecimento se não há um fim à vista? Se calhar o céu é céu precisamente porque nos deixamos de preocupar com estas questões… mas não deixa de ser algo aterradora a perspectiva de nem no céu conseguirmos identificar a felicidade.
E, no entanto, há quem a pretenda realizar na terra. Um livro recente de Richard Layard, um conhecido economista britânico, procura recolocar o conceito de felicidade no centro das políticas públicas. Layard retoma a tese utilitarista de Bentham que entendia que o principal objectivo de uma sociedade deve ser a maximização da felicidade de todos de forma igual. Por outras palavras, uma política deve ser prosseguida quando ela promove a felicidade do maior número. A dificuldade está em medir a felicidade. Layard socorre-se dos mais recentes estudos sobre a felicidade em disciplinas como a neurologia, psicologia e sociologia para tentar elaborar um critério operativo de felicidade. Desses estudos, podemos retirar algumas conclusões interessantes.

O que é a felicidade?


A primeira conclusão é que a felicidade pode ser medida: ela tem correspondência numa determinada actividade neurológica no cérebro.
A segunda conclusão é que a felicidade é profundamente relativa e "invejosa". A nossa felicidade resulta de uma comparação com a situação dos outros (assim, por ex., se todos ficamos mais ricos a nossa felicidade individual não tende a aumentar!).
A terceira conclusão é que a felicidade "educa-se": aquilo que nos traz felicidade muda com o conhecimento, educação e exposição a mundos diferentes. As nossas preferências não são estáticas. É por isso que quanto maior o nosso conhecimento da arte maior a felicidade que ela nos pode transmitir.
A quarta conclusão é que a felicidade aprecia a estabilidade e a companhia: a permanência no mesmo emprego traz, aparentemente, mais felicidade do que as mudanças frequentes para empregos melhores. No mesmo sentido, os estudos realizados indicam que as pessoas casadas são, em média, mais felizes que as solteiras, divorciadas ou separadas (por esta ordem decrescente de felicidade…), incluindo, com alguma surpresa, na sua vida sexual (o que o estudo não diz é se essa felicidade resulta de terem sexo dentro ou fora do casamento…).
A quinta conclusão é que a felicidade vicia e habitua-se facilmente. Assim, algo que nos dá grande felicidade inicial vai diminuindo a felicidade que nos traz à medida que nos habituamos. Só que, paradoxalmente, se voltamos a perder essa coisa, a infelicidade que isso nos traz é muito superior à felicidade que nos trouxe quando não a tínhamos. Isto explica a razão pela qual o dinheiro não traz (sempre…) felicidade. A relação entre nível de vida e felicidade individual é verdadeiramente relevante apenas ao nível do limiar da sobrevivência. A partir daí a correlação entre aumento do rendimento e aumento de felicidade vai diminuindo de forma notável: vamo-nos habituando a gastar o dinheiro que temos! Só que, se perdermos parte desse rendimento, seremos mais infelizes do que antes de o termos… É a velha sabedoria popular de que só damos valor ao que temos quando deixamos de o ter ou, expressa em sentido económico, de que o valor de um bem é mais elevado quanto mais raro for.

O Estado e a felicidade


Estas conclusões são, nalguns aspectos, algo banais mas podem ter consequências importantes se levadas a sério. Elas colocam um desafio interessante na definição das prioridades das políticas públicas ao questionar a sua subordinação ao objectivo de maximização da riqueza associado ao crescimento económico e ao permitir introduzir outros elementos a que as escolhas públicas devem atender (como a estabilidade). Mas também servem para justificar algumas das políticas públicas actuais: as políticas redistributivas vêm a sua justificação reforçada pelo facto de o mesmo dinheiro trazer mais felicidade a quem menos tem; os impostos e outras medidas podem ser necessários, como refere Layard no seu livro, para evitar que as pessoas trabalhem demais (uma vez que após certo nível elas deixam de retirar mais felicidade da remuneração acrescida que recebem).
Há, no entanto, um problema delicado na utilização de um critério de felicidade para orientar as políticas públicas. É que a felicidade é, acima de tudo função das preferências individuais de cada um. A felicidade é menos um produto daquilo que nos acontece do que da forma como concebemos o que nos acontece. É mais autonomamente determinada (dependente da nossa concepção do sentido da vida) do que heteronomamente condicionada (dependente das circunstâncias que afectam o sentido da nossa vida).
É, neste ponto, que se coloca a questão filosófica da definição da felicidade. Desde logo, a felicidade é profundamente individual. Nesse caso, não devemos procurar fazer as pessoas felizes (seria a ditadura da bondade!) mas, como diz a Declaração de Independência Norte-Americana, garantir-lhes o direito à procura da felicidade.

