sexta-feira, maio 18, 2007

Tirou-me as palavras da boca...



NÃO HAVIA NINGUÉM PARA LISBOA E HÁ QUE TEMPOS

Fernanda Câncio
jornalista, Público 18 Maio 2007
fernanda.m.cancio@dn.pt

Parece um pouco difícil de crer, mas agora já não há dúvidas. Nem o PS nem o PSD tinham passado um minuto - ou meio minuto - a pensar em Lisboa e em alguém para a governar até que não tiveram outro remédio. Das duas uma: ou porque Lisboa não interessa aos dois principais partidos (difícil crer nisso, apesar de tudo), ou porque quem manda sabia que era tão difícil encontrar candidatos adequados e disponíveis que só a pontapé se dispôs a isso.

O resultado foi a saída do número dois do Governo, António Costa, e o recurso, pelo PSD, primeiro a um presidente de câmara em exercício (Fernando Seara, que recusou) e depois a um pau para toda a obra, Fernando Negrão, o juiz desembargador que, depois de sair da direcção da Polícia Judiciária por suspeita de violação do segredo de Justiça (sob o Governo Guterres), se disponibilizou, numa entrevista radiofónica, para qualquer cargo de ministro no Governo de Durão, acabando por "receber" o Instituto da Droga e da Toxicodependência, só sendo alcandorado a ministro da Solidariedade (e da Família e da Criança) por Santana Lopes e ocupando agora um lugar de deputado sem brilho que acumula com a vereação em Setúbal, a cuja presidência foi candidato. Não se lhe conhece uma única ideia, reflexão, proposta ou opinião sobre Lisboa, quanto mais uma ideia, reflexão, proposta ou opinião interessantes sobre Lisboa . Estava disponível - não está sempre? E zás, lá vai ele. Parece o candidato óbvio para perder - mas Carmona também parecia e Carrilho conseguiu o milagre de lhe oferecer a câmara, portanto prognósticos só no fim.

Quanto a Costa, bom, tinha a tutela das autarquias e não se pode dizer que é um homem sem brilho nem ideias. Mas assim, de repente, sobre Lisboa não se lhe lembra uma frase. Claro que o PS pode clamar que foi buscar o melhor que tem e que isso corresponde a uma valorização da eleição e a uma aposta muito forte na recuperação de uma cidade cujo estado de caos e desgovernação alcançou um máximo histórico. Só que ir buscar um ministro, e este ministro, clarifica sobretudo o deserto das opções no partido da maioria absoluta.

Mas estas opções deixam outra coisa muito clara: na vereação e na assembleia municipal não havia, na avaliação dos dois partidos, ninguém de jeito para disputar a capital (a única excepção, Paula Teixeira da Cruz, tem obviamente outros planos). O PS e o PSD encheram a câmara de gente sem notoriedade nem peso político, que se arrasta por ali há anos. Com o resultado que está à vista, e em relação ao qual nenhuma das forças políticas (CDU e CDS incluídos) pode clamar inocência. Começamos mal, portanto - porque é muito mal que estamos, e há muito tempo.

terça-feira, maio 15, 2007

Impressões Fotográficas de Buenos Aires



Quatro meses depois de ter regressado da Argentina publico, finalmente, as minhas impressões fotográficas da grande urbe (clique AQUI).

Talvez por ter ouvido demasiados elogios Buenos Aires foi para mim uma desilusão.

Penso que as pessoas ficam bem impressionadas com o "ar europeu" da cidade mas, para mim, isso acaba por dar a sensação de estar perante uma cópia de segunda categoria.

Não tendo monumentos notáveis nem qualidades paisagísticas (o "mar de la plata" quase não se vê da cidade e, onde se vê, tem águas barrentas) a cidade vive essencialmente do ambiente criado pelo tango, Evita e os bifes pantagruélicos.

Há um "cheiro" no ar, uma mistura de Espanha e de Itália, com travo a emigrantes pobres que depois enriqueceram.

Talvez seja daqueles sítios que já tiveram o seu tempo...

segunda-feira, maio 14, 2007

Cidadãos por Lisboa



Já pode visitar o Blog da campanha Cidadãos por Lisboa

Helena Roseta é arquitecta, não esteve envolvida nas golpadas dos últimos anos na autarquia lisboeta, parece ser uma pessoa séria e até teve a coragem de entregar o cartão do PS.

Por que não havia de ter direito a candidatar-se ?

sábado, maio 12, 2007

Um fado triste



Está imparável a retórica que pretende "devolver a palavra aos lisboetas". Omite piedosamente que foram os lisboetas que elegeram Carmona e, antes dele, Santana Lopes. Dois enganos consecutivos são, pelos vistos, insuficientes. Havemos de votar até acertar, até que alguém verdadeiramente esclarecido (quem será ?) se dê por satisfeito.

Para facilitar a vida ao eleitor, cujo historial é bastante fraco, vamos aparentemente ser brindados com grande número de candidatos que vão do PNR até aos independentes para todos os paladares. A recusa das alianças é a demonstração cabal de que os partidos se preocupam mais com as suas manobras eleitorais do que com a solução dos problemas de Lisboa que eles dizem ser catastróficos.

Os jornais e quase todos os comentadores congratulam-se com o facto de os maiores partidos se prepararem para candidatar "nomes sonantes" e vão ao ponto de considerar que tal constitui um motivo de esperança. Discordo completamente e considero que é, isso sim, uma demonstração da inexistência de planos sérios, desenvolvidos por quem no terreno tenha passado anos de tarimba. Vai-se portanto, à pressa, deitar mão ao sabonete, perdão, ao candidato que melhor corresponde aos requisitos do marketing.

As "calamidades" que se abateram sobre a cidade de Lisboa devem-se, por definição, à perfídia "dos nossos adversários" o que nos dispensa de qualquer análise mais elaborada e trabalhosa.

Assim continuaremos de arguido em arguido, de "providência cautelar" em "providência cautelar", de milhão deficitário em milhão emprestado, até que os actuais 11.000 funcionários (!!!) se tenham convertido em 30.000.

Caramba, isto dava um grande fado (triste).

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Para acabar cito um leitor do Expresso de hoje, Francisco Costa Duarte, com quem partilho preocupações:

Nos últimos dias não tenho ouvido falar de outra coisa senão Lisboa, Lisboa, Lisboa. Será que se discute um plano sério para a reabilitar, uma espécie de Polis económico, social e cultural que lhe devolva as centenas de milhares de habitantes perdidos nas últimas décadas, lhe propicie a inversão da decadência visível a olho nu, lhe permita sobreviver ao trânsito automóvel caótico, lhe devolva o Tejo? Gostava que fosse mas não é!

Admitiria que este falatório discutisse esta crise como resultante do falhanço das actuais organização e prática política/partidária que temos: clubes partidários fechados, procura de satisfazer interesses individuais não merecidos, muitas vezes, inconfessáveis, lóbis com avultados lucros à ‘mesa do Orçamento’, à custa de todos os portugueses, desconhecimento e desprezo pelas opiniões e aspirações das populações, desinteresse e desmotivação destas, etc. Gostava que fosse mas não é!

O que acontece e se discute é uma feira de vaidades, sede e cálculos de poder, defesas de interesses não transparentes, de uns tais Carmonas, Mendes, Carrilhos, Santanas, Bragaparques e outros figurões, individuais e colectivos, uma espécie de clube fechado de «aparatchiks» que, parece, como nos dogmas religiosos, deter toda a verdade sobre Lisboa em particular e sobre o país em geral.

