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domingo, março 11, 2018

Um violino no Cacheu



Um violino no Cacheu
Era uma daquelas intermináveis subidas do Cacheu. As lanchas ronronavam rio acima, quase paradas quando a corrente da maré era vazante.
Uma outra parte do combóio de batelões ainda não nos alcançara e foi decidido fazer uma paragem e pernoitar, fundeando, onde pudessem mais tarde encontrar-nos.
Escolhemos uma curva do rio onde o tarrafo era alto e denso; as margens despidas das clareiras eram locais de emboscadas e tiroteios. Só suicidas se atreveriam a fazer um ataque a partir da precariedade das raízes inclinadas do tarrafo. Ou quem nunca as tivesse experimentado.
Lançámos então o ferro e a corrente virou-nos a proa para a foz. Assim ficámos no silêncio que só as aves cortavam e sem acender gambiarras. Uma vez desligados os motores, sinal que dávamos a contra gosto, a nossa presença devia ser ocultada por todas as formas. Até tínhamos o cuidado de esconder as pontas dos cigarros.
O Cacheu é um rio avantajado e o mar sobe por ele quando a maré enche, como era o caso. Sentíamos um grande volume de águas passar por nós, rio acima, pondo à prova a firmeza do ferro no leito do rio.
A mais de cem metros estava a Canopus, que era comandada pelo meu amigo Henrique. Eramos ambos daquela geração de 60 que partiu muitos tabús e que fazia frente à ditadura. Quizera o acaso que a guerra nos fizesse reencontrar no Cacheu depois de nos termos conhecido nos convívios universitários de Lisboa.
Estava eu com os meus pensamentos quando percebi que a Canopus lançara um bote à água. Fiquei alertado, pelo inusitado, e vi o bote aproximar-se com o grumete a acenar e a dizer “o senhor comandante manda perguntar se o senhor tenente quer ir beber um café à Canopus”.
A Canopus era um navio de maior envergadura e, apesar de tudo, com mais habitabilidade e espaço do que a lancha em que eu viajava. Por isso, e especialmente pela conversa saborosa que me esperava, não demorei a aceitar o convite e a saltar para o bote de borracha.
O Henrique recebeu-me com bonomia, como era do seu natural, e instalámo-nos num compartimento da proa a beber um café e a conversar. O navio oscilava docemente e parecia que estávamos numa bolha, muito longe de um teatro de guerra.
A certa altura o Henrique propôs que víssemos um filme feito por ele. Lá montou um pequeno ecran e as imagens surgiram. O que elas mostravam eram apenas as águas de um rio, paradas como um espelho, e as margens deslizando, à esquerda e à direita, interminávelmente.
As imagens, belíssimas, eram quase hipnotizantes. Foi então que reparei que para tal contribuía também a maravilhosa música de violino que as acompanhava.
Foi assim que descobri o concerto do Tchaikovsky.
Ainda hoje, passados cinquenta anos, sempre que encontro o Henrique nunca deixo de lhe agradecer.

quinta-feira, novembro 23, 2017

A fotografia enquanto música



A fotografia enquanto música
Comparar as "formas" da fotografia com as formas musicais ajuda-me a compreender o seu posicionamento no conjunto das obras.
As fotografias isoladas feitas na rua são como canções; podem ser nostálgicas, sarcásticas ou apaixonadas, eruditas, brejeiras ou mesmo pimba.
Mas as fotografias abstractas ou geométricas, de paisagens ou naturezas mortas, minimalistas ou barrocas assemelham-se mais a sonatas, fantasias ou até variações.
Claro que há ciclos de canções e de sonatas, quando elas são agrupadas sem necessáriamente obedecerem a um programa.
Mas quando as fotografias se juntam para formar uma entidade maior, que "pinta" um tema extensamente e mergulha no seu significado então temos sinfonias, cantatas, poemas sinfónicos ou óperas.
O "Genesis" do Sebastião Salgado é um gigantesco poema sinfónico e "Chaos", do Koudelka, uma grande sinfonia.
Mas já os "Ciganos" do mesmo autor são uma ópera e os "Americanos" do Robert Frank um musical. "Sahel" do Salgado é uma comovente e grandiosa cantata.
Na fotografia há de tudo, desde o jazz à musica concreta: do punk aos espirituais negros. É só procurar.
Mas há uma diferença importante entre a música e a fotografia; a primeira tem muitas realizações que é impossível encontrar na "natureza" enquanto que a segunda permite sempre ao espectador lê-la como um pedaço da "realidade".

