sexta-feira, dezembro 19, 2008

Jogo de sombras chinesas

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O presidente chinês, Hu Jintao, afirmou nesta quinta-feira que a China continua comprometida com as reformas que lhe permitiram se tornar um dos gigantes econômicos do planeta, mas 'com uma preocupação de estabilidade' e sob a batuta do Partido Comunista, no poder.
"É impossível voltar atrás. O desenvolvimento futuro da China deve depender da reforma e da abertura", declarou o chefe de Estado e secretário-geral do Partido Comunista Chinês, durante uma cerimônia para celebrar o 30º aniversário do lançamento das reformas.
Contudo, em discurso de mais de uma hora e meia pronunciado diante de 6.000 convidados em Pequim, Hu Jintao também colocou limites a esta abertura, destacando que ela tem que vir junto com estabilidade e continuar sob a direção do Partido Comunista no poder.
"Nos demos conta de que o desenvolvimento é a lógica de base, e a estabilidade a tarefa de base. Sem estabilidade, não podemos fazer nada, e perderemos tudo que ganhamos", afirmou.
"Nosso partido seguirá sendo a coluna vertebral de todos os grupos étnicos nacionais para administrar os diversos riscos e desafios, externos ou internos, e continuará sendo a base no processo histórico de desenvolvimento do socialismo segundo as características chinesas", prosseguiu.
Em seu discurso, repleto de referências ao marxismo e ao socialismo, o presidente Jintao enumerou as profundas mudanças, sobretudo econômicas, que surgiram na China desde o lançamento das reformas sob a batuta do ex-dirigente chinês Deng Xiaoping.
Ele se referiu principalmente à reunião mantida pelo Partido Comunista de 18 a 22 de dezembro de 1978, durante o qual foram ratificadas as reformas. Esta reunião "marcou uma nova etapa na história do partido" desde a instauração da República popular da China, em 1949.
Em 1978, a China estava começando a emergir do caos da Revolução Cultural (1966-1976), com um Produto Interno Bruto (PIB) de apenas 364 bilhões de yuans. Em 2007, a China declarou um PIB mais de 68 vezes superior, de 24,953 trilhões de yuans (3,421 bilhões de dólares, segundo o câmbio do fim de 2007).
"O crescimento médio anual foi de 9,8%, ou seja, mais de três vezes a média mundial. A economia chinesa se tornou a quarta maior do mundo", ressaltou o chefe de Estado. "Não deixamos de nos abrir para o exterior e viramos uma página histórica, ao passar do fechamento à abertura em todos os setores", afirmou.
"Hoje o povo chinês está no caminho da prosperidade e da felicidade. O socialismo de características chinesas mostrou seu vigor e sua vitalidade", considerou.

AFP, 18.12.2008

No mesmo dia em que Hu Jintao pronunciou este discurso foram divulgados números sobre os internautas chineses. Com 290 milhões de internautas, 80% dos quais em banda larga, a China ultrapassou os Estados Unidos como a maior comunidade online do mundo.
O renascimento da China nos últimos 30 anos é um dos factos mais importantes do Século XX mas tem passado despercebido por causa do despeito de alguns e dos preconceitos (racismo ?) de muitos.
Um dia, no futuro, ter-se-á uma noção mais exacta das consequências gigantescas, para o bem ou para o mal, desta transformação silenciosa do gigante asiático, para além dos fait-divers provocatórios que constantemente a ocultam.
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3 comentários:

Anónimo disse...

Boa. É assim mesmo. Porque há muitos, e refeiro-me aos bem intencionados, que estou com dificuldades de conseguir vir a nova realidade chinesa em construção. Por isso, estes posts são uma contribuição valiosa.Eu também procuro nos meus escritos passar o conhecimento desta realidade... Força.FSilva

Pereira Bastos disse...

Bem, Penim, nós até estivemos lá;o acesso ao mundo global tem muito que se lhe diga:veja que a solução preconizada para enfrentar a crise na China é o fomento do consumo interno! Só que os chineses parece que preferem não consumir tanto quanto os seus dirigentes desejariam porque têm de poupar muito para tratarem da saúde (lembra-se do que disse uma das n. guias sobre o internamento do avô?...); o sistema social chinês é um desastre!

F. Penim Redondo disse...

Caro Pereira Bastos, é um facto que a "segurança social" na China deixa muito a desejar.
Os dirigentes chineses vão ter que tomar medidas se quiserem potenciar o seu enorme mercado interno.
Felizmente têm uma das mais elevadas taxas de poupança, e hábitos frugais, o que talvez lhes permita resistir à crise.