terça-feira, fevereiro 10, 2009

Chimerica

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Autor do livro 'The Ascent of Money' (A Ascensão do Dinheiro), que deverá ser lançado no Brasil pela editora Planeta, o historiador econômico Niall Ferguson, professor das universidades Harvard e Oxford, conversou com exclusividade com o Portal EXAME sobre temas como a crise mundial, uma possível bolha no mercado de títulos americanos e o retorno do protecionismo. Veja a seguir os principais trechos da entrevista

Qual é a perspectiva para o que o senhor chama de Chimérica - a relação econômica simbiótica entre os Estados Unidos e a China - em 2009 e o G2, o encontro das duas potências?
Em primeiro lugar, o que chamo de Chimérica, a combinação entre a China e a América continua sendo central para o funcionamento da economia mundial e em muitos aspectos ela é a chave para sabermos se a crise atual se tornará uma Grande Depressão. Os Estados Unidos têm confiado por alguns anos na China e em outros países para financiar os déficits em conta corrente. E isso vai continuar acontecendo em 2009. A questão é saber o quanto do endividamento planejado pelo governo Obama a China estará disposta a financiar, num momento em que a economia chinesa está sofrendo efeitos severos da crise, causados pela queda de importações americanas. O grande risco é que as relações entre os dois países se deteriorem em função de discordâncias sobre comércio externo ou o câmbio. Para Obama, a coisa mais importante é se certificar de que as relações sejam as melhores possíveis. Assim, a Chimérica, a relação entre a China e a América continue a ser mutuamente benéfica. Essa será uma questão de enorme importância para o governo. E em relação a um encontro G2, entre os dois países, no nível mais alto, creio que ele precise acontecer o quanto antes. Não existe outra relação mais importante para os EUA hoje do que a China.

Como o senhor vê a disposição dos chineses em continuar financiando os sucessivos déficits americanos através da compra dos títulos do Tesouro dos EUA?
Bem, de um lado, os chineses tem menos recursos disponíveis. Isso significa dizer que muito do dinheiro que a China usava para comprar títulos americanos, como no ano passado, foi dinheiro obtido através dos superávits gerados pelas exportações chinesas. Mas em função da crise, já não é mais possível que a China continue gerando superávits naqueles níveis, uma vez que o comércio mundial declinou tão velozmente. Logo, os chineses terão menos dinheiro disponível para investir em moeda e ativos americanos, simplesmente em função das atuais condições econômicas. Ao mesmo tempo, é claro que a China precisa aumentar o seu nível de demanda doméstica, focando mais no aumento do consumo dos próprios chineses, que devem diminuir o seu nível de poupança. E se os domicílios chineses começarem a poupar menos, mais uma vez teremos menos recursos fluindo para o Banco Popular da China que possam ser investidos em ativos denominados em dólar. Mas acontece que os Estados Unidos irão continuar a emitir mais títulos do Tesouro para financiar os programas de recuperação econômica do governo Obama - tentando tomar mais dinheiro emprestado - e é aí que as tensões serão visíveis esse ano. Isso vai gerar um déficit de 1 trilhão a 1,5 trilhão de dólares. Isso vai ser difícil de financiar, e a China certamente não será capaz de absorver isso como fez no ano passado.
Portal EXAME, 09.02.2009
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2 comentários:

Jornal de Notícias disse...

Um investidor chinês está interessado na compra da Qimonda. A notícia foi confirmada, esta segunda-feira, e segundo a revista "Wirtschaftswoche", a empresa chinesa CSMC, unidade da China Resources Microelectronics, já iniciou as negociações há alguns meses para a aquisição da empresa alemã de "chips", declarada insolvente.

A possibilidade de já existir um potencial comprador tinha sido avançada por Dietrich Kley, presidente do conselho de supervisão da "casa-mãe", a Infineon Technologies, numa entrevista ao diário alemão "Sueddeutsche Zeitung". O gestor afirmou que a casa-mãe estava em negociações para a venda da subsidiária fabricante de memórias, Dram (Dynamic Random Acess Memory) com "um investidor de uma província chinesa".

Anónimo disse...

Em Janeiro de 2009, pela primeira vez, não foram os americanos que compraram mais carros (650 mil), foram os chineses (790 mil). A História também anda sobre rodas
Ferreira Fernandes, DN