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quarta-feira, julho 05, 2023

Viagem a Itália


  
 Viagem a Itália

Em Junho 2023 fiz a minha sétima viagem a Itália. A primeira foi em 1976, durante um mês, de automóvel. A segunda durou dois meses, em 1979, em trabalho. Seguiram-se outras visitas em 1991, 1992, 1998 e 2005.
Voltei agora por causa de uma neta, a quem queria mostrar por onde começar a folhear aquele enorme livro.

Desenrasco-me bem naquele país, e foi assim desde o primeiro dia, por ter visto muitos filmes italianos na minha juventude; o neorealismo, os grandes cómicos, e os "Antonionis" todos.

"Questa volta", pela primeira vez, parti de Portugal já com várias coisas reservadas (e em alguns casos pagas) pela internet. Aluguei carro, comprei bilhetes de combóio e de barco, reservei entradas em monumentos e, claro, reservei alojamentos.
Como já sou velho não tenho tanta paciência para aventuras e incertezas.
Há 47 anos andei por lá um mês sem saber onde dormiria na noite seguinte, sem cartões de crédito e sem telemóveis.

Resolvi entrar por Bolonha, ao centro, de onde podia dar um salto a Veneza, confortávelmente, de combóio. E depois partir de carro para sudoeste ao encontro de Florença, Pisa e Luca ou, mais para sul, Siena e San Gimignano. Em La Spezia fiz um pequeno cruzeiro para ver, pela primeira vez, o colorido das Cinque Terre debruçadas sobre o mar da Ligúria.

Já conhecia quase todos os lugares por onde passei excepto:
- La Spezia, cidade portuária no Mediterrâneo, sem comentários
- As "Cinque Terre", antigas aldeias de pescadores, agora transformadas em coqueluche turística; ruas estreitas apinhadas, praias escassas e com "areia de cascalho". Abaixo das expectativas criadas pelos folhetos turísticos. Salva-se a paisagem.
- Lucca. Esta excedeu as expectativas pela beleza das suas igrejas e pela encantadora praça oval que foi construída sobre os restos de um anfiteatro romano. É pena deixarem lá entrar camionetas de reabastecimento das lojas.

Mas também houve revelações nas cidades já conhecidas:
Bolonha 
- O museu onde podemos, através de um dispositivo de "realidade virtual", visitar a cidade no tempo do império romano, na idade média ou no século XVIII.
- A basílica de S. Stefano, um encantador complexo de sete igrejas amalgamadas, cujo perímetro foi crescendo ao longo de muitos séculos.
Siena 
- Tive finalmente a oportunidade de ver desfilar na Piazza del Campo as bandeiras das "contrade", uma espécie de confrarias dos nascidos em cada uma das 17 freguesias da cidade
San Gimignano
- Voltei a maravilhar-me com as suas torres medievais mas, desta vez, descobri os maravilhosos frescos do seu duomo. Fabuloso.
Pisa
- Subi, pela primeira vez, ao topo da famosa torre inclinada para mostrar à minha neta que ainda não estou arrumado.
Veneza
- Desta vez fui de combóio, a partir de Bolonha. Saí do combóio, atravessei uma pequena praça, tomei o vaporetto para a Piazza San Marco. Prático, e cómodo.

Em geral tive a sensação de menores multidões de turistas, talvez por ser ainda Junho.
O serviço nos restaurantes, e não só, pareceu-me descuidado e um pouco caótico.
Somos também surpreendidos por coisas um tanto arcaicas como lançar moedas numa gaveta para pagar a autoestrada. Ou então ter que indicar a matrícula do automóvel quando se tira um talão de estacionamento numa máquina de rua.

