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sábado, dezembro 06, 2025

A Esquerda à procura de nova Utopia

 


A Esquerda à procura de nova Utopia


Já ninguém nega a crise da esquerda, crise que eu lamento profundamente. Os maus resultados eleitorais começaram por atingir o PCP, desde os anos noventa, mas acabaram por estender-se ao BE e ao PS.
Para perceber melhor o que aconteceu decidi experimentar um quadro cronológico dos “modos” de ação dos principais partidos da esquerda e, por razões que explicaremos mais adiante, do Chega.
Os quatro “modos” são o “utópico”, o “pragmático”, o “sindical, e o “memória”. A caracterização dos “modos” está feita mais acima. Se tivesse de usar uma só palavra diria que a “utópico” associo esperança, a “pragmático” ligo segurança, “sindical” relaciono com protesto e “memória” rima com nostalgia.
No quadro apresentado mais acima, uma visão pessoal aberta a contestações, pode ver-se que:

Antes do 25A
PS e PCP eram os únicos partidos relevantes que funcionavam antes do 25 de Abril.
Operavam até essa data essencialmente em “modo utópico” dada a imprevisibilidade quanto à data da queda do regime e à natureza do que se seguiria. Também faziam reivindicações específicas, claro, mas a sua expressão nacional nesse aspeto era muito reduzida.
O PCP ganhou direito ao respeito e admiração da grande maioria dos portugueses pela tenacidade com que enfrentou a ditadura salazarista. Isso levou muitos jovens da minha geração (incluindo eu) a aderir à luta pelo derrube do regime, mas tal só aconteceu porque o PCP, para além da libertação do fascismo, tinha também o seu lado “utópico” de criação de uma sociedade de novo tipo.

O PS
Depois do 25 de Abril o PS, partido de governo, adotou o “modo pragmático” que consistia essencialmente na promessa de promover algo parecido com o que existia nas social-democracias do norte da Europa. Havia um modelo, portanto, que esteve na base de alguns sucessos eleitorais. As maiorias de Cavaco, entre 1985 e 1995, puseram em causa a liderança do PS na execução do modelo social-democrata. A bancarrota de José Sócrates abalou definitivamente essa liderança. Costa, com a sua “Geringonça” de esquerda, e a subsequente inoperância dos “casos e casinhos”, arruinou definitivamente imagem de pragmatismo do PS.
O partido foi remetido para o “modo sindical”, que só rende eleitoralmente em situações muito particulares.

O PCP
Nos pós 25 de Abril o PCP, para quem o “modo sindical” era congénito, dada a sua composição de classe, manteve em paralelo um intenso “modo utópico” até ao desaparecimento da URSS no início dos anos 90.
O lento declínio eleitoral do PCP veio na sequência do Cavaquismo e do desmoronamento da URSS.
Desaparecido o modelo de sociedade alternativa, e sem capacidade para se recriar, o PCP tornou-se essencialmente o mais eficaz dos partidos que praticam o “modo sindical”, recorrendo à sua implantação histórica na Intersindical e nas autarquias. Tal eficácia foi seriamente abalada pela participação na “Geringonça”, que lhe impôs cedências e conivências. O número de sindicalizados e as autarquias com maioria PCP têm vindo a diminuir ano após ano.
A incapacidade para interpretar o impacto das tecnologias do século XXI reduziu fortemente a credibilidade das suas reivindicações e propostas.
O envelhecimento da sua base de apoio, criada nos tempos do seu “modo utópico”, tornou o PCP um partido que atualmente vive em paralelo o “modo sindical” e o “modo memória”. Com forte erosão eleitoral.

O BE
O Bloco de Esquerda, de criação muito mais recente, começou a sua atividade com uma certa aura “utópica”, nomeadamente no plano da preservação ambiental e das “causas fraturantes”. Teve sucesso fulgurante nas camadas urbanas educadas, impulsionado por um acesso desproporcionado aos meios de comunicação. Praticando um vanguardismo por vezes arrogante, e sem implantação no “país real”, acabou por ser vítima da vacuidade das suas propostas e manifestações. A passagem pela “Geringonça” provocou uma certa erosão na sua imagem independente e radical. Está em decadência acelerada pois, ao contrário do PCP, não tem um lastro eleitoral.