quinta-feira, novembro 10, 2016

OEDIPUS REX







OEDIPUS REX

em excelente encenação de Ricardo Pais
no Teatro Nacional de São Carlos
(as fotos foram extraídas do site promocional da ópera)

segunda-feira, junho 06, 2016

Cinderela no São Carlos



Cinderela
Música e libreto: Pauline Viardot {1821-1910}
Ópera cómica de salão em 3 atos, baseada no conto Cendrillon,
de Charles Perrault
Versão portuguesa Luís Rodrigues

Piano e direção musical João Paulo Santos
Encenação Mário Redondo
Direção circo Chapitô
Cenografia e figurinos Miguel Costa Cabral
Desenho de luz Paulo Sabino

Barão de Pic'torcido João Oliveira
Maria (Cinderela) Ana Franco
Magalona Sónia Alcobaça
Armelinda Ana Ferro
A Fada Bárbara Barradas
O Príncipe Encantado João Cipriano Martins
O Conde Miscarudo Marco Alves dos Santos
Interpretação circense Alunos do 1.º ano do Curso de Interpretação
e Animação Circenses da Escola Profissional de Artes e Ofícios do
Espetáculo do Chapitô

Nova Produção
Co-produção TNSC/Chapitô

Num animado salão juntam-se artistas, intelectuais, boémios.
Em que época? É difícil dizer. Vai contar-se, ou viver-se, ou "brincar-se", uma história: Cinderela. Um clássico.

Todos contam, todos observam. Aqui três Cinderelas, ali dois Príncipes. Uma Irmã Má agora, que mais adiante é uma Fada Madrinha. Cada um mostra a sua particular visão de cada momento, de cada emoção, de cada peripécia. Uns cantam, outros falam, outros ainda exprimem-se com o corpo. As personagens desdobram-se, as cenas sobrepõem-se, os objectos transformam-se. Todo o palco é cenário e também plateia. No fim, mais que o enredo — já tão conhecido — ficará o prazer do jogo.

segunda-feira, fevereiro 09, 2015

Requiem de Campra



Requiem de Campra

há muitos anos decidi que, a haver música no meu velório, gostaria que fosse esta. 
Ainda não mudei de ideias.

sexta-feira, fevereiro 06, 2015

Audições

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Durante umas arrumações fui dar com os cadernos onde registava as audições.
Aqui ficam três páginas do ano 1989.

sábado, maio 03, 2014

Vinyl Gourmet

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Finalmente num monitor perto de si

terça-feira, dezembro 24, 2013

Operários do Natal





Quando os meus filhos eram crianças, durante o PREC e durante mais algum tempo, este disco tornou-se culto no nosso Natal. Preservei o LP durante muitos anos e depois foi também preciso arranjar a versão em CD.  Ainda hoje o lembramos, e tocamos, todos os anos. 
Agora a minha neta também já sabe estas belas canções tão impregnadas por esse tempo inesquecível que ela não percebe ainda.

Textos de Ary dos Santos e Joaquim Pessoa.
Músicas de Carlos Mendes, Fernando Tordo e Paulo de Carvalho.
A narradora é a Maria Helena D’Eça Leal.

domingo, agosto 04, 2013

SEIS ORGÃOS




hoje à tarde os seis orgãos da basílica do convento de Mafra tocaram todos, em conjunto e à vez.
Um concerto esplendoroso, uma cascata de sons despenhando-se, do alto, sobre as nossas cabeças.
Este evento, raro em todo o mundo, acontece todos os primeiros domingos de cada mês.

domingo, julho 14, 2013

CANDIDE

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Ontem, no âmbito do Festival ao Largo, do S. Carlos, teve lugar uma excelente exibição da famosa ópera Candide de Bernstein.
Um elenco português, sob a direcção do maestro João Paulo Santos, divertiu uma imensa plateia que enchia completamente a praça adjacente ao S. Carlos.
Música encantadora e um tema que faz pensar. Que melhor forma de passar uma noite de verão (menos quente do que seria de esperar). 