Mas a quantidade e qualidade histórica e estética é esmagadora. 
E ao charme do país é impossível resistir. 


sábado, junho 17, 2023

Impressões do Japão


Impressões do Japão
Passei dez dias no Japão em Maio 2023. O Japão nunca tinha sido uma prioridade. A China, por duas vezes, a Índia e o Vietname tinham vindo primeiro.
Os filmes clássicos, bem ou mal, tinham criado a sensação de uma sociedade demasiado codificada, marcada por uma lógica feudal que perdurou demasiado tempo.
Por outro lado é impossível não ver o Japão à luz da China, o primo muito mais velho, muito maior, de onde o Japão recebeu a escrita, a cultura do arroz, os modelos dos templos e dos trajes, e a influência religiosa budista.
Ao ler agora sobre as tentativas de invasão do Japão pelos chineses descobri finalmente a origem do termo Kamikaze, tristemente célebre durante a segunda guerra mundial, que eu só conhecia como designação dos pilotos japoneses suicidas. Quando no Séc. XIII Kublai Khan, imperador mongol da China, tentou conquistar o Japão, a sua enorme frota foi destruída por um tufão providencial a que os japoneses resolveram chamar Kamikaze (vento divino).
Também as limitações físicas me parece terem muita influência naquilo que o Japão é; a insularidade, a predominância do relevo limitativo da agricultura e da urbanização, a frequência dos sismos, dos tufões e da actividade vulcânica, tudo isso me pareceu marcar a forma de viver dos japoneses.
Na minha viagem tive permanências em três grandes cidades; Osaka, Quioto e Tóquio. Nos percursos entre elas passei por zonas “rurais”, tradicionais e turísticas, com destaque para o Monte Fuji.As cidades são muito densas e intensas; densas no construído e intensas no comércio ou, melhor dizendo, na promoção de produtos, serviços e divertimentos. Os templos e palácios antigos (as mais das vezes reconstruídos) são as bolsas de calma e de natureza.
Tal como na China vários factores limitam muito a existência de monumentos e sinais construídos do passado: a construção em madeira (que se degrada e arde), as catástrofes naturais, a guerra e os bombardeamentos. Grande parte dos magníficos templos são reconstruções do pós-guerra. Não é fácil encontrar nas cidades bairros que sejam o equivalente de Alfama ou mesmo do Bairro Alto. Quem vai de uma cidade como Lisboa sente a falta de "pedras velhas" na malha das cidades, de vestígios de vidas antigas de centenas de anos.
Em contrapartida não são visíveis nas grandes cidades os habituais “sem-abrigo”.
Toda a gente parece deslocar-se com um propósito; vêm-se muitos estudantes fardados e os adultos que aparentemente se dirigem para o trabalho também trajam de forma bastante padronizada.Os transportes são excelentes e não se vêem trotinettes ou coisas desse género (as bicicletas não abundam). São muito comuns os pisos com guias para os cegos. Não vi engarrafamentos.
Andei no “comboio bala” que, tal como tudo o resto, obedece a um rigoroso horário. As grandes estações ferroviárias centrais fazem corar de vergonha o nosso pobre aeroporto.
O Metro em Tóquio,por exemplo, tem uma cobertura excelente da imensa cidade e os comboios sucedem-se a intervalos muito curtos. Também fui empurrado para dentro de uma carruagem apinhada mas tal só acontece, julgo, em algumas estações centrais nas horas de ponta.
Para além do Metro também existe em Tóquio um comboio circular de superfície, que nos permite ao fim de uma hora regressar ao ponto de partida.Conjugando um passe diário de Metro e outro do comboio circular, que no conjunto me custaram menos de dez euros, visitei inúmeros locais saltando de uma rede para a outra ao sabor das minhas necessidades.
Algumas coisas que me perturbaram no Japão:
- A inacreditável televisão, com publicidade por baixo, ao lado e por cima dos conteúdos. E vi também uma "pimbalhada" ridícula, mesmo não percebendo a língua.
- Sermos perseguidos por "vozinhas" nos elevadores, carruagens, escadas rolantes, etc ainda por cima sem as percebermos
- Ter a sensação de que o pequeno comércio de rua já é quase só "lojas de conveniência" e incontáveis "máquinas de vending"
- Ver na rua mais pares de jovens raparigas do que pares de namorados
- Ter comido um pequeno almoço igual nos seis hotéis, de cidades diferentes, por onde passei
- Encontrar por todo o lado a "bonecada" da BD e dos filmes de animação. Desde a publicidade gigantesca até às miniaturas penduradas das mochilas (mesmo em adultos). Posso estar, por ignorância, a cometer uma grande injustiça mas fiquei convencido de uma certa infantilização e escapismo.
- Ter dificuldade em contactar os japoneses, e perceber melhor o que pensam e sentem, por haver muito poucos a falar um inglês que permita uma conversa.
O que mais gostei:
- Comer sushi rodeado de japoneses
- As paisagens do Monte Fuji
- O antigo mercado do peixe Tsukiji, transformado em zona de restaurantes de peixe e mariscos
- Que as moças aluguem fatos tradicionais para envergar durante a visita aos monumentos
- A rua Takeshita, em Tóquio, pelo seu ar e trajar caótico.
- Alguma arquitectura moderna ainda que não seja comparável com a China
- O bairro Dotombori, em Osaka, onde se pode comer petiscos na rua durante os passeios nocturnos, iluminados a neon
- Os maravilhosos jardins dos templos e palácios
- A velhotas, muito velhinhas, muito pequeninas, muito magrinhas mas com o ar de formigas imparáveis.
- A incrível boa vontade dos japoneses para nos ajudarem mesmo quando não percebem uma palavra do que dizemos

