quinta-feira, Abril 17, 2014

A instrumentalização dos Capitães de Abril



A instrumentalização dos Capitães de Abril
Desde o primeiro dia, desde o próprio 25 de Abril e da acção revolucionária dos "capitães", começaram as tentativas de instrumentalizar os militares para os pôr ao serviço de várias ideologias. Tanto durante o PREC como no 25 de Novembro, e depois já na fase de "normalização" democrática.
A forma mais comum que essas tentativas apresentam é a do elogio desmesurado e da absolutização.
Como a apropriação da "pureza" do 25 de Abril continua nos nossos dias, podemos assistir a coisas repugnantes como o último escrito de Mário Soares na Visão, publicado hoje.
Na linha do que se está a tornar lugar comum, Mário Soares atreve-se a atribuir, em exclusivo, aos "capitães de Abril" a autoria da nossa libertação.
Como se, por absurdo, tudo se resumisse a um acto insurrecional dos miltares, sem passado e sem antecedentes.
Mas a verdade é que antes dos "capitães" houve gerações de militantes comunistas, e não só, que dedicaram as suas vidas a combater o fascismo. Com sacrifícios enormes, por vezes dando a sua vida ou comprometendo o direito a uma vida normal.
Sem esses abnegados lutadores não teria havido 25 de Abril nenhum.
Primeiro porque o regime não teria atingido a decadência em que se encontrava e segundo porque os militares de Abril não teriam dentro das suas cabeças as ideias que lhes permitiram fazê-lo (uma boa parte moveu-se aliás por razões corporativas e profissionais).
Mas o mais importante é perceber que o simples acto militar não teria assustado o regime se, desde o primeiro minuto, o povo não tivesse saído para a rua demonstrando a sua adesão e desencorajando qualquer tentativa de resposta contrária.
Essa onda popular contra o fascismo não surgiu de geração espontânea, custou muitas vidas ao longo de décadas.
Os "capitães de Abril", que eu também respeito e admiro, foram apenas a ponta fulminante de um enorme iceberg. E isso não os diminui, pelo contrário.

segunda-feira, Abril 14, 2014

No território da Esquerda

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No território da Esquerda
há hoje uma enorme abundância de poetas e filósofos, sacerdotes e missionários, advogados e fiscais.
Infelizmente escasseiam matemáticos e contabilistas, engenheiros e arquitectos, carpinteiros e pedreiros (que não se designem em francês).

Parábola Indiana (onde se lê "elefante" leia-se "crise")

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Parábola Indiana
(Onde se lê "elefante" leia-se "crise")
Seis homens sábios, cegos, estavam sentados à beira de uma estrada.
Aproximou-se deles um homem conduzindo um elefante, que era domesticado e bastante dócil. 
Impossibilitados de o ver, decidiram conhecê-lo pelo tacto.
O primeiro cego apalpou o elefante na barriga e disse: Já sei! o elefante é tal e qual um muro, forte e áspero.
O segundo passou as mãos pelas presas e afirmou: O elefante é mais parecido com as lanças do que com muros; é redondo, liso e agudo nas extremidades.
O terceiro correu os dedos pela tromba do paquiderme e declarou: Estão ambos enganados. O elefante é parecido com uma grande cobra.
O quarto cego, porém, estendeu os braços, abraçou uma das pernas do animal e disse: O pior cego é o que não quer ver. O elefante é roliço e alto como um coqueiro.
O quinto cego, homem de elevada estatura, tocou a orelha do elefante e afirmou categoricamente: O elefante é um grande abanador
Adiantou-se, finalmente, o sexto cego, e, segurando o elefante pela cauda exclamou: O elefante nada tem de parecido com muro, lança, cobra, coqueiro ou abanador! O elefante é apenas um pedaço de corda.
O homem continuou a viagem e os seis cegos ficaram à beira da estrada discutindo, exaltados, insultando-se uns aos outros com palavras azedas, porque não chegavam a um acordo sobre a forma exacta do elefante.





