sábado, janeiro 31, 2015

O berço da civilização de volta à barbarie


A Grécia recebeu um primeiro empréstimo da troika de 110 mil milhões, depois teve um perdão de cerca de metade da sua dívida, seguiu-se um segundo empréstimo de 130 mil milhões. 
Todos esses empréstimos já foram revistos em condições muito mais vantajosas do que os concedidos a Portugal a quem só foram emprestados 78.000 milhões.
Apesar de tudo isto na Grécia um desempregado perde o direito de recorrer ao serviço nacional de saúde três meses depois de ter caído no desemprego.
Uma tal selvajaria só pode ter lugar num país de irresponsáveis governado por uma cleptocracia.

quinta-feira, janeiro 29, 2015

SNIPER AMERICANO




prepare-se para uma experiência emocionalmente dolorosa. E também para se sentir culpado por viver o seu dia a dia como se estas coisas não estivessem a acontecer.
Mergulhamos na retórica do Charlie Hebdo mas, ao mesmo tempo, omitimos os dramas e as amputações dos que metem a mão na massa. Quer pensemos que nos estão a defender ou que são apenas o braço do imperialismo. Mas lá longe.
Desde que o filme acabou não parei de pensar sobre qual das coisas é mais penosa; lutar contra um inimigo que se compreende e respeita, como fizemos na Guiné, ou contra um inimigo que repugna e se odeia.
Não consigo decidir.

quarta-feira, janeiro 28, 2015

Na terra do Sócrates


Na terra do Sócrates
é verdade que a Grécia foi o berço do filósofo mas, em termos de défice público, foi como se tivesse tido dois ou três em simultâneo.
Eu explico. Estes números da OCDE, que referem os anos do consulado do "engenheiro", mostram que se nós vivemos acima das nossas possibilidades então os gregos andaram na estratosfera, com défices duas ou três vezes superiores aos nossos.
Houve certamente muita gente na Grécia a acumular fortunas. Os montantes que entraram naquele país são de tal magnitude que um roubo em larga escala teve sem duvida que acontecer.
O mais caricato é que esses que roubaram, e que deviam agora ser responsabilizados e expropriados, conseguiram transformar um caso de luta de classes numa questão de nacionalismo.
Enquanto o povo grego culpar a Merkel poderão gozar paulatinamente das suas enormes fortunas.

terça-feira, janeiro 27, 2015

FlashBack





Acabei de publicar o livro "FLASHBACK - 300 câmaras em 3 anos" (versão em inglês)

quinta-feira, janeiro 22, 2015

Retrato pungente da Grécia.




Retrato pungente da Grécia.

País que alguns oportunistas insistem em arvorar como modelo (DN 22.01.2015).

quarta-feira, janeiro 21, 2015

Finalmente cidadãos do mundo



Finalmente cidadãos do mundo
raramente tomamos consciência, e valorizamos, a possibilidade recente de, durante uma vida humana, poder viajar aos quatro cantos do planeta.
Ir a Dublin e Abul Simbel, Cabo Horn e deserto do Sahara, muralha da China e Grand Canyon, Machu Pichu e fiordes da Noruega, dunas de Genipabu e Hymalaia, Varanasi e Mindelo, lago Baikal na Sibéria rio Cacheu na Guiné, etc, etc, numa única vida.
Há poucas décadas nem os mais ricos poderiam fazê-lo.

terça-feira, janeiro 20, 2015

O Reino das Narrativas



O estrondoso desmoronamento do BES e da PT em 2014 constitui uma demonstração incontestável da economia ficcional em que vivíamos.


