quarta-feira, março 10, 2010

O Google contra Marx (2)

.

.clicar a imagem para ampliar

Na continuação de um post anterior sobre o mesmo tema, O Google contra Marx (1), voltamos para desenvolver um pouco mais a compreensão do modelo de negócio Google.

À primeira vista o modelo de negócio do Google parece idêntico ao dos media tradicionais; captação de receitas de publicidade atraídas pelas garantias de audiências dadas aos anunciantes, com base na disponibilização, por vezes gratuita, de informação. Mas essa semelhança é ilusória pois o Google não disponibiliza um determinado bloco finito de informação; em vez disso proporciona aos seus utilizadores, que são os destinatários da publicidade, uma ferramenta com a qual podem aceder às mais variadas informações, ao sabor de propósitos pessoais e particulares.

Ao contrário da publicidade dos grandes meios de difusão, como as televisões que também alcançam milhões de espectadores, a publicidade do Google não é igual para todos os destinatários como acontece com um spot televisivo. Cada utilizador do Google recebe publicidade específica de acordo com os interesses e perfil que a sua utilização do Google revela.
Em certo sentido o negócio do Google é mais parecido com qualquer aluguer de ferramentas ou de veículos. Pode-se estabelecer a analogia com um aluguer de automóveis dotados de GPS, sem outro custo para o utilizador que não fosse o de levar o rádio sempre ligado e fazer a condução ao som de anuncios publicitários. O condutor podia portanto levar o automóvel pelas estradas que entendesse pagando para o efeito a gasolina necessária (como paga a energia e os serviços de rede que permitem ao seu computador executar pesquisas no Google).

O negócio descrito atrás nunca seria viável por causa do custo do automóvel comparativamente com as verbas que os anunciantes estariam dispostos a pagar para influenciar as preferências de consumo de uma só família. Ao invés os custos da ferramenta que o Google "aluga", que são enormes, permitem influenciar não uma mas centenas de milhões de famílias e empresas. As "estradas" a que essa ferramenta dá acesso, as informações indexadas pelo Google, foram criadas gratuitamente pelos próprios cidadãos e pelas empresas.

A figura publicada no topo deste post mostra a diferença entre o esquema de valor tradicional e o esquema próprio do Google. No primeiro caso, a partir de capital constante (maquinaria, instalações, matérias primas, etc) e de capital variável (trabalho humano) obtém-se um determinado "valor de uso" que o vendedor cede ao comprador com base no "valor de troca". O esquema típico do Google parte apenas de capital constante (o hardware onde reside o repositório de indexação e o software de armazenamento e pesquisa) já que não há trabalho específicamente envolvido no atendimento das "encomendas" (os próprios anúncios publicados pelo Google são quase sempre comprados em regime de "self-service").

O Google produz "valor de uso" para três tipos de intervenientes:

a. os que acedem à informação com base no repositório de referência do Google
b. os que publicam e difundem informação através da referenciação pelo Google
c. os que pagam para aumentar a probabilidade de ser vistos nos acessos à informação proporcionados pelo sistema de referenciação

É forçoso constatar que os intervenientes do tipo c., uma minoria portanto, pagam o suficiente para manter a gigantesca infraestrutura do Google e garantir à empresa uma invejável rentabilidade.
O grosso do "valor de uso" disponibilizado pelo Google é entregue à sociedade que nada paga por ele. Trata-se de uma situação sui generis pois o "valor de uso" só numa pequena parte é cedido de forma onerosa, o que não encaixa no modelo de análise forjado por Marx.

A extensão do repositório do Google e a sua dimensão geográfica, a intensidade da sua utilização e a variedade de consequências que a sua utilização arrasta são verdadeiramente incomensuráveis. Quando oiço criticar o Google, com base em supostos perigos ou no excesso dos lucros, sou levado a pensar que a maioria de nós nunca pensou no valor proporcionado à sociedade pelas ferramentas que ele nos tem facultado.
Mesmo que involuntáriamente esta actividade empresarial do Google tem uma dimensão social enorme. É difícil, é mesmo impossível, imaginar tudo aquilo que teríamos perdido se o Google não tivesse sido inventado.


.

15 comentários:

Rogério Pereira disse...

"É difícil, é mesmo impossível, imaginar tudo aquilo que teríamos perdido se o Google não tivesse sido inventado."

Tens razão, Fernando. E agora não só é aquilo que teriamos perdido, como aquilo que vamos ganhar, ao que parece, com a reforma agrária. Ainda não sei bem, mas aquilo lá no FarmVille é "só valor"...

