quarta-feira, maio 23, 2018

E viva o fim da austeridade




E viva o fim da austeridade 

sexta-feira, maio 18, 2018

Surpresas


segunda-feira, maio 14, 2018

Oficial de serviço




Oficial de serviço

O tenente estava de oficial de serviço naquele dia.
Deixou o quarto que partilhava com dois colegas, ao fundo da parada, e caminhou pela noite enluarada na direcção do gabinete. Estava taciturno, colonizado pelas recordações da fugaz lua-de-mel, que antecedera o embarque para a Guiné.
O asfalto da parada fervilhava de minusculos sapos. Ele desviava os passos para evitar a horrível sensação de esmagar algum debaixo da sola. Uma gincana.
Então resolveu apanhar do chão alguns daqueles batráquios suicidas que pulavam em seu redor. Nos duzentos metros da parada, sem esforço de maior, recolheu uns sete ou oito.
Comichavam nas palmas das mãos e nos bolsos onde alguns tinham ido parar. Foi precisa uma certa habilidade para receber as indicações do oficial de serviço cessante, com a bicharada aos pulos. Mas o outro queria era safar-se dali o mais depressa possível.
Tomou posse do espaço. O gabinete tinha uma secretária metálica, de cinzento indefinível, e uma pequena estante de vidros de correr. Uma porta, por trás, dava para um cubículo com uma cama precária onde, altas horas, se não houvesse bronca, se podia dormitar.
Os sapos destinavam-se a amenizar as largas horas de pasmaceira que o tenente antecipava. Sob a luz mortiça do tecto, algum resto de jornal retardado costumava ser a companhia. Coisa deprimente.
Foi tirando os sapos dos bolsos e alinhou-os numa das extremidades do tampo da secretária. Não era nada fácil dar o sinal de partida para a corrida pois alguns sapos antecipavam-se e desatavam aos pinotes antes de tempo. Outros então, só com piparotes no traseiro iniciavam a participação.
Mas havia uma dificuldade adicional. Perante a inexistência de pistas individuais os sapos cruzavam-se desordenadamente e, em vez de caminhar para o outro extremo do tampo, precipitavam-se pela borda fora estatelando-se no chão.
Após várias tentativas, que ajudaram a passar a primeira das doze horas do encargo, o tenente fartou-se de aturar os sapos. Pegou na trupe, conforme pôde, e despejou-a no ajardinado adjacente ao gabinete. E ficou cara a cara com o tempo, e a chatice, que ainda faltava.
Voltou para a secretária e lamentou não ter trazido o livro que andava a ler. Embrenhou-se nos pensamentos. A sua mulher, cuja vinda tanto ansiava, mandara dizer que estavam completos os últimos exames da licenciatura. Tinha tido 18 valores a “História de não sei quê”, pois sempre fora boa aluna. Acabaria no liceu de Bissau a ensinar aos miúdos guineenses as glórias do Afonso Henriques.
Estava ele nesta modorra quando assomou à porta do gabinte o cabo Joel, atarracado e de boné sempre tombado nos incertos cabelos. O tenente não se pode dizer que simpatizasse muito com ele.
Com a sua voz rangida disparou: “Prenda-me senhor tenente”. O tenente, siderado, não sabia muito bem o que responder. Engoliu em seco duas vezes e depois disse baixinho “Põe-te a andar antes que eu me chateie”.
E o Joel insistiu: “Prenda-me, prenda-me senhor tenente”. O tenente levantou-se devagarinho, apontou para a porta do gabinete e gritou “Se não te pões a andar imediatamente chamo a guarda e levas um enxugo de porrada” e acrescentou alguns impropérios cuja reprodução a delicadeza não recomenda.
O outro lá se dirigiu para a porta, contra-feito, a resmungar, e desapareceu no escuro. O tenente voltou a sentar-se ainda confundido com a cena inédita que tinha presenciado. Um tipo aqui, lixado da cabeça, e leva com um anormal daqueles. Só espero nunca chegar ao estado em que ele está.
Não lhe saía da cabeça e e fez play-back da cena várias vezes. A certa altura apercebeu-se de um pormenor que não tinha relevado antes. O Joel, o tal chato, tinha entrado no gabinete com os bolsos atafulhados dabe-se lá de quê. Os bolsos dos calções brancos da farda entumesciam de uma forma inusitada. Só a irritação tinha impedido o tenente de lhe perguntar que raio era aquilo.
E o tempo voltou a rastejar como de costume naquele gabinete. E muita sorte tinha o tenente por se estar na estação seca. Ao menos não se tinha que aturar os mosquitos.
Com as coisas neste ponto morto, tocou o telefone. Mau, mau, querem ver?
O tenente pegou no auscultador como se tivesse peçonha e começou, mesmo antes de o levar à orelha, a ouvir uma gritaria do outro lado. “Senhor tenente! venha depressa! ao café Império! Está aqui um fuzo, na esplanada, a tirar granadas de mão dos bolsos e a pôr em cima da mesa”.
Raios parta, temos chatice. Mandou chamar o sargento da guarda e preparar a carrinha “creme nívea”. Pôs a pistola à citura, reuniu meia dúzia de homens estremunhados, e lá partiram avenida acima para o café Império.
Os clientes estavam espalhados pelo passeio, em pequenos grupos, e gesticulavam. O gerente saíu ao encontro da carrinha da guarda, de avental, e berrou: “Foi-se embora meu tenente! fugiu por ali!” e apontava para lá do Palácio do Governador, para a zona das vivendas finas onde se alojavam altas patentes e estados maiores.
O tenente deu ordens para arrancar, torneando a praça, e patrulharam demoradamente toda a zona das vivendas. A busca parecia destinada ao fracasso.
A certa altura, já numa avenida onde as vivendas terminavam e começavam as palhotas avistaram ao longe o Joel, ou o diabo por ele. O tenente gritou com o motorista mas, quando alcançaram, não conseguiram mais do que ver o Joel, todo nu, com a farda enrolada debaixo do braço, atravessar a avenida a correr e meter-se, tal e qual, pelo escuro da tabanca.
E quem é que se atrevia a entrar por ali dentro atrás dele?
O tenente deu ordem de retirada. No livro de ocorrências escreveu "um fuzileiro não identificado causou burburinho na esplanada do café Império e depois fugiu antes que a guarda chegasse".
Nunca se chegou a saber quando, e em que preparos, o Joel regressou à unidade.