A procura da felicidade


E há várias formas de procurar a felicidade. Há os que procuram uma espécie de "felicidade moral", o que corresponde à ideia aristotélica de uma vida vivida com um certo sentido (que pode ser, como defendia São Tomás de Aquino, o conhecimento de Deus). A felicidade intelectual mas não sensorial. A felicidade é assim distinguida do prazer o que, confesso, não me faz muito feliz! Curiosamente, um outro utilitarista (Stuart Mill) aceita a ideia de prazer associada à felicidade: apenas não é o prazer que algo nos traz que determina a felicidade mas, antes, o prazer que isso pode trazer aos outros… (uma forma de felicidade que procuro incutir nos outros!). Em sentido bem diferente, há também a felicidade epicurista ou hedonista em que o nosso prazer é a nossa felicidade. Só que, o prazer dissociado de um sentido da vida reduz-se a uma mera satisfação ou contentamento. É um analgésico da felicidade: alivia mas não cura.
Hoje em dia, a procura da felicidade parece dividida em dois mundos bem opostos. Os que defendem uma felicidade modesta, segundo a qual apenas devemos retirar felicidade das coisas que podemos ter! (não admira que Santo Agostinho, o seu autor original, também defendesse que o único verdadeiro amor é aquele que apenas depende da pessoa que nos ama). Ou os que defendem uma felicidade pós-moderna, feita de "boas experiências" e da procura incessante do prazer, liberto de outro sentido que não a sensação momentânea que nos causa.
Enquanto no primeiro caso, a felicidade amarra-nos ao que temos e somos, no segundo ela transforma liberdade em instabilidade e insegurança permanentes. No entanto, se há coisa que os estudos recentes nos mostram é que a felicidade necessita de estabilidade. O prazer é maior quanto maior for a sua relação a um sentido da vida (a atribuição de sentido à nossa vida, o que é diferente do sentido da vida em geral). É este último que conduz o prazer à nossa felicidade.
É em relação com o sentido da nossa vida que podemos encontrar a felicidade. A felicidade é, em larga medida, uma competência que podemos melhorar. Não estamos predispostos a ser infelizes mas também não existem receitas para atingir a felicidade. Acima de tudo e tal como dizia Thomas Paine, é necessário para a felicidade do homem que ele seja intelectualmente fiel a si próprio. E a si o que é que a/o faz verdadeiramente feliz?

quinta-feira, junho 16, 2005

Tiago Estima - as minhas "predilectas"





Veja, clicando na foto, os excelentes trabalhos do Tiago Estima numa selecção das minhas "predilectas".

Para ver mais visite o site dele

quarta-feira, junho 15, 2005

Que povo desceu à rua?






Hoje Lisboa acorda povoada de memórias, muitas delas tão anónimas que escondem heroísmos inimagináveis. Muitos deles, dos que vão caminhar até ao Alto de S.João, perdidos na multidão, vão ficar no silêncio da História e, no entanto, serviram para a construção dessa História.

Milhares e milhares de pessoas prestam hoje a última homenagem a Cunhal. Vêm do Alentejo e de toda a parte. Será um dia de ir ao poço da memória e matar a sede no deserto quando sonharam com o paraíso: a vez em que estiveram presos, a separação dos filhos, a impressão clandestina do Avante!, os longos exílios.

De trabalhadores manuais, de camponeses a intelectuais, todos tiveram um sonho e Cunhal era o sonhador que empunhava a bandeira. Haverá, por certo, muitas lágrimas de dor e despedida, mas também interrogações que se vão multiplicando: valerá a pena continuar ou este é o partido com que Cunhal sonhou e durante tantos e duros anos ajudou a construir? O Governo declarou um dia de luto nacional.

Cunhal nunca aceitou uma condecoração do Estado português, no seu despojamento, mas também porque recusava aceitar condecorações de Liberdade ao lado daqueles que nada fizerem para que ela existisse e se desenvolvesse.

A sua coerência, revolucionária, mas também ética, é um legado que deixa ao país confrangedoramente sem ética nem coerência.

O país, passada esta espuma emocional e este espasmo comunicacional, regressará à sua «apagada e vil tristeza». O povo que hoje desce à rua, em silêncio, não é por certo o mesmo que homenageou Amália ou orou pela irmã Lúcia.

É um povo que sonhou um país mais livre, menos dependente do Fado e Fátima, mais esperançado num mundo melhor e numa mais equitativa distribuição da riqueza e da terra.

Rogério Rodrigues, A Capital, 15/06/05




terça-feira, junho 14, 2005

Hoje deitei-me ao lado da minha solidão







Hoje deitei-me ao lado da minha solidão.
O seu corpo perfeito, linha a linha
derramava-se no meu, e eu sentia
nele o pulsar do meu próprio coração.


Moreno, era a forma das pedras e das luas.
Dentro de mim alguma coisa ardia:
o mistério das palavras maduras
ou a brancura de um amor que nos prendia.


Hoje deitei-me ao lado da minha solidão
e longamente bebi os horizontes.
E longamente fiquei até ouvir
o meu sangue jorrar na voz das fontes.





Eugénio de Andrade 1923-2005

segunda-feira, junho 13, 2005

Álvaro Cunhal




Álvaro Cunhal 1913 - 2005


Um homem notável que terminou a sua árdua luta.

(clique na foto para aceder a um blog dedicado a Álvaro Cunhal)

quarta-feira, junho 08, 2005

Confesso-me pirómano...






TELEJORNAL das 20 horas.

Vamos já ligar à Vanessa Labaredas que se encontra em Bandalheira da Serra onde lavra um grande incêndio que ainda não foi possível controlar:

“Boa noite Zé, Isto é um inferno, a zona é inacessível, o mato não foi cortado, o vento muda constantemente de direcção, os meios aéreos foram desviados, há falta de coordenação, esta senhora tenta salvar a casa com uma cafeteira, os bombeiros já cá deviam estar, de que é que eu vou viver agora?, já o ano passado ardeu do outro lado, as causas são desconhecidas mas há indícios claros...”

Obrigado Vanessa. Passamos agora ao João Ardido que nos fará o ponto da situação em Pasmaceira do Vale onde a situação é muito preocupante:

“Boa noite Zé, Isto é um inferno, a zona é inacessível, o mato não foi cortado, o vento muda constantemente de direcção, os meios aéreos foram desviados, há falta de coordenação, esta senhora tenta salvar a casa com uma cafeteira, os bombeiros já cá deviam estar, de que é que eu vou viver agora?, já o ano passado ardeu do outro lado, as causas são desconhecidas mas há indícios claros...”

