terça-feira, dezembro 24, 2013

Operários do Natal





Quando os meus filhos eram crianças, durante o PREC e durante mais algum tempo, este disco tornou-se culto no nosso Natal. Preservei o LP durante muitos anos e depois foi também preciso arranjar a versão em CD.  Ainda hoje o lembramos, e tocamos, todos os anos. 
Agora a minha neta também já sabe estas belas canções tão impregnadas por esse tempo inesquecível que ela não percebe ainda.

Textos de Ary dos Santos e Joaquim Pessoa.
Músicas de Carlos Mendes, Fernando Tordo e Paulo de Carvalho.
A narradora é a Maria Helena D’Eça Leal.

segunda-feira, dezembro 23, 2013

O suplemento do sino

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Jornal de Negócios, 23.12.2013

sexta-feira, dezembro 20, 2013

E a minha confiança ?

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E a minha confiança ?

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terça-feira, dezembro 17, 2013

Ler também as letras pequeninas




Quando o desemprego começou a baixar nasceu a tese da sazonalidade.
Quando a sazonalidade se tornou inverosímil nasceu a tese da emigração como explicação para a redução do desemprego.
Agora que houve aumento no emprego, e a tese da emigração já não funciona, publica-se a notícia em letras pequeninas. 
Para ver se passa despercebida.

domingo, dezembro 15, 2013

Portugal vs Irlanda

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Portugal vs Irlanda
fala-se muito das diferenças e das semelhanças entre os dois países.
O que raramente se refere é que, desde o princípio de 2011, o governo da Irlanda é uma coligação dos dois maiores partidos. O Fine Gael (36%, de direita) e o Labor (19%, de esquerda).
A estabilidade do sistema político pode ter sido a principal vantagem da Irlanda durante o processo de recuperação.
http://en.wikipedia.org/wiki/Irish_general_election,_2011

quinta-feira, dezembro 12, 2013

Soneto


Dedicado ao Mário de Carvalho

segunda-feira, dezembro 09, 2013

É um equívoco propor o derrube imediato do governo

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- É um equívoco propor o derrube imediato do governo ? 
- É ! 
- Porquê ?


Por duas razões evidentes:
1. Não sabemos o que fazer a seguir
2. Faz supor que a remoção do governo, só por si, resolveria os nossos problemas o que impede de nos concentrarmos nas questões fulcrais.

É incrível o número de pessoas sérias e inteligentes que continuam a acreditar na narrativa infantil que nos diz que os nossos problemas se devem:

1. À ganância do capital e aos desmandos da banca.
Eles realmente existem, mas já existem há muito tempo e em todas as latitudes. Se fosse essa a única causa dos problemas actuais ela ter-se-ia feito sentir anteriormente e em todos os países, e não só em alguns.

2. Aos erros do actual governo, motivados pela incompetência e fanatismo ideológico.
O governo actual cometeu sem dúvida muitos erros e, como não podia deixar de ser, governa de acordo com a sua ideologia.
Mas ninguém ignora que os problemas já existiam quando tomou posse e que nunca conseguiria, em pouco mais de dois anos, pôr o país no estado em que ele está mesmo aplicando uma ideologia por mais hedionda que ela fosse.

Quais são então os factores, para além da proverbial ganância capital e dos erros do governo, que devíamos ter em conta:

1. A globalização
A procura e a oferta tornam-se cada vez mais globais, todos concorrem com todos na obtenção de encomendas, matérias primas, mão-de-obra barata e investimento.
As gigantescas disparidades criadas pelo sistema colonial, e pelas suas sequelas, geraram uma espécie de vórtice gigantesco que aspira a actividade económica dos países ricos para os países emergentes. A escassez de capitais para investir e portanto a subida dos juros, bem como o desemprego, são as consequências mais notáveis que se traduzem no empobrecimento gradual do “ocidente”
  
2. A revolução tecnológica
É uma das forças por trás da globalização, mas tem outras consequências menos óbvias.
A automatização do trabalho repetitivo, quer manual quer intelectual, levou ao aparecimento de produtos cuja quantidade não depende directamente do trabalho aplicado.
Por outro lado as novas potencialidades da comunicação transformaram a relação dos consumidores com as mercadorias; deixaram de ser presenciais e baseiam-se agora na “imagem”, fazendo transitar o conceito de criação de valor da actividade produtiva/industrial para a área da concepção/marketing.
Estas poderosas tendências lançam em crise profunda o modelo de relações de produção do capitalismo tradicional, baseado no assalariamento.