sexta-feira, agosto 27, 2021

Testa di Moro


Testa di Moro

Já em 1989, em Siracusa, eu ficara apaixonado pelos jarrões em forma de cabeça, esmaltados e quase sempre polícromos. As lojas que se dedicam a esse comércio tinham sido, e voltaram a ser em 2014, locais de deslumbramento.
Vim a saber que às “testas di moro”, que é como se chamam, está associada uma lenda que, dizem, remonta ao domínio muçulmano por volta do ano 1100.
Uma bela rapariga siciliana, de olhos cor de mar, terá então atraído as atenções de um “mouro”, por quem se apaixonou. O romance ficou em perigo quando se soube que o amante deveria regressar à sua terra natal, onde o esperavam a mulher e os filhos.
Desesperada, a moça decapitou o “mouro”, enquanto ele dormia, e usou a sua cabeça para plantar uma flor no seu terraço. Todos os dias a regava com as suas próprias lágrimas e a flor cresceu bela e desmesuradamente.
Os vizinhos, espantados com tal sucesso, resolveram imitá-lo fazendo, também eles, vasos em forma de cabeça. Assim terá nascido esta tradição siciliana.
Percorridas várias lojas, para poder fazer uma escolha fundamentada, lá tomei a difícil decisão de escolher a que vos mostro.

sábado, julho 08, 2017

1964


1964
A primeira vez que vi Paris, com 19 anos.
Imaginem o que era um puto daquela idade sair do Portugal salazarento e chegar a Paris. 
Ver casais a beijarem-se na rua, ver os filmes proibidos em Lisboa e ir ao Folies Bergére e ao Pigalle


segunda-feira, abril 11, 2016

NOUDAR


NOUDAR - Um lugar maravilhoso
Castelo do séc. XIV e Parque de Natureza, perto de Barrancos, constituem uma verdadeira jóia que só agora descobri.






quarta-feira, dezembro 02, 2015

1982, Budapeste.


1982, Budapeste.
Eu, o Virgílio Vargas, o Albino e o Grenha.
A tirar a fotografia deve ter estado o Silva Graça, o outro compincha do grupo que não figura na chapa.
A Convenção da IBM foi em Hamburgo mas este grupo fez o percurso Lisboa, Viena, Budapeste, Viena, Hamburgo, Londres, Lisboa.
Tivemos uma estadia memorável no Hilton da colina de Buda. Ainda conservo uma pequena peça de cristal gamada de um candelabro no corredor.
O Grenha era quem conhecia melhor a cidade embora eu já lá tivesse estado em 1979. Grandes farras e grandes violinos.

quarta-feira, janeiro 21, 2015

Finalmente cidadãos do mundo



Finalmente cidadãos do mundo
raramente tomamos consciência, e valorizamos, a possibilidade recente de, durante uma vida humana, poder viajar aos quatro cantos do planeta.
Ir a Dublin e Abul Simbel, Cabo Horn e deserto do Sahara, muralha da China e Grand Canyon, Machu Pichu e fiordes da Noruega, dunas de Genipabu e Hymalaia, Varanasi e Mindelo, lago Baikal na Sibéria rio Cacheu na Guiné, etc, etc, numa única vida.
Há poucas décadas nem os mais ricos poderiam fazê-lo.