Já ouvi, li e ‘interneti’ vários ‘fóruns’ e o que vejo é falar de “carácter”, “dignidade”, “carisma”, “competência”, “honestidade”, “transparência”, desta espécie de clube. Ainda não ouvi foi falar de Lisboa! Nem das aspirações dos seus residentes. (...) Pouco me interessa o “carácter”, a “dignidade”, o “carisma”, a “competência”, a “honestidade”, a “transparência”, dos membros do tal clube, se tudo isso não é posto ao serviço da população. Porque acho que, além de mais, no fundo, todas as pessoas são boas, mas que, bastas vezes, as profundidades assustam. E porque, não sendo ao serviço da comunidade só servem para crescer o ego e o bolso dos próprios. (...)

Por isso, adoptei outro critério interventivo: sempre que tiver oportunidade faço boa publicidade do Município: Por exemplo: “Este telhado mete água, foi feito pela EPUL”; “Com o Túnel de Lisboa chega à António Augusto de Aguiar. Com o mesmo dinheiro o Metro chegava ao Cacém” (...)

sexta-feira, maio 11, 2007

A Vitória de Sarkozy e a Direita Portuguesa II

Li hoje o artigo do Ignacio Ramonet sobre a vitória do Sarkozy nas eleições francesas, publicado na edição portuguesa de Le Monde Diplomatic (n.º 7, Maio de 2007). Apesar de não considerar que este invalide o que afirmo no início do meu texto relativamente à não existência de uma ruptura com o passado, que motivava o grande júbilo pela direita portuguesa, corroboro perfeitamente a opinião daquele articulista que conclui que nesta V República “Sarkozy é o primeiro presidente simultaneamente neoliberal, autoritário, pró-americano e pró-israelita.”




Ou seja, se a minha preocupação era mostrar a incongruência da direita ao festejar uma vitória que no fundo não alterava na prática os detentores do poder, que continuavam a ser de direita, reconheço, no entanto, que há de facto um novo programa político, muito mais preocupante, na presidência francesa.

Um Cenário Excessivo


Still Life - Natureza Morta

A velha cidade de Fengjie já está debaixo de água, mas o seu novo bairro ainda não foi terminado. Há coisas a salvar e há coisas a deixar para trás…
Han Saming, um mineiro, viaja para Fengjie para procurar a ex-mulher que não vê há 16 anos. Quando se encontram nas margens do rio Yangtze, decidem voltar a casar-se.
Shen Hong, uma enfermeira, viaja para Fengjie à procura do seu marido que não vem a casa há dois anos.Abraçam-se em frente à barragem das três gargantas.Mas apesar da dança, decidem tristemente acabar e pedir o divórcio.

Os homens e as mulheres procuram o seu lugar, desesperadamente, num cenário demasiado grande. É preciso lutar pela identidade num mundo onde se acotovelam demasiados "figurantes".

Uma sociedade vai-se afundando enquanto outra emerge, tudo oscila, não é fácil estar de pé...
Tudo isto está no perturbante novo filme de Jia Zhang-Ke.
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quinta-feira, maio 10, 2007

CML - Um novo enfoque

Como a nossa realidade política é um pouco surreal, e o clubismo se parece e confunde cada vez mais com a militância política, podemos também olhar para a crise na CML no contexto da luta dos "benfiquistas" para impedir o Sporting de ver o seu projecto de loteamento aprovado.


Depois de ter sido conhecida a notícia do adiamento da votação do loteamento dos terrenos do Sporting por parte executivo municipal, com o pretexto da queda da câmara, são inúmeras as mensagens de apoio ao Conselho Directivo que têm chegado ao Sporting.

A grande maioria das mensagens surge de munícipes de Lisboa, Núcleos e Filiais, que se mostram solidários com o Sporting e exprimem total indignação pela decisão do executivo camarário.

Muitas das mensagens apelam à mobilização dos sportinguistas de forma organizada para mostrar aos munícipes de Lisboa a injustiça criada.

Após a reunião entre Filipe Soares Franco e os vereadores do Partido Socialista, que se realizou no dia 27 de Abril, Dias Baptista salientou que “o que me parece importante é que os três vereadores do PS presentes nesta reunião ficaram cientes de que a proposta tem condições para ser aprovada.”

“Esta reunião foi útil para todos, porque permitiu esclarecer algumas coisas que não estavam bem apresentadas na proposta que foi à sessão de Câmara.”

“O Sporting apresentou os seus pontos de vista e apresentou as garantias que tem contratualizadas com a Câmara Municipal de Lisboa. Nessas garantias existe um contrato programa que clarifica os direitos concedidos ao Sporting da edificabilidade de 109 mil metros quadrados, mais 29 mil metros quadrados. O Sporting demonstrou que tem direito a eles.”

A proposta de loteamento apenas será discutida após as novas eleições para o executivo camarário, que deverão acontecer num prazo máximo de 60 dias. O PCP apresentou a ideia de adiamento, que mereceu a aprovação de todos os partidos, excepto do PSD.

“É muito mau para a cidade que haja processos por decidir desde 1982, com constantes tomadas de decisão da câmara, existindo decisões de 1999, 2002 e 2004. É um processo que tem evoluído num contínuo que devia prosseguir. Não fazia sentido estar a provocar mais um adiamento”, afirmou a vice-presidente da CM Lisboa, Marina Ferreira.

Já tudo me parce possível...

AFINAL QUEM SÃO OS "BENFIQUISTAS" ???