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sábado, janeiro 17, 2015

Je suis Birdman


Je suis Birdman

Não gostei do famoso "Babel" do mesmo Alejandro González Iñárritu, por excesso de folclore e coincidências. Mas este Birdman tocou-me, com a angústia e a esquizofrenia de quem, como artista, quer ser reconhecido em vez de famoso. E também a contradição insanável entre os que vivem num mundo de teorias e aqueles que dão o litro mesmo quando só têm sete decilítros e meio. 
É realmente a sina dos actores, mas não só. Está no cerne das nossas vidas.

segunda-feira, janeiro 12, 2015

FANATISMOS

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Os fanatismos mais notórios são baseados em interpretações de um Livro considerado sagrado. O que está em causa é sempre obrigar os infiéis a um certo grau de pureza.
Mas os fanatismos mais complicados são aqueles que se baseiam em livros inexistentes ou, pelo menos, indeterminados ou ininteligíveis.
Quando o Livro existe sabemos ao menos o que nos exigem e o que rejeitamos.

terça-feira, janeiro 06, 2015

segunda-feira, janeiro 05, 2015

A matéria é um cérebro imenso



A matéria é um cérebro imenso                 
que o tempo vai sulcando                          

o universo é a memória do tempo              
os planetas são memórias do universo      

as montanhas são memórias dos planetas
as pedras são memórias das montanhas   

os vales são a memória dos rios              
              
as pedras resvalam para os rios                
e são arrastadas para o mar                      
onde rebolam por milhões de anos            
até serem areia                                          

a areia é a memória do mar                       

domingo, janeiro 04, 2015

Cínicos



Cínicos
fazem bicha em Évora para visitar o "engenheiro" na sua cela mas, quando ele estava com dificuldades económicas, depois de ter servido o PS durante anos, não o ajudaram.
Foi por isso que ele teve que recorrer ao seu amigo Santos Silva que se mostrou incansável e presente em todas as circunstâncias.
As dificuldade de Sócrates eram enormes; Basta dizer que além do empréstimo da CGD (120.000 euros) e da oferta da mãe de 75% do valor da venda do apartamento no Edifício Heron (450.000 euros) ainda teve que recorrer repetidamente ao seu amigo Santos Silva.
Ser Ex-PM deve dar muita despesa...

quinta-feira, janeiro 01, 2015

Dados esperançosos para 2015





2015 com um pouco de optimismo como convém
baseado em números e realidades económicas
(um terreno movediço em que as coisas mudam de forma inesperada)

quarta-feira, dezembro 31, 2014

2014-2015





É preciso é deslizar com elegância de um ano para o outro.

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"Aquilo que acredita ser a sua verdade"

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Á saída do Estabelecimento Prisional de Évora, António Costa referiu aos jornalistas que encontrou José Sócrates como já todos o conhecemos: com o espírito lutador de "quem vai lutar por aquilo que acredita ser a sua verdade".

"Aquilo que acredita ser a sua verdade" (disse António Costa), é difícil inventar uma frase mais assassina a fingir-se solidária.
O cinismo campeia no mundo da política e o PS assobia para o lado como se não tivesse inventado Sócrates e não o tivesse "vendido" aos eleitores e não se tivesse servido dele durante vários anos.
Como é possível que o PS agora fique passivamente à espera das conclusões da justiça, sem ter opinião e sem mexer uma palha para perceber se durante um governo seu, um primeiro ministro seu praticou a corrupção.
E os outros partidos também se fazem desentendidos.
O juiz Alexandre atacou os "vistos gold" e logo a AR se movimentou e toda a gente assumiu a culpa dos visados. O juiz Alexandre atacou o Salgado e logo a AR criou uma Comissão Parlamentar para esgravatar no bas-fond capitalista assumindo-se como uma espécie de "Casa dos Segredos".
Mas quando o juiz Alexandre atacou Sócrates, por indícios de ilícitos praticados em funções públicas que a AR deveria ter fiscalizado, toda a gente falou de outra coisa.
Não deveria o Parlamento estar a investigar que decisões do governo anterior podem ter tido motivações corruptas e que prejuizos foram causados ao país por tais eventuais desmandos?