Vasco Manquinho disse...

"O esquema típico do Google parte apenas de capital constante (o hardware onde reside o repositório de indexação e o software de armazenamento e pesquisa) já que não há trabalho específicamente envolvido no atendimento das "encomendas" (os próprios anúncios publicados pelo Google são quase sempre comprados em regime de "self-service")."

Parece-me que aqui se parte do pressuposto que o software de armazenamento e pesquisa é estático. Parou no tempo. Isso não é verdade.
Não havendo trabalho no atendimento das "encomendas", existe (e muito) no processo de manutenção e actualização do que parece ser uma infraestrutura estática para quem o utiliza.

F. Penim Redondo disse...

Caro Vasco,

eu trabalhei em produção de software durante mais de 30 anos. Por isso sei perfeitamente que a infraestrutura do Google não é estática.Uma fábrica também tem a sua manutenção mas durante a produção intervém como capital constante. As matérias primas usadas na produção também têm trabalho de fases anteriores incorporado no seu valor mas entram na produção como capital constante.

Quando refiro "capital variável" estou a falar de trabalho no sentido que Marx lhe dava. É o trabalho que ocorre durante a produção, que é proporcional à quantidade produzida e que insufla valor a cada unidade que resulta da produção.

Rogério Pereira disse...

Fernando, imagino que não te tenha agradado o meu comentário um tanto "anarca"... Pensando bem, não o deveria ter feito, pelo simples motivo de não entender a tua tese. Tese que não se compreende, não se deve comentar. Contudo, se quiseres ser mais pedagógico (e indulgente) conta com o meu contributo. Manutenção é também a actividade que prolonga a vida útil dos bens corpóreos e a sua aptidão para o uso. Julgo que, falando de software, isto também se aplica. A minha primeira implementação de SAP R3 (módulo PM Plant Maintenance) pouco tinha a ver com a última, com poucos anos de intervalo. Que aconteceu? Aconteceu trabalho. Trabalho produtivo. Trabalho que acrescenta valor...ou como tu (ou Marx) dizias: que insufla valor a cada unidade produzida.

F. Penim Redondo disse...

Rogério, tu não compreendias a minha tese e eu não percebia o teu comentário. Empatámos 0-0.

Ainda bem que resolveste voltar para dar o teu contributo. O tema não é fácil e a rapaziada costuma fugir destas coisas como o diabo da cruz.

Para todos os que foram fortemente influenciados pelo marxismo, e têm consciência desse facto, a necessidade de perceber as "anomalias" que o tempo vai criando à teoria devia ser algo a encarar de frente.

Sobre o que dizes:

- Em Marx a noção de trabalho produtivo não tem nada a ver com a utilidade ou dignidade do trabalho. É produtivo o trabalho que gera mercadorias e mais valia. Por exemplo uma empregada de limpeza numa empresa que presta serviços de limpeza é "produtiva" se trabalhar para uma companhia de seguros é "não produtiva".
Os empregados que fazem manutenção de instalações e equipamentos não são "produtivos", à luz desta definição, embora o seu trabalho seja importante e mesmo imprescindível. Só são "produtivos" se trabalharem numa empresa cujo objecto de negócio seja precisamente a prestação de serviços de manutenção.

- No acto produtivo, ainda de acordo com Marx, os equipamentos e instalações, são considerados "capital constante" pois não acrescentam valor.
Entram no processo como custo pelo seu valor horário de amortização (valor que inclui as despesas de manutenção).
O trabalho directamente aplicado na criação da mercadoria, pela manipulação das máquinas e materiais, é o "capital variável", o único que cria valor, pois entre por x e sai por x+y.
Como dizia o homem das barbas, o operário trabalha 8 horas mas ao fim de 6 já rendeu o equivalente ao salário e daí para a frente está a trabalhar para a mais valia.

Espero ter tornado um pouco mais clara a minha "tese". No fundo não é tese nenhuma mas o enunciar de mais uma "anomalia".

(Estou a usar o termo anomalia no sentido que lhe dava o Thomas Khun quando explicava a resistência dos paradigmas às transformações do mundo que os põem em causa)

Rogério Pereira disse...

OK, acho que já percebi.Mas confirma o meu raciocínio:

1º O google é um "case" que contraria o tal barbudo, de cabelo comprido.
2º tal acontece porque o google mantém e desenvolve funcionalidades novos jogos, "apenas" com com capital constante
3º dando-me, a mim, o benefício de acesso aos resultados da utilização desse capital constante, e que eu não pago, não houve mais valias para a google
4º de acordo com alguns utilizadores, o Google factura e, aí sim, acontecem mais valias

Tudo certo, até aqui?