Boa sorte João. Pepineira de Cima é o nosso próximo destino para descrever tudo o que tem “a haver” com a vaga de incêndios. Passamos imediatamente à Kátia Fogaréu que se encontra no local:

“Boa noite Zé, Isto é um inferno, a zona é inacessível, o mato não foi cortado, o vento muda constantemente de direcção, os meios aéreos foram desviados, há falta de coordenação, esta senhora tenta salvar a casa com uma cafeteira, os bombeiros já cá deviam estar, de que é que eu vou viver agora?, já o ano passado ardeu do outro lado, as causas são desconhecidas mas há indícios claros...”

É neste momento que deixo de me controlar e desejo ardentemente ver arder, até aos alicerces, os estúdios onde fazem o TELEJORNAL.

Começou a época infernal em que os telejornais repetem, dia após dia, informação irrelevante sobre os fogos, num voyeurismo que acabará por levar a população à total indiferença perante a catástrofe.

São ouvidos todos os “populares” que se encontram no local, todos os sacrificados bombeiros atordoados pelo fumo, todos os autarcas de anel no dedo e crónica falta de meios, todos os burocratas que supostamente dirigem as operações e todos, todos sem excepção, repetem as evidências e os lugares comuns que nada resolvem.

Pobre país que se compraz com o espectáculo da sua própria inépcia.

quarta-feira, junho 01, 2005

Um logro do tamanho da Europa





A “escandalosa” votação do Tratado Constitucional, ocorrida em França recentemente, deu origem a uma desenfreada actividade dos comentadores e dos políticos.

Não é caso para menos pois os condimentos estão todos presentes; a “incongruência” e o ineditismo do resultado, a excepção e o exemplo que pode ser imitado, o dramatismo e a imprevisibilidade das consequências.

Curiosamente todos parecem considerar imprescindível ao Tratado que se consiga o “apoio popular” através do voto mas ninguém se questiona sobre a exequibilidade de os europeus votarem conscientemente nos referendos. Ora o voto que está a ser pedido reveste-se de uma complexidade enorme, vejamos porquê.

Nas votações nacionais é preciso, para votar em consciência, ter uma ideia formada sobre o interesse comum, ou interesse nacional, e depois avaliar as propostas em confronto ponderando os interesses pessoais, de grupo ou de classe.

Trata-se de um processo muito complexo para o qual, aliás, a maior parte dos votantes não tem nem preparação nem paciência. Como todos sabemos essa dificuldade é resolvida através da fidelidade partidária ou da identificação com os políticos carismáticos já que são formas de dispensar análises profundas.

Quando se trata de votar nas questões europeias a complexidade é ainda muito maior. Não basta conhecer o “interesse nacional” é ainda necessário ter alguma ideia sobre o “interesse da Europa” e depois proceder a uma avaliação de como se harmonizam, ou em que medida conflituam, tais interesses. Para este efeito é ainda necessário ter uma ideia do “interesse nacional” dos países que, em conjunto e em concorrência com o nosso, pertencem à União Europeia.

A esse nível actuam grupos de pressão locais e nacionais dos diferentes países sendo preciso considerar também os lobbies internacionais e mesmo globais. Um factor adicional de complexidade deriva das diferenças culturais e, as mais das vezes, dos preconceitos e rivalidades que a história produziu.
No caso presente, a votação do Tratado Constitucional, ainda acresce a dificuldade inerente à tecnicidade da “linguagem” pois se trata de um texto legal.

Sendo, como se explicou, as escolhas muito mais complexas quando nos movemos no âmbito europeu seria de esperar que se aplicassem, para as facilitar, os mesmos remédios que são usados ao nível nacional e que descrevemos mais acima. O que acontece é que não existem a nível europeu, ao contrário do que sucede a nível nacional, nem partidos nem políticos em que os votantes possam delegar a construção das suas opiniões na base da confiança. Por isso não deve estranhar-se que, como aconteceu em França, nas votações do Tratado os cidadãos se limitem a seguir as recomendações dos políticos nacionais em que confiam no momento de votar.

Por tudo o que foi dito anteriormente parece legítimo deduzir que um número significativo de “nãos” ao Tratado acabará por vir dos europeus que, conscientes da sua própria incapacidade para escolher, não querem ser compelidos a dar uma anuência passível de ser mal usada em fases posteriores.

Quem desenhou o processo de aprovação do Tratado nos moldes em que vigora foi uma de duas coisas: ou ingénuo ou mal-intencionado. Ingénuo se realmente acreditava no funcionamento democrático do esquema e mal-intencionado se, conhecendo a impossibilidade da participação consciente dos europeus, pensou poder através da manipulação do processo encenar uma adesão popular inexistente.

O tiro saiu pela culatra mas serviu para demonstrar que a UE já será muito ambiciosa mesmo que se limite a ser um fórum permanente de negociação e de harmonização dos interesses nacionais.

Teria sido muito mais sério e operativo admitir que os povos delegariam nos seus governantes, como fazem para os assuntos estritamente nacionais, a negociação do melhor Tratado possível.

Veja o debate no DOTeCOMe Forum

domingo, maio 29, 2005

Andanças em Espanha




A Espanha é uma mulher sensual, vestida(?) de vermelho, numa praia de S. Sebastian, num dia de sol em Maio de 2005.
Mas também é outras coisas que pode ver se clicar na foto.

quarta-feira, maio 25, 2005

O monstro e a democracia


"Monstro", Constança Lucas


O monstro e a democracia
por Miguel Poiares Maduro, DN 25/5/2005

O défice e o discurso do défice

O "monstro" está aí e vamos ter de fazer sacrifícios. O "vamos" quer normalmente significar "vão", pois os sacrifícios sugeridos são os dos outros. Para uns, há que reduzir as despesas no sector público (em particular dos funcionários públicos) argumentando que é aí que está o peso principal no défice e que aumentar a receita indo buscar dinheiro ao sector privado apenas agravará a situação económica, reduzindo o consumo e o investimento e aumentando o desemprego. Para outros, há que aumentar os impostos, combater a fraude fiscal e os denominados privilégios económicos, pois apenas assim se distribuirão os sacrifícios de forma equitativa.