segunda-feira, outubro 06, 2014

Taormina 1989-2014



Taormina 1989-2014
25 anos depois da primeira visita tive agora a oportunidade de voltar a Taormina, na Sicília, mais concretamente ao teatro grego que fica no alto da colina.
Está tudo muito diferente; há 25 anos havia muito menos turistas talvez por ter ido em Abril em vez de Setembro.
Em 1989 fotografara com a minha Pentax Spotmatic, usando um rolo de slides. Desta vez fiz uma fotografia digital com uma Nikon D7000.
O vulcão Etna, que em 1989 era bem visível no horizonte em 2004 desapareceu sob as núvens.
A qualidade das fotografias é que não podemos comparar pois foram feitas em condições de luz muito diferentes e de ângulos não totalmente coincidentes.

sábado, outubro 04, 2014

Siracusa 1989-2014




Siracusa 1989-2014
25 anos depois da primeira visita tive agora a oportunidade de voltar a Siracusa, mais concretamente à ilha adjacente de Ortígia.
Está tudo muito diferente; há 25 anos havia muitos palácios e casas a ameaçar ruína. Por outro lado fui lá em Abril e agora em Setembro.
Entretanto o turismo de massas parece ter descoberto o encanto do local e não só reparou os edifícios como os encheu de hordas de turistas.
Procurei, e encontrei, umas casas ribeirinhas que em 1989 fotografara com a minha Pentax Spotmatic, usando um rolo de slides. Desta vez fiz uma fotografia digital com uma Nikon D7000.
Podemos agora entreter-nos a verificar os efeitos destes últimos 25 anos neste conjunto de casas e no muro.
A qualidade das fotografias é que não podemos comparar pois foram feitas em condições de luz muito diferentes e de ângulos não totalmente coincidentes.

Em 1989 usei uma objectiva 55mm e agora uma zoom 18-200mm.

quarta-feira, junho 11, 2014

Mindelo 1968



Mindelo 1968
em Março de 1968, jovem cadete, embarquei numa fragata para a viagem de fim de curso; Açores, Madeira e, finalmente, Cabo Verde (lembras-te Daniel ?)
No cais vários garotos esperavam os marinheiros para os mais variados "serviços". Estes tratavam dos sapatos.
Eu levava comigo uma Yashica 124, uma bela câmara que a minha namorada me emprestara.

sábado, agosto 21, 2010

Já que estamos em pleno Agosto

A China não cresce só como potência económica nem como maior consumidora de energia. Também no sector turístico o país dá cartas. O gigante asiático já é o terceiro país a ser mais procurado pelos turistas, logo atrás da França e dos Estados Unidos. Neste momento, a China recebe 54,7 milhões de pessoas mas esse número vai quase duplicar até 2020, ano em que vai ser o destino de 103,6 milhões de turistas, que lhe vão dar a medalha de ouro do turismo, segundo os números do Conselho Mundial de Viagens e Turismo.
De acordo com os dados divulgados pelo “Expansión”, baseados nos dados da Organização Mundial de Turismo, a França é quem detém actualmente essa posição, contando com a visita de 70,9 milhões de pessoas. As previsões do Conselho Mundial mostram que, em 2017, o país liderado por Sarkozy será ultrapassado pela China, sendo que em 2020 vai receber quase menos 10 milhões de turistas que aquele país, ficando-se nos 91,6 milhões. É de salientar que a diferença em 2007 entre as duas potências era de 27,2 milhões.
Os Estados Unidos não vão tão longe e irão contar com 81,1 milhões de visitantes daqui a uma década, acima dos 55,5 milhões previstos para o corrente ano, continuando na segunda posição que deverão garantir no final deste ano, embora em 2011 sejam já ultrapassados pela China.
Por sua vez, a Espanha é o país que apresenta um trajecto mais descendente. Se em 2007, eram o destino de 59,2 milhões de turistas, o segundo maior, esse valor desce para 52,8 milhões em 2010, o que lhe tira do pódio dos países com maior procura turística. É nessa posição que o país se vai manter, pelo menos até 2020, mesmo que aumente o número para 65,7 milhões, como se espera, continuando atrás da China, da França e dos EUA.
No quinto lugar, mantém-se a Itália ao longo desta década. Acabando 2010 com uns 41,5 milhões de visitantes previstos, dez anos depois deverá contar com 55,1 milhões.
Jornal de Negócios, 20.08.2010

A China começa a emergir também no sector dos serviços.
Mas para além de se converter no destino mais procurado a China está também a converter-se num dos maiores emissores de turistas.
A indústria turística ocidental tem que se adaptar rapidamente aos gostos destes novos clientes se quiser tirar partido desta vaga.