O Chega
Deve ser mais do que uma coincidência cronológica o nascimento do Chega na sequência da “Geringonça”. Portanto no ponto mais baixo da credibilidade “utópica” e “sindical” dos partidos que costumavam ser os depositários de descontentamentos mais ou menos difusos.
O Chega apareceu para retomar o “modo utópico” de que certas camadas estavam carentes (omitindo aqui qualquer consideração sobre a bondade ou pertinência de tal utopia).
Os descontentamentos difusos são especialmente atreitos a soluções mágicas e redentoras.
A nova utopia, um mundo puro sem corruptos e sem vizinhos perturbadoramente exóticos, explica aparentemente a misteriosa transferência de votos de alguns partidos de esquerda, no Alentejo e na “cintura industrial”.
No discurso do Chega o “capitalista” é substituído pelo “corrupto” e o “capitalismo” é substituído pelo “sistema”. Novas categorias mais difusas, mais abrangentes e que requerem menos aptidões intelectuais.
A imigração, neste contexto, é o necessário inimigo externo tal como os corruptos são o inimigo interno. Ambos impedindo a pureza do povo para se afirmar e prevalecer como destinatário exclusivo da ação política.
O ar do tempo é favorável ao Chega.
As tecnologias proporcionadas pela nova IA tornam quase impossível a destrinça entre realidade e ficção, terreno em que o partido de Ventura vive como peixe na água.
A política internacional vai dando pistas ao Chega para singrar com a palavra de ordem “Fazer Portugal Grande Outra Vez”.

Para repensar a Esquerda
Os três partidos da esquerda, têm-se mostrado incapazes de reconstruir a sua aura “utópica”, mesmo quando os desenvolvimentos tecnológicos tornam mais credíveis novas relações de produção e novos níveis de democracia direta.
Num mundo em dramática e acelerada transformação a necessidade da utopia sobe em flecha; sempre foi e continua a ser a forma mais eficaz de interessar e motivar as pessoas para a ação política.
Mas esquerda passou ao lado das transformações do “povo votante”, e das novas formas de comunicar. Mais grave foi a sua omissão nos processos de transformação do capitalismo. Enquanto se preocupava com as relações de produção “arcaicas”, em vias de extinção, verificou-se a criação de uma casta de super-ricos digitais, que precisam cada vez menos de viver da exploração dos seus assalariados (basta-lhes explorar os utilizadores/clientes).
Mas não foi só o “modo utópico” que falhou; os partidos de esquerda partilham algumas práticas que tendencialmente vão minando a sua credibilidade enquanto “pragmáticos” e mesmo “sindicais”.
De uma forma genérica pode dizer-se que os partidos de esquerda tendem a responder aos problemas práticos com tiradas constitucionais, princípios abstratos e limitações legais.
No caso das greves ferroviárias na cintura de Lisboa, por exemplo, com graves problemas para centenas de milhares de pessoas, respondem com a imutabilidade da Lei da Greve, mesmo quando ela causa sofrimento aos utentes e não ao patrão.
Outro exemplo: as questões do sistema de saúde, as suas falhas e difícil acessibilidade. Os partidos de esquerda parecem quase sempre mais preocupados com a dicotomia público/privado do que em encontrar soluções viáveis.
Mesmo no que toca aos preceitos da Constituição há uma rigidez que não toma em consideração o carácter excecional do período em que foi concebida; o ambiente insurrecional ainda muito presente, influenciado pela experiência soviética numa lógica de omnipresença e omnipotência do Estado, na sociedade e na economia.
A omnipresença e omnipotência do Estado, na sociedade e na economia, coisa que a história já mostrou o que vale, continua aliás a ser a proposta utópica da esquerda, de forma mais ou menos assumida.
Um exemplo disso é a responsabilização do Estado pelo acesso de todos os cidadãos a uma “habitação digna” sem se perceber como, e com que meios, tal se realizará.
Estas e outras abordagens proclamatórias irrealistas, que omitem a realidade económica, são uma constante fonte de desilusão e desconforto. Como nunca houve clarividência para as atualizar por consenso das forças moderadas não é difícil prever que acabarão, um dia, por ser desfiguradas por alianças maioritárias com a extrema-direita.
O descontrole da imigração e os casos judiciais sem fim, como o da Operação Marquês, constituíram um poderoso combustível para as percepções (corrupção e caos étnico) em que assenta o crescimento do Chega.
Como se tudo o que já foi dito não bastasse há também a dificuldade em substituir os grandes líderes históricos da esquerda por políticos com um mínimo de estatura.
Sem se repensar todas estas questões não é possível uma nova dinâmica vitoriosa da esquerda em Portugal