Aparentemente aborda-se o mesmo problema através de dois modelos diferentes de sociedade. Para os primeiros, o Estado é o problema e o sector privado a solução. Para os segundos, o Estado soluciona os problemas criados pelo sector privado.

Na realidade, nenhuma destas soluções é legítima ou eficaz por si só. Parece antes tratar-se de um combate pelo controlo do "discurso do défice". As propostas de solução do défice orçamental são, em larga medida, resultado de diferentes comunidades de interesses. O "vamos" legitima as propostas ao esconder os interesses de um sector na linguagem de um programa de princípios. Neste sentido, a discussão sobre "o monstro" tem a mesma origem do monstro na nossa democracia e nas suas assimetrias.

O problema orçamental é a expressão financeira de um problema democrático. O défice orçamental é, na verdade, resultado de um défice democrático. O défice é "democraticamente" decidido por uma geração e pago por outra geração. Muitos daqueles que acarretarão com os custos não têm ainda direito de voto. Neste sentido, as decisões orçamentais, ao vincularem cidadãos que não participam nelas, sofrem de um défice democrático.

Claro que as gerações futuras também se podem endividar para pagar as dívidas das gerações anteriores mas a sua margem de actuação vai sendo progressivamente diminuída. A liberdade ou autonomia democrática de cada geração vai sendo assim reduzida. É por isso que a disciplina imposta pelas regras relativas ao défice orçamental é só apenas aparentemente uma limitação do processo democrático. Na verdade, ela visa salvaguardar a democracia das gerações futuras.

Assimetrias democráticas

É por isso, também, que o défice é tão difícil de combater. A democracia perfeita seria aquela em que todos os interesses afectados estariam representados, mas isso nem sempre é possível. A democracia sofre de quatro tipos de assimetria democrática que impedem a sua expressão plena.

A primeira é uma assimetria temporal (é o tipo da que está inerente aos problemas orçamentais mas também, por ex., a certas consequências ecológicas futuras) uma certa comunidade de participantes toma decisões com impacto num momento futuro em que os afectados serão outros.

A segunda é uma assimetria informacional nem todos os participantes têm acesso ao mesmo nível de informação e, desta forma, nem todos podem participar da mesma maneira e ter consciência dos custos ou fazer uso dos benefícios que o processo democrático decide (pense-se em como o conhecimento do regime fiscal ou dos financiamentos públicos é mais benéfico a quem tem mais informação).

A terceira é uma assimetria espacial é possível, por exemplo, que uma comunidade de cidadãos tome decisões que afectam sobretudo a uma pequena comunidade local (é o caso da decisão de colocar uma certa central ou indústria poluidora, que beneficia o país no seu todo, numa pequena comunidade local em quem se concentram todos os riscos da mesma actividade).

A quarta é uma assimetria racional. O processo político é massificado e isso exige simplificação. O paradoxo é que as questões submetidas ao processo político são crescentemente mais amplas, técnicas e complexas.

A simplificação destas questões permite, frequentemente, a sua manipulação aumentando a componente irracional e populista do processo democrático (levando a que se afirme, por exemplo, que a democracia pode legitimar a violação das normas do Estado de direito, pretendendo uma espécie de legitimação política de certas formas de corrupção).

Estas assimetrias explicam o défice. O falhanço de uma determinada comunidade política na gestão dos custos e benefícios das suas opções políticas é resultado quer da sua tentativa em concentrar os benefícios em si e exportar ou adiar os custos para os outros (os de fora ou as gerações futuras) quer da sua incapacidade para internalizar e racionalizar toda a informação necessária a uma decisão racional e verdadeiramente representativa de todos os interesses afectados.

Como é óbvio, isto não nos deve levar a desistir da democracia, deve antes levar-nos a duas coisas. Em primeiro lugar, a compreender a importância dos mecanismos de disciplina impostos pelo direito (e em particular pela Constituição) ao sistema democrático. Eles não são limites à democracia, mas sim garantes de uma verdadeira democracia e da democracia dos outros (as gerações futuras e os grupos e indivíduos não representados).

Em segundo lugar, a organizar a nossa sociedade e o nosso Estado de forma a reduzir as suas assimetrias democráticas e a maximizar a legitimidade das suas decisões.

As soluções: eficácia e legitimidade

É importante recordarmo-nos disto ao discutirmos as melhores soluções para enfrentar o problema orçamental e a austeridade que nos espera.

Em primeiro lugar, não basta falar das soluções mais eficazes. A eficácia tem de ser suportada pela legitimidade. Pode ser que a única forma realmente eficaz de combater o défice (pelo menos a curto prazo) passe por medidas duras a nível da função pública mas para que esta medida seja legítima, ela tem de vir acompanhada de medidas de austeridade para todos. Estas últimas até podem não ser necessárias para reduzir o défice, mas são-no para conferir legitimidade às primeiras.

Em segundo lugar, temos de reduzir os factores que distorcem o funcionamento da nossa democracia e promovem a sua captura por alguns grupos particulares.

Há três coisas que me parecem primordiais a este respeito.

Primeiro, simplificar, simplificar, simplificar quanto mais simples as regras, mais acessíveis a todos, menos manipuláveis por alguns e mais perceptíveis os seus efeitos, logo, melhor e mais verdadeiro o juízo democrático sobre elas (os benefícios fiscais, por exemplo, não podem ser decididos apenas na base da sua eventual justificação económica, mas têm de atender às possibilidades de evasão fiscal que se multiplicam e à sua fácil manipulação pelos grupos mais poderosos e informados).