3. Os erros acumulados nas últimas décadas
Há muito que a globalização e a revolução tecnológica deveriam ter estado no centro de importantes decisões estratégicas que os sucessivos governos, nas últimas décadas, não tomaram.
Instalados confortavelmente na “Europa” pensávamos estar protegidos do tsunami que se estava a formar; com arrogância invocávamos a superioridade dos nossos sistemas sociais, como se alguma entidade superior os pudesse garantir mesmo quando a nossa economia soçobrasse.
As questões da tecnologia eram vistas só como questões do ensino e da “qualificação” sem perceber que o que está em causa é a necessidade de um novo quadro de relações na produção.
Quando os capitais debandaram para oriente, chamados por rentabilidades muito superiores, de repente a política de projectos para “encher o olho”, não reprodutivos, entrou em acelerada decomposição.
Foi assim que caímos na crise actual; por não fazermos os investimentos necessários e por fazermos os investimentos com que nos endividámos.

Conclusão
O equilíbrio das contas públicas e das trocas com o exterior é imprescindível mas não garante nada.
Se não houver a compreensão dos desafios globais e tecnológicos, se não houver  congregação de esforços e disciplina, o empobrecimento e a decadência do nosso país (tal como de muitos outros na Europa) é apenas uma questão de tempo.
Concentrar as atenções e as motivações no derrube do governo é não só uma trapaça como também uma condenação ao insucesso.


domingo, dezembro 08, 2013

A China é um planeta



Fui ver o novo filme de Jia Zhang-Ke.
Quatro histórias de violência, interessantes, mas sem o fulgor de "24 City".
As situações são extremas neste filme mas os depoimentos intimistas de "24 City" eram bem mais tocantes e não tinham este leve sabor a "filme de acção".
Não é difícil supor que existem violências na China, dada a sua dimensão (quatro vezes a população dos Estados Unidos) e a brutalidade das transformações em curso.
Por isso a violência explícita não revela grande coisa.

quinta-feira, dezembro 05, 2013

segunda-feira, dezembro 02, 2013

Pensar


sexta-feira, novembro 29, 2013

Equívocos



Há dois tipos de equívocos que atrasam o avanço da humanidade para um novo patamar nas relações sociais e no desenvolvimento:
1. Não conseguir imaginar a produção em sociedade sem ser na base do trabalho assalariado; sentir-se perdido quando falta um patrão a quem entregar o esforço e a inteligência.
2. Pensar que tudo se resolve substituindo as empresas por um super-patrão universal chamado Estado, de quem todos os cidadãos seriam empregados em troca de um salário

segunda-feira, novembro 25, 2013

25 de Novembro

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há 38 anos eu era um jovem oficial dos fuzileiros, desmobilizado da guerra na Guiné em 1970, e com um emprego bem pago numa grande empresa internacional. 
Nesse 25 de Novembro estive uma noite inteira à espera da espingarda G3 com que tentaria defender a Revolução dos Cravos das perversões da democracia burguesa.
Alta madrugada vieram dizer-nos qualquer coisa que me soou a "a Revolução falhou" ou "o 25 de Abril acabou", o que para nós era quase a mesma coisa.
Só me lembro das lágrimas a correr-me na cara enquanto conduzia pela segunda circular.
Eu estaria provávelmente a tentar uma revolução impossível, eu estaria talvez equivocado, mas aquelas lágrimas não. Nunca mais as esquecerei.
Os homens contra quem eu então lutava figuram na fotografia deste post.
O chefe da CIA em Portugal, Carlucci, orquestrou as operações com Mário Soares e com os militares como Vasco Lourenço, atrás dos quais se acantonaram todos os "reaças".
É portanto com revolta que vejo hoje estes mesmos figurões, a quem não dou qualquer crédito, afivelarem uma máscara revolucionária, patrocinando uma insurreição de opereta.
Se queriam uma "democracia popular" deviam ter aproveitado a oportunidade que lhes demos em 1975.
Nessa altura, apesar de tudo, fazia muito mais sentido.