sexta-feira, agosto 27, 2021

Testa di Moro


Testa di Moro

Já em 1989, em Siracusa, eu ficara apaixonado pelos jarrões em forma de cabeça, esmaltados e quase sempre polícromos. As lojas que se dedicam a esse comércio tinham sido, e voltaram a ser em 2014, locais de deslumbramento.
Vim a saber que às “testas di moro”, que é como se chamam, está associada uma lenda que, dizem, remonta ao domínio muçulmano por volta do ano 1100.
Uma bela rapariga siciliana, de olhos cor de mar, terá então atraído as atenções de um “mouro”, por quem se apaixonou. O romance ficou em perigo quando se soube que o amante deveria regressar à sua terra natal, onde o esperavam a mulher e os filhos.
Desesperada, a moça decapitou o “mouro”, enquanto ele dormia, e usou a sua cabeça para plantar uma flor no seu terraço. Todos os dias a regava com as suas próprias lágrimas e a flor cresceu bela e desmesuradamente.
Os vizinhos, espantados com tal sucesso, resolveram imitá-lo fazendo, também eles, vasos em forma de cabeça. Assim terá nascido esta tradição siciliana.
Percorridas várias lojas, para poder fazer uma escolha fundamentada, lá tomei a difícil decisão de escolher a que vos mostro.

sexta-feira, agosto 06, 2021

Um dia olhei o espelho e vi um velho


 

Um dia olhei o espelho e vi um velho. Com surpresa mas sem mágoa. Desde criança que invejo os velhos, como baús desconjuntados a transbordar memórias.

Nós somos provavelmente a primeira geração que teve a possibilidade prática de registar, em fotografia, o que viveu do nascimento até à morte. Ao longo de milénios o passado dos velhos só podia ser "visto" em longos monólogos ou, melhor ainda, intuído num inesperado brilho dos seus olhos cansados.
Os velhos são a infinita liberdade de quem não espera nada, de quem espera o nada.

sábado, novembro 14, 2020

O verdadeiro partido do TAXI


 

O verdadeiro partido do TAXI
Durante muito tempo o CDS, por ter poucos deputados, foi considerado o "partido do taxi".
Ora o verdadeiro "partido do taxi" é o Chega. Não só por ter poucos deputados mas essencialmente por dizer na AR coisas que só costumávamos ouvir nos taxis. Coisas do tipo "isto só lá vai com dois salazares".
Enquanto foi só o senhor Antunes do talho a dizer que, na sua modesta opinião, os pedófilos deviam "ficar sem os tintins" nós achámos a coisa um pouco bizarra e não demos grande importância.
Quando a D. Justina do quarto andar nos encontrou na escada e desatou a vociferar contra a "deputada gaga", que tinha vindo da Guiné (onde estava tão bem) para lançar a confusão, encolhemos os ombros e levámos à conta da solidão em que ela vivia.
Quando descobrimos, intrigados, que o senhor Rocha da mercearia tinha um sapo à porta do estabelecimento julgámos que fosse uma campanha a favor de alguma espécie em perigo de extinção.
Mas quando o senhor Antunes, a D. Justina e o merceeiro Rocha, e milhares como eles, elegeram o Ventura para a Assembleia da República, houve um "sobressalto cívico".
Agora anda toda a gente a falar no "cordão sanitário".
Podemos, em caso de necessidade, meter o Ventura num táxi e pagar ao motorista para o levar até aos confins de Vladivostok.
Já o senhor Antunes, a D. Justina e o Rocha da mercearia, e os muitos milhares que pensam como eles é que é uma chatice.
Talvez possamos encher os estádios todos do país, agora que o futebol está sem clientes. Mas acho pouco democrático.