Segundo, substituir a lógica da fidelidade (ao partido, aos amigos, ao grupo) pela lógica do mérito tanto no sistema público como no sector privado (a governação das nossas empresas sofre frequentemente dos mesmo vícios que a governação do nosso Estado; a inexistência de uma verdadeira e eficaz concorrência e as distorções decorrentes dos problemas no nosso Estado de direito não criam os incentivos apropriados à adopção do risco e da boa gestão económica como factores de sucesso no mercado).

Terceiro, racionalizar o nosso discurso público criar mecanismos de informação credível que possam ser partilhados por todos aqueles que debatem no espaço público e promover mecanismos de análise de políticas públicas independentes e legitimados em termos técnicos.

Nada disto evitará o conflito político, nem isso deve ser pretendido. Também nenhum destes aspectos ira eliminar o défice orçamental. O ponto é outro é que qualquer solução do défice para ser legítima e socialmente aceite tem de ser acompanhada de medidas destinadas a eliminar as assimetrias democráticas que nos trouxeram até aqui e contaminam qualquer proposta de solução da actual crise económica.

terça-feira, maio 24, 2005

75ª Feira do Livro de Lisboa



A 75.ª Feira do Livro de Lisboa terá lugar entre 25 de Maio e 13 de Junho, no Parque Eduardo VII.

Este ano, a 75ª edição da Feira do Livro de Lisboa, é marcada por uma série de novidades, nomeadamente no que diz respeito à disposição dos pavilhões. No grande auditório, concepção dos arquitectos Marcos Cruz e Marjan Colleti, desenvolver-se-ão muitos dos eventos, que constam do programa cultural: concertos, sessões de leitura, performances teatrais, conferências e lançamentos de livros.

Do programa cultural, fazem ainda parte, a comemoração de um série de efemérides, entre as quais importa destacar os 200 anos da morte de Bocage, recordados por Rui Zink ou o 400º aniversário da edição de D. Quixote. Uma exposição, em homenagem a Francisco Lyon de Castro, fundador das Publicações Europa-América, também é parte integrante deste evento cultural.

No site da Feira do livro, encontrará a informação acerca dos participantes e do programa cultural. Poderá também subscrever a newsletter, por forma a receber informação actualizada sobre o certame, nomeadamente a lista dos Livros do Dia.

(clique na imagem para aceder ao site da Feira)

sexta-feira, maio 20, 2005

"A Queda" do "Reino dos Céus"




Vi, em dias consecutivos, “A Queda” e “Reino dos Céus”.
Isso ajudou-me a perceber que o tema comum aos dois filmes, apesar de bastante diferentes, é o fanatismo. Num caso a acção decorre na Alemanha hitleriana e no outro durante o século XII das cruzadas.

O filme alemão sobre os últimos tempos do regime nazi é muito mais denso, chegando a roçar a tragédia clássica. Baseado em testemunhos presenciais não nos deixa acalentar a suspeita de que os (f)actos presenciados possam ser obra de alguma imaginação doentia apostada em chocar o espectador.

Curiosamente não foram as cenas de grande violência que mais me impressionaram mas sim o grau de “descolamento” de quase todos os habitantes do bunker (dezenas de pessoas) relativamente ao mundo real. Como num pesadelo de que não se consegue escapar vemos prolongarem-se hábitos, rituais e “fidelidades” que já não fazem qualquer sentido prático, nem têm qualquer futuro.
A realidade sofre deformações grotescas quando olhada através das lentes do fanatismo.

O nazismo tem que ser considerado um caso notável dos efeitos do fanatismo quer pela dimensão das devastações provocadas quer pela “sinceridade” com que a casta dominante, bem retratada no filme, assumia as teses absurdas em que a barbárie assentou; mas seria demasiado redutor ver no filme apenas um grito contra o nazismo ou fazer a sua avaliação na base do maior ou menor “humanismo” com que Hitler é retratado.

Quando se diz, como no slogan, “nunca mais” é preciso perceber a raiz do que rejeitamos até porque todos sabemos que o nazismo não foi a primeira ocorrência de violência maciça “justificada” por pretensos princípios. A história está cheia de guerras “religiosas” e de razias e genocídios para “corrigir” consciências.

O fanatismo caracteriza-se pela existência, à partida, de algo inquestionável: um deus, uma raça superior, um clube glorioso, um homem providencial. Em busca da sua identidade os homens são vulneráveis à sobrestimação da pertença a instituições, nações, ideologias, religiões e outras manifestações gregárias.

Tal como os vírus que habitam, sem consequências, os nossos corpos também o fanatismo, nas suas várias formas, pode permanecer inócuo. Mas em determinadas circunstâncias o fanatismo degenera em formas agudas de imposição aos outros de “verdades inquestionáveis”.

A cadeia de raciocínios é simples:
- se a “verdade” é inquestionável torna-se incompreensível que alguém a não queira ou que a ela resista.
- essa recusa da “verdade” indicia ou incapacidade para a entender ou desígnios inconfessáveis
- em qualquer dos casos, como a “verdade” é inquestionavelmente favorável, resulta legítimo impô-la aos relapsos mesmo contra a sua vontade

Este tipo de mecanismo justifica que se queimem “bruxas” ou “cristãos novos”, se espanquem adeptos do clube adversário ou homossexuais, se trespassem à espada os “infiéis”, se instaure a democracia com bombardeamentos ou se enviem judeus e comunistas para campos de extermínio.

A generalidade daqueles que se envolvem em manifestações agressivas de fanatismo não obtêm desse facto qualquer vantagem identificável ou, nos casos em que tal acontece, não é essa a razão principal das suas atitudes.