quinta-feira, Abril 10, 2014

Perda AUDItIVA

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quarta-feira, Abril 09, 2014

APACHE



APACHE

- Despacha-te. Já estamos a ficar atrasados…
O tenente tentava apressar a sua jovem esposa que se alongava à frente do espelho.
O quarto tinha chão de cerâmica e mobiliário rudimentar, em grande parte desencantado nos armazéns do quartel. O que não se encontrara tinha sido inventado com caixotes de munições, primorosamente pintados, e garrafas grandes de Perrier atafulhadas de flores.
Uma esteira na parede exibia Che Guevara, fixado com dois punaises, de charuto entre os dedos e sorriso largo, ao lado da imagem icónica do vietcong, de mãos atadas, a ser alvejado na cabeça por um polícia. O tenente e a mulher tinham vindo directamente dos meios progressistas da universidade para a guerra na Guiné.
Enquanto ele comandava um pelotão de fuzileiros ela tentava garbosamente explicar os feitos de Afonso Henriques aos jovens mandingas e balantas que frequentavam o liceu.
As janelas da casa eram guarnecidas por mosquiteiros e davam para um esboço de alpendre.
Na sala acantonavam-se os livros que a bagagem militar tinha permitido e o gira discos de plástico com os seus long playings. Um recanto de cultura com que tentavam resistir aos dois anos de desterro.
- Despacha-te!
A sessão no cinema dedicada ao pessoal da Armada era sempre ao Domingo de manhã e estava prestes a começar.
Da casa do tenente numa transversal até à Avenida da República, onde se situava o cinema, não se demorava mais de dez minutos.
Saíram à pressa e seguiram, rua fora, contornando os montes de insectos que os varredores tinham arrumado contra os muros das casas, naquela zona quase toda habitada por brancos.
Quando chegaram à Avenida da República em vez de virarem para a esquerda, na direcção do palácio cor de rosa do Governador, giraram em sentido oposto e atravessaram para o lado de lá, onde se erguia o cinema.
Foi então que notaram algo inusitado. O tenente que, dado o seu atraso, esperava chegar já com a projecção a decorrer avistava magotes de fardas brancas agitando-se nas escadarias de acesso à sala.
Depois começou também a ouvir-se a algazarra.
Quando viram o primeiro tipo conhecido perguntaram-lhe o que se passava.
- Os marinheiros e grumetes querem levar também as mulheres para o balcão, como fazem os sargentos e os oficiais.
Não eram muito numerosos aqueles que estavam em comissão acompanhados pela mulher mas, até por causa disso, não se sentiam à vontade numa plateia cheia de homens sempre prontos para dixotes e calduços.
O balcão, onde assistiam circunspectos os oficiais, sobrevoava aquela balburdia como se ela não existisse.
Era então por causa disso que o átrio do cinema fervilhava; a arraia miúda recusava-se a ocupar os lugares na plateia enquanto os seus colegas casados não tivessem permissão para se sentar no balcão com as caras metade.
- A mulher de um oficial não é mais nem menos do que a mulher de um marinheiro
Gritava o enorme cabo João, barbudo como um apóstolo, para o capitão-de-fragata, segundo comandante da Guiné, que lhe segurara o braço e que, no minuto seguinte, sacudido pelo João, se estatelava nos degraus.
Foi nesse instante que o tenente percebeu que as coisas estavam fora de controle.
As tensões tinham vindo a acumular-se nos úlimos meses.
Não havia talheres suficientes no refeitório nem ventoinhas nas casernas.
No quartel, junto ao Geba, os protestos tinham vindo a suceder-se sem que o Comando Naval tomasse medidas para os obviar.
O cinema tinha sido o rastilho para soltar todos os ressentimentos.
Entretanto o capitão-de-fragata recompôs-se da queda e deu ordem ao cabo da guarda, em serviço de patrulha, que detivesse o cabo João.
O que se passou a seguir foi confrangedor, ou seja, não se passou nada. O cabo da guarda fez de conta que não tinha ouvido qualquer ordem e desandou no jipe sob as invectivas do superior.
De um momento para o outro, sem se perceber como, centenas de fuzileiros começaram a descer a avenida da República, a mais importante da cidade, como uma onda branca ululante que nenhuma força se atreveria a deter.
Alguns subordinados do tenente, com quem privava mais frequentemente, aconselharam-no a regressar a casa e a passar o Domingo calmamente em família.
Lá mais para a tarde o tenente soube pelos colegas que beberam lá em casa umas cervejas que no quartel, tomado nessa manhã pelos fuzileiros, a hierarquia deixara de vigorar e que o oficial de serviço, mais recalcitrante, tivera que deixar o seu posto correndo à frente das garrafas de Cuca que os marinheiros lhe atiravam.
O capitão-de-mar-e-guerra, a maior autoridade do comando naval, vira-se forçado a visitar o quartel e a contemporizar com a rapaziada. No essencial atendera todos os seus pedidos.
O tenente soube de todos estes desenvolvimentos com visível satisfação já que se tratava da coisa mais parecida com uma insurreição que lhe fora dado observar nos vinte e dois anos que levava de vida. E não sabia ele então para o que estava guardado.
Para comemorar tomaram a decisão de ir ao cinema, em grupo, depois do jantar.
O filme em exibição era o “Apache” do Robert Aldrich, coisa que o tenente nunca mais esqueceu.
Como de costume, no espaço que medeia entre a primeiras cadeiras da plateia e o écran, tinham sido colocados uns bancos corridos, de madeira, para a ganapagem que se dedicava a transportar as marmitas da messe e outros pequenos serviços ao domicílio.
Os garotos negros, em grande algazarra, aplaudiram todas as flechas e machadadas com que os índios brindaram a cavalaria durante aquela hora e meia.
O índio Burt Lancaster deve ter povoado os seus sonhos infantis quando, já noite alta, regressaram à tabanca.