Fraga da Pena





terça-feira, dezembro 23, 2014

BOM NATAL 2014




segunda-feira, dezembro 22, 2014

sexta-feira, dezembro 19, 2014

A Solução

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segunda-feira, dezembro 15, 2014

Eu prendia era este

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Eu prendia era este
enquanto que o "senhor engenheiro" é bem apessoado e janota o seu advogado tem ar de labrego.
Eu sei que há quem tenha tido azar com o aspecto físico que lhe coube em sorte mas a verdade é que este advogado tem, a julgar pela postura, um assinalável ar mafioso.
O "senhor engenheiro", pelo contrário, para usar um dito popular, "ninguém o leva preso".


(Isto é uma dissertação acerca da influência do aspecto físico, da forma de falar e da atitude em geral no modo como avaliamos as pessoas que não conhecemos. No caso de alguém que é acusado de corrupção parece-me um erro de casting contratar um advogado com esta pinta. Mas o "engenheiro" é que sabe.)

sexta-feira, dezembro 12, 2014

Contributos para a teoria do mexilhão

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Contributos para a teoria do mexilhão
o gráfico representa a evolução das pensões líquidas anuais recebidas por uma família, ou seja das pensões brutas deduzidas da retenção na fonte.
São pensões pagas pela Segurança Social e não pela CGA.
O ano de 2007 é a base 100; nesse ano o valor anual líquido das pensões situou-se à volta dos 65.000 euros.
Constata-se que até 2009 (ano da reeleição de José Sócrates) o valor recebido cresceu. A partir de 2010 começou a baixar tendo estabilizado apenas em 2014 relativamente a 2013.
O valor em 2014 constitui cerca de 81% do valor auferido em 2007, ou seja, registou-se uma quebra de 19% do valor das pensões anterior à crise.

Pedagogia despesista




A pedagogia despesista do "Banco Público"
não fica atrás dos outros

quarta-feira, dezembro 10, 2014

Momentos assim

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Momentos assim
marcam de forma incontornável as grandes viragens.
Há muitos que ainda não perceberam o que isto significa.
Uma jovem e inexperiente deputada esquerdista interroga um calejado, e um pouco caduco, tubarão financeiro.
Não interessa muito se as perguntas foram ingénuas ou se as respostas foram sibilinas; o momento vale independentemente das suas consequências no plano da comissão do BES.
É intrigante que tenha sido preciso termos um governo "neo-liberal" para este milagre acontecer.
Mas o mais surpreendente neste episódio é que Mariana Mortágua inquiriu Ricardo Salgado num tom quase paternalista.
Não há maior violência do que esta.

segunda-feira, dezembro 08, 2014

Para o bem e para o mal


Quer ele goste quer não, para o bem e para o mal, este regime, nas suas qualidades e principalmente nos seus defeitos, foi modelado à sua imagem.

