sábado, novembro 08, 2008

"Yes, we can" mas é um pouco mais complicado

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Passou-me pela cabeça escrever o slogan de Obama em mandarim, a língua materna de uns 90% dos chineses. Partindo do princípio de que a coisa está certa, o que não posso garantir, conclui-se que em chinês a coisa é um bocadinho mais complicada.

Parece que o Obama era como, como não podia deixar de ser, o candidato preferido dos chineses. A embaixada americana "inventou" umas urnas falsas e uns candidatos de cartão para os chineses brincarem às eleições. O pessoal divertiu-se imenso.


Entretanto quem não brincou foi o primeiro-ministro chinês que, talvez num recado pouco subtil ao novo presidente americano, avançou com as seguintes declarações:


"O primeiro-ministro chinês, Wen Jiabao, afirmou nesta sexta-feira que os países desenvolvidos devem mudar seu "estilo de vida, que não é sustentável", para combater a mudança climática, informou a agência estatal Nova China.
"Os países desenvolvidos devem assumir sua responsabilidade e seu dever para enfrentar a mudança climática, mudar seu modo de vida, que não é sustentável, e ajudar os países em desenvolvimento a lutar contra o aquecimento global", declarou Jiabao no primeiro dia de uma conferência internacional organizada em Pequim pelo governo da China e a ONU."
AFP

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2 comentários:

JMC disse...

Os chineses são muito enigmáticos e subtis e a gente nunca sabe bem o que eles querem dizer. Desta vez, a mensagem também deve ter múltiplas interpretações. Para nos ajudar a compreendê-las, o melhor é socorrer-nos dos exemplos que a China está a dar ao mundo, contribuindo decisivamente para combater o aquecimento global.

O rol é extenso, na medida em que o capitalismo está florescente e as taxas de crescimento são elevadas: multiplicar as fábricas e as respectivas chaminés, assim como as toneladas de CO2 emitidas; pôr milhões de utilizadores de bicicletas, que com o arroz constituía um meio expedito de manter a linha, a andarem de motorizada ou de automóvel, emitindo mais CO2; começar a alojar milhões de cidadãos em modernos edifícios de apartamentos, com um mínimo de condições e de conforto, abandonando os velhos casebres de adobe que se esboroavam a cada tremor de terra; criar maior número de cidades gigantescas (na China, tudo o que se refere a pessoal é gigantesco), com maior consumo de energia que tal implica; etc. Como se vê, a China não está em condições de contribuir para a travagem do aquecimento global, restando-lhe, por isso, clamar por ajuda.

Compreende-se que a China pretenda entrar como parceiro para o grupo dos grandes, e aproveite a altura de crise para lembrar que as coisas não podem continuar como dantes. O Banco da China tem avultadas reservas em moeda americana, provenientes das exportações, assim como em títulos da dívida pública americana e em títulos de propriedade de grandes empresas americanas, em que investiu como alternativa ao entesouramento, e deve ter mostrado o seu descontentamento com um modo de vida desregrado, como o dos americanos, que através do consumo acima das possibilidades, põe em risco a rentabilidade das aplicações financeiras dos seus fundos de investimento. Também deve ter contribuído para atenuar os impactos imediatos da crise financeira injectando alguns milhares de milhões de dólares na banca internacional em aflição. No fundo, no seu começo, a crise está servindo para reforçar o papel da China no mundo, e compreende-se que os seus dirigentes aproveitem todos os pretextos para aparecerem nos media internacionais.

Infelizmente, esse reforço do papel mundial da China tem como contrapartida o reforço da sua contribuição para o agravamento do aquecimento global. São por isso irónicas as preocupações dos dirigentes chineses com a contribuição dos outros para o aquecimento global. E não se vislumbra que nas próximas décadas a China dê qualquer contributo de relevo para diminuir o aquecimento global. Após a acertada decisão de acabar com o comunismo e de através da expansão do capitalismo tentar tirar da frugalidade e dum estilo de vida simples, mas duro, sempre à mercê das contingências da natureza, centenas de milhões de seres humanos, a China entrou para o grupo do industrialismo predador, usando, em muitos casos, tecnologias mais atrasadas e mais poluentes, já abandonadas noutros países mais desenvolvidos (a quem as comprou). Se atentarmos nos muitos milhões de camponeses que ainda tem para transformar em modernos operários industriais, nos muitos milhões de barris de petróleo que ainda tem de consumir, nos muitos milhares de toneladas de CO2 e de outros poluentes que ainda tem de produzir, enfim, no que falta ainda à China percorrer para recuperar do atraso de cinquenta anos de comunismo e para se transformar num país desenvolvido, só poderemos esboçar um sorriso perante tais desabafos dos dirigentes chineses.