quarta-feira, maio 09, 2007

A Vitória de Sarkozy e a Direita Portuguesa


A direita portuguesa está eufórica, finalmente vinga-se de todas as afrontas que a França infligiu aos seus amigos americanos. Por toda a parte é vê-la a passar ao ataque. Fala de ruptura com o passado, dando a ideia de que não era a direita que governava a França. Chirac o que seria? Um paladino da esquerda? Tirando os anos de Mitterand (1981-95), desde quando é que a direita não governa em França. Toda a V República, que vigora desde 1958, foi, na sua maioria, uma sucessão de Presidentes de direita. Quando é que a esquerda conseguiu impor o seu Programa Comum? Só com Mitterand. Basta uma pequena retrospectiva histórica para se perceber quão grande tem sido a dificuldade da esquerda vencer as eleições presidenciais. Não nos iludamos, existe, e é antiga, uma maioria política de direita em França. Mais, o sistema da V República está organizado de modo a haver um afunilamento para duas únicas alternativas, a direita e a esquerda moderadas, com a vitória quase sempre da primeira. Parece é que, desta vez, esta deixou de ser moderada. O voto útil, a duas voltas, esbate as diferenças que eram tão características da IV República (1946-58).
Mas voltemos à direita portuguesa e aos seus comentadores, a sua intelectualidade orgânica. Teresa de Sousa (Público, 8/5/07), na linha, parece, de comentaristas franceses, fala, a propósito da vitória de Sarkozy, de uma direita descomplexada, que recuperou os valores tradicionais do trabalho, da autoridade e da ordem. Renovou o velho partido gaullista e fê-lo com coerência e sem concessões. E o que fez a esquerda, segundo Teresa de Sousa e os comentadores franceses que transcreve, entrou atrasada nesta era da renovação política e, se quiser governar a França, não lhe resta outro caminho senão transformar-se num partido social-democrata. Ou seja, resumindo, a direita recuperou os velhos valores autoritários da lei e da ordem, que sempre foram seus e a esquerda deve deixar sem complexos todos os seus valores tradicionais, transformando-se num novo blairismo sem Blair. E depois, há esta espantosa teoria, que também não é nova, ouvia pela primeira vez a esse ideólogo da direita portuguesa chamado Rui Ramos, que tal como Blair precisou de Thatcher ou Clinton de Reagan, assim a esquerda francesa vai precisar do seu Sarkozy, para se modernizar. Aqui temos um programa, que a ser levado a sério, e desgraçadamente José Sócrates está a aplicá-lo em Portugal, visa, em última instância, destruir completamente a esquerda e as bandeiras que ainda possam ser as suas e acaba por reforçar a direita no que mais reaccionário ela pode representar, ou seja, conservadora nos valores e liberal na economia.
José Manuel Fernandes (Público, 8/5/07), da direita sem complexos, escreve “que esta eleição foi como que uma contra-revolução face à herança do Maio de 1968”. Parece que estaríamos numa França governada pelos herdeiros soissante-huitard derrotada pelo contra-revolucionário Sarkozy. Esquecem que o Maio de 68 foi vencido por De Gaulle quando se retirou para Baden-Baden e foi buscar o apoio do exército francês estacionado na Alemanha ou quando a direita, na ordem de um milhão, chefiada por Malraux, desceu, no rescaldo dessa iniciativa, os Campos Elíseos. A verborreia política de Sarkozy e dos seus papagaios nacionais é de uma ignorância histórica inqualificável.
Mas os nossos direitinhas não se ficam por aqui. José Manuel Fernandes já tem no papo toda a geografia eleitoral destas eleições. Mas o mais espantoso é alegria com que afirma que o voto dos excluídos foi para Sarkozy e que o pequeno-burguês, a classe média e uma parte do voto rural foi para Ségolène. Esta gente que, em outras ocasiões, tanto tem elogiado a classe média como esteio da democracia e da estabilidade, mas que, quando a canalha vota à direita, fica babada com as suas opções, classificando a classe média como pequeno-burgueses, que são sempre os maus da fita dos romances realistas. Já se sabe que pela rapidez com elaboram estas análises, entram em contradição com o que se afirma aqui: “Sarkozy manteve o seu eleitorado, 82% dos pequenos e médios empresários, 67% dos agricultores e 61% dos franceses com mais de 61 anos votaram nele”. Ou então com esta afirmação, mais comprometida com a esquerda: “Sarkozy teve mais votos nas zonas mais seguras e rurais do que nas periferias complicadas de Paris e na cidade, que conhecem a insegurança de perto.”
Helena Matos (Público, 8/5/07), outra descomplexada da Direita, retoma o tema tão caro a Pacheco Pereira da luta contra o terrorismo, que neste caso se transverte na canalha (racaille, para Sarkozy) que “incendiavam, agrediam e matavam nos arredores das cidades francesas” e que "chegaram a queimar e espancar até à morte" as suas vítimas. A luta decidida empreendida por Sarkozy e por Bush contra a canalha terrorista explica as suas grandes vitórias eleitorais. Da de Bush já conhecemos os resultados, iremos ver a de Sarkozy.
Mas a melhor apreciação está nesse novo delfim da direita chamado Pedro Mexia, já contratado pelo Público: “O gaullismo durou demasiado tempo. Ultimamente, era pouco mais que um bonapartismo muito serôdio e ridiculamente solene. Com a eleição de Nicolas Sarkozy, a França corta enfim com o gaullismo. Sarkozy ainda mantém uma retórica de grandeza e autoridade, mas abraçou ideias novas ou esquecidas. Desde logo, é um liberal, coisa que De Gaulle nunca foi. O seu programa político conjuga valores conservadores (trabalho & propriedade) e liberais (menos impostos, menos poder sindical). A sua política externa é europeísta mas prudente (não quer a «Constituição» mas sim um novo tratado, renegociado e menos ambicioso) e decididamente atlantista (ao contrário da tradição gaullista). Além disso, Sarkozy mostrou que os temas da imigração e da segurança não são monopólio dos sectores radicais, nem reclamam uma resposta radical, embora exijam uma resposta. Mais do que uma derrota da «esquerda», a vitória de Sarkozy foi a derrota definitiva do tardo-gaullismo. É isso que torna este Maio de 2007 numa data histórica.» Aqui o que prevalece, tal como afirmei no início desta intervenção, é o gosto atlantista, a amizade com o amigo americano, o regresso da França ao aprisco dos valores ocidentais e reverentes perante a força e a hegemonia americana, que foram, durante a Guerra Fria, um apanágio da social-democracia, veja-se Mário Soares, o amigo português do Sr. Carlucci, e não uma constante da direita conservadora. Salazar, pelo menos em teoria, não gostava dos americanos. De Gaulle com a sua mania das grandezas sempre pretendeu que a França desempenhasse um papel independente. Ainda recentemente, nos Prós e Contras desta semana, Adriano Moreira lançava catilinárias certeiras contra os republicanos americanos e o Governo de Bush.
Hoje, a a nova direita é ferozmente pró-americana e segue e considera a América como o novo Sol da Terra, por isso não admira que fique tão babada com a vitória de Sarkozy. Talvez se engane.

A Dissidência da Terceira Via



Apresentação do livro e do seu blog

terça-feira, maio 08, 2007

Pós de Contra-Informação



O "Prós e Contras" de 7 de Maio foi promovido desta forma:


Direita ou esquerda?O que valem estes conceitos?Que agendas políticas suportam?O que significa ser de esquerda ou de direita?O Choque de Valores com Mário Soares, Adriano Moreira, Miguel Portas e Paulo Rangel no maior debate da televisão portuguesa.


Claro que a escolha dos intervenientes não permitia grandes expectativas mas o conteúdo do debate conseguiu, mesmo assim, ser desgostante.

Como não podia deixar de ser perdeu-se a maior parte do tempo com declarações "impressionistas" sobre as eleições em França mas isso, creio eu, foi a forma de as "personalidades" presente nos dizerem que não sabem muito bem como responder à pergunta central do debate: "O que significa ser de esquerda ou de direita ?".

Depois de tudo espremido o cidadão, se ainda estiver acordado, concluirá que a diferença se centra no papel do Estado.

A esquerda vai desde o Estado à moda da velha URSS, proprietário de tudo e patrão de todos, até ao mirífico Estado Regulador de Mário Soares, que mantém os capitalistas numa atitude "civilisada".

Não se sabe muito bem com que critérios determinar o ponto de equilíbrio nem como conseguir o bom comportamento dos capitalistas a quem se entregou, em exclusivo, o papel de dinamizar a economia e dessa forma gerar os impostos que pagam o Estado Social.

Mesmo com a presença do "perigoso esquerdista" Miguel Portas ficou a perceber-se que, à esquerda, desapareceu completamente a ideia de uma sociedade pós-capitalista.

Não houve uma única menção a um novo paradigma de organização social e económica.

E no entanto esse "novo mundo", para o bem ou para o mal, está a nascer.

domingo, maio 06, 2007

Patos Bravos (bela síntese)




OBRAS
António Barreto, Público de 6 de Maio 2007

Nada e quase ninguém parece imune. Não se trata de estranha epidemia, nem de misteriosa síndrome. É, tão-só, a construção. Seja na versão das obras públicas, seja na da habitação social. Quer na classificação dos solos, quer na elaboração e na derrogação dos planos directores municipais. Nos loteamentos e nas urbanizações. Ou no licenciamento, nos concursos, nas adjudicações directas e nas trocas de terrenos.

A construção é, em Portugal, a grande excitação dos novos-ricos, a certeza das velhas fortunas, a tentação dos pequenos e médios empresários, a solidez dos grandes grupos económicos e o repouso do guerreiro das grandes empresas. A construção é o golpe de sorte dos velhos proprietários e o motor de arranque do jovem empresário à procura de oportunidades rápidas.