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terça-feira, abril 06, 2010

VIDAGENS - 50 anos 200 fotos



Vidagens é um vocábulo que inventei para designar a exposição destas 200 fotografias. Foram feitas em dezenas de países, ao longo dos últimos 50 anos. São quase sempre fotografias de pessoas- muitas pessoas- e dos seus lugares. Esta é apenas uma das várias selecções possíveis a partir do extenso material com que tenho tentado ilustrar a maravilhosa diversidade do mundo. (ver aqui)

sexta-feira, janeiro 01, 2010

segunda-feira, novembro 09, 2009

O meu próprio muro

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Nesta época de comemoração da Queda do Muro, em Berlim, resolvi fazer também a minha "reflexão". Dá-me muito gozo ver a forma como certas pessoas comemoram a queda do muro pois sei que, se algum dia houvessem tido o engenho de tomar o poder, teriam construído um ainda mais alto e mais grosso.

Em geral creio que a queda do muro não ensinou tanto quanto seria de esperar. Continuamos a ver o vanguardismo florescerer e o espírito crítico e auto-crítico constitui uma raridade. O doseamento e a moderação nas convicções por parte de quem, como nós, tantas vezes errou é muito mal compreendido. O voluntarismo e o queimar das etapas, o desprezo pelos processos de fundo em favor das modas e do efémero, marcam aliás a nossa época. Novas élites auto-nomeadas mostram-se prontas para qualquer engenharia de ocasião.

Quando o muro físico caíu já eu levava vinte e três anos de militância sincera no PCP com base em ideais que, na sua essência, continuo a perfilhar: a construção colectiva de um novo patamar social em moldes mais justos e não o sindicalismo assistencial que hoje parece estar na moda, à mistura com umas provocações de índole sexual para épater le bourgeois.

Quando visitei Berlim pela primeira vez já não era um neófito do "socialismo real" nem da RDA. A minha estreia ocorrera em 1979 na Hungria e depois em 1980, quando as nuvens ainda não toldavam o horizonte, em Moscovo, no Cazaquistão e na Sibéria. Meses depois da ascensão de Gorbatchev, em 1985, percorri de automóvel durante um mês, e em campismo com os meus filhos, o Sul da RDA, a Checoslováquia e a Hungria (uma viagem cujas peripécias ainda um dia contarei).

Em Fevereiro de 1986, aproveitando uma viagem profissional a Berlim, usei a estação de metro em Friedrichstrasse como porta de passagem para Berlim Leste e percorri essa parte da cidade, a pé, debaixo de uns inclementes dez graus negativos durante o fim de semana.


No sábado almocei com um grupo de polacos e polacas no restaurante giratório do alto da torre da TV na Alexander Platz. Um almoço grastronómicamente sem história mas muito interessante nas conversas. Depois fui descobrir o fantástico museu Pergamon, assim nomeado por conter o Templo de Zeus roubado na cidade do mesmo nome (onde estive em 1995) na costa turca do mar Egeu.

No domingo tornei a passar para Berlim Leste e depois das demoradas formalidades da fronteira era já hora de almoçar. Entrei num restaurante que funcionava num primeiro andar e o empregado, como as mesas estavam todas cheias, não hesitou em sentar-me na companhia de três belas jovens.


Foi mais uma oportunidade para perceber o que pensavam os alemães do "outro lado". As jovens estavam de visita a Berlim por pertencerem a um grupo folclórico de uma região que não fixei.

Passámos o almoço a discutir acerca da diferença entre não viajar por estar impedido legalmente e não viajar por não ter dinheiro para o fazer. Tornou-se claro para mim que, fosse qual fosse o sucesso económico e social do regime comunista, o simples facto de não se poderem deslocar livremente constituía para os alemães do leste um problema obsessivo.