terça-feira, Abril 08, 2014







BOTÂNICA
Vasco Araújo no
Museu Nacional de Arte Contemporânea
A arte fala, cada vez mais, sobre si própria. A principal pergunta continua a ser "por que é que ele fez isto desta maneira?".
Pega-se num tema sério, acrescenta-se algumas ideias gerais a propósito, e depois o fruidor que se avenha com a originalidade da apresentação e da sua relação com o tema proposto.

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segunda-feira, Abril 07, 2014

"Palácio das Necessidades"



"Palácio das Necessidades"
Fui ver o filme de Bertrand Tavernier que se inspirou numa banda desenhada, ao que dizem.
Embora seja demasiado extenso, e repise algumas poucas ideias interessantes, constitui uma excelente ilustração da precariedade e falta de substância do poder nas democracias actuais.
Os actores políticos com altos cargos, que aparecem todos os dias nos noticiários televisivos, podiam dizer, como disse Sócrates recentemente, "eu não vinha preparado para isto".
A volatilidade e imprevisibilidade das lotarias eleitorais podem ser comparadas com outras formas de seleccionar os detentores de cargos de responsabilidade. Num país como a China, por exemplo, há uma longa decantação por vários níveis de filtragem que obriga os dirigentes a um processo de formação que é garantia da coerência do sistema e dos seus pressupostos.
Dito isto, tiro o meu chapéu a Thierry Lhermitte que nos dá um ministro frenético mas que nunca descai para o inverosímil.

domingo, Abril 06, 2014

Sines

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Sines
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domingo, Março 30, 2014