A obra e a construção são o sonho e o pesadelo do autarca, o segredo do intermediário, a garantia de êxito do ministro e a vocação do capitalista. Pode começar-se na agricultura, na indústria, nos serviços ou na finança, mas acaba-se sempre na construção, no imobiliário ou na obra pública. O que faz o autarca que quer ficar na história? Rotundas, parques industriais, centros comerciais, urbanizações, loteamentos, pavilhões gimnodesportivos, piscinas e sobretudo bairros, podendo estes ser sociais, da classe média ou para amigos. O que faz o ministro que quer deixar a sua marca? Grandes obras públicas e auto-estradas, enquanto sonha com cidades administrativas, cidades judiciais, centros de governo, aeroportos, comboios de alta velocidade, grandes loteamentos turísticos, túneis e lagos artificiais. Que fazem os industriais e financeiros quando chegam a um ponto elevado da sua vida económica e perdem gradualmente a visão fundadora e a vocação tradicional? Transferem-se para o imobiliário, a construção e a obra. Que fazem todos os que querem enriquecer depressa? Ocupam-se dos loteamentos, dos planos directores municipais, das reservas agrícolas, dos bairros sociais de que as câmaras tanto precisam, dos miríficos resorts turísticos e de algumas actividades aparentemente estranhas como a requalificação e a revisão dos planos directores. Que fazem os partidos que têm necessidade de recursos financeiros e ocupam lugares nos aparelhos autárquicos e na administração central? São simplesmente uma espécie de corretores: levam e trazem, ajudam, desembaraçam, dão um empurrão, escolhem, seleccionam, animam as empresas municipais, preenchem os lugares decisivos no licenciamento, caçam cabeças e proporcionam encontros férteis. Numa palavra: facilitam. Mas cobram. À vista. Ou em espécie.

Quase todos os processos judiciais por corrupção ou ilícito administrativo e quase todas as irregularidades cometidas pelas instituições públicas têm, como ponto de partida ou passagem obrigatória, uma obra ou uma construção.

Quase todas as grandes fortunas surgidas nas últimas décadas começaram ou acabaram no imobiliário, no licenciamento e no loteamento. A maior parte dos défices camarários e dos negócios ruinosos das autarquias tem, na origem, os bairros sociais, os planos de realojamento, a requalificação de edifícios recentes e as obras relativamente inúteis ou vistosas.

Uma enorme percentagem do desperdício financeiro do Estado central provém dos atrasos em obras públicas, dos "trabalhos a mais", dos orçamentos subavaliados para concursos duvidosos, da "despesa deslizante", das condições leoninas que os grandes empreiteiros impõem à administração pública e da falta de competência dos ministérios para analisar, acompanhar e fiscalizar as obras. Um sem-número de casos políticos, de polémicas azedas, de perturbações nas câmaras e nos partidos, de rivalidades dentro do mesmo partido e de desgoverno na administração tem sempre, algures no processo, uns dinheiros estranhos, uns licenciamentos expeditos, umas adjudicações directas, umas trocas de terrenos e umas mais-valias de várias centenas por cento obtidas com simples decisões administrativas ou políticas. Como já se percebeu, a crise de Lisboa, que é apenas mais uma a somar a outras em tantos sítios, cabe também nesta rede aparentemente intangível.

Eles estão por todo o sítio. No governo, na autarquia, na empresa privada, no escritório, no clube de futebol ou no café. Eles são tudo. Autarcas ou membros do governo. Engenheiros ou juristas. Sofisticados advogados internacionais ou solicitadores pataqueiros. Construtores ou intermediários. Dirigentes partidários ou gestores privados. Capitalistas ou burocratas. Diligentes funcionários públicos ou agentes privados. Eles fazem tudo. Compram partes de cidades e vendem bairros. Forçam à construção de auto-estradas úteis ou inúteis. Conseguem as autorizações para demolições duvidosas. Obtêm posições importantes na construção de estádios de futebol, de centros comerciais e de hospitais. Conhecem a lei melhor do que ninguém e, quando não conhecem ou esta não lhes é favorável, mudam-na. Derrogam os planos oficiais. Retiram terrenos da reserva agrícola. Eles sabem tudo. Têm planos de desenvolvimento e prometem levar Portugal para a frente. São optimistas. Acreditam no futuro. Apostam na inovação e no moderno. Eles estão no meio de nós. Portugal é um país de patos bravos.
Sociólogo

quinta-feira, maio 03, 2007

Uma providência cautelar contra a demagogia ?



Como fui em viagem só hoje tive oportunidade de experimentar o célebre Tunel do Marquês.

Depois de todo o arraial à volta da "obra" estava à espera de algo tenebroso mas, em vez disso, deparei com um tunel arejado e bem sinalizado, com uma inclinação perfeitamente normal, de utilidade evidente.



Quando é que a política deixará de ser uma guerrilha em que vale tudo o que "entale" o adversário mesmo que prejudique o conjunto dos cidadãos ?

Alguém dizia há dias que os prejuízos resultantes dos embargos das obras deviam ser facturados ao cidadão Sá Fernandes. Eu sou mais comedido, quero apenas uma providência cautelar contra a demagogia.

Será pedir muito ?

quarta-feira, maio 02, 2007

Inglês Técnico


Não há nada como uma piada para voltarmos à terra depois das comemorações do 25A e do 1ºM.

terça-feira, maio 01, 2007

1º de Maio de 1973 - o último sem liberdade

(José Dias Coelho, 1961)


Ler aqui, num outro blogue.

domingo, abril 29, 2007

Uma história exemplar


Passei os últimos dias em Lanzarote, nas Canárias, percorrendo e fotografando as suas espantosas paisagens vulcânicas mas a história, que não resisto a contar, pouco ou nada tem a ver com as belezas naturais.

Dois dias depois do 25 de Abril assisti, na TVE, a um debate político com a intervenção de vários comentadores encartados. O pretexto era um livro, publicado por um dos presentes, que trata do fim do franquismo.

Falou-se muito acerca da transição para a democracia em Espanha e discorreu-se sobre se a democracia tinha sido realmente conquistada ou se tinha antes sido oferecida, de bandeja, pelos políticos ao povo.

Referiram-se as vários influências estrangeiras, ou tentativas de ingerência, sendo específicamente mencionados os Estados Unidos e a França.

Concluiu-se que a experiência espanhola de transição pacífica foi um grande sucesso, exemplo para todo o mundo.

Por incrível que pareça, e parece ainda mais no dia 27 de Abril, a Revolução do 25 de Abril e o nome do nosso país nunca foram sequer mencionados.

Dispenso-me de tergiversar sobre o significado desta história...

