quarta-feira, dezembro 31, 2025
Batalha atrás de batalha
Batalha atrás de batalha
Não procure respostas neste longo filme de Paul Thomas Anderson. No fim do filme temos mais perguntas do que tínhamos ao entrar no cinema. Aqui vão algumas:
1. A acção (incessante) do filme é uma versão romanceada de coisas que aconteceram? De coisas que podiam ter acontecido? Ou de coisas que se prevê/deseja que venham a acontecer?
2. O filme quer falar-nos dos combates que travamos sem esperança de ganhar? São combates que nos fazem sentir vivos? Anarquia é só aquilo que nos resta?
3. A história do filme é uma metáfora do destino da esquerda?
4. A imigração massiva pode trazer para a América as revoluções típicas do terceiro mundo?
5. O que é que tudo isto tem a ver com Trump?
Não sei porquê, mas ainda bem que não perdi este filme
sábado, dezembro 06, 2025
A Esquerda à procura de nova Utopia
A Esquerda à procura de nova Utopia
Já ninguém nega a crise da esquerda, crise que eu lamento profundamente. Os maus resultados eleitorais começaram por atingir o PCP, desde os anos noventa, mas acabaram por estender-se ao BE e ao PS.
Para perceber melhor o que aconteceu decidi experimentar um quadro cronológico dos “modos” de ação dos principais partidos da esquerda e, por razões que explicaremos mais adiante, do Chega.
Os quatro “modos” são o “utópico”, o “pragmático”, o “sindical, e o “memória”. A caracterização dos “modos” está feita mais acima. Se tivesse de usar uma só palavra diria que a “utópico” associo esperança, a “pragmático” ligo segurança, “sindical” relaciono com protesto e “memória” rima com nostalgia.
No quadro apresentado mais acima, uma visão pessoal aberta a contestações, pode ver-se que:
Antes do 25A
PS e PCP eram os únicos partidos relevantes que funcionavam antes do 25 de Abril.
Operavam até essa data essencialmente em “modo utópico” dada a imprevisibilidade quanto à data da queda do regime e à natureza do que se seguiria. Também faziam reivindicações específicas, claro, mas a sua expressão nacional nesse aspeto era muito reduzida.
O PCP ganhou direito ao respeito e admiração da grande maioria dos portugueses pela tenacidade com que enfrentou a ditadura salazarista. Isso levou muitos jovens da minha geração (incluindo eu) a aderir à luta pelo derrube do regime, mas tal só aconteceu porque o PCP, para além da libertação do fascismo, tinha também o seu lado “utópico” de criação de uma sociedade de novo tipo.
O PS
Depois do 25 de Abril o PS, partido de governo, adotou o “modo pragmático” que consistia essencialmente na promessa de promover algo parecido com o que existia nas social-democracias do norte da Europa. Havia um modelo, portanto, que esteve na base de alguns sucessos eleitorais. As maiorias de Cavaco, entre 1985 e 1995, puseram em causa a liderança do PS na execução do modelo social-democrata. A bancarrota de José Sócrates abalou definitivamente essa liderança. Costa, com a sua “Geringonça” de esquerda, e a subsequente inoperância dos “casos e casinhos”, arruinou definitivamente imagem de pragmatismo do PS.
O partido foi remetido para o “modo sindical”, que só rende eleitoralmente em situações muito particulares.
O PCP
Nos pós 25 de Abril o PCP, para quem o “modo sindical” era congénito, dada a sua composição de classe, manteve em paralelo um intenso “modo utópico” até ao desaparecimento da URSS no início dos anos 90.
O lento declínio eleitoral do PCP veio na sequência do Cavaquismo e do desmoronamento da URSS.
Desaparecido o modelo de sociedade alternativa, e sem capacidade para se recriar, o PCP tornou-se essencialmente o mais eficaz dos partidos que praticam o “modo sindical”, recorrendo à sua implantação histórica na Intersindical e nas autarquias. Tal eficácia foi seriamente abalada pela participação na “Geringonça”, que lhe impôs cedências e conivências. O número de sindicalizados e as autarquias com maioria PCP têm vindo a diminuir ano após ano.
A incapacidade para interpretar o impacto das tecnologias do século XXI reduziu fortemente a credibilidade das suas reivindicações e propostas.
O envelhecimento da sua base de apoio, criada nos tempos do seu “modo utópico”, tornou o PCP um partido que atualmente vive em paralelo o “modo sindical” e o “modo memória”. Com forte erosão eleitoral.
O BE
O Bloco de Esquerda, de criação muito mais recente, começou a sua atividade com uma certa aura “utópica”, nomeadamente no plano da preservação ambiental e das “causas fraturantes”. Teve sucesso fulgurante nas camadas urbanas educadas, impulsionado por um acesso desproporcionado aos meios de comunicação. Praticando um vanguardismo por vezes arrogante, e sem implantação no “país real”, acabou por ser vítima da vacuidade das suas propostas e manifestações. A passagem pela “Geringonça” provocou uma certa erosão na sua imagem independente e radical. Está em decadência acelerada pois, ao contrário do PCP, não tem um lastro eleitoral.