O Sonho de WADJDA
fui ver o encantador filme de Haifaa Al-Mansour.
Ao que consta a primeira longa-metragem inteiramente levada a cabo na Arábia Saudita.
Confirmei que, a seguir ao racismo, é o fanatismo religioso a aberração que mais repulsa desperta em mim.
A opressão e exploração económica vem só em terceiro lugar.
Eu concordo que é absurdo fazer estas tabelas ordenadas mas eu é que sei como é que se me revolta o estômago.

sábado, Março 29, 2014

Regresso ao passado

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O futuro que nos propõe é o regresso a um passado impossível

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sexta-feira, Março 28, 2014

GANTURÉ



GANTURÉ
Chegaram a Ganturé quase à noite. Horas e horas nos meandros do Cacheu a ver o mangal passar e a ouvir o ronronar do motor da lancha.
O mangal, a que por lá se chamava tarrafo, com as suas raizes merguladas nas àguas baixas, interrompia-se de quando em quando em aberturas de clareira. Era nessas alturas que um dos rapazes saltava para o banco da Oerlikon e ficava de atalaia, a prometer projécteis de vinte milímetros.
O tenente tinha dito que não se fazia fogo preventivo, apenas se responderia em caso de ataque.
O rapazola, imberbe, sentado no banco da peça limitava-se a rodar sobre o eixo, de mãos aperreadas nos punhos do gatilho, como se andasse num carrocel lá da terra dele.
Depois o tarrafo aparecia de novo e tudo regressava à sonolência pesada da época das chuvas.
A atracagem em Ganturé foi feita pelo cabo, um barbas mais batido, sob o olhar aprovador do tenente. Era preciso aproximar a lancha do pontão ao arrepio das correntes fortíssimas que a maré trazia até ali, a cem quilómetros da costa. Tal era a chateza do país.
Passadas as amarras para terra, com ajuda dos grumetes que estacionavam naquela base de fuzileiros, tisnados e cravejados pela mosquitada, houve uns abraços entre conhecidos e o desembarque das grades de cerveja e das munições.
Entretanto escurecera e ligou-se o petromax, mesmo sabendo que a luz atraía a bicheza voadora.
O tipo que nesse dia estava escalado para o tacho apareceu com o tabuleiro cheio de bacalhau à Gomes Sá.
À volta da mesa, sob o toldo da popa, sentaram-se todos. Sete homens, incluindo o tenente, que picavam no enorme tabuleiro e faziam circular o garrafão de tinto de onde todos emborcaram.
Estavam de costas para o rio que, naquele ponto não teria mais de duzentos metros de largura. A outra margem era apenas negrume.
De súbito rebentam disparos cadenciados de metralhadora. Não parecia o ritmo de rajada ligeira mas sim a fala da metralhadora pesada dos turras.
Toda a gente saltou da mesa e extinguiram a luz num ápice, para deixarem de ser como patos numa esparrela.
Enquanto os disparos ecoavam na noite toda a gente a bordo se concentrava, aos gritos, em desatracar e virar a lancha para a outra margem. Embicada a terra, como estava, era impossível disparar a Oerlikon.
Muito fumo, muito ronco de motor acelerado de rompante, um tabuleiro de bacalhau desvirado, e lá tínham a lancha em posição de disparar. Foi nessa altura que o fogo do inimigo se calou.
Ficou toda a gente perplexa pois, sem os tiros e sem a chama que eles produzem, eram impossível saber em que direcção responder.
O tenente mandou avançar mais para o meio do rio e colocou-se muito esticado, na proa, a ver se lobrigava alguma coisa. Ligaram o holofote da cabine e então apareceu a barcaça Bolama que fundeara por ali, em completa ocultação de luzes. Reinava agitação a bordo.
O tenente, com dois marinheiros, meteu-se no bote de borracha e fez uma abordagem.
Aos gritos explicaram que um cabo do exército, já bebido, tinha caído ao rio em plena noite. Fora então que o Zé Calmeirão, aquele grumete que sofria de ataques de pânico, para dar o alarme, tinha desatado a disparar a G3 para o ar e provocara todo o alarido.
Tinham saltado três tipos em cima do Zé, antes que ele se atirasse também para a água. E só a muito custo dominaram aquela besta de um metro e noventa e lhe tiraram a espingarda das mãos.
Estava tudo explicado, não havia ataque nenhum dos turras. Era preciso era procurar o cabo João que o Cacheu engolira.
Os tipos da base de fuzileiros, que ficava a trezentos metros, também tinham sido alertados pelo tiroteio. Rápidamente puseram os botes na água e apesar da escuridão iniciaram as buscas. Primeiro à volta da Bolama e depois em círculos cada vez mais largos.
Margens, pequenos afluentes, emaranhados do tarrafo e lodaçais, tudo foi esquadrinhado. O cabo João não aparecia.
Horas, para cá e para lá. Olhos cansados de insónia e de falta de luz.
Começaram alguns a dizer que os crocodilos já deviam ter feito desaparecer o João. Outros diziam que a corrente de mais de dez nós devia tê-lo levado vários quilómetros para juzante, sabe-se lá para onde. Também havia quem dissesse que o emaranhado impenetrável das raízes do tarrafo seria, para sempre, a sepultura inescapável do João.
Entratanto fizera-se dia.
A lancha tinha por missão continuar a subir o rio até Farim, escoltando o grupo de barcaças a que pertencia a Bolama.
O tenente agarrou-se ao transmissor e, por entre ruídos roufenhos, informou Bissau do desaparecimento do cabo do exército e pediu instruções ao Estado Maior. Em tempo de guerra não se brinca.
Mandaram avançar como planeado.
Foi dada ordem para desatracar a quem estava atracado e para levantar ferro a quem estava fundeado. Era preciso ordenar a coluna para a largada.
Na barcaça Bolama os homens esfalfavam-se na manivela do guincho, onde enrolavam a corrente da âncora. Iça o ferro, gritavam à uma.
Foi então que viram aparecer o cabo João, desesperadamente agarrado aos elos da corrente.
Passara a noite, morto, a dois metros de profundidade resistindo à força das águas.
Foi muito difícil soltar-lhe os dedos.