sexta-feira, abril 27, 2007

Mais uma manifestação de sectarismo do novo MRPP


Na manifestação popular do 25 de Abril, que decorreu na Av. da Liberdade, em Lisboa, quando a apresentadora chamava para o palco os representantes das diversas organizações que promoviam aquela manifestação, os rapazinhos da Juventude Comunista Portuguesa (JCP), facilmente identificáveis, porque eram os únicos que levavam as suas bandeiras partidárias desfraldadas, apuparam primeiro o representante da Juventude Socialista, depois o da Renovação Comunista (RC) e por último o Edmundo Pedro, do Partido Socialista (PS). Este acto, que pelo menos em relação à RC já se tinha registado em anos anteriores, dá bem a ideia de intolerância e incapacidade de conviver democraticamente com outras correntes políticas, principalmente se estas ousarem designar-se comunistas. Comunismo só há um, o do PCP e mais nenhum.
Mas se estas atitudes só comprometem aqueles que as assumem e neste caso era um grupo restrito de meninos identificados com a JCP, já as posições assumidas pelo PCP, JCP e grupos afins durante a preparação da manifestação revela uma total incapacidade de, neste momento, participarem em qualquer organização que se considere verdadeiramente unitária.
Assim, chamaria a atenção para que este ano foi impossível apresentar um manifesto comum às diferentes organizações promotoras da manifestação de apelo à participação na mesma. Tal como tem sucedido em anos anteriores o Eng. Aquilino Ribeiro Machado, com uma enorme paciência, apresentou mais uma vez um borrão à consideração de todos os representantes das organizações promotoras. O PCP e organizações afins, propuseram logo de início um conjunto tão grande de emendas que tornavam inviável a leitura daquele texto e a sua aceitação pelas outras organizações, fora da sua área de influência, com principal destaque para o Partido Socialista. É evidente que o PCP preferiu a não existência de um manifesto à apresentação do que tinha sido elaborado. Ninguém inviabilizou pequenas correcções, algumas propostas pelo próprio PCP, mas era impossível aceitar uma desvirtuação tão completa do texto inicial. É evidente que o que estava em causa desde o início era que o PCP e seus companheiros queriam, num texto que se queria sintético e curto, estar constantemente a sublinhar todas as garantias constitucionais relativamente aos direitos sociais. E ainda estávamos num dos primeiros parágrafos. Sabia-se que mais para diante eram apresentadas alterações muito mais significativas. Seria elucidativo apresentar a versão original e as alterações propostas, mas não as possuo.
Mas a manifestação mais evidente de sectarismo foi a que se verificou com a recusa do Ricardo Araújo Pereira (RAP), dos Gatos Fedorentos, para falar em nome das organizações juvenis. Não estive por dentro do processo de recusa, mas é evidente que, para quem acha que estas manifestações valem pelo impacto mediático que alcançam, era muito mais significativo ter o RAP a discursar, do que um jovem sindicalista, como era apresentado pela JCP, a falar, por muitas verdades que transmitisse sobre a actual situação laboral.
Veja-se esta pérola de alguém que aparece a defender a posição da JCP: “obviamente que com isto ganha principalmente o PS (que assim se safa de mais uma intervenção crítica e logo no 25 de Abril)”. Ou esta outra, ainda mais significativa: “o RAP não passou de um pretexto da JS e do BE para que não houvesse do palco do 25 de Abril em Lisboa um discurso feito por um jovem contra as políticas do governo. ... . Usaram indecentemente o nome de RAP para esconderem que o que NÃO queriam mesmo era um jovem a malhar no palco do 25 de Abril em Lisboa nas políticas do governo do PS.”
Perante afirmações deste tipo, mas que reflectem uma mentalidade, o que se pode acrescentar.
Como já tenho afirmado publicamente, neste momento a Direcção do PCP arrasta este para um caminho sectário e esquerdista, que a longo prazo o transformará num Partido marginal ao sistema político, com quem é impossível estabelecer qualquer compromisso político, tornando-o numa espécie de MRRP dos tempos actuais.
Esta prática, que em diversas alturas atacou o movimento comunista e que conduziu à célebre manifestação de sectarismo de Classe contra Classe do final dos anos 20 e início de 30 do século passado, foi responsável pela derrota do Partido Comunista Alemão (PCA) e pelo desarme da esquerda na resistência à ascensão do nazismo. Foi a época em que o PCA acusava os sociais-democratas de sociais-fascistas (socialistas nas palavras e fascistas nos actos). Mais tarde o MRRP serviu-se desta consigna para atacar o PCP.
Espero em artigo posterior dar conta deste desvio histórico do movimento comunista, que lamentavelmente tanto se assemelha com a actual deriva sectária e esquerdista da Direcção do PCP.

quarta-feira, abril 25, 2007

Hoje e Sempre!



Clique na fotografia e VEJA.

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terça-feira, abril 24, 2007

25 de Abril em Tenerife



Vou passar o 25 de Abril no meio do Atlântico, a visitar a montanha mais alta de Espanha, o El Teide.

Daqui vai um abraço para todos os amigos da Revoluçao (sem til, por defeito do teclado) e também esta "recordação".

sábado, abril 21, 2007

Os dias da Música



Arrancou ontem à noite,no CCB,o programa de "Os dias da Música" este ano centrados no piano.

Bernardo Sassetti fez uma primeira parte ao seu melhor nível, em improviso sobre Bartók e Frederico Mompou, e rematando com um trecho das Variações Goldberg.

Na segunda parte o pianista Hüseyin Sermet, acompanhado pela Orquestra de Câmara Wrttemberg- Heilbronn dirigida por Ruben Gazarian,tocou o concerto número cinco de Beethoven.

O maestro, jovem como muitos dos músicos, conseguiu galvanizar a orquestra que me pareceu subdimensionada para a peça tocada.
O pianista mostrou grande segurança nos movimentos rápidos.
No andamento central tive a impressão de que nem sempre dominou a complexa dinâmica da lentidão.

No seu conjunto o concerto foi um sucesso e penso que nós, o público, saímos todos satisfeitos.
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sexta-feira, abril 20, 2007

A minha ida ao "Um Contra Todos"

Era daqueles que seguia diariamente o concurso da RTP Um Contra Todos, achava que era um contributo divertido para estimular a nossa cultura geral, apesar de muitas das perguntas se reportarem a "fait-divers" mais comezinho, tipo onde nasceu ou com quem esteve casado este ou aquele actor, ou ainda em que clube ou em que lugar jogava tal futebolista.