domingo, abril 19, 2020

Parábola da árvore chamada "Estado"




Parábola da árvore chamada "Estado"
(fotografia de Louis Dallara)

Era uma vez um campo abandonado.
Como acontece em casos que tais as ervas proliferavam numa alegre sinfonia de verdes.
E viviam muito felizes ao sabor das estações; na Primavera deitavam as suas flores, quando as tinham; no Verão amadureciam e mirravam com a canícula, o que no Outono dava ao campo um ar despido e raso; no Inverno suportavam as geadas e as inundações pluviais.
Eram todas quase do mesmo tamanho, raramente excediam dois palmos de altura.
Até que um dia houve uma, mais introspectiva, que lhes disse:
"Amigas, a nossa vida seria muito mais agradável se pudéssemos evitar os abusos do sol e do vento.
Precisávamos de ter um obstáculo que impedisse esses dois flagelos."
Toda a assembleia, que por natureza estava sempre reunida, concordou com o reparo.
E houve alguém que lançou uma ideia:
"Se tivéssemos uma árvore entre nós ficaríamos protegidos. Vamos escolher uma das ervas e ajudá-la a crescer muito para além da nossa altura"
Assim fizeram, durante anos a erva escolhida foi alvo de todas as protecções e substâncias favoráveis.
Deu de crescer que era uma lindeza. Ramo após ramo ergueu-se sobre as suas amigas.
Baptizaram-na "Árvore do Estado".
Anos a fio protegeu a comunidade vegetal com a sua sombra no pino do estio, e com a sua copa quando se armava vendaval e desabava o céu em dilúvio.
Viveram tempos de prosperidade e harmonia.
Mas, como sempre na vida, as coisas lentamente começaram a mudar.
A árvore nunca mais parou de crescer.
Eram pernadas e mais pernadas, folhagem e mais folhagem, até que começou a ajoujar com o peso da estrutura.
Por baixo deixou de ser ver o sol, quer de Verão quer de Inverno.
As raízes estendiam-se num enorme raio e drenavam a humidade e os alimentos de que as pobres ervas necessitavam para subsistir.
Como se tal não bastasse no Outono as folhas caídas da Árvore Estado aterravam sobre as ervas criando uma camada, cada vez mais espessa, que as subterrava.
A pouco e pouco as ervas foram desaparecendo.
A Árvore do Estado ficou só, no meio do campo
Já ninguém percebia o sentido da sua existência.

terça-feira, fevereiro 18, 2020

Chegou o tempo da geração Wannabe




Chegou o tempo da geração Wannabe

A geração Wannabe nasceu apenas demasiado tarde, quando as grandes narrativas e as grandes utopias já eram anacronismos.

Vive, por causa desse atraso fatal, no frenesim de regressar ao passado e ao mundo dos Beatles e do PREC.

Não teve oportunidade de combater o fascismo? então desata a gritar que vem aí o lobo, mal desponta um ditador anedótico na TV Correio da Manhã.

Não estava lá quando se lutou contra a guerra colonial? então pretende ver racismo, e racistas, em todo o lado e tenta expurgar os livros de história

Não conseguiu participar nas grandes lutas operárias e nas nacionalizações?
então faz discursos inflamados contra qualquer actividade privada, por mais ridícula que seja.

Falhou o momento das grandes utopias? então empenha-se nas "formas de luta" arcaicas como manifestações e abaixo assinados, apesar de os patrões antigos há muito se terem dissimulado nos refegos da internet e da globalização.

Estas e outras infantilidades têm proliferado, com a conivência de muitos cuja experiência de vida justificaria outro critério.

Como estão obcecados em tentar viver a vida dos seus pais descuram totalmente uma visão, nova, do futuro. Refugiam-se em temas fracturantes que, as mais das vezes, não pretendem senão irritar os preconceitos de um povo que "não está à sua altura".

A sua aparente modernidade deriva apenas dos gadgets que exibem, numa incoerência inadmissível, e cedência aos potentados da tecnologia.