sábado, dezembro 06, 2014

A frase do ano




Também podia ter sido dita por Ricardo Salgado ou José Sócrates

segunda-feira, dezembro 01, 2014

O leitor tem opinião sobre o caso José Sócrates? Não tenha







O leitor tem opinião sobre o caso José Sócrates? Não tenha

José Diogo Quintela, no Público


O leitor tem opinião sobre o caso José Sócrates? Não tenha. Isso configura um delito de julgamento na praça pública. A não ser que ache que José Sócrates está a ser vítima de justicialismo. Nesse caso, tem licença de porte de opinião. Para não haver dúvidas, aqui vai uma cartilha com o que é admissível pensar:
a) Avaliar a hipótese de José Sócrates ser culpado? Não se pode.
b) Levantar dúvidas sobre a idoneidade do juiz Carlos Alexandre? Pode-se.
c) Questionar as reais motivações do procurador Rosário Teixeira? Pode-se.d) Sugerir que Joana Marques Vidal orquestrou este charivari? Pode-se.
e) Desconfiar de um propósito tenebroso do sistema judicial? Pode-se.
f) Suspeitar de manipulação obscura pela comunicação social? Pode-se.
g) Insinuar que o Passos Coelho lucra com isto? Pode-se.
h) Alvitrar que Portas é que devia ir preso por causa dos submarinos? Pode-se.
i) Considerar que Cavaco Silva tem negócios ilícitos com os seus amigos do BPN? Pode-se.
j) Conjecturar que isto é tudo uma cabala montada pelo PSD para distrair dos vistos gold? Pode-se.
Em termos de limitação à liberdade de opinião, só é proibido achar que José Sócrates pode ser culpado. Quem violar esta disposição tem de se haver com a brigada de trânsito em julgado. De resto, é tudo debatível.
Mas mesmo a defender José Sócrates há que ter cautela. Por exemplo, João Soares disse que “excepto por crime de sangue, em flagrante delito, não aceito a prisão (…) de um ex-primeiro-ministro como José Sócrates”. Precipitou-se. Mesmo segurando arma pingona de sangue cravada em cadáver, nunca se aceitaria a detenção de Sócrates. A presunção de inocência manter-se-ia. Possivelmente seria legítima defesa. Ou um acidente. Ou, o mais provável, uma armadilha da suposta vítima que se lançara contra Sócrates enquanto este cortava o pão, para se empalar 17 vezes na faca e incriminar quem só desejava fazer uma sandes mista.
Entretanto, debrucemo-nos à enorme parcialidade demonstrada pela Justiça. De todos os ex-primeiros-ministros vivos, por acaso detiveram Pinto Balsemão no aeroporto por suspeitas de corrupção no caso Cova da Beira? E à chegada de que voo é que incomodaram Mário Soares a propósito da falsificação de documentos da Licenciatura em Engenharia? Ou Cavaco Silva, por alegada troca de favores no caso do TagusPark? E Guterres por beneficiar de um RERT por ele aprovado? Já para não falar de Durão Barroso, pelo Face Oculta, e Santana Lopes, pelo Freeport. Porque é que tinham de embirrar logo com este?
Num ranking de sanha persecutória, José Sócrates entra directo para o top 5 dos mais injustiçados da História. Neste momento, a tabela organiza-se assim: 5) Bruxas de Salém; 4) Capitão Dreyfus; 3) Galileu; 2) José Sócrates [nova entrada]; 1) Jesus Cristo. Apesar de uma detenção no Jardim de Getsémani ser menos maçadora do que na manga de desembarque de um voo TAP, e mesmo tendo em conta que, na verdade, Jesus estava mesmo a pedi-las, o Nazareno continua à frente porque a sua condenação injusta originou a maior religião do mundo. Mas José Sócrates ainda tem tempo.

sexta-feira, novembro 28, 2014

Opiniões e sentenças



Opiniões e sentenças
A detenção de Sócrates desencadeou inúmeras tomadas de posição que defendem não ser legítimo opinar sobre a sua culpabilidade enquanto não houver sentença transitada em julgado.
Sabe-se lá porquê fingem não perceber a diferença entre opinião e sentença. Eu explico: 
1 - as sentenças são dadas pelos tribunais enquanto que as opiniões qualquer um as tem, diria mesmo mais, todos inevitávelmente as têm (mesmo os que não querem revelá-las)
2 - As setenças, quando condenam, podem acarretar multas ou prisão; em contrapartida as opiniões negativas, no caso dos políticos, só podem subtrair votos.
Mas não há só diferenças entre opinião e sentença, também há semelhanças; por exemplo, ambas podem estar certas e ambas podem estar erradas.
O que não podemos é impedir que tribunais julguem e os cidadãos opinem.


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terça-feira, novembro 25, 2014

O incomparável José Sócrates



O incomparável José Sócrates
João Miguel Tavares no Público

Durante muitos anos, eu fiz parte do grupo dos “obcecados”. De cada vez que falava em José Sócrates num texto – e falei muitas vezes –, as pessoas suspiravam, os leitores criticavam, os amigos gozavam, os colegas bocejavam.