sábado, novembro 23, 2013

Os herdeiros do PS

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É duro ser herdeiro do PS

sexta-feira, novembro 22, 2013

Chamem a polícia...


O golpismo senil

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O golpismo senil
com apelos inconstitucionais ao derrube violento do governo e da presidência, com a tentativa de manipulação dos polícias numa insurreição de "escada acima, escada abaixo", remete Portugal para os piores pesadelos da farsa sul-americana.
E vai custar caro ao país em juros da dívida.

terça-feira, novembro 19, 2013

E a seguir ?

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E a seguir fintamos as taxas de juro e os mercados, ultrapassamos o segundo resgate 
e rematamos de forma imparável 
um aumento do PIB. 
Assim calamos as bancadas adversárias 
cheias de desemprego

sábado, novembro 16, 2013

Turismo

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O presidente da CCP, João Vieira Lopes, considerou de positivo o crescimento da economia portuguesa em 0,2% no terceiro trimestre do ano, face ao período anterior, embora tenha dito que “era expectável” devido, sobretudo, ao bom ano turístico.
Publituris, 14 de Novembro

Não era este mesmo senhor que dizia que o IVA da restauração a 23% mataria o turismo ?

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segunda-feira, novembro 11, 2013

IMAGINE




Imagine, por instantes, que um ministro qualquer terá dito na Conchinchina uma frase inconveniente, potencialmente causadora de danos ao interesse nacional.
Agora imagine, por absurdo que pareça, que toda a gente desata a falar do assunto a toda a hora, em todas as televisões e jornais, amplificando o efeito nefasto da gaffe.
Como se pretendessem garantir que toda a população mundial toma conhecimento da bujarda.
Isto faz algum sentido ?

sábado, novembro 09, 2013

O Estado e o impasse da esquerda actual (texto 4)



O Estado e o impasse da esquerda actual (texto 4)

A nossa imagem do Estado está bastante deformada.
O Estado, puro e duro, esconde-se sempre atrás do “Estado Social” como se tudo o que faz tivesse um carácter benfeitor.
O próprio “Estado Social”, no seu gigantismo, refugia-se sempre por trás da ideia sedutora de que só existe para acorrer aos desvalidos sem outra salvação. Mas os números mostram que as prestações sociais entregues aos muito carenciados (idosos pobres, desempregados, doentes sem meios próprios) são uma gota de água no Orçamento do Estado.

Procura-se convencer os incautos de que o “Estado Social” é pago pelos ricos, a quem "foi imposto pela justa luta das classes trabalhadoras", e beneficia de forma decisiva “os mais desfavorecidos”. Mas a verdade dos números é bem diferente: quem o paga são os próprios trabalhadores já que, no seu conjunto, entregam muito mais em impostos, e todo o tipo de contribuições, do que recebem.

O grosso do Orçamento é gasto com empresas fornecedoras de bens e serviços, com os funcionários do próprio Estado e em prestações sociais entregues a cidadãos que teriam, se necessário, rendimentos suficientes para as pagar.