À falta de grandes ideais, de grandes dramas e tragédias, pintam com exagero qualquer incidente minúsculo e perseguem com fatwas qualquer deslize de linguagem.

A pouco e pouco este radicalismo oco vai ocupando todo o espaço, meios de comunicação e mesmo os centros de poder, com danos provávelmente irreversíveis.

De absurdo em absurdo criarão tantos anticorpos que, esses sim, serão a antecâmara de novos totalitarismos.

sábado, junho 08, 2019

Crónicas de um Tenente





Lançamento das "Crónicas de um Tenente"
Na mesa contei com a presença dos amigos (da esquerda para a direita), Daniel Maymone, Osvaldo Cordeiro, Mário de Carvalho e Fernando Mão de Ferro.





sábado, maio 18, 2019

CONFISSÕES DE UM COLECCIONADOR



CONFISSÕES DE UM COLECCIONADOR

A colecção de câmaras fotográficas antigas é uma espécie de lar da terceira idade, uma Babel de olhares desmemoriados.
As máquinas foram chegando dos quatro cantos do mundo, com seus achaques, deixando para trás, sabe-se lá onde, as suas memórias de celulóide.
Umas têm as lentes toldadas pelas cataratas do vidro, outras disparam devagar na dolorosa artrite dos seus obturadores e outras ainda sofrem da incontinência luminosa causada pelos orifícios nos foles.

Mas todos aqueles olhos que tanto viram ao longo do século XX, nos mais desvairados locais e situações, parecem agora pasmados pelo vazio dos seus interiores negros de onde os homens, invejosos e cansados das imagens fátuas do cérebro, arrancaram as películas em que o tempo se suspendera.
Este Alzheimer fotográfico do já visto só pode ser revertido fotografando outra vez.

A cada nova velha máquina que desperto do seu sono, qual bela adormecida, sinto-me um príncipe encantado.
Excita-me imaginar o que elas sentem quando abrem os seus olhos há tanto tempo cerrados. Quase tudo o que eu lhes possa mostrar, quando as disparo, deve ser para elas uma espantosa novidade.
Umas, posso imaginá-las na Chicago elegante dos anos vinte e tento perceber o seu choque quando abrem a lente para a arquitectura vanguardista da Expo.
Outras, podem muito bem ter servido para um fazendeiro boer fotografar as suas orgulhosas plantações, ou para um nababo do Pundjab eternizar o palácio e os seus adornos femininos; mas agora piscam o seu obturador em remotas aldeias transmontanas.
Elas viajaram no tempo e no espaço para, nos meus braços, sair da sua prolongada letargia.

É ao fotógrafo que cabe levar as máquinas a olhar e registar de novo, num reviver de mecanismos e gestos. Reter as suas memórias num enrolar de filme e depois pô-las frente a frente com as suas próprias obras.
Ao fazer isso, o fotógrafo reinventa a sua própria biografia. Repetindo os modos que há muito esquecera ou descobrindo os gestos que nunca tinha feito.

O visor à altura do olho ou da cintura, o avanço da película com alavanca ou com rotação da lente, a focagem por estimativa ou por sobreposição, a medição da luz pelo selénio ou pelo cádmio, o empunhar da câmara com dois dedos ou com as duas mãos, o disparo espontâneo ou encenado, um olho que pisca ou então um olho que arregala, são determinantes do que se pode fotografar e de como se fotografa.

Os desenvolvimentos tecnológicos e ergonómicos que percorreram o século XX não constituem apenas uma parada de tentativas e de abandonos, de sucessos e de fracassos; cada nova realização da técnica e do design transformou o gesto de fotografar de forma irremediável.
Ao reconstituir essa caminhada desvendamos as razões que tornaram incontornável o acto de fotografar.