quarta-feira, maio 09, 2018

15 de Setembro de 2004




Uma simples revista, publicada em Setembro de 2004, que se tivesse sido lida no Largo do Rato em tempo útil poderia ter evitado toda esta vergonha. Está na altura de rever a lista de assinaturas de publicações periódicas.

terça-feira, maio 08, 2018

quinta-feira, maio 03, 2018

Qual?


terça-feira, maio 01, 2018

Sementes de Cravo



Sementes de Cravo
Há precisamente cinquenta anos, a 1 de Maio, o tenente zarpou para a Guiné.
A fragata NRP Corte Real saiu a barra do Tejo ao cair de um dia que se mativera cinzento desde a manhã.
O tenente, recém-casado, passara um par de horas a ver a maré deslizar para montante, com Lisboa a estibordo. Só quem viveu os anos 60 em Portugal pode imaginar a desolação que se apoderara do seu espírito.
A navegação foi pacífica, com mar chão e sem borrascas. Os jovens oficiais dos fuzileiros, a caminho da guerra, viviam plácidamente aqueles dias em convívios demorados, pontuados pelas refeições.
Na sala dos oficiais liam, jogavam e também escreviam cartas às suas jovens esposas que tinham ficado em Lisboa.
O tenente, que militava em segredo contra a guerra, aproveitou para ler "Os condenados da terra", como parte da sua preparação psicológica para aquilo que julgava ir encontrar. Mandou dizer isso à mulher, numa carta que escreveu a quatro de Maio, no alto mar.
Naquelas condições a viagem parecia uma eternidade. De quando em vez avistavam navios ou grandes animais marinhos. Golfinhos, raias gigantes ou cachalotes. Quando já adivinhavam a costa africana, na latitude do Senegal, divertiam-se a observar os peixes voadores fazendo negaças à ondulação.
A 6 de Maio entraram no Geba e subiram para fundear frente a Bissau.
Já lá se encontrava um "transporte de tropas" do exército, com centenas de homens vestidos de verde, empoleirados como podiam, almejando perceber onde tinham vindo parar.
Muitos deles eram originários de vilas e aldeias do interior de Portugal, provavelmente na sua primeira viagem digna desse nome.
O tenente veio a saber mais tarde que os veteranos, que aguardavam a rendição em terra, designavam esses recém-chegados que os vinham substituir, carinhosamente, por "periquitos".
A fragata não se confundia com tais coisas; era um vaso de guerra, aparelhado e organizado nessa base, mesmo quando no seu bojo transportava tropas, como era o caso.
O tenente, tal como os outros camaradas que iriam fazer parte da 6ª Companhia, alongavam-se na amurada apontando binóculos ao casario acastanhado da poeira. A época das chuvas ainda não começara.
Foi preciso esperar, a bordo, até ao dia 8 de Maio para finalmente desembarcar e ocupar os alojamentos no quartel da Marinha junto ao Geba.
Novas rotinas para aprender e novos camaradas para descobrir.
Todos os oficiais acabados de chegar eram obsequiados, na messe do quartel, com um jantar de boas-vindas.
O tenente escreveu, a propósito, numa carta para a mulher de 12 de Maio:
"Ontem foi a minha festa de chegada.
Todos os oficiais (é da tradição) têm que, a um jantar, pagar espumante aos que já cá se encontram. E há sempre muitos discursos.
Todos foram unânimes em que a minha festa tinha sido a mais marcante desde há bastante tempo.
Quando o espumante começou a correr lembraram-se de cantar e descobriram que eu cantava bem. Foi o meu sucesso, cantei várias.
Desde o "Canta camarada canta" aos "Vampiros", passando pelo "Fui-te ver estavas lavando...
Mas não podes imaginar como as coisas aqui se precipitam
Em certo momento o champanhe e o brandy já eram excessivos e já toda a gente gritava em pé em cima das cadeiras"
A mulher do tenente quando recebeu a carta, umas semanas depois, tentou imaginar uma série de barbudos em cima das cadeiras cantando a plenos pulmões:
Canta camarada canta
canta que ninguém te afronta
que esta minha espada corta
dos copos até à ponta
Eu hei-de morrer de um tiro
Ou duma faca de ponta
Se hei-de morrer amanhã
morra hoje tanto conta
Tenho sina de morrer
na ponta de uma navalha
Toda a vida hei-de dizer
Morra o homem na batalha
Viva a malta e trema a terra
Aqui ninguém arredou
nem há-de tremer na Guerra
Sendo um homem como eu sou
Que raio lhes passaria pela cabeça enquanto cantavam?