A não ser que a actual crise financeira mundial se transforme rapidamente numa crise de sobreprodução, devido à natural retracção do crédito que a mascarava, com graves efeitos mundiais, e, nesse contexto, as exportações da China sofram uma tal quebra que leve a atenuar substancialmente os elevados ritmos do crescimento da sua economia. Mas, num cenário de crise de sobreprodução mundial, a crise de subprodução em que ela se transformará, com a drástica redução da produção industrial, conduzirá inevitavelmente todos os países a reduzirem as suas contribuições para o aquecimento global. Quem sabe, até, se uma tal crise e a contribuição (real ou imaginária) do industrialismo para o aquecimento global, não virão a constituir para o dinheiro usurário, rentista e mafioso que por aí abunda (originário dos chorudos lucros da banca, da cartelização do petróleo, da droga, da poupança dos reformados e dos fundos de pensões futuras dos trabalhadores activos), cujas aplicações especulativas estiveram na origem da actual crise, uma oportunidade para a sua transformação em capital, através da aplicação no desenvolvimento e na produção de inovações tecnológicas que não degradem tão aceleradamente o ambiente. Para já, o desenvolvimento tecnológico parece ser a única alternativa à guerra viável para a saída duma crise de subprodução, pelo menos nos EUA, que devido ao nível elevado dos salários só poderão melhorar as suas exportações através de produtos inovadores que não encontrem por algum tempo concorrentes à altura.

Se nos lembrarmos dos dois grandes instrumentos que determinaram a transformação dos EUA na maior superpotência, o Plano Marshal de empréstimos de longo prazo e com taxa de juro baixa aos países europeus e a constante inovação tecnológica, veremos que na actual situação a saída para a crise mundial continua a estar nos EUA, desta vez não através da concessão de crédito, mas usufruindo do dinheiro que não pára de lá afluir perante as reduzidas oportunidades de rentabilização com que se depara noutras paragens. A aposta dos neoconservadores conselheiros da administração Bush na guerra como instrumento para a recuperação das dificuldades da economia americana, desde logo, pelo desenvolvimento do negócio com os consumos da guerra e da reconstrução do Iraque destruído, e, depois, pelo controlo da exploração petrolífera iraquiana, da qual as empresas americanas estavam arredadas pelo embargo, e da exploração da droga no Afeganistão, a que a máfia americana eventualmente ainda não chegara, mostrou-se de todo inadequada, e os dois mandatos do presidente ainda em exercício acabaram por constituir um dos períodos mais negros da história americana.

Para além de outras decisões de política interna, reforçando o investimento público nas redes viária e energética degradadas, na recuperação das escolas públicas, nos serviços mínimos de saúde e de protecção social, na institucionalização dum salário mínimo condigno, por exemplo, só através do incentivo creditício e fiscal às actividades industriais de inovação e desenvolvimento tecnológico poderá salvar os EUA e o mundo duma crise de subprodução de grandes dimensões. Veremos, então, qual o papel que a China poderá desempenhar nessa orientação para a saída da crise, que ainda é onde poderá residir algum contributo seu para a não degradação do ambiente.

As minhas desculpas, porque o comentário acabou inesperadamente por sair extenso e talvez desinteressante e inoportuno.

JMC.

F. Penim Redondo disse...

Caro jmc,

o texto do comentário é bastante interessante e eu partilho de boa parte das suas opiniões. O tamanho, pelo menos neste caso, não é relevante.

Sobre a China: se considerarmos a proporção entre a população da China e dos países ocidentais, e a contribuição para o aquecimento global per capita, temos que dar razão ao Wen Jiabao.

Aquilo que esle está a dizer é: não nos peçam para nos limitarmos enquanto vocês esbanjam recursos.