E para onde vai a diferença entre aquilo que os cidadãos entregam ao Estado e o valor dos serviços dele recebidos?
Os jornais estão cheios de notícias sobre
- Entidades públicas redundantes, ou mesmo prejudiciais, que se eternizam sem produzir nada de útil. Os incontáveis institutos, comissões, observatórios, altas autoridades, etc.
- Obras públicas que custam três ou quatro vezes mais do que o valor ajustado
- Medicamentos e exames de diagnóstico redundantes ou comprados por preços leoninos (quando não em claro esquema mafioso)
- Ordenados exorbitantes de gestores de empresas públicas que os próprios se auto-atribuem (sempre acompanhados de uma miríade de complementos como cartões de crédito, seguros de vida, prémios de gestão, despesas de representação 14 meses por ano e outros)
- Pensões de reforma cujos elevados montantes não têm qualquer correspondência com os descontos efectuados pelos beneficiários
- Múltiplos ordenados dos “eleitos locais” obtidos nas empresas municipais por eles criadas
- Subvenções mensais vitalícias e subsídios de reintegração atribuídas aos políticos.

Estes exemplos, entre muitos outros, configuram aquilo que podemos designar como uma exploração de segundo nível.
Marx explicou a exploração como a apropriação pelos capitalistas da diferença entre o valor produzido e o montante dos salários mas não podia adivinhar que em pleno século XXI um segundo nível de exploração se viria sobrepor.

O salário que os trabalhadores deveriam levar para casa, já amputado da mais-valia, é ainda “assaltado” pelo IRS e pelas contribuições para a Segurança Social, quando metem gasolina ou compram tabaco, quando compram casa, quando vão ao supermercado, em suma, constantemente.
Em muitos casos este segundo nível de exploração é ainda mais intenso do que a exploração laboral convencional.

Os beneficiários desta exploração configuram uma casta, complementar das tradicionais classes possidentes, que se apoderou da nossa democracia e que, pelos seus erros e cupidez, acabará por a destruir.
É por isso que a reforma do Estado nunca passará de um guião.

sexta-feira, novembro 08, 2013

Trancão








domingo, novembro 03, 2013

Como é o mundo ?


sexta-feira, novembro 01, 2013

Depois não digam que eu não avisei


O BPN como arma de arremesso paga por nós


O BPN como arma de arremesso paga por nós
Continuo convencido de que Sócrates nacionalizou o BPN, transformando uma falcatrua privada num enorme buraco público, por razões partidárias.
Ao mandar os seus homens de mão vasculhar a documentação reservada do BPN, Sócrates esperava recolher, e em certa medida recolheu, material comprometedor para os seus inimigos políticos (nomeadamente o PSD e o Cavaco).
Por isso o BPN teve, e continua a ter, impacto politico-partidário, mas nunca teve consequências relevantes, financeiras, nos tribunais.
E nós pagámos, e continuamos a pagar, estas guerras de alecrim e manjerona.

quinta-feira, outubro 31, 2013

PREC 2 (Processo Recessivo Em Curso)


PREC 2 (Processo Recessivo Em Curso)
Hoje ocorreu-me que nunca houve em Portugal nenhum período de tão intensiva discussão política como o actual PREC 2.
No PREC 1, de 74/75, também se discutia muito mas não havia várias televisões a debitar opinadores de manhã à noite.
A grande diferença entre o PREC 1 e o PREC 2 é que, no primeiro, a democracia era uma adolescente à procura do seu lugar no mundo, com passos em falso mas uma inesgotável dose de ilusões, enquanto que no PREC 2 a democracia é uma mulher de meia idade, solteirona, amarga e céptica.

segunda-feira, outubro 28, 2013

O Estado e o impasse da esquerda actual (texto 3)



O Estado e o impasse da esquerda actual (texto 3)

Parece estranho o percurso que levou a esquerda a transformar-se numa defensora acérrima do Estado, depois de Marx o ter caracterizado como a expressão do domínio classista. 

Esta tese do Marx foi muito facilmente assimilada por mim, na juventude, pois na minha família, ao longo de pelo menos cinco gerações nunca ninguém viveu do erário público, nem como empregado, nem como subsidiado nem como fornecedor.
Para uma família como esta, que na minha infância rondava o neo-realismo, o Estado era o polícia e a multa, o guichet mal encarado, a repressão política, a arrogância do médico e do professor perante a modéstia do doente e do aluno.