terça-feira, abril 24, 2018

quarta-feira, abril 18, 2018

Um país doente



Um país doente
Acabe como acabar a novela do "engenheiro" Sócrates, ela veio mostrar que somos um país profundamente doente. Para além do proverbial fanatismo futebolístico padecemos, em alto grau, do fanatismo partidário.
Os factos conhecidos na operação Marquês, que nem os arguidos negam, e a forma como Sócrates responde às mais do que justificadas suspeitas, seriam suficientes num país saudável para um coro de protestos e de consequências no sistema político e partidário.
Infelizmente vivemos num país em que, por mero fanatismo, há clubes, seitas e partidos a quem tudo é permitido.

quarta-feira, abril 11, 2018

1968-2018



11 de Abril 1968

sexta-feira, abril 06, 2018

domingo, abril 01, 2018

Exposição em Bissau





Reportagem da RTP Africa
durante a inauguração da Exposição
no Centro Cultural Português de Bissau

sexta-feira, março 30, 2018

O primeiro troféu



Rafaela Redondo com o 
troféu de "Melhor Jogadora"(sub 11) 
no torneio de Almeirim (30.03.2018)

domingo, março 25, 2018

A mochila




Os homens tinham descoberto uma nascente a cerca de 50 metros do rio. Do lado esquerdo do pontão onde atracavam as lanchas.
Começou por ser uma curiosidade naquele fim do mundo, onde pouco mais acontecia do que o rio a passar, umas vezes para juzante, durante a maré vazia, outras vezes para montante quando quando ela enchia. E à noite, claro, os ataques da chusma dos mosquitos.
Depois aguém se lembrou de fazer a “piscina”. Um nome megalómano que servia para designar um rectângulo, balizado por tijolos, onde a nascente empoçava nuns abissais setenta centímetros de profundidade.
Ao fim da tarde assistia-se sempre a um cortejo algo ridículo, de calções e toalhas de banho, que se propunha disputar um recanto da “piscina”. Mais do que refrescar-se o que eles pretendiam era ter a sensação de uns momentos de lazer, mesmo correndo o risco de ser mordido pelas sanguessugas, que arrancavam de perna alçada para gáudio dos colegas.
Naquele dia o tenente também lá foi. Que raio, não era por se misturar com os marujos que lhe caíam os parentes na lama. Ele já aprendera que a camaradagem não resultava, só por si, em faltas de respeito ou desobediências. Podia até reforçar a disciplina, por razões que não cabe aqui desenvolver.
Ouviu alguma piadas amistosas e lá meteu os pés na água morna, beneficiando da boa vontade devida a quem comandava aquele improvisado “aquartelamento”.
Tinham desembarcado ali um mês antes com toneladas de equipamento e víveres, debaixo de uma chuvada diluviana, e do nada que existia tinham feito nascer o “aquartelamento”. Adjacente ao rio e ao velho pontão, que ali ficara, dizia-se, dos tempos em que a CUF lá carregava a mancarra.
E lá ficaram a “ocupar a posição”, sem saberem bem porquê, ouvindo de quando em quando o canhão-sem-recuo do inimigo a fazer tiro de exploração a que o tenente não deixava responder. Na verdade, em termos de eficácia militar, nem tinham com que o fazer.
Foi então que surgiu a “piscina” e o referido banho do tenente.
Estava ele virado para o rio quando lhe pareceu ver um corpo vogando para montante. Saltou da água e aproximou-se da margem, fixando a vista. Não era a primeira vez que passavam animais, a boiar. Até um hipopótamo, inchado, se tal se pode dizer de um animal tão gordo, andara para baixo e para cima.
Farto daquela cena tétrica, meteu-se num bote de borracha e foi retirar o corpo da água. Era um guerrilheiro fardado e equipado.
Informado o QG, via rádio, ficou a saber-se que um grupo do PAIGC fora interceptado, quando atravessava o Cacheu numa piroga, e bombardeado. Ordenaram que se procedesse a uma tentativa de identificação do cadáver. O tenente recebeu ordens para comunicar o que encontrasse e guardar o cadáver até que chegasse o helicóptero para o levar.
Na mochila o tenente encontrou uma máquina fotográfica e muitas fotografias de reuniões políticas nas tabancas. O morto, percebia-se pelas imagens, seria uma espécie de comissário político que teria vindo fazer o seu trabalho de recrutamento e organização da resistência armada.
Num outro compartimento, encharcado, surgiu um livro: "Filosofia Marxista - Compêndio Popular", V. G. Afanassiev, Editorial Vitória, Rio de Janeiro. Nada mais nada menos que o último livro que o tenente andara a ler antes de embarcar para a guerra.
Um livro que ficara na sua casa de Lisboa. Um livro que ainda está na sua casa de Lisboa.

