quinta-feira, agosto 12, 2010
Bom nome
Vítor Magalhães (à direita na fotografia), de 54 anos, está no Ministério Público desde 1983 e foi convidado para integrar a equipa de 12 procuradores do Departamento Central de Investigação e Ação Penal (DCIAP) em 2002, dois anos depois de o órgão dedicado à criminalidade violenta, altamente organizada e de especial complexidade ter sido criado, na dependência direta da Procuradoria-Geral da República.
Vítor Magalhães, é uma estrela no Ministério Público. Começou por estagiar em Cascais e foi colocado a seguir em Torre de Moncorvo, passando depois pelas comarcas do Funchal, de Cascais e de Oeiras. Antes de ir para o DCIAP, ainda esteve 12 anos em Sintra. É um dos procuradores com maior currículo no país em grandes casos de tráfico de droga, máfias e terrorismo, além de lhe terem passado pelo crivo alguns casos de corrupção, branqueamento de capitais e fraude fiscal envolvendo nomes sonantes da política nacional: António Saleiro (PS), Armando Vara (PS), Isaltino Morais (PSD).
O inquérito-crime que levou à condenação na primeira instância de Isaltino Morais a sete anos de prisão fez com que o procurador-geral da República o distinguisse com um louvor há menos de um ano. Em 2004, já tinha sido condecorado pelo FBI, depois de coordenar as investigações em Portugal ao ataque das Torres Gémeas a 11 de setembro de 2001, a pedido das autoridades norte-americanas, e que estavam relacionadas com o argelino Sofiane Laib, detido em Lisboa por suspeita de terrorismo.
Desde há três anos que Vítor Magalhães dirige todos os inquéritos-crime sobre as atividades da ETA em Portugal, liderando atualmente a equipa luso-espanhola de investigação ao grupo armado basco, estreando em janeiro deste ano a aplicação da nova lei contra o terrorismo, com a qual conseguiu garantir a prisão de dois etarras intercetados pela GNR em Torre de Moncorvo.
Na última década, Magalhães conduziu ainda as três maiores apreensões de cocaína em território nacional (nove, oito e sete toneladas) e orientou o inquérito do caso conhecido como as ‘Marias de Arraiolos’, protagonizado por três mulheres que acabaram presas na Venezuela, ao embarcarem num avião particular com malas carregadas de cocaína. Entre os casos mais mediáticos do procurador estão também as investigações a uma rede criminosa italiana de falsificação de cheques que levou a 40 condenações em tribunal e a duas máfias de Leste que operavam em Portugal.
António Paes de Faria (à esquerda na fotografia), de 50 anos, tornou-se magistrado em 1986 e está no DCIAP desde setembro de 2007.
É um dos 18 membros do Conselho Superior do Ministério Público, o órgão que gere as carreiras dos magistrados e tudo o que tem que ver com disciplina, incluindo a instauração de inquéritos internos e a decisão de sanções. Paes de Faria foi eleito pelos seus pares para os representar no Conselho. Além dele, nas mesmas condições, só se sentam à mesa mais um procurador, um procurador-geral-adjunto e quatro procuradores-adjuntos.
Paes de Faria começou como estagiário na comarca de Santiago do Cacém. Depois foi transferido para Cascais, de onde só saiu quando foi requisitado em 1996 para ser assessor jurídico no gabinete de João Cravinho, então ministro do Equipamento, Planeamento e Administração do Território, no primeiro governo socialista de António Guterres. Em 1998 foi nomeado subdiretor da Polícia Judiciária em Macau, onde esteve um ano, antes de regressar à comarca de Cascais.
No princípio de 2008, já depois de estar no DCIAP, Paes de Faria foi encarregado pela diretora do departamento de investigar o envolvimento de Portugal no programa ilegal dos voos da CIA, que incluíam passagens por aeroportos nacionais em missões de rapto de suspeitos de terrorismo. O inquérito foi arquivado em junho de 2009, sem acusados. Nessa altura, o procurador já estava há nove meses com o ‘processo Freeport’.