F. Penim Redondo disse...

Rogério, o Google é um caso que sai da norma por várias razões que eu tenho tentado listar. Provavelmente voltarei ao assunto.

Não há capital variável, só uma pequena parte do valor de uso produzido é convertido em mercadoria, a "matéria prima" é obtida gratuitamente embora seja o resultado de trabalho humano, etc.

Trata-se de analisar para tentar encontrar um sentido em tudo isto.

Rogério Pereira disse...

Fernando, temo que não possas ir muito longe.

Este modelo de negócio é mais dificil de entender do que algumas das teorias de Marx. Por exemplo: Se a Google for apenas uma marca, com staff mínimo, que faz a gestão das subcontratações, nomeadamente de prestadores de serviços de manutenção (alguns sediados num prédio qualquer da Rua Castlho) então estaremos perante a tal situação do "operário" que trabalha 10/12 horas e que ao fim de 5 já rendeu o trabalho que realizou...

F. Penim Redondo disse...

Rogério, também duvido de que consiga ir muito longe.
Se estiveres interessado em perceber onde radicam as minhas observações sobre esta matéria sugiro que vejas isto:
http://www.dotecome.com/politica/Textos/FR-manifesto.htm

JMC disse...

F.Penim Redondo.

Comento um dos seus comentários e não o post (porque seria mais demorado).

Você parte do princípio de que haveria uma realidade moderna, de que o exemplo seria o tipo de negócio do Google, que contraria a teoria marxista do valor das mercadorias e da génese do lucro.

Parece-me que deveria questionar se a realidade mais antiga, mesmo aquela que o Marx pretendia explicar, é cabalmente explicada pela teoria marxista.

Se não o fizer, corre o risco de se enganar acerca das diferenças entre a realidade moderna e a realidade mais antiga. Que é o que acontece.

De qualquer modo, o que me surpreende é a sua afirmação, na esteira do Marx, de que "o "capital variável", o único que cria valor, pois entra por x e sai por x+y", pelo que pergunto: conhece alguma coisa que tenha a capacidade de fornecer mais do que contém, seja do que for que contenha (valor ou outra característica qualquer)?

Caso não conheça, eventualmente porque não exista, não lhe parece que essa afirmada capacidade do "capital variável", ou da "força de trabalho" em que ele se consubstanciaria, não passa de uma capacidade imaginária atribuída à mercadoria mágica "força de trabalho"?

F. Penim Redondo disse...

JMC, acho que a mente humana tem capacidade para gerar valor.

A ideia que está na base do incrível sucesso económico do Google é uma gritante prova disso.

O que se vai modificando ao longo do tempo é o grau de intervenção, cada vez maior, da inteligência no acto produtivo, tomado este conceito em sentido muito lato.

Bem aparecido. Há muito que não falávamos.

JMC disse...

F.Penim Redondo.

Ao contrário do que possa parecer, sou visitante e leitor assíduo, ainda que comentador muito esporádico. E, de facto, há meses que não botava comentário. Não é sem nostalgia que recordo os tempos do seu fórum, porque foi a partir das conversas lá estabelecidas que elaborei melhor as minhas teses sobre o assunto deste seu post.

Deixei agora comentário a um seu comentário porque julgo dominar suficientemente o assunto para poder formular refutação minimamente fundamentada, enquanto noutros assuntos sei não deter as competências necessárias para um diálogo frutuoso.

Retorquindo à sua resposta. Sim, a mente humana, como componente do corpo humano, produz valor, na medida em que produz trabalho humano. Sem me alongar, o trabalho meramente intelectual, se assim se pode dizer, tem valor, a dimensão do custo da sua produção ou da energia humana consumida para produzi-lo. Se com este trabalho se produz um produto, por exemplo, conhecimento, tal produto tem o valor do custo de produção do trabalho que o originou.

Se o conhecimento é transformado num outro produto (porque o conhecimento é um produto individual e intransmissível), a informação, que por sua vez é apresentado no mercado para ser comprado e vendido, sendo assim transformado em mercadoria, o seu produtor atribui-lhe valor de troca, isto é, um valor do custo de produção da mercadoria alheia que aceita em troca do valor do custo de produção da sua mercadoria. Num mundo de produtores caridosos, que alguns querem fazer crer que existe, o valor de troca das mercadorias representaria o valor do custo da sua produção.