sábado, março 24, 2018

Os incêndios e o senso comum



Os incêndios e o senso comum
faz-me pena ver como este importante tema continua a ser discutido nos jornais e TVs. Normalmente mistura-se tudo; as causas, os meios, as medidas de longo prazo, as medidas de emergência, os responsáveis, a educação das vítimas potenciais e o diabo a quatro.
Por outro lado temos um ministro que é uma caricatura de estadista, que legisla para salvar a pele sem cuidar das particularidades ou das prioridades.
Será razoável fazer legislação genérica para todo o país e para todas as circunstâncias?
O bom senso recomendaria algo muito diferente.
Em primeiro lugar separar as medidas estratégicas, de longo prazo, das medidas de emergência para prevenir as catástrofes do próximo verão.
Depois, identificar as grandes massas florestais que ainda não arderam e atribuir a cada uma um comando encarregado das medidas de prevenção para 2018. Esquecendo as fronteiras municipais pois as florestas não respeitam tais limites.
Tais zonas de risco máximo deveriam ser a prioridade absoluta dado que é nelas que existe maior probabilidade de fogos incontroláveis.
Uma vez definidas 30 ou 50 áreas de risco máximo o comando responsável por cada uma delas devia concentrar-se antes de mais na seguinte questão:
se ocorrer em 2018 um incêndio que não consigamos controlar como garantimos o socorro e/ou a fuga de todas as comunidades que habitam o território.
Só depois de resolver esta questão é que se devia passar às estratégias e meios de combate para o ano em curso.