domingo, março 17, 2019

Já fui




JÁ FUI
Já fui criança, adolescente, adulto, maduro, cota e velho.
Já fui caixeiro, e fiz inquéritos a domicílio.
Já fui empresário, tecnólogo, dos sistemas engenheiro,
analista, programador e sindicalista.
Já fui poeta, marinheiro, combatente, tenente e fuzileiro.
Fui repetente, caminheiro, doente, paciente, mal da vista,
atleta, maratonista.
Já fui director, articulista, melómano, coralista, professor,
cineclubista, fotógrafo e artista.
Já fui amigo, inimigo, traído, embarretado e vivaço.
Já fui pobre, remediado, e abastado.
Já fui empregado, patrão, cliente, fornecedor, accionista,
reformado e distribuidor.
Já fui clandestino, fanático, militante, orador e talvez Irritante.
Já fui prisioneiro, conspirador, clubista, por mundo distante.
Já fui viajante, turista e navegante.
Já fui escritor, filatelista e coleccionador.
Já fui vizinho, proprietário, senhorio, condómino e arrendatário.
Já fui filho e neto, irmão e primo, tio e sobrinho, padrinho e afilhado.
Já fui marido, namorado e apaixonado.
Já fui avô.
Ainda me falta ser defunto, mas o tempo
resolverá também esse assunto.
Poderei então dizer, em todos os sentidos, e definitivamente
JÁ FUI

segunda-feira, novembro 05, 2018

Kubrik e a Web saloiice



Kubrik e a Web saloiice

Fui ontem ao CCB ver novamente "2001 Odisseia no Espaço", o filme do Kubrik.
Quando ele foi estreado em Portugal eu estava na guerra, na Guiné, por isso só pude vê-lo mais tarde, quando em 1970 entrei para a IBM.
As pessoas de hoje devem ter dificuldade em imaginar o impacto do filme naquela época, ao mostrar um computador que conversava com os astronautas e que acaba por "tomar o freio nos dentes".
Para se ter uma ideia desse impacto basta dizer que na IBM em Lisboa, na maior empresa do ramo das TIC, os computadores com que eu trabalhava eram alimentados com cartões perfurados, faziam (lentamente) uma tarefa de cada vez e comunicavam com o operador escrevendo na impressora (não havia qualquer terminal com écran).
O filme era assumidamente especulativo e, pelo que li, científicamente credível.
Quis o acaso que esta nova projecção do filme ontem no CCB coincidisse com o Web Summit, que os nossos tecnológicamente iletrados governantes cavalgam como "a última Coca-Cola no deserto".
Será que fazem ideia do número de coisas do género, muito em voga nos anos 80 e 90 do século passado, que já aconteceram por esse mundo fora?
Eu próprio frequentei alguns em Berlin, Nova York , São Paulo e São Francisco (por exemplo), o que era aliás comum para todas as pessoas profissionalmente envolvidas nas questões da computação.
A memória é curta embora a dos computadores não pare de embaratecer e expandir-se.
Algumas das buzzwords actuais têm barbas. Há décadas que se anuncia para breve a explosão da "inteligência artificial" e dos robots em casa a limpar o pó. Hoje a IA voltou a estar na moda embora, em muitos casos, não passe da mera exploração de gigantescos bancos de dados.
O mal destas coisas é o sensacionalismo com que são apresentadas não só pelos jornais, o que seria compreensível, mas até por pessoas com cargos importantes nas empresas de tecnologia e na política.
Fogem, uns e outros, do debate sério e fundamentado que nos faça compreender as consequências laborais e sociais da revolução tecnológica iniciada com a invenção da representação binária da informação.
Essa raiz digital da gigantesca árvore tecnológica que hoje presenciamos não é convenientemente explicada nas escolas, para que se perceba de onde surgiu tudo o que hoje nos maravilha.
Uma das coisas que mais me divertiu no filme do Kubrik foi ver como os objectos de uso comum em 2001 era imaginados em 1968.
Lá estava a video-chamada, mas não ao nível do telemóvel como hoje temos. A máquina fotográfica usada numa das cenas não tinha nada a ver com as que usamos desde o princípio do século XXI.
Isso não é de espantar num filme de ficção. A verdade é que ninguém previu alguns dos desenvolvimentos mais marcantes da nossa época; as redes sociais, o mapeamento do mundo conjugado com GPS e até o advento da maior fonte de automação actual os "utilizadores/funcionários". Quase todos nós acabamos por preencher formulários on-line para abastecer os bancos de dados das grandes corporações privadas e organismos públicos.