Diziam: lá vem ele outra vez, mas porquê esta obsessão?, Sócrates já nem sequer está no governo, este tipo nunca lhe perdoou tê-lo processado, a fulanização em política é uma forma de populismo.
E durante muitos anos, eu tentei explicar pacientemente, persistentemente, teimosamente, que José Sócrates era diferente, que era único, que não se podia comparar a ninguém, que ele era a pior coisa que nos tinha acontecido desde o PREC. Porque se é certo que o ex-primeiro-ministro teve muitos opositores, boa parte deles, de Daniel Oliveira a Pacheco Pereira, sempre se recusaram a ver em Sócrates o que não se via em nenhum outro – por muitas falhas que lhe fossem apontadas, ele era tratado como mais um, os problemas eram menos dele do que do “sistema”, os seus erros e as suas mentiras, diziam os grandes intelectuais anti-fulanização, eram partilhados por muitos mais.
Com o correr do tempo, os “obcecados” foram diminuindo. Após o fim da era socrática, as televisões afastaram-se, os jornais respeitáveis viraram costas, e os colunistas sérios puseram ar de enjoado. Restou o Correio da Manhã, o Sol, em parte a Sábado, recorrentemente acusados de obsessão persecutória, quando qualquer pessoa que soubesse fazer contas de somar sabia não haver qualquer justificação possível para a vida que José Sócrates levava em Paris. Mas parece que neste respeitoso Portugal insistir em fazer perguntas óbvias passa por má educação. Perguntava-se uma vez e Sócrates não respondia. Perguntava-se duas vezes e Sócrates não respondia. E quando se perguntava a terceira vez já se estava a criticar o jornal por insistir na pergunta em vez de se criticar Sócrates por recusar a resposta.

Nem agora, após José Sócrates ter sido detido para interrogatório, essa sede de generalização parece saciada. Ele é preso e avançam de imediato as profecias apocalípticas: é o fim do regime que se aproxima; é a política, como um todo, que é atingida. Não, senhores, não. O regime tem imensas falhas e a política infindáveis problemas, mas Passos Coelho tem toda a razão quando afirma que nem toda a gente é igual. E José Sócrates, graças a Deus, não é igual a ninguém. Ele é o special one da indistinção entre verdade e mentira, pela simples razão de que nunca viu diferença entre uma e outra. A sua detenção não é o fim do regime. Pelo contrário: foi durante o seu consulado que o regime esteve quase morto. O que está agora a acontecer é o oposto disso: é o regime a funcionar outra vez.

E a funcionar apesar de todas aqueles que, confundindo mais uma vez as prioridades, estão muito preocupados com a detenção de Sócrates ao sair de um avião ou por a SIC ter filmado um carro a ir-se embora do aeroporto. Ai, meu Deus, que os jornalistas foram informados! Eu, de facto, preferia que os jornalistas não tivessem sido informados. Mas preferia muito mais que José Sócrates não tivesse sido – e a verdade é que ele foi escandalosamente informado e protegido pela justiça durante anos a fio. Num país onde quase não há busca sensível que seja feita sem que os visados estejam prevenidos, eu diria que há fugas de informação bem mais perniciosas do que aquelas que beneficiam a comunicação social. Andaram dez anos a fazer-nos passar por parvos. Se calhar já chega.