sexta-feira, março 16, 2018

Foi neste mesmo cais do Cacheu



Foi neste mesmo cais do Cacheu
que se passou a história que eu vou contar.
Chegáramos extenuados depois de andar a fugir aos baixios na foz do Cacheu. Que já lá tínhamos encalhado das outras vezes.
Logo por azar fomos encontrar o cais sobrecarregado de lanchas e batelões. Tivemos que atracar ao último, que chegara antes de nós, e para ir a terra era preciso saltitar de embarcação em embarcação.
A noite veio depressa e depressa se foi a janta à roda do tabuleiro comunitário, de onde toda a tripulação picava o seu pedaço de frango comprado na tabanca.
Não havia disposição para serões e não tardou que cada um armasse o respectivo "burro" de lona e pés de madeira, e se cobrisse com uma manta que prevenia o frio noturno e algum ataque da mosquitada.
Noite alta soou o brado "fujam...fujam..." que em tais paragens, e circunstâncias bélicas, resultava ainda mais urgente do que é normal. Só sei que abri os olhos e deparei com labaredas a cerca de três metros.
Saltei como uma mola, atirei com a manta, e lá fui como os outros aos pinotes por cima dos batelões na direcção da terra firme. Metros adiante lembrei-me que deixara para trás a minha amada e fiel Pentax e voltei a buscá-la, aos encontrões dos que ainda fugiam.
Acabámos todos no pontão a ver a lancha arder e logo percebemos que era necessário tirá-la dali, para não propagar o fogo às outras embarcações.
Lá fomos, receosos, soltámos amarras e atirámos a lancha contra o lodo da margem uns cem metros mais para juzante. As chamas iam alteando e não tínhamos com que apagar.
O sargento foi mandado em busca de uma bomba de água e por milagre voltou com ela. Começou então o trabalho de a pôr a chupar a água do rio, de um lado, e a lançar a água sobre as chamas do outro.
A chapa queimava-nos os pés, mesmo calçados com sola, e não sabíamos quanto tempo teríamos antes que o combustível ou as munições provocassem alguma explosão.
Estivemos naquela luta até ao nascer do dia, com o credo na boca, até que finalmente murcharam as últimas labaredas. A lancha estava devastada e dos nossos pertences pouco havia sobrado.
Mas não podíamos sossegar pois os cunhetes fixos de munições, em ferro, tinham sido sujeitos a enormes temperaturas.
A tampa fechava sob pressão e, depois de forçar a mola, espreitámos para o interior. Havia granadas de mão, projécteis de 20mm da peça Oerlikon, e munições de G3. Fumegavam.
Tínhamoss consciência da imprevisibilidade da situação. E também da inevitabilidade de encontrar uma solução.
Começámos então um tráfico sinistro.
Enchíamos um caixote com granadas, passávamos o caixote para um bote de borracha e íamos despejá-lo no meio do rio. Uma vez e outra.
Confiando na sorte.
À cabra-cega com a morte.

quinta-feira, março 15, 2018

Imagens com história

Imagens com história - Mudar de Vida
No princípio de 1967, com 21 anos, eu cursava Economia no antigo ISCEF e dava aulas na Escola Comercial Patrício Prazeres em Lisboa.
Era também membro da direcção do Cineclube Universitário de Lisboa.
Impressionado pelo filme "Mudar de Vida", do Paulo Rocha, decidi fazer uma reportagem, no Furadouro, para o Boletim do Cineclube.
Chegámos ao Furadouro debaixo de mau tempo, talvez nas férias da Páscoa, e alguém teve que ir abrir o Hotel para nos alojar.
Andei por lá dois dias, a fotografar os palheiros e os barcos. Entrevistei crianças, pescadores e lojistas para um pequeno gravador.
Junto ao areal destacava-se este edifício em ruínas, a que chamam "Chalé do Matos", cuja construção parece ter ocorrido em 1914. Foi usado como cenário neste retrato de um garoto com pistola de pau.
O material recolhido foi também publicado no Diário de Lisboa Juvenil, a 20 de Junho de 1967, tendo ganho um prémio de reportagem.

quarta-feira, março 14, 2018

135 anos sobre a morte de Karl Marx



Cumprem-se hoje, 14 de Março, 135 anos sobre a morte de Karl Marx.
Quase todas as comemorações giram à volta de saber se ele "está de volta" ou se isso é apenas um boato lançado pelos seus fanáticos.
Quanto a mim o que seria interessante era comparar o mundo em que viveu Marx e o mundo em que nós vivemos. É que ele viveu num mundo que já só existe de forma residual.
No tempo de Marx, numa fase muito jovem da industrialização e do próprio capitalismo, verificava-se por exemplo que:
- Os produtos industriais, bastante simples, eram quase sempre totalmente produzidos, da matéria prima até ao produto final, nas mesmas instalações industriais. Hoje é comum a produção decorrer em múltiplas fábricas e em vários países.
- Quase todo o trabalho era repetitivo e, portanto, o volume produzido era proporcional ao tempo trabalhado. Quase todo o "trabalho vivo" acontecia durante a produção.
- Não existia, ou era incipiente, quer a concepção e o desenho prévio à produção, quer o marketing pós-produção.
- Cada unidade dos produtos consumia obrigatóriamente trabalho vivo. Hoje temos produtos em que unidades adicionais podem ser produzidas sem qualquer intervenção humana.
- Havia, de tempos a tempos, crises de sobreprodução. Hoje há sempre produção em excesso. O sucesso no mercado e as manobras para o alcançar são a preocupação essencial dos empresários. Eles estão preocupados com o lucro e não com a mais-valia.
Esta é uma lista não exaustiva das questões que os admiradores de Marx, como eu, deviam ter em consideração para melhor o homenagear.