quinta-feira, Março 27, 2014

THE SECOND MACHINE AGE




THE SECOND MACHINE AGE
Há dias um político da nossa praça, que escreve nos jornais, citava este livro sobre as maravilhas do novo mundo.
Os autores, Erik Brynjolfsson and Andrew McAfee, são nomes sonantes do MIT o que dá sempre um toque de credibilidade.
Mas eu, que trabalhei desde 1970 nas tecnologias da informação já estou "careca" de ouvir discursos ditirâmbicos sobre as tecnologias, que depois se revelam miragens (há 10 anos até escrevi um livro sobre isso http://digital-ismo.blogspot.pt/)
Todos sabemos que tem havido enormes desenvolvimentos tecnológicos mas constatar isso não nos adianta grande coisa se não se compreender a interligação com a criação de valor e com a matriz das relações de produção.
A ideia bacoca de que o crescimento exponencial das tecnologias nos fará deslizar para um mundo de abundância e lazer é bastante irrealista.
As transformações dramáticas no plano tecnológico não podem deixar de provocar correspondentes transformações dramáticas no significado e organização do trabalho bem como nas organizações e instituições que ainda hoje temos, herdadas que foram da Revolução Industrial dos séculos XVIII e XIX.
Isso é que deve ser discutido, compreendido, e, na medida do possível, controlado e dirigido.
http://www.washingtonpost.com/opinions/review-the-second-machine-age-by-erik-brynjolfsson-and-andrew-mcafee/2014/01/17/ace0611a-718c-11e3-8b3f-b1666705ca3b_story.html