segunda-feira, novembro 24, 2014

CURRICULO IMPRESSIONANTE

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(compilado pelo jornal Expresso 23.11.4014)
As sombras de Sócrates
O nome do ex-primeiro-ministro esteve envolto durante muitos anos em processos de corrupção, mas nunca foi oficialmente suspeito de nada. Até agora.
A primeira vez que José Sócrates foi denunciado por corrupção foi em 1997, há 17 anos. Longe ainda de se tornar líder do Partido Socialista e ganhar as eleições legislativas, o político estreara-se num governo socialista em 1995, assumindo o cargo de secretário de Estado do Ambiente no executivo de António Guterres. Só muito mais tarde surgiram os casos mais conhecidos e polémicos: o Freeport em 2005, que coincidiu com sua ascensão a primeiro-ministro, e, em 2007, o processo da conclusão da sua licenciatura em engenharia civil na Universidade Independente. Em nenhum deles, no entanto, foi constituído arguido.
Cova da Beira. É a história mais antiga a envolver o nome de José Sócrates num alegado esquema de corrupção e está relacionada com a Covilhã, a terra onde cresceu e começou a sua vida profissional. As quatro cartas enviadas à Procuradoria-Geral da República e à Polícia Judiciária entre 1997 e 1998 eram bastante detalhadas. Diziam que Sócrates teria recebido 150 mil contos (750 mil euros) em "luvas" por causa do concurso público para a construção do aterro sanitário promovido pela associação de municípios da Cova da Beira (de que faz parte a Covilhã). Teria sido ele, segundo as denúncias, a nomear a equipa técnica que escolheu o vencedor.
A investigação demorou dois anos a arrancar e, uma década depois, em 2007, acabaram por ser acusadas três pessoas: Horácio Luís de Carvalho, dono da empresa, a HLC, que ganhou o concurso público, pelo crime de corrupção ativa; António José Morais, engenheiro e professor universitário, dono da empresa AS&M, responsável pela análise das propostas a concurso, pelo crime de corrupção passiva; Ana Simões, sócia de Morais e sua mulher à data dos factos, pelo mesmo crime. Os três foram absolvidos em Janeiro de 2013, apesar de o Ministério Público ter recolhido provas de transferências de 58 mil euros de uma conta offshore de Horácio Luís de Carvalho para uma offshore do casal, ambas na ilha de Jersey. A Polícia Judiciária ainda tentou fazer buscas, no início da investigação, à casa de Sócrates, mas o procurador titular do caso achou que eram descabidas.
O ex-primeiro foi, de qualquer forma, ouvido por escrito como testemunha durante a fase de julgamento, negando qualquer envolvimento no concurso. Embora não tivesse sido acusado, Carlos Santos Silva, amigo de longa data de Sócrates e detido esta semana por crimes em que estão os dois implicados, esteve também ligado ao caso Cova da Beira. O seu nome surgia nas denúncias como uma pessoa muito próxima do então secretário de Estado do Ambiente, sendo que era sócio de Horácio Luís de Carvalho numa empresa chamada Conegil, que por sua vez fazia parte do consórcio da HLC que ganhou a adjudicação do aterro.
Licenciatura. Um blogue esteve na origem da divulgação do caso, em março de 2007. Aparentemente, José Sócrates teria obtido o grau de engenheiro civil concluindo a licenciatura na Universidade Independente de forma irregular, em 1996. Quatro das cinco cadeiras feitas naquela instituição tinham sido ministradas por António José Morais, o engenheiro acusado de corrupção no caso Cova da Beira. E os monitores das cadeiras estavam todos eles igualmente envolvidos no concurso público da Cova da Beira, trabalhando como consultores para a empresa de Morais e ajudando-o a escolher tecnicamente qual a melhor proposta.
Nesse mesmo ano, Morais foi nomeado diretor do Gabinete de Estudos e Planeamento de Instalações do Ministério da Administração Interna por Armando Vara, amigo e colega de governo de José Sócrates. E viria a atribuir uma série de trabalhos de fiscalização de obras ao arquitecto Fernando Pinto de Sousa, pai de Sócrates.
Quanto à quinta cadeira, de Inglês Técnico, foi dada pelo próprio reitor da universidade, Luís Arouca, com o exame a ser realizado a um domingo, à mesa de um restaurante. O Ministério Público abriu um inquérito-crime mas arquivou-o logo a seguir, passado dias, alegando que não se provava o eventual crime em causa: falsificação de documento (neste caso, do certificado de habilitações).
Ainda assim, um conjunto de 16 escutas que constavam de um processo-crime relacionado com a gestão da Universidade Independente acabaram por ser divulgadas mais tarde pelo Correio da Manhã. Eram conversas entre Arouca e José Sócrates, gravadas em março de 2007, em que o então primeiro-ministro pedia ao reitor para que não revelasse a um jornalista do Público os nomes dos seus professores.
Freeport. Foi o mais mediático dos processos que envolveram Sócrates. Tornou-se do conhecimento público mal o inquérito-crime foi aberto, em plena campanha eleitoral, quando José Sócrates concorreu pela primeira vez a primeiro-ministro, em 2005, contra Santana Lopes. O enredo envolvia a aprovação ambiental do projecto de outlet Freeport, em Alcochete, numa zona de proteção especial, em 2002, no final do segundo governo de Guterres, quando Sócrates ainda era ministro do Ambiente.
Numa primeira fase, até 2007, o que saiu na imprensa foi contraditório. Sócrates aparecia como suspeito, mas soube-se que a denúncia envolveu um assessor de Santana Lopes, Miguel Almeida, o que retirou credibilidade à tese de que o então ministro teria recebido 500 mil contos em ´luvas'. O caso seria relançado nos media em 2009, quando a TVI divulgou um vídeo clandestino que constava de um processo paralelo em Londres e em que uma das figuras-chave na aprovação ambiental do outlet, o consultor inglês Charles Smith, admitia terem sido pagas luvas ao político, explicando que isso teria sido feito através de um primo.
Apesar de não poder ser admitido como prova em Portugal, o vídeo catapultou a investigação ao caso. A Procuradoria-Geral da República resolveu transferir o processo do Ministério Público do Montijo para o Departamento Central de Investigação e Ação Penal (DCIAP) e destacou dois procuradores para trabalharem a tempo inteiro com a Polícia Judiciária de Setúbal.
Mas no fim o que veio a dominar o processo foi a forma intempestiva como terminou o inquérito, no verão de 2010, com um despacho que incluía 27 perguntas que ficaram por fazer a Sócrates, por falta de tempo. O então ainda primeiro-ministro, já no seu segundo mandato, constara sempre como suspeito não oficial, mas nunca foi constituído arguido ou ouvido sequer como testemunha. Dois consultores, Charles Smith (o homem do vídeo) e Manuel Pedro, foram acusados do crime de extorsão. A tese oficial passou a considerar que, afinal, não tinha havido corrupção. A história teria sido inventada pelos intermediários para poderem receber mais dinheiro do grupo Freeport. Os dois foram a julgamento e o tribunal absolveu-os em 2012, dez anos depois dos acontecimentos.