Não é difícil refutar que tal mundo exista, a começar pelo facto de que ninguém é omnisciente ao ponto de conhecer o valor do custo de produção da mercadoria alheia e a terminar no outro facto de que o mercado não regula o valor do custo de produção das mercadorias, mas apenas os seus valores de troca (que são dimensões duma grandeza social, expressando o valor do custo de produção da mercadoria alheia, ao invés do custo de produção do trabalho, que é uma grandeza física).

Quando são apresentadas para a troca as mercadorias estão produzidas (ou, no caso do trabalho, a sua produção está contratada), pelo que o valor do custo da sua produção está determinado; mas até que a troca se efective o valor de troca pode mudar, nomeadamente, em função dos valores de troca de mercadorias concorrentes, da preferência dos consumidores e de outras ocorrências.

É claro que o conhecimento, ou a informação em que ele pode ser transformado, é cada vez mais produzido em maior quantidade. A grande importância do conhecimento e da informação constitui até uma característica do modo de produção capitalista, quer pelo financiamento que lhe dedica, directo ou indirecto, quer pela função que realiza na aquisição de vantagens competitivas, permitindo aos produtores, através da produção de mercadorias inovadoras, escaparem aos efeitos da concorrência no abaixamento dos preços. A concorrência, que é um bem social e um mal para os produtores individuais, encontra na inovação a sua contrapartida. Isto, aliás, é uma das razões principais da falência dos regimes comunistas ou de capitalismo de Estado monopolista.

JMC disse...

(continuação)

Parece-me que você ainda não identificou correctamente a mercadoria que o trabalhador assalariado vende, e, seguindo o Marx, continua persuadido de que ele vende capacidade para produzir trabalho (a famosa, porque mágica, “ força de trabalho”), assim como não fez a distinção entre valor de uso ou da utilidade, a dimensão duma grandeza subjectiva, individual, e que faz com que os produtos possam ser transformados em mercadorias; valor de troca, a dimensão da relação quantitativa entre a mercadoria que cada um cede e a que recebe dos outros; e valor do custo de produção, a dimensão da grandeza física custo de produção da mercadoria universal trabalho humano, que é objectivamente determinável e a partir da qual se pode conhecer o que cada um cede em troca do que recebe.

Quando compreender estas diferenciações compreenderá que a mercadoria vendida pela Google, o suporte ou veículo de acesso à informação que lhe é disponibilizada gratuitamente (a ela e através dela a nós), é produto do trabalho assalariado (e de outras mercadorias que também adquire e emprega), por muito automatizada que seja a produção e a sua manutenção, e que o valor do custo da sua produção é real (aparece sem dúvida na contabilidade da Google, ainda que expressa pelos lucros, pelos salários pagos e por outros custos). Então compreenderá que o valor de troca dessa sua mercadoria, o preço a que se faz pagar para veicular ou suportar a publicidade, não é formado de modo diferente do modo como são formados os valores de troca de outras mercadorias bem mais tradicionais (veja-se o caso dos jornais em papel distribuídos gratuitamente).

F. Penim Redondo disse...

JMC,

eu tenho uma visão um bocado diferente como já sabemos há muito tempo.

Eu acho que o valor de troca é um jogo baseado na percepção que, num dado momento, existe na sociedade acerca do valor de uso de uma determinada mercadoria. Essa percepção é criada por acção humana através do trabalho quer ele seja "físico" quer seja "intelectual".

Mas lamentávelmente estas caixas de comentários não são o local ideal para desenvolver este tipo de debates.

Resignemo-nos portanto com o facto de pensarmos de forma diferente.

JMC disse...

F.Penim Redondo.

É claro que o valor de troca é o resultado de muitos factores, desde a concorrência, à adequação da produção, à necessidade e à preferência dos consumidores, à diferente produtividade, etc. Daí que os lucros sejam diversificados.

O certo é que independentemente do "jogo das percepções", o lucro é uma realidade, e que a sua génese pode ser explicada. E é melhor explicada pela troca desigual entre os capitalistas e os trabalhadores assalariados, do que pela explicação marxista do dom da "força de trabalho" fornecer mais valor do que o seu próprio valor, ou do que por outras ainda mais estapafúrdias.

O problema reside em contentarmo-nos com o "jogo das percepções" em vez de procurarmos a explicação da realidade para além do que ela aparenta ser. Porque em geral fazemos mais coisas do que aquelas que julgamos fazer, as quais parece que não fazemos.

Mas tem razão: este não é o meio adequado para discutir estes assuntos. Resignemo-nos, portanto.