O facto de rejeitarmos o fanatismo não significa que devamos rejeitar a adesão a ideais, ideologias, misticismos ou utopias. Significa, isso sim, a adopção de uma pedagogia da relatividade e falibilidade dos julgamentos humanos que reserve para casos extremos, prementes e inevitáveis, a substituição da persuasão pelo uso da violência física ou intelectual.

quinta-feira, maio 19, 2005

Uma casa para a "colecção Berardo"


O lanche das crianças, 1918

A Colecção Berardo possui mais de um milhar de obras de artistas nacionais e estrangeiros de todas as correntes artísticas desde o início do século XX. Marc Chagall, Joan Miró, Francis Bacon, René Magritte, Pablo Picasso, Andy Warhol são apenas alguns dos artistas representados numa colecção de que os seus responsáveis se recusam a avançar o valor.
A Colecção Berardo está, desde 1996, depositada no CCB graças a um protocolo que tem sido renovado sucessivamente. E, até 2007, o acervo vai ficar naquele espaço.

Joe Berardo quer um projecto museológico como o do Museu de Arte Contemporânea de Serralves, no Porto, para albergar a sua colecção.
O Museu de Serralves “é o exemplo ideal” para acolher a colecção, que “tem de ter uma base permanente em Lisboa”, disse o comendador, que possui uma das mais valiosas colecções de arte contemporânea do Mundo.

Na opinião do empresário madeirense, o CCB seria outra alternativa a considerar, não só pela sua “independência” como também pela possibilidade das obras de arte ficarem expostas em permanência e não somente em exposições temporárias.

Quanto a outros possíveis destinos para o seu acervo, Joe Berardo sugeriu ainda o Pavilhão de Portugal (no Parque das Nações), o Museu de Arte Popular em Belém (actualmente encerrado), ou a construção de um edifício de raiz num terreno contíguo ao CCB.

A resolução daquilo que classificou de “batalha de longos tempos” cabe ao “poder político”, referiu Joe Berardo, que se mostrou “optimista” com a possibilidade do novo Governo resolver a situação.

Já vai sendo tempo de alguém, com elementar senso comum, aproveitar esta oferta e acabar com anos de adiamento sem sentido.
Dizemos nós.


(se quer ver a colecção on-line clique na imagem que antecede este texto)

terça-feira, maio 17, 2005

O navio dentro da cidade


Não é daquela que atravessa o livro de André Kedros mas de uma outra nave que se trata.

Na semana passada fui a Bilbao, ao Guggenheim. Vale a pena!
Estava disponível uma exposição sobre o Império Azteca, além da colecção permanente de arte moderna.

Não sou muito fã da pintura moderna abstracta, pelo menos do tipo da que lá está. Quanto à exposição azteca, com peças interessantíssimas vindas de vários museus e colecções, estava tão bem apresentada quanto mal explicada (ainda está fresca a impressão dos 7.000 anos de Arte Persa apresentada na Gulbenkian, por isso a bitola está alta!).

Mas o que é de facto único é o Museu. Dizem que o desenharam assim para valorizar o que lá tiver dentro. Pois eu digo que é ele a verdadeira exposição permanente e mereceria a visita mesmo que estivesse vazio! Para ter a experiência sensorial de estar dentro de qualquer coisa que invoca e combina os espectros de um gigantesco dinossáurio, da baleia de Jonas (feita de vidro), da Passarola e do Spaceship Enterprise. Ah! E também do Nautilus, já que lá dentro tive o privilégio de ver desabar sobre mim um dilúvio e uma trovoada dignos da Tempestá di mare do Vivaldi (esta comparação é para manter o elevado nível cultural da conversa, ah! ah!)...

Bom, primeiro foram as coisas boas; agora vêm as más.

A aproximação ao museu foi uma desilusão. O Guggenheim está numa zona da cidade que é como que um recôncavo rodeado pelas silhuetas dos montes.
Ainda para mais tem quase em toda a volta e até muito perto, prédios naquela sólida, escura e grande arquitectura das cidades bascas que dificultam muito a obtenção de uma visão de conjunto. Visão de conjunto essa que também é quase sempre obscurecida pelo fundo de construções que se perfilam nas encostas.

Acho que o edifício (que é tão espectacular por fora como por dentro) merecia um melhor tratamento paisagístico. Por mim imaginava-o no alto de um daqueles montes, de velas desfraldadas! Mas a realidade é outra: o navio de Frank Gehry está definitivamente no meio da cidade.

terça-feira, maio 10, 2005

A metamorfose digital da mercadoria


clique na foto para ver o texto completo


A riqueza das sociedades nas quais domina o modo de produção capitalista aparece como um “imenso acumulamento de mercadorias”, sendo a mercadoria singular a sua forma elementar. A nossa investigação começa, por isso, com a análise da mercadoria. (primeira frase de O Capital de Karl Marx, Edições Avante 1990).
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Marx elegeu a mercadoria como categoria para ponto de partida, quer na Crítica da Economia Política (1859) quer em O Capital (1867), da caracterização do modo de produção capitalista. Não será portanto de estranhar que se faça outro tanto ao analisar a transição do Capitalismo para o Digitalismo.

A revolução tecnológica, associada à representação digital da informação, está a abrir caminho para a emergência de um novo modo de produção, o Digitalismo.

Esperamos demonstrar que a metamorfose digital da mercadoria constitui uma ruptura cuja magnitude indicia o surgimento desse novo modo de produção.

Veja aqui o texto completo

segunda-feira, maio 09, 2005

Pedintes e Malandros

Aguarda-se, a qualquer momento, o anuncio da estreia de "A ópera dos três vinténs" (Brecht/Weill) pelo Teatro Aberto. Em 1992 o Teatro Aberto, com esta mesma obra, obteve vários prémios. Trata-se portanto, para João Lourenço, de revisitar um texto emblemático.