terça-feira, Março 25, 2014

Um assunto sério objecto de manipulação

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Um assunto sério objecto de manipulação
É deplorável a manipulação que se observa nestes gráficos com o objectivo de exagerar o efeito dos números.
O eixo vertical não começa no zero o que torna a evolução muito mais dramática.
Neste link explica-se como jogando com as ordenadas ou as abcissas se altera a leitura dos gráficos.
http://en.wikipedia.org/wiki/Wikipedia:Don't_draw_misleading_graphs

domingo, Março 23, 2014

A Primavera chegou ao Alentejo

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A Primavera chegou ao Alentejo

quinta-feira, Março 20, 2014

O Meu Manifesto




O Meu Manifesto

1. As dívidas são para pagar

2. A nossa vai demorar um bocado a ser paga e, 
entretanto, teremos que ir pedindo novos empréstimos 
para pagar os antigos (rolar a dívida)

3. Nesse entretanto, para aliviar o povo contribuinte, 
era preciso baixar o que pagamos pela dívida, 
em juros, todos os anos. Ou, seja 
os novos empréstimos terem taxas mais baixas do que os antigos

4. Se lançarmos dúvidas sobre o nosso comportamento futuro, 
como faz o Manifesto dos 70, os juros dos novos empréstimos sobem.

5. Se insinuarmos um incumprimento ou a necessidade 
de um perdão da dívida, como faz o Manifesto dos 70, 
os juros dos novos empréstimos sobem.

6. Mesmo que nos perdoassem parte da dívida, 
o que parece improvável, como a dívida restante 
pagaria juros mais altos a austeridade não poderia abrandar

7. Portanto deixem-se de manobras de diversão 
e concentremo-nos na difícil tarefa de conseguir, 
aumentando a confiança, 
que os juros continuem a baixar até ao ponto 
de aliviarem o Orçamento de Estado.

segunda-feira, Março 17, 2014

Uma teleobjectiva contra o fascismo

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Na Primavera de 1973 descobri, por acaso, que estava a ser seguido pela PIDE. Atravessei a Ponte Salazar por engano e, no regresso, estranhei ver de novo o Opel Manta castanho que já no percurso inverso rodava atrás de mim.
Acelerei a fundo o meu potente Alfa Romeo e consegui deixar o Opel para trás, mas de pouco valeu.
Já sabiam onde eu morava e montaram plantão à minha porta.
Eu, tal como a minha mulher, eramos nessa altura empregados muito bem pagos da maior empresa mundial das emergentes teconologias da informação.
Passámos a viver na eminência da prisão, com tudo o que isso significa de instabilidade e desespero. O meu filho mais velho tinha então apenas dois anos.
Cortei todos os contactos clandestinos com o meu partido, o PCP, e comecei a tentar desfazer-me das enormes quantidades de materiais comprometedores que havia em minha casa (em resultado de uma outra história, vivida com o Mário de Carvalho, que talvez um dia seja contada).
Às horas mais estranhas saía de casa, de repente, carregando uma ou duas malas, e arrancava no Alfa Romeo a grande velocidade. Violava sentidos proibidos e invertia a marcha em locais totalmente contraindicados para o efeito.
Rumava à serra de Montachique, aproveitando a longa subida para me certificar de que não era seguido. Procurava um local ermo e largava as malas cheias de panfletos e jornais. Depois voltava para casa e, dias depois, repetia este jogo de gato e rato.
Com a passagem do tempo fomos ficando cada vez mais cansados de espreitar os nossos guardas pela janela, de esperar o desfecho anunciado mas que não se cumpria.
Só assim se explica a reacção que num certo dia não consegui evitar.
Enrosquei a teleobjectiva 200mm na minha Pentax Spotmatic e saí porta fora a fotografar os pides. A teleobjectiva permitia-me obter, à distância de umas dezenas de metros, fotografias bastante nítidas das caras dos agentes que nesse dia montavam guarda junto à minha casa.
Disparei, disparei e eles, com a surpresa, mostravam-se atarantados. Alguns enfiaram-se no carro e desandaram, às pressas. Até houve um que apanhou o eléctrico em andamento e zarpou.
Eu nessa altura tinha em casa um laboratório fotográfico que me permitiu fazer a revelação das fotografias.
No dia seguinte, em envelope carimbado para parecer correspondência comercial, expedi para um amigo que eu sabia poder fazer chegar aquele material ao partido.
Soube mais tarde que essa carta nunca chegou ao seu destino.
Um ano depois deste episódio, a 18 de Abril de 1974, fui preso tal como a  minha mulher.