Só voltei a Berlim dez anos mais tarde, em 1996, quando já me tinha afastado da militância no PCP. Neste momento estou a planear ir de novo a Berlim para ver a nova arquitectura na Alexander Platz e voltar à extraordinária ilha dos museus.


quarta-feira, outubro 08, 2008

Demasiada regulação

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"As expedições navais também ilustram a diferença entre as abordagens oriental e ocidental. As missões europeias eram menos grandiosas, mas mais produtivas. Muitas vezes eram inteiramente privadas ou eram parcerias público-privadas e utilizavam novos métodos de financiamento.
Os Holandeses foram pioneiros nas inovações em finanças e em impostos; na década de 1580, os seus comerciantes de arenque utilizavam generalizadamente contratos de futuros. E estes mecanismos financeiros representaram um avanço crucial, porque asseguravam financiamento para um número sempre crescente de expedições. Todas as viagens tinham como objectivo dar lucro, fazer novas descobertas e encontrar produtos novos. O projecto avançava por experiência e erro, com cada expedição a aprender com as anteriores. Ao longo do tempo, desenvolveu-se uma cadeia de iniciativa, exploração, ciência e aprendizagem.
Pelo contrário, na China, as viagens dependiam dos interesses e do poder de um monarca. Quando ele desapareceu, as viagens pararam. Houve mesmo um caso em que o novo imperador mandou destruir os planos dos barcos para que a capacidade de os construir se perdesse.
Os Chineses utilizaram canhões de forma eficiente no século XIII. Trezentos anos mais tarde não conseguiam usá-los sem terem um europeu a mostrar como deviam fazer.
David Landes, um professor de Harvard especialista em história económica, chegou à conclusão de que a China não «gerou um processo contínuo e auto-sustentado de avanços científicos e tecnológicos». Os seus feitos acabaram por ser episódicos e efémeros. Foi esta a tragédia da Ásia: mesmo onde havia conhecimento faltava a aprendizagem."

FAREED ZAKARIA in "O Mundo Pós-Americano", Gradiva



Na minha condição actual de angustiado estudante de mandarim interrogo-me sobre o papel da complexidade dos caracteres chineses neste problema da aprendizagem, da transmissão entre gerações.
É verdade que a leitura faz apelo a uma das capacidades mais espantosas dos seres humanos: distiguir e identificar formas e padrões e interpretá-los para os integrar na representação mental do mundo. No entanto dada a complexidade e o enorme número de caracteres ideográficos chineses (cerca de 80.000) só podiam ser memorizados se, desde crianças, os chineses convivessem regularmente com textos escritos.

Por isso só uma elite, entre as centenas de milhões de habitantes, tinha realmente acesso a uma leitura culta. Foi já no século vinte, com a ajuda de uma notação fonética baseada nos caracteres "ocidentais", que se avançou para a alfabetização das grandes massas na China.

A leitura e a escrita dos caracteres chineses, ideográficos, constitui quanto a mim mais uma forma de mostrar a força da sociedade sobre os indivíduos e de impor a disciplina e a inevitabilidade das regras sociais.

quarta-feira, outubro 01, 2008

A NASA é uma senhora de meia idade

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No dia 1 de Outubro, há cinquenta anos, nascia a NASA.
Tinha por missão de colocar os Estados Unidos à frente de uma competição ferrenha com a então União Soviética, pela conquista do espaço. Hoje é a respiração da China que a agência espacial americana sente nas suas costas.
Enquanto a NASA consome anualmente cerca de 17 biliões de dólares, fontes oficiais chinesas declaram um gasto de menos de 2 biliões por ano. Embora fique longe da agência americana, é um valor bastante apreciável. Fica próximo do que o Japão gasta anualmente (2,5 biliões), perde para a ESA (a Agência Espacial Europeia gasta 4 biliões por ano) e ultrapassa a Rússia, que gasta apenas 1 bilião.
Como pode então a agência americana sentir-se ameaçada pelos seus rivais ?
É que um dólar nos EUA compra muito menos do que compra na China ou na Rússia. O custo da mão-de-obra e de equipamentos na América é muito maior do que nos países do Oriente (com excepção do Japão).