A História de Portugal, para não assustar os concorrentes, restringia-se aos últimos 50 anos ou algumas das perguntas sobre literatura portuguesa referiam-se às inesgotáveis obras da Margarida Rebelo Pinto. Malato, o apresentador do programa, tem espírito e consegue, em algumas tiradas dar um tom progressista, num local que prima sempre pelas opiniões reaccionárias ou, pelo menos, pela defesa da ideologia dominante. Veja-se, por exemplo, quando o Jorge Gabriel apresentou um programa semelhante referiu-se a Chávez, como um anti-americano primário, reproduzindo as ideias feitas sobre esta matéria.
Foi com este estado de espírito que resolvi inscrever-me no concurso. Depois de muitos telefonemas para cá e para lá, mas sempre afáveis e simpáticos, e um interrogatório por telefone a testar os meus conhecimentos gerais, eis que surge o dia em que devo comparecer às 10h30 na Televisão. Pedem-me que leve duas mudas de roupa, não vá eu ir à cadeira. Como são gravadas três sessões por dia, tem que se dar ao telespectador a sensação de que o concorrente está a ser inquirido em três noites diferentes
Como não sabia o tempo que levaria a chegar à televisão e devido aquele espírito antes-de-já, que é próprio dos sexagenários, cheguei com vinte minutos de antecedência. Esperava eu que entrasse, fosse levado para uma sala e esperasse até chegarem todos os 51 concorrentes. Engano meu. Esperámos à porta da televisão, por acaso não foi ao vento e à chuva, porque nesse dia fazia Sol, mas por aquilo que me foi dado perceber, devia ser essa a situação normal. Só mesmo às 10h30 é que chegou uma menina que confirmou a nossa presença. Depois, reuniu-nos e levou-nos para o estúdio, onde nos entregaram um conjunto de folhas, para nos identificarmos e declararmos que renunciamos a todos os direitos de reclamar contra a Endemol, a produtora do programa. Tipo quando instalamos um novo software no nosso computador e a firma produtora nos espolia voluntariamente de todas as possibilidades de no futuro reclamarmos contra qualquer maldade que ela nos faça. Já se sabe que assinei sem me dar ao trabalho de ler todas as alíneas, tal como aceito todos os programas de computador sem ler todos os direitos a que renuncio. Tristes vão os tempos que para se fazer qualquer coisa é preciso comprometermo-nos a não pormos em tribunal com quem nos relacionamos. Qualquer dia para fazermos amigos temos que previamente assinar uma declaração a dizer que no futuro não nos tornaremos seus inimigos.
A sala onde esperamos, onde assinamos a declaração e onde comemos é sempre a mesma, acanhada, com mesas de contraplacado e desprovida de qualquer decoração. Lateralmente tem um pequeno bar, com máquinas de café portáteis e em que o balcão é igualmente uma mesa. Um local sem condições e pouco simpático. No entanto, convencido que estava a fazer um favor à televisão participando no seu concurso, pensei que, tal como em todos os locais onde há conferências, colóquios, etc., poderia ir tomar o coffe break sem pagar nada. Puro engano, o café era a 0,50 €, como em qualquer cafetaria, com muito melhores condições. Sobre pagamentos, soube também que, aos participantes que vinham da província, não era paga a estadia em Lisboa, ao contrário do que sucedia anteriormente. É a crise.
Esperámos e só por volta do meio-dia fomos para o estúdio para gravar o programa. Depois de muitas experiências, justificáveis para quem como eu estava naquelas andanças pela primeira vez, lá se dá início à sessão. O Malato aparece com ar de sono, dizendo que a mãe o tinha acordado às dez, ainda por cima ligando a seguir o aspirador. Todo o programa tem este ar familiar, com um tal Betão, um brasileiro grande, a comandar as tropas, contando anedotas ordinárias, que ultrapassam as raias do dizível. As referências sexuais, supersticiosas e religiosas, tipo seita, são comuns durante todo o dia. O Malato sempre com um ar enfastiado e cansado, transmite a sensação de que é uma grande estafa fazer o programa. O que não deixa de ser verdade porque, segundo percebi, durante três dias, 4º, 5º, e 6º feiras, do fim da manhã até às oito da noite, foi a hora a que acabou a última gravação, vai, apesar das longas interrupções, fazendo momices e perguntas aos seleccionados.
Apesar de já ter sido avisado telefonicamente, os concorrentes têm que estar de pé durante as gravações, resta-lhes nos intervalos um banquinho de plástico, da loja dos trezentos, para aliviarem o seu cansaço. As gravações são morosas, sempre antecedidas de novos ensaios, que, para um leigo, dão a sensação de que se está à espera que o apresentador se disponha a gravar. Como experiência fica-nos um dia que começa às 10h30 e acaba ás oito da noite, a maioria dele passado em pé, sem se ver a luz do dia, almoçando gratuitamente na sala onde se espera, mas com lanche e cafés pagos. No fundo, uma canseira. Há concorrentes que se oferecem para ir lá no dia seguinte, eu pagava para não ir.
E o concurso. Falava-se à boca pequena, que a primeira concorrente que foi seleccionada para ir à “cadeira”, e em teoria ela deveria sê-lo por ter sido a mais rápida a responder a uma determinada pergunta, já tinha sido previamente escolhida. Não sei se é verdade, mas que a senhora vinha muito bem arranjada, como se fosse para uma passagem de modelos, quando todos os concorrentes aparecem vestidos informalmente, é a pura das verdades. Só a sua ignorância é que era maior do que o seu ar.
Já se sabe que chumbei quando me perguntaram, para além das que estavam indicadas, qual era a modalidade que faltava no pentatlo: canoagem, natação ou salto em altura. Fugiu-me logo o dedo para o disparate: salto em altura. Era natação. O desporto não é o meu forte.
Resta-me a consolação de numa das sessões ter chegado aos últimos seis. Esta terminou com a pergunta, que a concorrente em jogo não soube responder, quem é que tinha realizado os filmes “Acossado”, “O Desprezo” e “Pedro o Louco”. Como eu gostaria de ter dito ao Malato que era o Jean-Luc Godard, e que o primeiro era o “À Bout de Souffle” (1959), segundo “Le Mépris” (1963) e o terceiro “Pierrot le Fou” (1965). Que “Acossado” termina com o Jean-Paul Belmondo a morrer, caído no chão da rua, e a fechar com a mão os olhos a si próprio e o terceiro , com o mesmo actor, com dinamite enfiado na cabeça a tentar apagar o rastilho que tinha acabado de acender. Como estes foram os filmes da nossa juventude ou pelo menos da memória que guardamos deles e mesmo que os odiássemos, era porque eles eram o cinema do nosso tempo.

quinta-feira, abril 19, 2007

Da natureza do fanatismo


Já depois de ter escrito o post anterior, em que referi a questão do fanatismo, tive acesso ao fabuloso "Contra o Fanatismo" de Amos Oz.
O livrinho foi distribuído com o jornal Público e eu recomendá-lo-ia em todas as escolas.

Posso dizer que encontrei uma "alma gémea" e que subscrevo tudo o que o livro diz; gostava muito de ter o seu talento e não me importo nada que os meus escritos pareçam plágios de Amos Oz. Aqui fica um "aperitivo" retirado do referido livro:

Vou contar uma história em jeito de divaga­ção: eu sou um reconhecido divagador, estou sem­pre a divagar. Um querido amigo e colega meu, o admirável romancista israelita Sammy Michael, pas­sou uma vez pela experiência, por que todos nós passamos de vez em quando, de andar de táxi du­rante um bom tempo com um condutor que lhe ia dando a típica palestra sobre como é importante para nós, Judeus, matar todos os Árabes. Sammy ouvia-o e, em vez de lhe gritar, «Que homem hor­rível que você é! É nazi ou fascista?», decidiu ir por outro caminho e perguntou-lhe: «E quem acha que deveria matar todos os Árabes?» O taxista dis­se: «O que quer dizer com isso? Nós! Os Judeus Israelitas! Temos de o fazer! Não há escolha. Veja só o que nos fazem todos os dias!» «Mas quem, especificamente, é que deveria fazer o trabalho? A polícia? Ou o Exército talvez? O corpo de bom­beiros ou as equipas médicas? Quem deveria fazer o trabalho?»
O taxista coçou a cabeça e disse: «Penso que devíamos dividi-lo em partes iguais entre cada um de nós, cada um de nós devia matar alguns.» E Sammy Michael, ainda no mesmo jogo, disse: «Pois bem, suponha que a si lhe toca um determinado bloco residencial da sua cidade natal, Haifa, e que bate às portas ou toca às campainhas, e pergunta: 'Desculpe, senhor, ou desculpe, senhora. Por acaso é árabe?' E se a resposta for afirmativa, você dispa­ra. Quando acaba o seu bloco, dispõe-se a regressar a casa, mas, ao fazê-lo,» continuou Sammy «ouve, algures no quarto andar do seu bloco, o choro de um bebé. Voltaria para matar o bebé? Sim ou não?» Houve um momento de silêncio e, então, o taxista disse a Sammy: «Sabe, o senhor é um homem muito cruel.»


Se quer ler o resto deste belo texto, o capítulo "Da natureza do fanatismo", clique AQUI
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quarta-feira, abril 18, 2007

As Bruxas da Memória


Nasci numa família um pouco esquizofrénica no plano religioso.
Por um lado o meu pai era, e ainda é aos 94 anos, profundamente anticlerical. Por outro, a minha mãe foi praticando abnegadamente o catolicismo até que, depois do 25 de Abril e com mais de 60 anos, se afastou irremediavelmente da igreja.

Eu, levado pela minha mãe desde muito cedo, frequentei as missas e só nos meus dezasseis anos me “zanguei” com a igreja sob o pretexto das perguntas indiscretas, e insistentes, durante a confissão dos meus ingénuos “pecados sexuais”.

A maravilhosa disponibilidade da adolescência levou-me directamente da admiração pelas realizações do Salazar, descritas ao pormenor no Diário de Notícias, para a militância clandestina no PCP, em 1966. Devo isso a alguns amigos que me acompanharam, e acompanham, ao longo da vida.

Vem isto a propósito do livro da Joana,”As Brumas da Memória”, para que se perceba por que vou dizer aquilo que vou dizer.

A juventude é dada aos fanatismos e eu, confesso, pensei durante muito tempo que os fanatismos se dividiam entre os bons, que eram os nossos, e os maus que eram os dos outros. No caso dos católicos progressistas a imagem que eu tinha, na minha fase militante da juventude, era mais a dos equivocados que embora subordinados a um fanatismo dos maus queriam “dourar a pílula” com uns “tagatés” ao contrário.