Gostava de um dia, por milagre, recuperar as imagens daquela inusitada sessão fotográfica…

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domingo, Março 16, 2014

Primavera em Lisboa


quarta-feira, Março 12, 2014

O Cinema Imperial






O Cinema Imperial
para muitos este nome nada dirá, mas para mim está cheio de memórias.
Fui lá muitas vezes com a minha mãe, à matiné, e foi lá que comecei a namorar a minha mulher.
No fim dos anos 60 eu era um jovem universitário e, como andava em "económicas", fui convidado para tesoureiro do Cineclube Universitário.
Era no Imperial que então se faziam as projecções semanais do melhor cinema permitido pelo regime, nesses tempos de obscurantismo.
Hoje passei na rua Francisco Sanches e, depois de muitos anos, encontro o Imperial entaipado, uma espécie de contentor de memórias e belas imagens a que nenhuma porta dá acesso.

domingo, Março 09, 2014

quarta-feira, Março 05, 2014

IMPACTO da crise no rendimento (2011-2014)



IMPACTO da crise no rendimento (2011-2014)
O DN publica hoje este quadro que vou assumir como correcto.
- Pensionistas casados em que ambos têm reforma de 600 euros (1200 no total, portanto) passam de um rendimento líquido mensal de 1198 para 1142 euros. Perdem portanto 53 euros entre 2011 e 2014, ou seja menos de 4,7% do rendimento líquido.
- Funcionários públicos casados com rendimento total bruto mensal de 1800 (2X900 euros). Recebiam líquido 1660 em 2011 vão receber 1561 em 2014. Perdem neste período 99.57 euros mensais, ou seja, 6% do seu rendimento líquido.
Se os números estão correctos, são sem dúvida desagradáveis mas não são muito impressionantes. 
Fartos como estamos de ouvir falar do "desaparecimento da classe média.

domingo, Março 02, 2014

O impacto da austeridade



O impacto da austeridade
O Centro Comercial do meu bairro é talvez um bom exemplo. 
A maior parte das lojas que acabaram eram "lojas de modas", de roupa para mulheres, que deixaram de ter clientes. 
Reconheço que alguns proprietários e algumas espregadas viviam do rendimento dessas lojas.
Mas a questão que se coloca é a seguinte: deve o país continuar a endividar-se para que milhares de lojas deste tipo, que não acrescentam valor significativo à economia, possam continuar a ser viáveis ?

quarta-feira, Fevereiro 26, 2014

Pode acontecer

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Pensar a transformação

Pensar a transformação social profunda implica perceber de que se está a falar quando se usa o termo "capitalismo". Sem reconhecer o carácter histórico do termo, e do sistema, e sem compreender qual é o cerne e o motor da sua persistência, a única coisa que se pode fazer são tiradas bem-pensantes.
Mas nunca se fará nada que valha a pena sem perceber também que a "luta de classes" não esgota a realidade pois há factores geográficos, culturais, e históricos, para além de outros, que não estão sujeitos à sua lógica.

sexta-feira, Fevereiro 21, 2014

A saída "à ucraniana"



A saída "à ucraniana"
Não sei se Portugal vai ter uma saída "à irlandesa" mas espero que não tenha uma saída "à ucraniana", como parecem preferir alguns mais exaltados e outros que já tinham idade para ter juízo.
Para estar disposto a morrer, como acontece em Kiev, é preciso ter atingido um grau de degradação social tão brutal que faz a nossa austeridade parecer insignificante.
É que os ucranianos estão dispostos a morrer para se submeter à insensibilidade europeia que tanto indigna os nossos comentadores, e para poder alcançar a emigração que entre nós é vista como uma catástrofe.