Face Oculta. Foi o seu último escândalo e rebentou depois de ter sido reeleito em 2009. Alegadamente, José Sócrates terá tentado controlar a TVI, uma estação de televisão que lhe era bastante crítica, e esse controlo passava por a Portugal Telecom comprar a posição dominante no capital social detida pelo grupo espanhol Prisa (dono do jornal El País). Isso não chegou a concretizar-se, mas aconteceram alguns movimentos de bastidores e o Ministério Público chegou a propor um inquérito-crime para apurar se tinha ocorrido um crime de atentado contra o direito de Estado.
O caso surgiu de forma fortuita. A investigação a uma rede de corrupção e tráfico de influência com epicentro em Aveiro, tendo como protagonista um industrial de sucata, Manuel Godinho, envolveu escutas a Armando Vara (amigo de Sócrates e então vice-presidente do Millennium BCP) e a Paulo Penedos, consultor jurídico da Portugal Telecom. Essas escutas, que incluíam conversas entre Vara e Sócrates, levaram o coordenador da PJ Teófilo Santiago e os procuradores João Marques Vidal e Carlos Filipe, em Aveiro, a extrair uma certidão em Junho de 2009 para abrir um processo-crime autónomo. O que se seguiu foi uma sucessão controversa de decisões. O procurador-geral da República, na altura Fernando Pinto Monteiro, enviou as escutas entre Vara e Sócrates para o presidente do Supremo Tribunal de Justiça, mas Noronha do Nascimento não as validou, mandando-as destruir. O PGR optou por não abrir um inquérito-crime e, para evitar a consulta dos factos por terceiros, fez um arquivamento administrativo, uma figura até então desconhecida e cuja legalidade foi posta em causa por muitos juristas.
No fim, e depois de fazer correr muita tinta nos jornais, o assunto já tinha deixado de ser sobre se Sócrates tinha ou não cometido um crime, mas sobre a forma como a Justiça se comporta perante alguém como um primeiro-ministro.