domingo, março 11, 2018

Um violino no Cacheu



Um violino no Cacheu
Era uma daquelas intermináveis subidas do Cacheu. As lanchas ronronavam rio acima, quase paradas quando a corrente da maré era vazante.
Uma outra parte do combóio de batelões ainda não nos alcançara e foi decidido fazer uma paragem e pernoitar, fundeando, onde pudessem mais tarde encontrar-nos.
Escolhemos uma curva do rio onde o tarrafo era alto e denso; as margens despidas das clareiras eram locais de emboscadas e tiroteios. Só suicidas se atreveriam a fazer um ataque a partir da precariedade das raízes inclinadas do tarrafo. Ou quem nunca as tivesse experimentado.
Lançámos então o ferro e a corrente virou-nos a proa para a foz. Assim ficámos no silêncio que só as aves cortavam e sem acender gambiarras. Uma vez desligados os motores, sinal que dávamos a contra gosto, a nossa presença devia ser ocultada por todas as formas. Até tínhamos o cuidado de esconder as pontas dos cigarros.
O Cacheu é um rio avantajado e o mar sobe por ele quando a maré enche, como era o caso. Sentíamos um grande volume de águas passar por nós, rio acima, pondo à prova a firmeza do ferro no leito do rio.
A mais de cem metros estava a Canopus, que era comandada pelo meu amigo Henrique. Eramos ambos daquela geração de 60 que partiu muitos tabús e que fazia frente à ditadura. Quizera o acaso que a guerra nos fizesse reencontrar no Cacheu depois de nos termos conhecido nos convívios universitários de Lisboa.
Estava eu com os meus pensamentos quando percebi que a Canopus lançara um bote à água. Fiquei alertado, pelo inusitado, e vi o bote aproximar-se com o grumete a acenar e a dizer “o senhor comandante manda perguntar se o senhor tenente quer ir beber um café à Canopus”.
A Canopus era um navio de maior envergadura e, apesar de tudo, com mais habitabilidade e espaço do que a lancha em que eu viajava. Por isso, e especialmente pela conversa saborosa que me esperava, não demorei a aceitar o convite e a saltar para o bote de borracha.
O Henrique recebeu-me com bonomia, como era do seu natural, e instalámo-nos num compartimento da proa a beber um café e a conversar. O navio oscilava docemente e parecia que estávamos numa bolha, muito longe de um teatro de guerra.
A certa altura o Henrique propôs que víssemos um filme feito por ele. Lá montou um pequeno ecran e as imagens surgiram. O que elas mostravam eram apenas as águas de um rio, paradas como um espelho, e as margens deslizando, à esquerda e à direita, interminávelmente.
As imagens, belíssimas, eram quase hipnotizantes. Foi então que reparei que para tal contribuía também a maravilhosa música de violino que as acompanhava.
Foi assim que descobri o concerto do Tchaikovsky.
Ainda hoje, passados cinquenta anos, sempre que encontro o Henrique nunca deixo de lhe agradecer.

sexta-feira, março 09, 2018

segunda-feira, março 05, 2018

A capacidade humana de ler rostos,



A capacidade humana de ler rostos,
tratada neste interessante artigo do Público, (https://www.publico.pt/2018/03/05/ciencia/noticia/um-sorriso-como-resposta-nem-sempre-e-bom-e-pode-causar-stress-1805185) levanta várias questões em áreas a que dedico alguma atenção; a fotografia e a automatização.
Muitos retratos feitos na rua pelos fotógrafos, de improviso, podiam constituir um compêndio de expressões daqueles que são confrontados com as câmaras fotográficas.
Antes do disparo há, quase sempre, uma troca de olhares entre o fotógrafo e o fotografado; avaliam-se mutuamente, nas suas intenções, e a fotografia é a consequência de um entendimento tácito de contornos muito complexos.
É essa complexidade que ainda distingue os humanos dos "robots", que não conseguem lidar com a multiplicidade de expressões faciais possíveis e muito menos interpretá-las à luz das circunstâncias possíveis, elas também muito numerosas.
É por isso que o rosto humano sempre foi, e continua a ser, uma fonte inesgotável de imagens de que nunca nos cansamos.
O retrato mostra-nos o outro, que no fundo é sempre um espelho de nós próprios.

sexta-feira, março 02, 2018

A campanha para "limpeza das matas"