Uma vez ou outra o funcionário do Partido com que na altura me encontrava lá mencionava uma vigília qualquer, como quem diz “não estamos sós”, mas a coisa tinha um certo ar folclórico quando comparada com as elaboradas técnicas conspirativas que nós praticávamos.

Só muito mais tarde a vida me ensinou a abominar os fanatismos todos. O meu problema agora é cuidar, todos os dias, de não os abominar fanáticamente.

Tal como os vírus que habitam, sem consequências, os nossos corpos também o fanatismo, nas suas várias formas, pode permanecer inócuo. Em determinadas circunstâncias degenera em formas agudas de imposição aos outros de “verdades inquestionáveis”.
A cadeia de raciocínios é simples: se a “verdade” é inquestionável torna-se incompreensível que alguém a não queira ou que a ela resista; essa recusa da “verdade” indicia incapacidade ou perfídia; em qualquer dos casos, como a “verdade” é inquestionavelmente favorável, resulta legítimo impô-la aos relapsos mesmo contra a sua vontade.

O facto de rejeitarmos o fanatismo não significa que devamos rejeitar a adesão a ideais, ideologias, misticismos ou utopias. Significa, isso sim, a adopção da relatividade e falibilidade dos julgamentos humanos que reserve para casos extremos, prementes e inevitáveis, a substituição da persuasão pelo uso da violência física ou intelectual.

Talvez por tudo isto penso que a Joana escreveu o livro no tempo certo; pelo que vai no mundo, porque há uma geração que começa a despedir-se e, para além de tudo o mais, porque só agora eu já estou em condições de o ler.
Se tivesse escrito antes talvez eu não fosse capaz de apreciar a hábil mistura de marcantes experiências pessoais, episódios pitorescos e verdadeiros “factos históricos”.

Talvez a ternura com que os leio não tivesse sido possível.
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domingo, abril 15, 2007

Era uma vez uma fábrica...

Era uma vez uma fábrica militar que dava pelo nome de FNMAL, Fábrica Nacional de Munições para Armas Ligeiras, e que nos anos oitenta foi integrada, juntamente com outras, na INDEP, Indústrias Nacionais de Defesa. Ficava ao fundo da Avenida de Moscavide.




Durante mais de trinta anos vi da minha janela a sua imponente chaminé de tijolo.





Centenas de pessoas que ainda hoje vivem em Moscavide trabalharam nesta fábrica e, muitas delas, passaram dentro da FNMAL a maior parte das suas vidas.
Em 2001 as instalações da FNMAL foram encerradas e nunca mais voltaram a funcionar.

Durante anos os edifícios aguardaram, no seu recolhimento e decadência, aquilo que o destino lhes reservasse.









No dia 12 de Fevereiro de 2007 apercebi-me de movimentações pouco usuais para alguém que passa frequentemente no local. Pareceu-me que se preparavam para a demolição. Quem ? porquê ? ninguém no local me soube explicar.

Desde essa data, nos últimos dois meses, a maquinaria abateu-se sobre os velhos pavilhões.







Como pretendia saber o que se estava a passar e o que se preparavam para construir no local dirigi-me à junta de Freguesia de Moscavide onde o próprio Presidente me disse, com a maior das calmas, que nada sabia sobre o assunto.
Deixei o meu contacto para me telefonerem quando conseguissem a informação pretendida. Até hoje.

Enviei uma mensagem electrónica para o Município de Loures pedindo informações sobre o projecto mas, apesar de ter sido registada com o número 18184 de 16/02/2007, a pergunta nunca mereceu qualquer resposta.

Entretranto os trabalhos continuavam.







Então resolvi, no dia 3 de Abril de 2007, dirigir-me presencialmente ao atendimento do Departamento de Gestão Urbanística da Câmara Municipal de Loures.

Para meu grande espanto comunicaram-me que nada sabiam sobre projectos para os terrenos da velha FNMAL em Moscavide. Simpaticamente sugeriram que me dirigisse ao Departamento de Projectos Estruturantes (ou seria Estorturantes ?) pois aí concerteza que saberiam esclarecer-me.

Lá fui, bastante esperançado, mas a única coisa que me disseram foi que uma empresa de nome MAVIFA solicitara autorização para demolir a antiga fábrica, aparentemente já depois de ter iniciado os trabalhos.
Sobre o futuro disseram-me, a muito custo, que um projecto para o local fora reprovado pela vereação e que se aguardava a reformulação do mesmo para eventual aprovação.

Entretanto a fábrica estava quase totalmente demolida.





E transformara-se, depois de triturada, num conjunto de montículos de terra.





Qual não é o meu espanto quando hoje, 10 de Abril, apenas uma semana depois de ter estado nos Projectos Estruturantes de Loures, vejo à porta da demolida fábrica este flamejante cartaz:





Eu para já não tenho nada contra o projecto, nem contra a empresa OBRIVERCA que o vai fazer (propriedade de um famoso dirigente desportivo), nem contra a indústria da construção em geral, mas que tudo isto cheira a esturro lá isso cheira.
No mínimo, no mínimo, houve um total desprezo pelo direito dos cidadãos à informação levando a suspeitar que se está a tentar esconder qualquer coisa.

Não há por aí ninguém disposto a fazer uma reportagem jornalística sobre tudo isto ? ou um trabalho académico no domínio da sociologia ?

Eu possuo, e posso disponibilizar, umas centenas de fotografias das operações de demolição e dos interiores da fábrica tal com eram imediatamente antes da demolição.

sexta-feira, abril 13, 2007

Entre as Brumas da Memória - o blog


A Joana Lopes criou um blog dedicado ao seu livro "Entre as Brumas da Memória" que já aqui foi referido por mim e pelo Jorge Nascimento Fernandes.

Estas são as motivações da Joana nas suas próprias palavras:

"Decidi criar este blogue por ter recebido várias sugestões nesse sentido, de pessoas que entretanto leram o livro, que me comunicaram apreciações e que gostariam de conhecer reacções de outros. Algumas contaram-me histórias que eu desconhecia, relacionadas com a mesma época e com os mesmos temas - pode ser que se decidam a contá-las. "

quarta-feira, abril 11, 2007

AFRICAN WOMEN


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segunda-feira, abril 09, 2007

O Caimão


O novo filme de Nanni Moretti é uma obra interessantíssima.

Não se limita a mostrar como Berlusconi é uma figura inconcebível, inimaginável. Isso seria o "lugar comum".

Moretti pemite-nos "sentir" como ao sucesso de Berlusconi corresponde uma sociedade corroída pelo descrédito em que até os dramas pessoais se tornam mais pungentes.

O protagonista está perante um casamento que se desfaz, filhos para os quais não tem tempo, novas realidades sociais a que precisa adaptar-se, amigos que como ele vão ficando cada vez mais velhos, uma realização profissional cada vez mais problemática, dificuldades económicas crescentes, uma televisão cada vez mais rasteira, o medo que transparece nas relações profissionais e descamba em verdadeiras velhacarias, e por aí fora.

Se é verdade que nem todos estes problemas podem ser atribuídos a Berlusconi, pelo que a sua presença no filme poderia ser considerada demagógica, também é verdade que uma envolvente social degradada em vez de constituir um "amparo" para as agruras da vida se transforma, isso sim, num propício caldo de cultura para todas as crises.

Uma outra questão levantada no filme, e da máxima importância, é a relação entre a emergência de uma figura caricata como Berlusconi e a inépcia continuada da esquerda italiana que, como se diz no filme, fez do ódio a Berlusconi o seu único e verdadeiro programa.


sábado, abril 07, 2007

Um óbvio plágio

O nome "dot.com" do filme do Luís Galvão Teles, que conta a história de um plágio, é ele próprio um óbvio plágio.