Estes dados biográficos dos procuradores do caso Freeport foram divulgados pelo Expresso em 07.08.2010. Quando se analisa estas carreiras, à luz da depreciação pública a que os procuradores têm estado sujeitos, não podem deixar de ser colocadas as seguintes questões:
1. É possível ignorar, de um pé para a mão, apenas por razões instrumentais, as provas dadas por estes procuradores, e o seu profissionalismo, na luta contra o crime organizado ao longo de décadas ?
2. Podemos aceitar de ânimo leve que estes procuradores, com este percurso de vida, tenham deixado que o seu trabalho de investigação fosse manchado por mero ódio a José Sócrates ? Será razoável admitir que estamos perante um ódio simultâneo de dois procuradores que nunca haviam sequer trabalhado em conjunto anteriormente ?
3. Tem estado activa uma campanha mediática, nas últimas semanas, que não hesita em questionar a honorabilidade dos procuradores em nome do direito ao bom nome do primeiro-ministro. Mas tal campanha tem respeitado o direito ao bom nome dos procuradores ? E não será esse bom nome dos procuradores tanto ou mais real do que o hipotético bom nome do primeiro-ministro ?
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domingo, agosto 08, 2010
Merece republicação
A justiça em Portugal parece-lhe confusa? Não faz ideia porque é que todos os processos que envolvem pessoas importantes acabam sempre em regabofe? Diga não à desorientação! Em apenas 20 passos, eis o guia ideal para entender todos os casos que em Portugal começam com a palavra "caso":
1) Os jornais publicam uma notícia sobre qualquer pessoa muito importante que alegadamente fez qualquer coisa muito má.
2) Essa pessoa muito importante considera-se vítima de perseguição por parte de forças ocultas.
3) Outras pessoas importantes vêm alertar para o vergonhoso desrespeito do segredo de justiça em Portugal, que possibilita a actuação de forças ocultas.
4) Inicia-se o debate sobre o segredo de justiça em Portugal.
5) Toda a gente tem opiniões firmes sobre o que é preciso mudar na legislação portuguesa para que estas coisas não aconteçam.
6) Toda a gente conclui que não se pode mudar a quente a legislação portuguesa.
7) A legislação portuguesa não chega a ser mudada para que estas coisas não aconteçam.
8) As coisas voltam a acontecer: os jornais publicam notícias sobre essa pessoa muito importante dizendo que ainda fez coisas piores do que as muito más.
9) Outras pessoas importantes vêm alertar para o vergonhoso jornalismo que se faz em Portugal, que nada investiga e se deixa manipular por forças ocultas.
10) Inicia-se o debate sobre o jornalismo português.
11) Toda a gente tem opiniões firmes sobre o que é preciso mudar no jornalismo português.
12) Toda a gente conclui que estas mudanças só estão a ser debatidas porque quem alegadamente fez uma coisa muito má é uma pessoa muito importante.
13) Nada muda no jornalismo português.
14) Enquanto o mecanismo se desenrola do ponto 1) ao ponto 13) a justiça continua a investigar.
15) Após um período de investigação suficientemente longo para que já ninguém se lembre do que se estava a investigar a justiça finaliza as investigações e conclui que a pessoa muito importante: a) Não fez nada de muito mau. b) Já prescreveu o que quer que tenha feito de muito mau. c) É possível que tenha feito algo de muito mau mas não se reuniram provas suficientes. d) Afinal o que fez não era assim tão mau.
16) Pessoas importantes que são amigas dessa pessoa muito importante concluem que ela foi vítima de perseguição por parte de forças ocultas.
17) Pessoas importantes que não são amigas dessa pessoa muito importante concluem que em Portugal nada acontece às pessoas muito importantes que fazem coisas alegadamente muito más.
18) As pessoas citadas no ponto 17) iniciam mais um debate sobre a justiça em Portugal.
19) As pessoas citadas no ponto 16) iniciam mais um debate sobre o jornalismo em Portugal.
20) Os jornais publicam uma outra notícia sobre uma outra pessoa muito importante que alegadamente terá feito outra coisa muito má. Repetem-se os passos 1) a 19).