O Estado é sempre o espelho da sociedade onde existe. Não é a sociedade que espelha o Estado que tem.
Mas a Revolução Soviética de 1917, operando num país atrasado e imenso, recuperou uma deriva utópica e apoderou-se do Estado para, diziam, melhor poder gerir a transição para o Socialismo e o Comunismo. Andou setenta anos a dizer que o Estado um dia acabaria, mas a verdade é que enquanto a URSS existiu o Estado não parou de engordar. Ainda hoje a esquerda está ensopada de ilusões acerca de insurreições que, derrubando os símbolos do poder, darão acesso instantâneo a um “mundo novo”.

A sensação de impotência para levar as pessoas a produzir riqueza e a distribuí-la em novos moldes é que leva o vanguardismo a refugiar-se no Estado para, a partir dessa trincheira, obrigar a sociedade a adoptar as suas ideias iluminadas. Essa quimera ficou definitivamente desmentida quando na China, o país mais preparado e adequado para o exercício do poder absoluto, o Partido Comunista reconheceu a necessidade de recorrer a métodos “capitalistas” para seguir em frente, até que a situação amadureça.

Na Revolução Francesa de 1789, apesar de tudo, a transformação de fundo económica e social já estava madura quando a superestrutura política foi revolucionada. Mas na Rússia de 1917 e na China de 1949, tal não era o caso. O Estado deveria então operar “em cesariana” aquilo que, em “parto natural”, demora séculos.

Mas o Estado não é uma espécie de “modo de produção” que, através do voluntarismo, interferindo a todos os níveis da sociedade, se possa substituir ao livre jogo dos interesses e à criatividade dos cidadãos.
Sempre que tal aconteceu os resultados foram perversos.

A crescente incapacidade para lidar com as metamorfoses do capital, por um lado, e a importância eleitoral do funcionalismo público, por outro, convergiram com o saudosismo da URSS.O resultado foi esta amálgama em torno do “Estado Social” a que estamos a assistir.
Uma social democracia indiferenciada e contra-natura em que mergulharam todas as forças de esquerda, mesmo as revolucionárias e radicais.

O Estado e o impasse da esquerda actual (texto 2)



O Estado e o impasse da esquerda actual (texto 2)

O genial Marx ainda hoje é uma referência para quase toda a gente, mesmo para quem o combate ou para quem nem conhece o seu nome.
Ele anteviu o fim do capitalismo na sequência de uma brutal proletarização e pauperização da sociedade, mas a realidade seguiu outros caminhos. A invenção do Estado Social impediu uma pauperização extrema e, hoje, a revolução tecnológica proporciona lucros sem trabalho vivo, atirando para fora do assalariamento milhões de trabalhadores. O fim do capitalismo acabará provávelmente por resultar não da total proletarização, como ele dizia, mas sim do definhamento do trabalho assalariado.

A crise do assalariamento na produção, levou à transferência do grosso da criação de mais-valias para a fase da distribuição das mercadorias e para a especulação financeira. Era preciso garantir que os cidadãos, com cada vez menos empregos assalariados, continuassem apesar disso a ser explorados enquanto consumidores (se possível compulsivos).

Esta aparente “quadratura do círculo” foi resolvida pela manipulação do Estado pelas classes dominantes.
O Estado faz "redistribuição" de rendimentos através dos impostos, ou seja, transfere recursos das classes médias que podem não gastar tudo o que ganham para aqueles, mais pobres, que gastarão tudo o que receberem.
Como isto não é suficiente o Estado endivida-se para injectar dinheiro na economia (ou seja criar clientes para a empresas) lançando as consequências e os pagamentos para as gerações futuras.
O tão incensado Estado Social tem neste processo um papel muito importante; ao convencer as pessoas de que não precisam de amealhar para a velhice, desemprego ou doença reforça a propensão para o consumo imediato.