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Memórias do S. Gabriel

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Quando acabou a comissão na Guiné o meu destacamento de Fuzileiros regressou "à metrópole" neste navio S. Gabriel.
Mas não veio directamente. Primeiro fomos a Luanda encher o casco de petróleo. Chegámos a Lisboa em Março de 1970.
Nas imagens pode ver-se:
1 - um postal ilustrado
2 - fundeados em Luanda
3 - a navegar. pode ver-se no centro a caixa de lona que servia de piscina
4 - à saída de Luanda apanhámos mar pela proa

segunda-feira, Fevereiro 17, 2014

sexta-feira, Fevereiro 14, 2014

Um gráfico importante

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Há quem veja a cor de rosa e há quem veja tudo negro.
Mas só os fanáticos se recusam a perceber o significado deste gráfico.

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quinta-feira, Fevereiro 13, 2014

Insuportável

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O secretário-geral do PS considerou hoje "insuportável" para as contas públicas a taxa obtida pelo Estado Português na emissão de dívida a dez anos, adiantando que irá acrescentar problemas ao país.
O TóZero, que tal como Portas não se tem poupado a esforços para desacreditar o país no plano externo, onde o custo dos empréstimos se decide, vem agora chorar lágrimas de crocodilo sobre as taxas pagas pelo financiamento do Estado.
Se Portugal chegar algum dia a levantar de novo a cabeça, isso acontecerá apesar do boicote permanente e multifacetado dos dirigentes socialistas.

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segunda-feira, Fevereiro 10, 2014

Miró




quinta-feira, Fevereiro 06, 2014

FlashBack



FlashBack

A colecção de câmaras fotográficas antigas é uma espécie de lar da terceira idade, uma Babel de olhares desmemoriados.
As máquinas foram chegando dos quatro cantos do mundo, com seus achaques, deixando para trás, sabe-se lá onde, as suas memórias de celulóide.
Umas têm as lentes toldadas pelas cataratas do vidro, outras disparam devagar na dolorosa artrite dos seus obturadores e outras ainda sofrem da incontinência luminosa causada pelos orifícios nos foles.

Mas todos aqueles olhos que tanto viram ao longo do século XX, nos mais desvairados locais e situações, parecem agora pasmados pelo vazio dos seus interiores negros de onde os homens, invejosos e cansados das imagens fátuas do cérebro, arrancaram as películas em que o tempo se suspendera.
Este Alzheimer fotográfico do já visto só pode ser revertido fotografando outra vez.

É ao fotógrafo que cabe levar as máquinas a olhar e registar de novo, num reviver de mecanismos e gestos. Reter as suas memórias num enrolar de filme e depois pô-las frente a frente com as suas próprias obras.
Ao fazer isso, o fotógrafo reinventa a sua própria biografia. Repetindo os modos que há muito esquecera ou descobrindo os gestos que nunca tinha feito.

O visor à altura do olho ou da cintura, o avanço da película com alavanca ou com rotação da lente, a focagem por estimativa ou por sobreposição, a medição da luz pelo selénio ou pelo cádmio, o empunhar da câmara com dois dedos ou com as duas mãos, o disparo espontâneo ou encenado, um olho que pisca ou então um olho que arregala, são determinantes do que se pode fotografar e de como se fotografa.

Os desenvolvimentos tecnológicos e ergonómicos que percorreram o século XX não constituem apenas uma parada de tentativas e de abandonos, de sucessos e de fracassos; cada nova realização da técnica e do design transformou o gesto de fotografar de forma irremediável.

Ao reconstituir essa caminhada desvendamos as raízes da fotografia actual.