quarta-feira, setembro 07, 2005

A depressão é a esperança da revolução

Graffiti de Klaus Klinger


A depressão é a esperança da revolução
por Miguel Poiares Maduro


Nos tempos da revolução havia um clássico graffiti ou slogan de parede que dizia que a revolução era a esperança dos oprimidos. Há dias, ao passear por Lisboa, dei de caras com uma nova versão: "a revolução é a esperança dos deprimidos". Nesta mudança de uma palavra está grande parte da mudança que se processou em Portugal. Hoje, os portugueses já não se sentem oprimidos mas sim deprimidos! Talvez seja por isso que a política já não promete soluções mas sim optimismo. É a política prozac: como é difícil curar as causas da doença combate-se a sensação de mal-estar que ela causa.

Muito do que está escrito (frequentemente mal escrito…) nas nossas paredes reflecte muito do que mudou no nosso país desde os tempos da revolução. Os graffitis são um espelho do que se alterou na concepção do mundo dos portugueses, na sua esfera pública e privada.

Em primeiro lugar, a grande maioria das pinturas de parede deixaram de ser políticas para passarem a ser pessoais. Esta é a primeira forma de pessoalização do espaço público. Só que até a natureza das mensagens pessoais gravadas nos espaços públicos mudou: o clássico "Maria amo-te" é cada vez mais substituído por referências explícitas ao fazer amor com Maria…A fazer fé no que se lê nas paredes de Lisboa os portugueses estão hoje muito mais confortáveis com a exposição pública da sua vida sexual: aquilo que antes se lia nas portas de uma casa de banho pública hoje é escrito nas paredes de uma qualquer casa de Lisboa… O amor (talvez porque é muito mais íntimo que o sexo) quase desapareceu dos muros de Lisboa (esperemos, aliás, que não tenha desaparecido de todo!). Do que os portugueses parecem gostar de falar em público é de sexo, o seu e o dos outros. Deprimidos mas entretidos, dir-se-ia.

Mesmo quando as mensagens políticas subsistem elas abandonaram a utopia revolucionária (como dizia outro slogan, não há revolução de gravata…) e o conflito de classes (trabalhadores do mundo, investi, podia ser o novo lema) para passarem a exprimir uma insatisfação existencial (o aborrecimento ou a depressão são os sentimentos mais frequentes na expressão política nas nossas paredes). Também aqui há uma certa pessoalização. Já não são grandes visões do mundo (que destino Portugal?) e de certas ideologias que comandam a relação dos portugueses com a política mas sim uma apreciação centrada no impacto que a política tem em cada um de nós. Esta pessoalização da política, com o consequente abandono do idealismo (um juízo assente no eu e já não num destino comum ideal) é, no entanto e ao contrário do que por vezes se afirma, positiva. É que é através deste interesse individual que a participação e a responsabilidade política melhor funcionam. O que não podemos é confundir esta crescente visão pessoal da política com a negação de um destino colectivo que implica que nem sempre os nossos interesses pessoais prevaleçam.

Hoje, os portugueses, felizmente, já não se sentem oprimidos mas também já não acreditam em promessas de "mundos perfeitos". E ainda bem que as novas gerações já não crêem em utopias. As utopias políticas apenas conduziram a pesadelos. Para parafrasear um outro slogan famoso é a imaginação que deve aceder ao poder e não a utopia. A imaginação, ao partir da realidade, respeita o mundo. A utopia, ao pretender subverter a realidade, instrumentaliza o mundo e os que o habitam ao serviço de uma qualquer ideologia.

A liberdade e a democracia banalizaram-se e, com isso, tomámos simplesmente consciência de que não existem soluções perfeitas ou milagrosas. No entanto, podemos ter conquistado liberdade e autonomia mas ainda não aprendemos a viver com o risco e a insegurança que isso comporta. Portugal é hoje uma sociedade livre cujo povo ainda não se sente totalmente confortável a viver em liberdade. A autoridade oprime mas dá segurança e estabilidade. Daí, o instinto tão forte em Portugal para o proteccionismo e o imobilismo. Quando em Portugal se evoca o passado não é no bem estar que se pensa mas sim na segurança. Não tanto a segurança física mas sim a segurança de conhecer e ter garantida uma certa forma de vida, mesmo que não seja uma grande vida. A depressão de que sofrem os portugueses tem origem na dificuldade em lidar com o risco inerente ao exercício da liberdade e manifesta-se hoje, de forma particularmente forte, devido aos desafios actuais à nossa tradicional forma de vida.