Carcere di Volterra, “Opera da tre soldi”


Talvez seja um sinal dos tempos que ocorram em Lisboa, no espaço de alguns meses, três das quatro versões da "Beggar's Opera". O Teatro Aberto levou recentemente à cena "A Ópera do Mendigo" (versão Britten/Gay), ainda inédita entre nós.




"The Beggar's Opera", pelo Teatro Aberto


Tivemos também a oportunidade de ver uma montagem brasileira de "A Ópera do Malandro" que percorreu várias cidades do nosso país.




Cartaz de "A Ópera do Malandro"

quarta-feira, maio 04, 2005

O mal





O Mal

por Miguel Poiares Maduro



Fui ver A Queda e gostei. Trata-se do muito discutido filme sobre os últimos dias de Hitler no seu bunker em Berlim. Alguns criticam uma hipotética humanização de Hitler no filme. Não estou de acordo. O filme demonstra que Hitler é humano mas isso é bem diferente de o humanizar. Não nos suscita compaixão por ele. Apenas nos demonstra que Hitler é também "um de nós". E isso é o que o filme tem de perturbador e importante. É que só reconhecendo Hitler como humano podemos entender como é que ele foi possível e impedir a sua repetição. O filme permite-nos reflectir sobre a natureza do mal. O mal que se manifesta na figura de Hitler mas também o mal muito mais disperso e difuso que permitiu Hitler e o nazismo.

(leia o resto do texto clicando aqui)

terça-feira, maio 03, 2005

25 de Abril de 1975




Em 25 de Abril de 1975, depois de votar para a Assembleia Constituinte, percorri Lisboa e fotografei vestígios da primeira campanha eleitoral da democracia.

Aqui fica esta imagem, recolhida à porta da IBM na Pr. de Alvalade em Lisboa, que os mais novos poderão achar bizarra, mas que fará de certo sorrir (com uma certa nostalgia?...) alguns leitores assíduos deste "blog".

segunda-feira, maio 02, 2005

Abril em Itália





Clique na foto se quer ver as minhas recordações fotográficas da viagem a Itália em Abril.

quinta-feira, abril 28, 2005

7000 Anos de Arte Persa





Espantosa exposição, na Gulbenkian, que salta por cima do anedotário da política internacional e da visão estreita sobre o fundamentalismo islãmico para percebermos a perturbante sedimentação das culturas.


(Quem não tiver possibilidade de ver ao vivo pode ver on-line clicando na imagem acima)

quarta-feira, abril 27, 2005

Notícias do choque tecnológico






CONVERSA CAPTADA EM ESCUTA TELEFÓNICA PELA PGR:

- Prof. Mariano Gago? É o Zé Sócrates. Oh, pá, ajuda-me aqui. Comprei um computador, mas não consigo entrar na Internet! Estará fechada?

- Desculpa?....

- Aquilo fecha a que horas?

- Zé, meteste a password?

- Sim! Quer dizer, copiei a do Freitas.

- E não entra?

- Não, pá!

- Hmmm....deixa-me ver... qual é a password dele?

- Cinco estrelinhas...

- Oh, Zé!...Pooooooo....Bom, deixa lá agora isso, depois eu explico-te. E o resto, funciona?

- Também não consigo imprimir, pá! O computador diz: "Cannot find printer"! Não percebo, pá, já levantei a impressora, pu-la mesmo em frente ao monitor e o gajo sempre com a porra da mensagem, que não consegue encontrá-la, pá!

- Pooooooo....Vamos tentar isto: desliga e torna a ligar e dá novamente ordem de impressão.

Sócrates desliga o telefone. Passados alguns minutos torna a ligar.

- Mariano, já posso dar a ordem de impressão?

- Olha lá, porque é que desligaste o telefone?

- Eh, pá! Foste tu que disseste, estás doido ou quê?

- Poooooo...Dá lá a ordem de impressão, a ver se desta vez resulta.

- Dou a ordem por escrito? É um despacho normal?

- Oh, Zé...poooooooo....Eh, pá! esquece....Vamos fazer assim: clica no "Start" e depois...

- Mais devagar, mais devagar, pá! Não sou o Bill Gates...

- Se calhar o melhor ainda é eu passar por aí...Olha lá, e já tentaste enviar um mail?

- Eu bem queria, pá!, mas tens de me ensinar a fazer aquele circulozinho em volta do "a".

- O circulozinho...pois.... Bom...vamos voltar a tentar aquilo da impressora. Faz assim: começas por fechar todas as janelas.

- Ok, espera aí...

- Zé?...estás aí?

- Pronto, já fechei as janelas. Queres que corra os cortinados também?

- Poooo....Senta-te, OK? Estás a ver aquela cruzinha em cima, no lado direito?

- Não tenho cá cruzes no Gabinete, pá!...

- Pooooooo....poooooooo....Zé, olha para a porra do monitor e vê se me consegues ao menos dizer isto: o que é que diz na parte de baixo do écran?

- Samsung.

- Eh, pá! Vai mas é para o....

- Mariano?... Mariano?...'Tá lá?...Desligou....

segunda-feira, abril 25, 2005

Victory Day






Clique na foto para aceder a um site dedicado ao 60º aniversário da vitória da URSS sobre o nazismo.

sexta-feira, abril 15, 2005

Os "Abstractos" do estacionamento






Se quer ver alguns "abstractos" fotografados nos estacionamentos da Expo clique na foto.

terça-feira, abril 12, 2005

As “fraquezas” da direita



Têm-se multiplicado, nos últimos tempos, as declarações inflamadas sobre as derrotas dos partidos da direita, sobre o hiato nas direcções desses partidos e até sobre a necessidade, ou mesmo a possibilidade, de refundar a direita em Portugal.