O Chega
Deve ser mais do que uma coincidência cronológica o nascimento do Chega na sequência da “Geringonça”. Portanto no ponto mais baixo da credibilidade “utópica” e “sindical” dos partidos que costumavam ser os depositários de descontentamentos mais ou menos difusos.
O Chega apareceu para retomar o “modo utópico” de que certas camadas estavam carentes (omitindo aqui qualquer consideração sobre a bondade ou pertinência de tal utopia).
Os descontentamentos difusos são especialmente atreitos a soluções mágicas e redentoras.
A nova utopia, um mundo puro sem corruptos e sem vizinhos perturbadoramente exóticos, explica aparentemente a misteriosa transferência de votos de alguns partidos de esquerda, no Alentejo e na “cintura industrial”.
No discurso do Chega o “capitalista” é substituído pelo “corrupto” e o “capitalismo” é substituído pelo “sistema”. Novas categorias mais difusas, mais abrangentes e que requerem menos aptidões intelectuais.
A imigração, neste contexto, é o necessário inimigo externo tal como os corruptos são o inimigo interno. Ambos impedindo a pureza do povo para se afirmar e prevalecer como destinatário exclusivo da ação política.
O ar do tempo é favorável ao Chega.
As tecnologias proporcionadas pela nova IA tornam quase impossível a destrinça entre realidade e ficção, terreno em que o partido de Ventura vive como peixe na água.
A política internacional vai dando pistas ao Chega para singrar com a palavra de ordem “Fazer Portugal Grande Outra Vez”.
Para repensar a Esquerda
Os três partidos da esquerda, têm-se mostrado incapazes de reconstruir a sua aura “utópica”, mesmo quando os desenvolvimentos tecnológicos tornam mais credíveis novas relações de produção e novos níveis de democracia direta.
Num mundo em dramática e acelerada transformação a necessidade da utopia sobe em flecha; sempre foi e continua a ser a forma mais eficaz de interessar e motivar as pessoas para a ação política.
Mas esquerda passou ao lado das transformações do “povo votante”, e das novas formas de comunicar. Mais grave foi a sua omissão nos processos de transformação do capitalismo. Enquanto se preocupava com as relações de produção “arcaicas”, em vias de extinção, verificou-se a criação de uma casta de super-ricos digitais, que precisam cada vez menos de viver da exploração dos seus assalariados (basta-lhes explorar os utilizadores/clientes).
Mas não foi só o “modo utópico” que falhou; os partidos de esquerda partilham algumas práticas que tendencialmente vão minando a sua credibilidade enquanto “pragmáticos” e mesmo “sindicais”.
De uma forma genérica pode dizer-se que os partidos de esquerda tendem a responder aos problemas práticos com tiradas constitucionais, princípios abstratos e limitações legais.
No caso das greves ferroviárias na cintura de Lisboa, por exemplo, com graves problemas para centenas de milhares de pessoas, respondem com a imutabilidade da Lei da Greve, mesmo quando ela causa sofrimento aos utentes e não ao patrão.
Outro exemplo: as questões do sistema de saúde, as suas falhas e difícil acessibilidade. Os partidos de esquerda parecem quase sempre mais preocupados com a dicotomia público/privado do que em encontrar soluções viáveis.
Mesmo no que toca aos preceitos da Constituição há uma rigidez que não toma em consideração o carácter excecional do período em que foi concebida; o ambiente insurrecional ainda muito presente, influenciado pela experiência soviética numa lógica de omnipresença e omnipotência do Estado, na sociedade e na economia.
A omnipresença e omnipotência do Estado, na sociedade e na economia, coisa que a história já mostrou o que vale, continua aliás a ser a proposta utópica da esquerda, de forma mais ou menos assumida.
Um exemplo disso é a responsabilização do Estado pelo acesso de todos os cidadãos a uma “habitação digna” sem se perceber como, e com que meios, tal se realizará.
Estas e outras abordagens proclamatórias irrealistas, que omitem a realidade económica, são uma constante fonte de desilusão e desconforto. Como nunca houve clarividência para as atualizar por consenso das forças moderadas não é difícil prever que acabarão, um dia, por ser desfiguradas por alianças maioritárias com a extrema-direita.
O descontrole da imigração e os casos judiciais sem fim, como o da Operação Marquês, constituíram um poderoso combustível para as percepções (corrupção e caos étnico) em que assenta o crescimento do Chega.
Como se tudo o que já foi dito não bastasse há também a dificuldade em substituir os grandes líderes históricos da esquerda por políticos com um mínimo de estatura.
Sem se repensar todas estas questões não é possível uma nova dinâmica vitoriosa da esquerda em Portugal
Hora da publicação: 23:24 0 comentários
Etiquetas: esquerda-direita, politica2025, prospectiva-utopia, teses-textos
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