domingo, abril 15, 2012

TERRAS SEM SOMBRA - Almodôvar

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No sábado, dia 14, teve lugar um excelente concerto na Matriz de Almodovar.
Requiem em Sol menor de Cimarosa e um Te Deum de Marcos Portugal.
Intérpretes: Orquestra Filarmonia das Beiras dirigida pelo maestro Vassalo Lourenço e Coro da Universidade de Aveiro.
Uma notável descentralização cultural que o Festival Terras Sem Sombra prossegue ano após ano.

domingo, março 04, 2012

Quatro óperas

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"Inês morre", "Fado olisiponense", "Manucure"  e "A vida inteira" são as quatro óperas encomendadas pelo Teatro Nacional  de São Carlos (TNSC) a compositores portugueses. Amor, traição e morte constituem o tema central destas quatro óperas - cada  uma com cerca de 10 minutos. 


"Inês morre", com libreto de Miguel Jesus, tem composição de Sofia Sousa  Rocha, com interpretação a solo da soprano Sara Braga Simões (Inês), da  meio-soprano Maria Luísa Freitas (Teresa) e do barítono João Merino (Pedro).
"Fado olisiponense" tem libreto de Rui Zink e composição de Luís  Soldado e as interpretações estão a cargo de Sara Braga Simões (Criada/Circe),  João Merino (Ulisses), Maria Luísa de Freitas (Penélope) e do tenor Marco  Alves dos Santos (gerente). 
"Manucure" tem composição de Edward Luiz Ayres dAbreu a partir de  um "delírio futurista" de Mário de Sá-Carneiro. As interpretações são de  Maria Luísa de Freitas, Marco Alves dos Santos e do barítono Mário Redondo,  que interpretará o poeta. 
"A vida inteira", com composição de Tiago Cabrita e libreto de António  Carlos Cortez, a partir de um poema de Ruy Belo, conta também com interpretações  dos solistas Marco Alves dos Santos e Mário Redondo, que cantará o poeta.

Foram apresentadas nos dias 2 e 3 naquela sala no Chiado, com encenação de Luís Miguel Cintra e com direção musical de João Paulo  Santos.


Foi um espectáculo muito interessante quer pela engenhosa encenação, que envolve a própria orquestra, quer pela música, quer pelas interpretações (que nem sempre são de fácil execução).

Uma iniciativa louvável, que deve ser repetida.

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quinta-feira, fevereiro 23, 2012

Verdes são os campos





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terça-feira, janeiro 03, 2012

Porgy and Bess

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Há muito que conheço a banda sonora do "Porgy and Bess", de Otto Preminger, realizado em 1959.
Considero aliás que esta é a mais encantadora realização musical da obra-prima de Gershwin.
Só hoje descobri no youtube imagens do filme que nunca vira. Sinto-me obrigado a partilhar.

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quarta-feira, novembro 30, 2011

Zelenka e Bach

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Hoje assisti na Gulbenkian a um concerto excelente pelo Balthasar Neumann Choir and Ensemble, dirigido pelo Thomas Hengelbrock. Não só tocaram obras que muito estimo (Missa Dei Filii de Zelenka e Magnificat de Bach) como o fizeram de forma irrepreensível.

A junção de Zelenka e Bach no mesmo concerto é uma bela ideia se considerarmos os dados biográficos dos dois compositores. No princípio do século XVIII eles cruzam-se na corte de Augusto o Forte. Augusto acumulava as funções de Eleitor da Saxónia  e Rei da Polónia e, por isso, decidiu fazer coexistir na sua corte as duas religiões, católica e luterana.
Jan Dismas Zelenka e Bach encontravam-se, em termos musicais, em barricadas religiosas distintas.