Texto de Miguel João Tavares, "Inteiramente gratuito, eis o guia com que sempre sonhou", no DN de 14.04.2009
Republico por ser cada vez mais engraçado.
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sábado, agosto 07, 2010
Abaixo os partidos encapotados
O procurador-geral da República disse em entrevista recente:
"é preciso que, sem hesitações, se reconheça que o Sindicato dos Magistrados do Ministério Público é um mero lobby de interesses pessoais que pretende actuar como um pequeno partido político".
Somos irresistívelmente levados a tentar perceber se este PMMP (Partido dos Magistrados do Ministério Público) é de esquerda ou de direita, se apoia o casamento gay e o aborto, se quer mais Estado ou menos Estado ?
Quem é que nomeou os procuradores e como conseguiu que eles obedecessem a tal uniformidade ideológica ?
E se fosse a votos ? esse partido que percentagem teria ?
De repente descobrimos horrorizados que uma magistratura inteira é indigna de confiança e temos que nos interrogar sobre a validade de todas as investigações realizadas nos últimos anos. O caso Freeport, que eles deixaram prescrever e agora querem arquivar, pode ser considerado um exemplo da incompetência e enviesamento desse furtivo partido ?
É intolerável a ideia de ver os nossos governantes sujeitos ao vexame de ser investigados por militantes do PMMP. Esse tenebroso partido tem que passar a ter, como Presidente, uma pessoa totalmente independente imposta pelo nosso tão injustiçado primeiro-ministro.
Numa próxima fase reformista teremos que tratar igualmente do Partido dos Juízes e do Partido dos Jornalistas. Também eles exercem sem se submeter aos escrutínio eleitoral.
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terça-feira, agosto 03, 2010
Freeport - Afinal o que é que correu mal ?
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Expresso, 31.07.2010
A investigação ao caso Freeport parece estar a acabar como começou. Envolta em polémica, com um inquérito anunciado pelo procurador-geral da República para apurar responsabilidades internas. E, mais uma vez, tal como em 2005, com o nome de Sócrates no epicentro. Na altura, o dilema era porque é que ele tinha sido posto dentro do processo, agora é mais por que razão foi deixado de fora. Razões de outra ordem podem, no entanto, ditar a reabertura do processo. A directora do DCIAP, Cândida Almeida, admite, no despacho final, essa possibilidade caso “diligências encetadas ainda sem resposta, por dependerem da cooperação internacional”, o justifiquem. Mas, ontem, sexta-feira, Pinto Monteiro, procurador-geral da República, disse à Lusa que não via motivos para retomar as investigações. Desde setembro de 2009 que o MP e alguns inspetores da Polícia Judiciária de Setúbal tinham nos seus planos ouvir Pedro Silva Pereira e José Sócrates. As inquirições ao antigo secretário de Estado da Conservação da Natureza (atual ministro da Presidência) e ao antigo ministro do Ambiente (agora primeiro-ministro) foram consideradas obrigatórias e incontornáveis, sabe o Expresso. Faziam parte de uma estratégia de tirar tudo a limpo. Porque não foram, então, ouvidos? Havia uma justificação suficiente para serem chamados a depor: quer um quer outro tinham sido peças-chave no enredo de aprovação do outlet de Alcochete em 2002. Silva Pereira era o superior hierárquico direto de Carlos Guerra, então presidente do Instituto de Conservação da Natureza (ICN), o homem que chumbou e depois aprovou o projeto e um dos sete arguidos do processo. Guerra tinha sido ouvido no verão do ano passado e dissera que Silva Pereira sempre acompanhara de perto o dossiê Alcochete.
Sócrates, por sua vez, era profusamente referido desde o início, tinha tido reuniões com elementos do Freeport antes do aval ao empreendimento e, na verdade, era um dos suspeitos principais (embora não oficial) de um alegado esquema de corrupção política. Inocente ou culpado, convinha ser confrontado.