sábado, setembro 15, 2018

Em defesa das selfies





Em defesa das selfies
Ao longo de milénios os seres humanos viveram sob o jugo de uma impossibilidade; mostrar aos outros aquilo que tinham visto. Claro que podiam fazer uns rabiscos, como nas pinturas rupestres, ou então fazer longas descrições orais, ou escritas, que ficariam sempre a léguas do original.
Em meados do século dezanove, apenas há 170 anos, a fotografia irrompeu como uma esperança. Finalmente podia pegar-se numa folha de papel e mostrar ao vizinho do lado a praia do último verão.
Mas o processo era complicado e oneroso. E de qualquer forma a exibição da imagem abrangia sempre um número muito pequeno de pessoas.
A representação digital das imagens, que em termos práticos não terá mais do que 30 anos, acelerou sem dúvida a produção de réplicas. Uma vez "scanadas" as fotografias obtidas em película podiam ser replicadas sem esforço de maior.
O problema é que ainda há 20 anos a transmissão electrónica das imagens, em rede, só era exequível para imagens de baixa resolução e com tamanhos muito limitados.
Todos nos lembramos daqueles "sites", um pouco mais carregados de fotografias, que demoravam dez minutos a abrir.
Nessa altura surgiram as câmaras digitais que dispensavam o processo de scanning, o que era muito mais prático mas que obrigava à tarefa de descarregar as fotos da câmara para o computador.
As redes evoluíram e tornaram-se mais rápidas. Os telemóveis foram dotados de câmaras e, em anos recentes, foi finalmente possível captar uma imagem e divulgá-la na rede instantâneamente.
Se a história da humanidade fosse o equivalente de 100 anos, esta fase em que estamos corresponderia aos últimos 10 segundos.
Digam lá se não é caso para ficar eufórico e passar a vida a dizer "vejam onde eu estou", "vejam quem me está a dar beijinhos" e outras infantilidades.