Há muito que aprecio Zelenka pela frescura e surpresa da sua música. Nós conhecemos demasiado bem os cânones de Bach, Vivaldi ou Handel ao ponto de podermos adivinhar o caminho que a música vai seguir mesmo quando nunca antes ouvimos a obra em causa.
Zelenka, um compositor cuja linguagem não tem paralelo que eu conheça, faz-nos tremer na sua imprevisibilidade de "cânone" que se manteve demasiado tempo na penumbra.

Veja mais sobre Zelenka- AQUI

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sexta-feira, julho 29, 2011

Para dançar el tango son precisos dos



Ontem à noite tive uma experiência perturbante.
Resolvi ir ver uma exposição de fotografia em Lisboa.
Dirigi-me ao local, por sinal muito pouco frequentado, e procurei a sala que me interessava.
Dei com a porta fechada mas ouviam-se cá fora, distintamente, os acordes de um tango.
Depois de hesitar durante algum tempo, dado que àquela hora a exposição deveria estar aberta ao público, acabei por rodar a maçaneta e espreitar para o interior.
Acorreu uma mulher, que depois concluí ser a professora, e  informou-me do encerramento por estar uma aula em curso.
Realmente encontrava-se na espaçosa sala, onde o tango continuava a ecoar, uma outra pessoa que só poderia ser o aluno de uma aula individual.
Apesar de me parecer bizarra esta situação de encerrar uma exposição para usar a sala como pista de dança, tal estranheza passou de imediato para segundo plano. É que o aluno, com ar esfalfado e em mangas de camisa, era nem mais nem menos do que um dos principais banqueiros portugueses.
Voltei para casa a magicar acerca das motivações que podem levar uma pessoa daquelas, com todos os problemas que neste momento afectam os bancos portugueses, a receber aulas de tango.
É verdade que a Argentina é um case study por ter entrado em incumprimento das suas dívidas e, em consequência, ter passado por terríveis apertos. Mas aprender a dançar o tango parece-me uma via demasiado retorcida para exorcizar o mesmo destino.
Também é verdade que ainda há pouco tempo tínhamos um primeiro ministro que explicou a uma plateia madrilena, em castelhano técnico, que "para dançar el tango son precisos dos".
Só não consigo atinar com quem é que um banqueiro de meia idade, com problemas de liquidez, precisa de saber dançar.

domingo, maio 01, 2011

Uma coisa em forma de assim

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Para assinalar o Dia Mundial da Dança, a 29 de Abril de 2011, a Companhia Nacional de Bailado estreou uma obra criada conjuntamente por alguns dos mais importantes coreógrafos portugueses: Clara Andermatt, Francisco Camacho, Benvindo Fonseca, Rui Lopes Graça, Rui Horta, Paulo Ribeiro, Olga Roriz, Madalena Victorino e Vasco Wellenkamp.
"Uma coisa em forma de assim", o título desta obra, foi descaradamente roubado a Alexandre O’Neil, e assenta sobre  a belíssima música de Bernardo Sassetti.
Trata-se de um espectáculo muito original em que o piano e o pianista partilham o palco, e interagem, com os bailarinos.
Uma das obras mais estimulantes que me foi dado ver nos últimos tempos.

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quarta-feira, março 09, 2011

Não conspurquem o canto de intervenção

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Não me perturba nada que tenham ganho o festival. Estou-me nas tintas para o festival.
O que me perturba são os personagens, o "gel" e o outro. Representam o que de pior teve o PREC. Radicalismo boçal, pouco politizado.
Uma transferência demasiado rápida dos candidatos a galãs de bairro para a militância revolucionária.
Depreciam a luta, depreciam o (sublime) canto de intervenção português (um deles, com a sua boina e os seus óculos, tenta até imitar a imagem do Zeca Afonso).
Instilam uma imagem deplorável no espírito de quem não viveu Abril.

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Carnavais

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Se quer ver imagens do desfile do Domingo de Carnaval em Sines clique AQUI.

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sábado, fevereiro 05, 2011

Belas Vésperas

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O Coro da Rádio da Letónia apresentou, no Pequeno Auditório do CCB, uma magnífica execução das Vésperas de Rachmaninov.
A sala estava completamente cheia. Tal não é de estranhar dada a beleza tocante da obra.
O Coro da Rádio da Letónia fará ainda outros concertos durante a sua estadia.
Aqui fica o registo.

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