Mas, depois, algumas coisas aconteceram. Pelo que o Expresso apurou, os procuradores Pais de Faria e Vítor Magalhães perderam a confiança na coordenadora da Polícia Judiciária de Setúbal, Maria Alice Fernandes, por causa de rumores dentro do Departamento Central de Investigação e Ação Penal (DCIAP) que davam conta de contactos entre ela e um assessor de Sócrates.
A investigação nunca mais foi a mesma. O espírito de equipa quebrou e o ambiente passou a ser irrespirável. Aí começou, verdadeiramente, a história das 27 perguntas publicadas pelos procuradores, no seu despacho final, que em seu entender deviam ter sido feitas a Sócrates e não foram.
Maria Alice achava que para incluir Sócrates no processo, mesmo para poder fazer constar o seu nome em diligências, seria preciso pedir autorização ao Supremo Tribunal de Justiça, por se tratar do primeiro-ministro. Os procuradores discordavam, por ele não ter esse cargo à época dos factos. Uma guerra surda arrastou-se durante meses.
De acordo com fontes próximas da investigação, Maria Alice quis, de qualquer forma, promover uma série de novas diligências antes de avançarem para Sócrates e que passavam por ouvir mais gente em Londres. A inspetora acreditava não haver ainda indícios suficientes sobre o envolvimento do primeiro-ministro. Era preciso mais. Pressionados pelas sucessivas declarações públicas da diretora do DCIAP, Cândida Almeida, que ia anunciando para muito breve o desfecho do processo (primeiro em fevereiro, depois em março, em abril, em maio), os procuradores discordaram da inspetora. Uma viagem a Inglaterra foi cancelada.
Nesse impasse, o tempo esgotou-se. A 4 de junho, seguindo uma proposta de Cândida Almeida, o vice-procurador-geral da República, Mário Gomes Dias, determinava o prazo de conclusão do inquérito para 25 de julho, fazendo coincidir a data com o fim do segredo de justiça. O prazo não foi contestado. Na semana em que um dos inquéritos-crime mais polémicos e conturbados da atualidade foi dado como concluído, com uma acusação inesperada de tentativa de extorsão a dois dos sete arguidos iniciais, Manuel Pedro e Charles Smith, o despacho final dos procuradores reabriu a controvérsia mas também veio ajudar a levantar o véu sobre o que se passou com o caso nos últimos cinco anos e sobre tudo o que ficou por esclarecer. O Expresso analisa os momentos críticos que levaram a investigação a terminar como terminou.
(texto completo do artigo do Expresso, em 31.07.2010, pode ser visto aqui)
Lendo na totalidade o artigo do Expresso pode constatar-se que o processo passou três anos numa gaveta do Montijo, que só em 2008 transitou para o DCIAP, que só em 2009 os autores do polémico despacho tomaram conta da investigação, que em Abril de 2009 os procuradores foram alvo de pressões, que os paraísos fiscais não deram troco às perguntas dos investigadores, que no fim de 2009 os comprovantes de pagamentos do Freeport arderam misteriosamente em Londres e que entretanto os hipotéticos crimes de corrupção terão prescrito.
Depois de tudo isto como é que alguém pode não ter dúvidas sobre os resultados do processo de investigação ? Como é que o PGR precisa de um inquérito para perceber se alguma coisa correu mal ?
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sexta-feira, julho 30, 2010
Por esclarecer ? ao fim de seis anos ?
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| Publicado pelo jornal Público de 30.07.2010 |
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terça-feira, julho 27, 2010
Um mau serviço à democracia
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Sócrates prestou hoje um mau serviço à democracia ao ceder à sofreguidão do aproveitamento político do caso Freeport.
Num país onde as investigações e os processos duram quase sempre muitos anos, são quase sempre noticiados com destaque na comunicação social e raramente conduzem à condenação de pessoas "notáveis", Sócrates não tem qualquer legitimidade para se apresentar como vítima.
Como primeiro-ministro Sócrates devia antes congratular-se com a profundidade e minúcia da investigação e com o facto de tais investigações terem prosseguido durante anos apesar de haver no caso referências a altos dirigentes políticos.