O site dotecome nasceu no ano 2000 e este blog dotecome veio à luz em 2004. Vou pedir uma indemnização de mil milhões...(não se assustem, isto é suposto ser uma piada mesmo que não pareça).

quinta-feira, abril 05, 2007

Eu voto em branco



Eu voto em branco

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terça-feira, abril 03, 2007

As Vidas dos Outros

Ao ver o filme As Vidas dos Outros (2006), do alemão Florian Henckel von Donnersmarck, senti necessidade de escrever sobre ele. O filme questionava-nos a muitos de nós que tínhamos chegado a visitar a RDA (República Democrática Alemã) e a pensar que aquele regímen era, na Europa Oriental, um dos que tinha melhor vencido as dificuldades do "socialismo real" e onde era possível a "construção de uma nova sociedade". Posteriormente, com a queda do muro, começou-se verdadeiramente a perceber o atraso e a penúria daquele regímen, tão bem retratados no filme, controlado por uma partido único (neste caso uma coligação à força de partidos diferentes) e por uma polícia política tão omnipresente como era a Stasi.




Tenho encontrado nas várias críticas publicadas na blogosfera algumas referências ao carácter simbólico da situação descrita no filme – a tomada de consciência de um oficial da Stasi sobre os malefícios do regímen socialista – e houve quem o comparasse, numa crítica bem elaborada, com o célebre filme de François Truffaut, Fahrenheit 451, em que um bombeiro, que queima livros em vez de apagar fogos, vai progressivamente tomando consciência do horror que era viver numa sociedade que tinha eliminado para todo o sempre a leitura, a fonte de toda a infelicidade. Quanto a mim, apesar do filme poder corresponder à descrição de qualquer regímen que utilize a violência policial para controlar os cidadãos, refere-se à situação concreta do sistema opressivo existente na ex-RDA, que, dada a conhecida eficácia alemã, tinha das polícias mais bem organizadas da Europa de Leste. No caso vertente, isso consistia na vigilância dos intelectuais, estivessem eles ou não em sintonia com o regímen, pois mesmo que fossem seus defensores, como é o exemplo da personagem do dramaturgo Georg Dreyman, interpretada por Sebastian Koch, poderiam ser sempre potenciais dissidentes. O intelectual, em todos os sistemas ditatoriais, é sempre um ser pensante, fonte de desconfiança e de infidelidades várias.
Neste filme há duas tomadas de consciência em relação à situação opressiva que se vivia naquela sociedade, a do dramaturgo, provocada pelo suicídio de um seu companheiro de escrita e amigo, que estava impedido de publicar, e a do oficial da Stasi encarregue de exercer vigilância sobre o apartamento onde aquele dramaturgo vivia com a sua companheira, a actriz Christa-Maria Sieland, interpretada por Martina Gedeck, que era simultaneamente desejada pelo Ministro da Cultura. Posteriormente, a progressiva consciencialização das personagens leva-as a formas concretas de resistência, a do dramaturgo ao publicar no ocidente, com a ajuda de outros intelectuais, um artigo sobre a supressão na RDA de notícias relativas a suicídios, a do oficial, ao não denunciar a actividade do seu vigiado e ao evitar, pela eliminação providencial de uma máquina de escrever onde fora batido o artigo, a sua prisão.
Pode-se considerar que na vida real será pouco verosímil que um oficial torturador, era essa uma das actividades do capitão da Stasi, se transforme em vítima por sua própria iniciativa, já no filme a personagem do capitão Gerd Wiesler, interpretada por Ulrich Mühe, que passa de oficial respeitável a simples funcionário destacado para a abertura do correio, parece-me mais convincente. Contudo, ao contrário do que vi bastantes vezes referido, acho que a causa da sua traição foi mais o resultado da sua atracção pela actriz e o conhecimento que teve de que ela, para conservar a sua carreira, era obrigada a ter relações sexuais com o Ministro, do que por ter concluído que o objecto da sua vigilância não era desmascarar um dissidente encapotado, mas sim a eliminação de um rival dos desejos sexuais do Ministro.
Esta dupla tomada de consciência, sob o pano de fundo de uma RDA pobre e triste, decorre simultaneamente com a explanação do que é um Estado policial e persecutório, em que a vida e as carreiras são feitas de delações e pequenas cedências que, em último caso, pode levar ao suicídio, como sucedeu com a actriz, quando percebeu que a sua colaboração com a Stasi permitiria a prisão do seu companheiro. O filme termina, caído o muro e unificada a Alemanha, com a descoberta pelo dramaturgo de quem tinha evitado a sua prisão e escrevendo uma peça em homenagem àquele oficial da Stasi, que se tinha comportado como um homem bom. Estavam pacificadas as consciências.
Este filme, que recebeu o Óscar para o melhor filme estrangeiro, insere-se na recente produção alemã de média qualidade e de grande êxito comercial, que recuperou alguns dos temas do seu passado recente, quer do nazismo quer da reunificação. Como exemplo, temos A Queda – Hitler E O Fim Do Terceiro Reich (2004), de Olivier Hirschbiegel, Sophie Scholl – Os últimos dias (2005), de Marc Rothemund ou Adeus, Lenin! (2003), de Wolfgang Becker.
Ao contrário de Adeus, Lenin!, que tinha também uma visão bastante amarga da RDA, mas mostrava as dificuldades de integração dos habitantes de leste na nova ordem capitalista, As Vidas dos Outros estabelece uma continuidade entre a tomada de consciência e a opção de resistir dos dois alemães do leste e a nova ordem que resulta da reunificação da Alemanha. O dramaturgo depois de ter publicado no ocidente o seu texto de denúncia da ausência de suicídios na RDA continuará, a seguir à reunificação, a ser representado e a publicar peças de teatro. Sem desvalorizar este retrato impiedoso do socialismo real dado pelos dois filmes referidos, considero que estamos longe do cinema inquietante dos anos 70 de Rainer Werner Fassbinder (ver O Direito do Mais Forte à Liberdade, 1974), de Volker Schlöndorff (A Honra Perdida de Katharina Blum, 1975), de Margarethe von Trotta (Os Anos de Chumbo, 1981) ou do filme colectivo Alemanha no Outono (1977). Estes três últimos exemplos referem-se expressamente à forma repressiva e histérica como a Alemanha Federal reagiu aos atentados do grupo Baader-Meinhof e à sua prisão, os chamados anos de chumbo, parafraseando o filme de Trotta. É evidente que os tempos são outros, aos anos 60 e 70, de contestação política, estudantil e intelectual, seguem-se os da derrota e de denúncia daquilo que foi o embuste do socialismo real.
Adeus, Lenin! e As Vidas dos Outros são feitos hoje, depois da queda do muro, por realizadores que não faziam cinema naquela altura e a quem são concedidos meios para produzirem a sua obra. Por isso, a estes gostaria de acrescentar alguns filmes que fui vendo ao longo dos anos e que foram realizados por cineastas do sistema, em condições provavelmente mais adversas e reflectindo o circunstancialismo da época. Lembraria do cineasta polaco Andrzej Wajda, O Homem de Mármore (1977), do húngaro Pal Gabor, A Educação de Vera (1978), ou, mais recentemente, do russo Nikita Mikhalkov, O Sol Enganador (1994) ou do jugoslavo Emir Kusturica, Underground (1995). São filmes diversos, realizados por cineastas que tiveram percursos e opções posteriores diferentes, algumas contraditórias com o seu passado, mas cuja obra deveria ser revisitada, tendo em conta que muito do que hoje é dito já se encontrava aí expresso, numa perspectiva crítica, mas provavelmente com propostas de saída diferentes do que aquelas que, por exemplo, nos são apresentadas em As Vidas dos Outros.

Urbanices e coisas tais



Rui Palha é um fotógrafo que vale a pena ver. Recomendo vivamente.
A partir de hoje na Praça do Comércio, no átrio de acesso ao Ministério das Finanças e da Administração Pública, até 27 de Abril.