A campanha para "limpeza das matas", 
feita nos moldes em que está a ser feita, tem como objectivo principal transferir a responsabilidade pelos fogos para os proprietários e para as autarquias.
Só assim se explica que, perante um problema gigantesco o governo esteja a omitir prioridades, a omitir o planeamento dos meios e a estabelecer prazos incumpríveis. 
A limpeza das bermas de estrada, só por si, é uma tarefa imensa. Mas devia ser a principal prioridade não só porque foi nas estradas que se verificaram mais vítimas mortais mas também porque a segurança das estradas é essencial para fazer chegar socorro aos locais das emergências.
Por isso este ano todos os meios deviam ter sido concentrados nesta prioridade, começando por fazer um levantamento das estradas onde o risco é maior e garantindo até ao verão elas fossem corrigidas. Tal permitiria ter neste verão a certeza de que nenhuma região de catástrofe ficaria isolada e inacessível aos meios de socorro.
Este objectivo, que parece limitado quando comparado com a "ambição" da campanha do ministro Cabrita, exigiria apesar de tudo uma focagem e um esforço enormes.
Não faz qualquer sentido lançar uma campanha a nível nacional quando se sabe que os grandes incêndios ocorrem nas grandes manchas florestais e à volta delas?
Vinte ou trinta árvores, mesmo que estejam perto das casas, não constituem um risco importante se estiverem rodeadas por quilómetros de campos lavrados. Ou seja, a simples proximidade das árvores não é um bom critério.

domingo, fevereiro 25, 2018

Escrito no avião



Escrito no avião
de regresso à Guiné 50 anos depois

O avião levantou ao fim da tarde, com frio e núvens magníficas em Lisboa.
A maioria dos passageiros aparenta ser guineense e transporta incontáveis volumes como quem regressa a casa atulhado de presentes.
Há 50 anos tive alguns dias no mar para me adaptar ao calor de Bissau; agora vou ser despejado ao fim de quatro horas numa temperatura que deve ser o triplo da que sofria no ponto de partida.
Não sei bem como vou reagir a este reencontro.
As imagens que me chegam da internet desmentem a memória, que fixou uma cidade quase aldeia, com ritmos suaves e sem multidões.
Aos "ajuntamentos" festivos chamavam-lhes "ronco" e os batuques voavam da tabanca até aos bairros de vivendas dos brancos. Algumas vezes saí de casa, com a câmara na mão, por não resistir ao chamamento.
Pergunto-me se tal coisa ainda hoje acontece.
Eu morava numa transversal da avenida principal, numa casinha modesta para os padrões de Lisboa. Sem televisão, ou internet, os dias corriam naturais e coleccionávamos bicharada; como se não bastassem os que andavam à solta.
Tivemos cães, gatos, periquitos, camaleões, tartarugas e sei lá que mais.
O camaleão até serviu para decorar uma improvisada árvore de Natal. Depois o gato Rom-Rom trespassou-o com os seus temíveis caninos.
O Rom-Rom também caçava grandes lagartos, que trazia para debaixo da nossa cama, e até morcegos.
O pior eram os pombos que o vizinho tanto estimava. O vizinho já andava de olho no Rom-Rom e dizia-se que treinava com uma pressão de ar.
O Rom-Rom, uma autêntica fera, foi o nosso primeiro gato de uma longa série. E o mais dócil de todos apesar da sua costela selvagem. Trouxemo-lo para Lisboa onde nunca se adaptou e acabou por desaparecer.
Pergunto-me se ainda haverá gatos daqueles, e tantas outras coisas tão autênticas que nos encantavam, a nós que íamos de um país subdesenvolvido e pobre.
Será que o plástico invadiu a Guiné como aconteceu com as nossas feiras da província?
Vou de espírito aberto, à procura não sei bem de quê. Talvez daquela juventude que não tinha a consciência de o ser, que se limitava a usufruir da sua robustez intacta, do desplante da sua saúde sem mácula.
Ou então vou à procura daquele espírito ainda tão próximo da poesia e da utopia, que nenhum desgosto ou núvem conseguia perturbar.
Preciso de voltar a pisar aquela terra onde passei, psicológicamente incólume, os perigos da guerra e as tortuosidades do colonialismo.
A Guiné é uma terra avermelhada onde rareiam as pedras mas onde os bichos proliferam. Quantidades inimagináveis de caranguejos, mosquitos, ostras, sapos e escaravelhos.
Os varredores lançavam-nos contra os muros, onde faziam pilhas que davam pelo joelho. Louva-a-Deus e baratas voadoras atingiam-nos por vezes mal abríamos a porta da rua.
Com os sapos cheguei a fazer corridas no tampo da mesa de oficial de serviço, em longas noites de modorra sem zaragatas.
Ao dealbar, no silêncio da parada os jagodis, abutres locais de nariz adunco e andar pomposo, procuravam algo que se comesse e disputavam entre eles qualquer achado.
Nem de propósito estalou um bru-á-á no avião quando os passageiros descobriram que teriam direito, como jantar, apenas a uma sandes.

segunda-feira, fevereiro 05, 2018

Os "louros" de Costa são postiços



Afinal o "estrondoso" sucesso  de Costa na economia, 
quando comparado com os outros países europeus, 
não é nada de especial.

quinta-feira, fevereiro 01, 2018

Em vez de balas




Parto para a Guiné no dia 6 de Fevereiro, para percorrer os lugares de há 50 anos e fotografar com a mesma máquina que então usei.