Qualquer homem público de estatura exigirá sempre mais e mais investigação quando o seu nome está em causa em vez de se queixar do sistema de justiça perante o povo na televisão.
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segunda-feira, julho 19, 2010
Mais vale prevenir...
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sábado, março 06, 2010
Freeshore, Off-Port e o CAOS
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Haverá ainda, no lote de informação recolhida em Inglaterra em Dezembro de 2009, um documento de um responsável financeiro do Freeport com alusões explícitas à alegada necessidade de pagar ‘luvas’ a um triângulo de figuras — a Sócrates e a outros dois membros do Governo.
Só com a comprovação desses indícios e a obtenção de testemunhos contundentes na próxima viagem a Londres — que reforcem as pistas iniciais —, a situação de não arguido do primeiro-ministro será reequacionada.
A Polícia Judiciária já concluiu a análise pericial dos milhares de páginas de documentação financeira entregues pelo Serious Fraud Office (SFO) na última deslocação da equipa a Inglaterra, mas a verdade é que, até ao momento, não foram encontradas provas de transferências directas de dinheiro para sustentar a suspeita de que a aprovação do Freeport teria como contrapartida o financiamento ilegal do Partido Socialista através do então ministro do Ambiente. A PJ e o MP estão a aguardar, no entanto, as respostas às cartas rogatórias enviadas às autoridades de alguns paraísos fiscais para poderem chegar a conclusões sobre o rasto do dinheiro.
Expresso, 06.03.2010
Quando oiço Sócrates lamentar-se por andar a aturar o caso Freeport há vários anos eu, que sou um simplista, penso assim: eu já tinha chamado a polícia e os magistrados e dito "tomem lá as minhas contas bancárias todas e descubram lá onde está a massa que eu recebi, já que eu, infelizmente, não dei por nada". Acabava-se logo o meu martírio.
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domingo, novembro 22, 2009
A impagável trama dos dois Silvas
A conspiração começou com um agente da PJ de Aveiro. Sentou-se num café, olhou em volta, pediu a tradicional bica e perguntou a si mesmo:
— Como é que vou tramar o Sócrates, que isto do Freeport já está a arrefecer?
Depois de pensar um pouco, teve uma revelação: escutar um sucateiro de nome Godinho.
A razão pela qual escutando um sucateiro de nome Godinho teria de conduzir directamente as escutas ao primeiro-ministro, ninguém sabe ao certo. Pode ter sido Deus a inspirar o agente, mas pode ter sido qualquer outra coisa. De provado, dá-se que através do sucateiro se apanha um senhor banqueiro feito à pressa, mas de enorme mérito em certas praças, pracetas, largos, ruas e becos, de nome Vara. E deste se passa ao primeiro.
Certos senhores, que têm por nobre missão defender o Governo na blogosfera (não dando a cara nem o nome, por pura modéstia e certa prudência na passagem de recibos verdes) já aventaram a hipótese de as escutas a Vara terem sido uma manobra que tinha por único objectivo chegar a Sócrates! Eu creio que foi isso mesmo! Segundo me têm dito (e lamento se violo o segredo de Justiça, mas o bom nome impõe-mo) nas escutas ao senhor da sucata só se ouvem, da parte do banqueiro Vara, conselhos sensatos: paga o que deves ao fisco; vê lá se não apanhas mais contra-ordenações por questões ambientais, e, sobretudo, eu ia lá pedir dinheiro a alguém por lhe apresentar um amigo.
A mesma beatitude e candura se passa — diz-me quem está bem informado — nas escutas entre Vara e Sócrates. Falam do tempo, das rosas, da chuva e parece que um deles elogia os seus adversários políticos, nomeadamente o Presidente, e refere que não gosta particularmente de uma telenovela da TVI.