segunda-feira, maio 14, 2018

Oficial de serviço




Oficial de serviço

O tenente estava de oficial de serviço naquele dia.
Deixou o quarto que partilhava com dois colegas, ao fundo da parada, e caminhou pela noite enluarada na direcção do gabinete. Estava taciturno, colonizado pelas recordações da fugaz lua-de-mel, que antecedera o embarque para a Guiné.
O asfalto da parada fervilhava de minusculos sapos. Ele desviava os passos para evitar a horrível sensação de esmagar algum debaixo da sola. Uma gincana.
Então resolveu apanhar do chão alguns daqueles batráquios suicidas que pulavam em seu redor. Nos duzentos metros da parada, sem esforço de maior, recolheu uns sete ou oito.
Comichavam nas palmas das mãos e nos bolsos onde alguns tinham ido parar. Foi precisa uma certa habilidade para receber as indicações do oficial de serviço cessante, com a bicharada aos pulos. Mas o outro queria era safar-se dali o mais depressa possível.
Tomou posse do espaço. O gabinete tinha uma secretária metálica, de cinzento indefinível, e uma pequena estante de vidros de correr. Uma porta, por trás, dava para um cubículo com uma cama precária onde, altas horas, se não houvesse bronca, se podia dormitar.
Os sapos destinavam-se a amenizar as largas horas de pasmaceira que o tenente antecipava. Sob a luz mortiça do tecto, algum resto de jornal retardado costumava ser a companhia. Coisa deprimente.
Foi tirando os sapos dos bolsos e alinhou-os numa das extremidades do tampo da secretária. Não era nada fácil dar o sinal de partida para a corrida pois alguns sapos antecipavam-se e desatavam aos pinotes antes de tempo. Outros então, só com piparotes no traseiro iniciavam a participação.
Mas havia uma dificuldade adicional. Perante a inexistência de pistas individuais os sapos cruzavam-se desordenadamente e, em vez de caminhar para o outro extremo do tampo, precipitavam-se pela borda fora estatelando-se no chão.
Após várias tentativas, que ajudaram a passar a primeira das doze horas do encargo, o tenente fartou-se de aturar os sapos. Pegou na trupe, conforme pôde, e despejou-a no ajardinado adjacente ao gabinete. E ficou cara a cara com o tempo, e a chatice, que ainda faltava.
Voltou para a secretária e lamentou não ter trazido o livro que andava a ler. Embrenhou-se nos pensamentos. A sua mulher, cuja vinda tanto ansiava, mandara dizer que estavam completos os últimos exames da licenciatura. Tinha tido 18 valores a “História de não sei quê”, pois sempre fora boa aluna. Acabaria no liceu de Bissau a ensinar aos miúdos guineenses as glórias do Afonso Henriques.
Estava ele nesta modorra quando assomou à porta do gabinte o cabo Joel, atarracado e de boné sempre tombado nos incertos cabelos. O tenente não se pode dizer que simpatizasse muito com ele.
Com a sua voz rangida disparou: “Prenda-me senhor tenente”. O tenente, siderado, não sabia muito bem o que responder. Engoliu em seco duas vezes e depois disse baixinho “Põe-te a andar antes que eu me chateie”.
E o Joel insistiu: “Prenda-me, prenda-me senhor tenente”. O tenente levantou-se devagarinho, apontou para a porta do gabinete e gritou “Se não te pões a andar imediatamente chamo a guarda e levas um enxugo de porrada” e acrescentou alguns impropérios cuja reprodução a delicadeza não recomenda.
O outro lá se dirigiu para a porta, contra-feito, a resmungar, e desapareceu no escuro. O tenente voltou a sentar-se ainda confundido com a cena inédita que tinha presenciado. Um tipo aqui, lixado da cabeça, e leva com um anormal daqueles. Só espero nunca chegar ao estado em que ele está.
Não lhe saía da cabeça e e fez play-back da cena várias vezes. A certa altura apercebeu-se de um pormenor que não tinha relevado antes. O Joel, o tal chato, tinha entrado no gabinete com os bolsos atafulhados dabe-se lá de quê. Os bolsos dos calções brancos da farda entumesciam de uma forma inusitada. Só a irritação tinha impedido o tenente de lhe perguntar que raio era aquilo.
E o tempo voltou a rastejar como de costume naquele gabinete. E muita sorte tinha o tenente por se estar na estação seca. Ao menos não se tinha que aturar os mosquitos.
Com as coisas neste ponto morto, tocou o telefone. Mau, mau, querem ver?
O tenente pegou no auscultador como se tivesse peçonha e começou, mesmo antes de o levar à orelha, a ouvir uma gritaria do outro lado. “Senhor tenente! venha depressa! ao café Império! Está aqui um fuzo, na esplanada, a tirar granadas de mão dos bolsos e a pôr em cima da mesa”.
Raios parta, temos chatice. Mandou chamar o sargento da guarda e preparar a carrinha “creme nívea”. Pôs a pistola à citura, reuniu meia dúzia de homens estremunhados, e lá partiram avenida acima para o café Império.
Os clientes estavam espalhados pelo passeio, em pequenos grupos, e gesticulavam. O gerente saíu ao encontro da carrinha da guarda, de avental, e berrou: “Foi-se embora meu tenente! fugiu por ali!” e apontava para lá do Palácio do Governador, para a zona das vivendas finas onde se alojavam altas patentes e estados maiores.
O tenente deu ordens para arrancar, torneando a praça, e patrulharam demoradamente toda a zona das vivendas. A busca parecia destinada ao fracasso.
A certa altura, já numa avenida onde as vivendas terminavam e começavam as palhotas avistaram ao longe o Joel, ou o diabo por ele. O tenente gritou com o motorista mas, quando alcançaram, não conseguiram mais do que ver o Joel, todo nu, com a farda enrolada debaixo do braço, atravessar a avenida a correr e meter-se, tal e qual, pelo escuro da tabanca.
E quem é que se atrevia a entrar por ali dentro atrás dele?
O tenente deu ordem de retirada. No livro de ocorrências escreveu "um fuzileiro não identificado causou burburinho na esplanada do café Império e depois fugiu antes que a guarda chegasse".
Nunca se chegou a saber quando, e em que preparos, o Joel regressou à unidade.