EM VEZ DE BALAS
No dia 1 de Maio de 1968, larguei do Tejo, rumo à Guiné, a bordo da fragata Corte Real. Era então um jovem tenente dos fuzileiros, com 22 anos, recém casado, que interrompera os estudos de Economia na Universidade de Lisboa.

Em Bissau integrei a 6ª Companhia, aquartelada no INAB, junto ao Geba. A nossa missão consistia essencialmente na escolta de combóios de embarcações que levavam abastecimento aos quartéis do Exército.

Subi e desci os principais rios da Guiné comandando, conforme os casos, uma ou duas lanchas de desembarque médias (LDMs). Em ocasiões apoiado por lanchas de fiscalização pequenas (LFPs).

Naveguei no Cacheu até Farim, no Mansoa, no Geba e no Rio Grande de Buba. Liguei por mar a foz desses grandes rios e também fui a Bolama e a Bubaque.
A guerra era uma realidade penosa para quem como eu, jovem militante comunista, se opunha ao domínio colonial e defendia a independência das colónias. Partilhei esse drama pessoal com a minha mulher, Maria Rosa, que trabalhou como professora de História no Liceu Honório Barreto.
A fotografia constituiu para mim um paliativo. Ao fotografar a dignidade do povo guineense, a beleza das suas mulheres, o porte dos seus homens e o encanto das suas crianças, eu tinha a impressão de estar a fazer um gesto de amizade no contexto da guerra. A disparar fotografias em vez de tiros.
É significativo que pouco tenha fotografado da guerra e dos temas militares.
2018 é o cinquentenário da minha chegada a Bissau.
Sinto-me na obrigação de comemorar essa fase tão marcante da minha vida de jovem adulto. Tal como os outros jovens da minha geração aprendi, "no terreno", a grande lição da relatividade da nossa própria cultura.
No dia 6 de Fevereiro parto para a Guiné e percorrer os locais por onde passei, e fotografei, há 50 anos. E voltarei a fotografar lá com a mesma câmara Pentax Spotmatic que então usei.
Está a ser organizada uma exposição das minhas fotografias, feitas em 1968/69, que terá lugar no Centro Cultural Português de Bissau, em 2018. O acervo deverá também ser exposto em Lisboa, no mesmo ano, estando em curso um processo de viabilização no Museu Nacional de Etnologia.
Uma espécie de tributo, pela restituição da memória de uma realidade que em grande medida já não existe.
Fechar-se-á então o ciclo. Como experiência pessoal é uma grande emoção.
Num plano mais geral creio que propiciará reflexões sobre a guerra colonial e sobre a forma como a viam tantos jovens que politicamente a contestavam.

Ver o programa Fotobox aqui:

https://vimeo.com/253468657?ref=fb-share&1




terça-feira, janeiro 30, 2018

quarta-feira, janeiro 24, 2018

Fatiado


sábado, janeiro 20, 2018

quarta-feira, janeiro 17, 2018

A retórica dos acidente rodoviários



A retórica dos acidente rodoviários
Ainda recentemente o ministro Cabrita fez anuncio de medidas repressivas que se integram numa antiga campanha de mistificação acerca dos acidentes rodoviários.
Quer-se fazer crer que os portugueses são em geral uns selvagens na estrada e que necessitam de um Cabrita qualquer que os meta na ordem. Todos os outros factores estruturais e/ou conjunturais são omitidos para centrar as atenções no comportamento supostamente muito pior do que nos restantes países.
Este quadro publicado a nível da UE mostra que, afinal, ao contrário da retórica fundamentalista, Portugal está perto da média europeia neste capítulo.
Julgo que a nossa vantagem em relação a muitos dos países que estão pior do que nós é termos uma grande rede de autoestradas e termos, em média, um parque automóvel mais moderno.

terça-feira, janeiro 02, 2018

LDM



LDM
ao deambular pela margem esquerda do rio Gilão, em Tavira, dei de caras com esta LDM (Lancha de Desembarque Média).
Emocionante. Foi numa coisa destas que eu subi e desci os grandes rios da Guiné, foi numa coisa destas que me brindaram com umas bazookadas (que por sorte falharam o alvo).
Noites inteiras a ouvir ronronar o seu motor, sem acender sequer um isqueiro, atentos aos baixios de lodo e à muitas curvas da água.
50 anos saltados num instante.
Disseram-me depois que esta LDM pertence à edilidade que a usa para transportar contentores de lixo.
Foi o anti-climax.