A artimanha (que já transformara injustamente Vara em arguido, acarretando-lhe a infelicidade de se sujeitar a ganhar o salário sem dar a compensação devida do trabalho) não resultou, pois! E, irritados por não terem encontrado nada para incriminar o primeiro-ministro, o agente, juntamente com o procurador distrital e um juiz de instrução mandaram tudo para o PGR e para o Supremo, na esperança que estes, mais experientes, pérfidos e sabedores, encontrem ali crime que lhes tenha escapado. Os dois vértices da conspirata bem se esforçam, mas têm de reconhecer, ao fim de uns meses, que nada se pode fazer sobre o assunto.
E assim se desmontou a conspiração e a espionagem. Vejam lá, meus amigos, de que são capazes magistrados, inspectores, polícias, só para dar cabo do chefe do Governo, esse Santo!
Felizmente, os Silvas, que estavam com um pó à Justiça que nem a podiam ver, tiveram a coragem de denunciar. E eu, já se vê, subscrevo-os inteiramente. O resto que ouvem dizer não passa de mentira pegada!
COMENDADOR MARQUES DE CORREIA
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terça-feira, maio 12, 2009
O caso Lopes da Mota
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O procurador-geral da República (PGR) determinou hoje a abertura de um processo disciplinar ao presidente do Eurojust, Lopes da Mota, sobre as alegadas pressões feitas aos dois procuradores responsáveis pelo "caso Freeport".
Diário de Notícias, 12.05.2009
Então andaram um mês a investigar para saberem se podiam começar a investigar ? Agora recomeçam a investigação daquilo que já foi investigado ?
É estranho pois não se trata de um caso complexo. Limita-se a duas conversas entre o "acusado" e as "vítimas".
Mais um caso paradigmático das infindáveis volutas em que se esgota a justiça em Portugal.
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quinta-feira, fevereiro 12, 2009
Ideias perigosas e bolos de creme
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Anda pela Europa uma estranha vaga de pensamentos que faz lembrar um sujeito mal-afamado, de bigode curto e ambições largas. Um inquérito recente, realizado em sete países europeus e noticiado anteontem em diversos jornais, revela que 31 por cento dos inquiridos considera os judeus culpados pela crise económica global. Não só: também acham que falam demasiado do que lhes aconteceu no Holocausto; que são mais leais a Israel do que ao seu próprio país; que têm demasiado poder nas finanças internacionais; e que têm demasiado poder no mundo dos negócios, velho estereótipo que conduziu o mundo ao que se sabe.
Surpresa: a Espanha é um dos países onde tais preconceitos anti-semitas revelam maior adesão, 64 por cento quanto à "lealdade", 74 por cento quanto ao excessivo poder financeiro.Estas percentagens correspondem a um universo de 3500 adultos que, entre 1 de Dezembro e 13 de Janeiro, puderam expressar a sua opinião em países como a Áustria, França, Hungria, Polónia, Alemanha, Espanha e Reino Unido.
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E Portugal, onde não perguntaram nada sobre o assunto? Vai bem, obrigado. Voltaram os temas fracturantes, gozo de uns e irritação de outros. Os casamentos gay para depois das eleições, primeiro há-de vir o voto, que já puseram a Igreja em alvoroço. Ou a eutanásia, que um grupo de bravos socialistas vai levar ao congresso do PS. Caíram ambos com estrondo em cima do Freeport, como saudavelmente convinha.
Mas, acima de tudo, foi ontem revogada em Diário da República a Lei 4/90, que estabelecia "as características gerais a que devem obedecer os bolos e cremes de pastelaria". Já não é necessária. Há uma lei europeia sobre "critérios microbiológicos aplicáveis aos géneros alimentícios" onde os bolos de creme cabem muito bem.
"Ideias perigosas e bolos de creme", Nuno Pacheco, Público 12.02.2009 (excertos)
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sábado, fevereiro 07, 2009
Meio aeroporto
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O buraco no Banco Português de Negócios já vai em €1800 milhões. Por causa dele, a Caixa Geral de Depósitos será obrigada a aumentar de novo o capital — e apesar do dinheiro que já meteu no BPN, mais de €1400 milhões, este continua em estado de morte clínica.