O consumismo, o crédito e a especulação financeira têm portanto que ser compreendidos como um recurso do capitalismo para se perpetuar apesar da relação em que se baseia, o assalariamento, atravessar uma crise profunda.
A esta luz é mais fácil compreender por que é que as associações patronais concordam com o aumento do salário mínimo; não se importam que os patrões industriais paguem mais para que os patrões do comércio, da distribuição e da banca, que são quem manda, possam ter mais clientes.
Pela mesma razão mantêm há décadas o congelamento das rendas para que os inquilinos em vez de darem o dinheiro aos senhorios o possam gastar nos hipermercados.

Por trás de toda a retórica igualitária, no quadro do sistema económico, é este o papel do Estado burguês. Como Marx, aliás, ensinou.

domingo, outubro 27, 2013

Entretanto em Espanha

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A Espanha é constantemente referida como tendo escapado ao resgate e constituir uma espécie de Portugal com PEC IV. 
Mas a narrativa delirante falha até nos "pormenores"; a redução de 390 mil funcionários públicos em dois anos ocorrida em Espanha mostra que a situação deles não difere muito da nossa.
(recorte do jornal "i" de hoje)

sexta-feira, outubro 25, 2013

O vidente


segunda-feira, outubro 21, 2013

A questão do Estado e o impasse da esquerda actual




A revolução tecnológica e a globalização acelerada estão a fazer emergir lentamente, inexorávelmente, uma nova formação económica e social (para usar um termo de Marx). Ela trará consigo um novo tipo de Estado, pós-capitalista.

A esquerda actual, em vez de trabalhar para influenciar tal processo, gasta todas as suas energias a tentar controlar o Estado capitalista ou mesmo, na versão mais infantil, o próximo governo. Como alguém que se esmerasse a arrombar uma porta sem saber o que de lá vai surgir (e de cada vez sai algo pior).
A esquerda actua como se a relação de trabalho assalariado fosse durar para sempre. Como se a sua missão se resumisse ao aperfeiçoamento das actuais relações de produção, usando o Estado para obrigar as empresas capitalistas a portar-se bem.

A questão do Estado foi sempre muito importante e constitui hoje, pela forma acrítica como está a ser abordada (alavanca do vanguardismo, bastião e trincheira), a causa fundamental do impasse em que a esquerda se encontra.

(aviso, ou ameaço, que isto é apenas a introdução a um texto muito mais longo que virá)

sexta-feira, outubro 18, 2013

Hanna Arendt



"Eu que nunca amei qualquer povo, como é que eu posso amar o povo judeu? Só sei amar os meus amigos, é a única coisa que posso fazer"

Hanna Arendt é um grande filme sobre a coragem que é preciso ter para romper com as crenças do grupo a que se pertence.
Depois de, em 1961, assistir ao julgamento do criminoso nazi Adolf Eichmann, ela escreve sobre a "banalidade do mal", sobre a possibilidade de aviolência extrema (como a do holocausto) poder ser praticada por Zés Ninguém.
As reacções da intelectualidade judaica são violentas e ela chega a ser acusada de nazismo. Estamos formatados para pensar que os grandes crimes têm forçosamente que ser praticados por monstros de enorme escala.
Hanna e Eichmann acabam por surgir como duas faces da mesma moeda; ele que deixou de pensar (de ser pessoa) e cumpriu ordens e ela que teima em pensar e em desafiar as ideias feitas. Ambos acabam condenados.
O tema é de grande actualidade pois vivemos num tempo em que qualquer divergência em relação à narrativa disseminada pelas televisões, que trata os problemas do país como se fossem resultado de personagens absurdas e perversas, é objecto de escárnio ou hostilidade.
Como eu me senti solidário com Hanna..
Este filme devia ser visto por todos aqueles que, em vez de tentar compreender os fenómenos económicos e sociais, se dedicam a construir mitos e fantasmas.
Haverá certamente muitos professores que perecebem a importância do filme pois o cinema estava repleto de jovens, óbviamente pertencentes a turmas universitárias ou pré-universitárias.
Infelizmente passaram quase todo o tempo a conversar e a consultar o correio electrónico nos seus telemóveis.