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quarta-feira, julho 30, 2008

Profundidade

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Vivemos um tempo de acessórios, em que raramente são discutidos os verdadeiros problemas, substituídos pelos aspectos laterias que os adornam. Não se discutem as propostas mas a legitimidade de quem as formulou, não se discutem as causas e as formas da pobreza realmente existente mas as metodologias estatísticas e a quem elas servem, não se discute a emergência brutal da economia chinesa na transformação da nossa sociedade mas apenas os défices democráticos que persistem no gigante oriental.
Perante tanta superficialidade sabe bem constatar que há alguém a tentar ir mais fundo e bater recordes de profundidade. Os cientistas russos tentam descer até ao ponto mais baixo do fundo do lago Baikal, na Sibéria, a mais de 1600 metros de profundidade.(ver aqui)

O lago, que visitei em 1980, é uma pérola da natureza situada a cerca de setenta quilómetros de Irkutsk. Com mais de seiscentos quilómetros de comprimento e oitenta de largura constitui o maior reservatório de água doce do planeta no centro do gigantesco continente. É tão grande que se todos os rios da terra depositassem nele as suas águas levariam pelo menos um ano para o encher.

Ainda guardo em minha casa um calhau rolado que recolhi nas margens do lago. Faz companhia a muitos outros vindos das mais estranhas paragens.

quinta-feira, maio 01, 2008

O meu 1º de Maio há 40 anos

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O meu 1º de Maio de 1968 foi passado dentro deste navio da Armada, a fragata Corte Real. Eu tinha sido mobilizado para a Guiné com partida nesse dia.
Embarcámos de manhã mas o navio, por razões técnicas, só zarpou ao cair da noite.
Por isso estivemos o dia inteiro, por sinal cinzento, a ver Lisboa da amurada do navio fundeado no Tejo.
Foi um dos dias mais tristes da minha vida.

domingo, março 09, 2008

Katmandu, Nepal



Cheguei ontem a este simpático (e pobre) país que está há algum tempo a tentar acabar com uma monarquia bastante odiada.

Pelo que me disseram haverá uma votação de tipo constitucional dentro de um mês para decidir mandar embora o rei que, neste momento, tem um poder muito limitado.
Nas ruas já se notam e vêem as campanhas que incluem um Partido Comunista, os guerrilheiros maoistas, socialistas, e um Partido do Congresso à semelhança do indiano.

O Nepal está entalado entre a Índia e a China e sofre óbvia influência dos dois.

A pobreza é de tal ordem que têm que desligar o fornecimento de luz à população durante 8 horas diárias.

Não tenho tempo para as montanhas e por isso ficarei pelas cidades e pelos espantosos monumentos e praças "medievais".

Até depois...

sábado, março 01, 2008

Acorda Europa


Pequim inaugurou o maior terminal aeroportuário do mundo.

O novo edifício foi concebido pelo arquitecto britânico Norman Foster e custou 2,7 mil milhões de dólares (1,77 mil milhões de euros), sendo a maior estrutura coberta do mundo.

O arquitecto britânico criou a obra à semelhança de um dragão gigante, com uma longa cauda e clarabóias de formato triangular que lembram as escamas da mítica criatura e permitem aproveitar ao máximo a luz natural e conservar o calor.

Foster utilizou vidro e aço para a estrutura em forma de "I" e recorreu à alta tecnologia para unir elementos arquitectónicos tradicionais chineses, como as colunas vermelhas e o tecto curvilíneo dourado que evocam os palácios imperiais da China.

A estrutura colossal é mais uma obra de escala e números impressionantes, das várias que a China tem vindo a construir para modernizar a capital chinesa para os JO de Pequim.

O edifício estende-se por 3,25 quilómetros e ocupa 986 mil metros quadrados, o equivalente a 170 campos de futebol.

As pistas estão desenhadas para receber o A380, o gigante da construtora aeronáutica europeia Airbus, e o controlo das bagagens é realizado pelos sistemas de tecnologia mais avançada.

Nas instalações, os passageiros terão acesso a mais de 64 restaurantes chineses e ocidentais e mais de 90 lojas, e poderão chegar ao centro da cidade através de um comboio de alta velocidade.

O terminal levou quatro anos a ser construído, com 50 mil operários a trabalhar na obra.

Três pessoas morreram na construção, confirmaram as autoridades chinesas.

O mega-terminal vai permitir um trânsito de 76 milhões de passageiros por ano, ultrapassando os 53,7 milhões que circularam em 2007 pelo aeroporto de Pequim, um dos dez mais movimentados do mundo.