A meteórica governação santanista e as tragicomédias dos congressos do PSD e do CDS servem de pasto aos comentadores mediáticos e os dirigentes de esquerda, navegando nas mesmas águas, espalham entre os incautos uma confortável, mas perigosa, sensação de alívio e de bonança.

Impõe-se perguntar:
- será que os interesses da direita estão sob ameaça séria ?
- as principais teses da direita, a fundamentação das injustiças em que se baseia o seu poder, estão realmente em regressão ?

Infelizmente a resposta a tais perguntas é negativa.
Nenhum partido de esquerda perspectiva atacar os interesses materiais das classes dominantes. Todos eles concentram as suas propostas no plano das prestações sociais sem beliscar a organização social da produção e sem questionar a propriedade ou as relações de produção próprias do capitalismo.
Os “empreendedores capitalistas” são unanimemente considerados os únicos capazes de promover o desenvolvimento económico, autênticos “salvadores da pátria”.

A distinção tradicional, em que a direita defendia o status quo e a esquerda pretendia destruí-lo, passou à história.

Assim sendo cabe indagar a razão de tanto alarido nas hostes da direita.

É verdade que um partido como o PSD tem dificuldade em afirmar uma clara identidade ideológica e em diferenciar inequivocamente as suas propostas mas tal deve-se, no essencial, ao facto de o PS ter despudoradamente invadido o seu espaço político. Por isso as fronteiras são cada vez mais imprecisas e a refrega desliza para questões secundárias e arrevesadas.

A direita diz que é preciso controlar as despesas da “máquina do Estado” mas só para evitar que os impostos dos trabalhadores, que têm sido os principais pagadores do sistema, deixem de ser suficientes e que alguém tenha a “peregrina ideia” de fazer pagar também os poderosos. Daí resultam alguns acessos de gritaria liberal e as consequentes pressões e chantagens que, como é costume, levarão o PS a moderar os ímpetos da campanha eleitoral logo que estejam ultrapassadas as eleições autárquicas

Por outro lado as classes dominantes temem os perigos que o girar do mundo continuamente desenvolve; quer se trate da ameaça dos baixos preços chineses, dos galopantes preços do “crude” ou do impetuoso desenvolvimento da tecnologia essas classes não acreditam que o governo socialista, por incompetência, esteja em condições de salvaguardar os seus interesses.
O “choque tecnológico” é uma graçola que ninguém leva a sério.

Em suma, as grandes ameaças que pendem sobre os interesses da direita têm origem externa, independente da vontade e do controle dos partidos de esquerda e estes, se ameaça constituem, é mais no plano da incompetência para entenderem o que está em jogo do que pela existência de algum plano próprio para criarem uma realidade social alternativa.

Por isso as grandes discussões que se avizinham, em que os partidos de direita se preparam para lançar todas as forças do campo “académico” e da “consultoria internacional”, são apenas as do papel e dimensão do Estado na sociedade e também do peso relativo dos sectores produtivos (têxteis ou turismo ?) e das “opções estratégicas” nos transportes e na energia.

Triturados pelos imperativos da dependência económica os partidos de esquerda lá irão a reboque das “decisões inevitáveis” e não poderão ter outra estratégia que não seja a de proteger os “empreendedores nacionais” sob pena de ver desaparecer os empregos e minguar as receitas fiscais.

Sem equacionar este falso dilema e sem romper este “círculo vicioso” no plano ideológico será impossível transformar o mundo em que vivemos.
É necessário demonstrar a viabilidade de novas relações de produção, esse é o tipo de inovação de que mais precisamos.
Em vez de funcionários precisamos de cidadãos empenhados em construir um novo universo produtivo, um novo modo de produção.

Trata-se de um caminho difícil mas sem alternativa.

Por isso em vez da refundação da direita precisamos, isso sim, é de refundar a esquerda.

segunda-feira, abril 11, 2005

Para nunca nos esquecermos...

...da maravilhosa diversidade dos humanos


Homem das ilhas TIWI


O artesanato encantador destas ilhas

(veja aqui)

quarta-feira, abril 06, 2005

A Biblioteca Nacional "surfada" on-line


BABCOCK, Richard Fayerwather, 1887-1954, designer

Join the navy : the service for fighting men / [design] Babcock.
- [S.l. : s.n., 1917]. - 1 cartaz : color. ; 107 x 73 cm
Cartaz destinado a incentivar o alistamento na Marinha, primeiro departamento governamental americano a promover a edição de cartazes.
- Data segundo Prints and Photographs Online Catalog da Library of Congress disponível em WWW: [consult. 26 Dez. 2003].
- Reprodução litográfica. - Marinheiro cavalgando um torpedo que desliza, velozmente, sobre a água (recorrência à figura da literatura infantil «barão de Münchhausen», divulgada a partir de 1785 pelo inglês Raspe)

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Estas e outras maravilhas, incluindo "Os Lusíadas" de 1572, "surfáveis" na Internet.

(veja aqui)

domingo, abril 03, 2005

A T H O U G U I A - Exposição de Pintura


(clique na foto para ver galeria)

A T H O U G U I A
Exposição de Pintura

GALERIA PEPPER’S
9 de Abril a 6 de Maio
Rua Dr. Miguel Bombarda, 15 - D
2500-238 Caldas da Raínha
T. 262 823 57

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É com uma Luz fervente, dando vida para lá do sonho, numa íntima e silenciosa lógica do abstracto, com figurações surrealizantes, num firmamento intemporal e um amplo ideário formal, que Luis Athouguia cria, como fulcro desta exposição, as suas atmosferas perturbantes e sentidas.
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Luis Athouguia, distinguido com o Prémio Vespeira, conta com mais de centena e meia de exposições no País e no estrangeiro, tem participado em importantes Bienais de Arte.