A intervenção do Estado está a ser, pois, muitíssimo onerosa para os contribuintes. Mas muito poucos, entre os quais me incluo, defenderam que, em vez da nacionalização, o Estado deveria ter deixado o banco falir, porque a sua situação deve-se sobretudo a uma gestão fraudulenta e não à crise mundial.
Com medo do risco sistémico, o Governo entendeu nacionalizar o banco e garantir a totalidade dos depósitos. Não o deveria ter feito — e, num caso de polícia como este, os depósitos só deveriam ser garantidos até ao limite estipulado de €20 mil) e não pela totalidade.
Por isso, não sei se rio se choro quando vejo todos os que aplaudiram a nacionalização virem agora dizer que ela foi feita sem ser conhecida a real dimensão do problema. Acho que choro.
Nicolau Santos, Expresso 07.02.2009
Enquanto o pessoal se entretinha com o Freeport deu-se um conto do vigário do tamanho de meio aeroporto. Com tais distracções é caso para dizer, recorrendo à linguagem aeronáutica, que "voamos baixinho" e "aterramos de papo".
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sexta-feira, janeiro 30, 2009
Sócrates como subsídio
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Hora da publicação: 09:19 0 comentários
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quinta-feira, janeiro 29, 2009
Síndrome "avião de Sá Carneiro"
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Síndrome é o agregado de sinais e sintomas associados a uma mesma patologia e que em seu conjunto definem o diagnóstico e o quadro clínico de uma condição médica. Em geral são um conjunto de determinados sintomas, de causa desconhecida ou em estudos, que são classificados, geralmente com o nome do cientista que o descreveu ou o nome que o cientista lhes atribuir. Um síndrome não caracteriza necessariamente uma só doença, mas um grupo de doenças.
(WIKIPÉDIA)
O meu amigo Jorge continua no Trix-Nitrix a sua saga Freeport (já no quarto episódio) e queixa-se da indiferença da blogosfera relativamente ao assunto. "Os outros blogs de referência ignoram-no olimpicamente. Estão no seu direito", diz ele.
Passei alguns segundos a cogitar sobre as razões que ditam a minha própria indiferença quanto ao Freeport e cheguei à Síndrome "avião de Sá Carneiro", que ocorre com grande frequência numa faixa da Península Ibérica, a Ocidente, com cerca de duzentos quilómetros de largura.
Em que consiste esta síndrome ? Aqui vai a minha explicação: é uma tendência patológica para nunca actuar quando os factos estão a acontecer, ou pelo menos em tempo útil, e para regressar aos casos muitos anos depois, quando já não se pode provar nada e os "relatórios técnicos", às dezenas, são totalmente contraditórios.
Tem-se verificado que, quando ocorre, a síndrome se manifesta por um grande formalismo; não interessa se é ou não importante, se foi ou não prejudicial, o que interessa é se os trâmites foram cumpridos mesmo que os trâmites sejam a capa da tramóia.
Não se trata de prejuízos e penalizações quantificadas mas sim do cumprimento, rigoroso ou não, de elevados padrões éticos abstractos e incomensuráveis.
Claro que não passa pela cabeça de ninguém encontrar, e ainda menos punir, qualquer responsável. Não há memória de tal coisa ter alguma vez acontecido.
Seria aliás absolutamente indesejável chegar-se a uma qualquer conclusão pois ela impediria-nos-ia de continuar, saborosamente, a discutir se foi acidente ou atentado.
Trata-se apenas de arranjar temas para os discursos, as capas dos jornais e as conversas do Zé Povinho.
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terça-feira, janeiro 27, 2009
Neurónio criativo
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"A empresa Neurónio Criativo, que pertenceu a Hugo Monteiro, primo de José Sócrates, só foi criada em 2005 e apenas durou dois meses. Foi para aquela sociedade que o primo do primeiro-ministro cobrou um favor junto do Freeport, pelo facto de o pai ter intermediado um encontro entre Charles Smith e José Sócrates, ministro do Ambiente à altura da aprovação do outlet de Alcochete." DN 27.01.2009
O primo de Sócrates tinha um neurónio criativo. O problema é que era só um e durou apenas dois meses.
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