Mas esta depressão traz, no meio do pessimismo generalizado, sinais positivos. Os portugueses cada vez acreditam menos em slogans maniqueístas e cada vez se mostram mais abertos a debater o nosso modelo de sociedade. O verdadeiro dilema português está, como já aqui escrevi uma vez, na dificuldade em optar entre uma sociedade de fidelidades pessoais que protege as posições adquiridas de muitos portugueses mas limita a capacidade de renovação e mobilidade social ou uma sociedade assente no mérito que premeia os melhores e promove a inovação e dinamismo social mas comporta maiores riscos e insegurança nas expectativas da vida dos portugueses. Por um lado, só existe verdadeira liberdade quando sabemos que podemos ser premiados pelas iniciativas que tomamos e as competências que demonstramos. Por outro lado, a concorrência e o risco que essa liberdade traz assusta-nos. O que é também importante notar é que uma sociedade mais proteccionista e menos meritocrática não produz necessariamente mais igualdade. Portugal é hoje um bom exemplo: somos o país com maior desigualdade na distribuição do rendimento dos 25 Estados da União Europeia.

É este questionar colectivo que é o aspecto mais positivo da nossa proclamada depressão. Hoje, a discussão política não é apenas sobre eles (os políticos) para ser também sobre nós (os portugueses). Mas é importante que a culpa que se atribuía sempre aos políticos (esses seres diabólicos de outros planetas que ocupavam o corpo de inocentes cidadãos portugueses…) não seja simplesmente transferida para os portugueses (cujo carácter nos destinaria ao atraso e subdesenvolvimento). Ao contrário do que dizem algumas vozes ilustres: o problema não são os portugueses (e, com isso, eles querem dizer todos os portugueses menos eles), o problema é o nosso modelo de sociedade. Compete aos portugueses decidir que modelo querem. Também aqui, no entanto, é importante não esperar por um qualquer Dom Sebastião. Somos nós e não eles quem tem que decidir alguma coisa.

Para já, a depressão sentou-nos no sofá num processo positivo de psicanálise colectiva. E agora que falamos abertamente dos nossos traumas colectivos, temos duas opções: ou passamos de deprimidos a abatidos ou agimos sobre eles. Eu tenho algum optimismo. Acho que esta depressão é sinal de que os portugueses estão finalmente a descobrir a verdadeira política: desconfiam de messianismos e de grandes utopias, mobilizam-se para lá dos partidos (sem os substituir), esquecem os slogans e concentram-se nos problemas. Falta "apenas" criar confiança no sistema político, de forma a que este possa traduzir essa vontade de reforma em soluções que, mesmo que contestadas por alguns, apareçam como legítimas aos olhos de todos. Como se poderia escrever nas paredes: será a depressão o instrumento da revolução?


por Miguel Poiares Maduro
Miguel.Maduro@curia.eu.int

sábado, setembro 03, 2005

Uma lufada de ar fresco ?...


Professora de música quase candidata


"MANUELA Magno, professora da Universidade de Évora que anunciou a sua candidatura às presidenciais em 29 de Fevereiro de 2004, já conseguiu reunir mais de 4500 proponentes dos 7500 que a lei impõe como mínimo para poder concorrer àquele acto eleitoral.

O seu propósito nunca foi tomado a sério nos meios políticos mas a verdade é que Manuela Magno já tem sede de campanha em Lisboa e conta encerrar a lista de apoios até ao final deste mês de Setembro.

Segundo a própria, trata-se de «uma candidatura independente dos partidos políticos e dos grupos económico-financeiros que faz todo o sentido enquanto projecto colectivo de cidadania». Tem 52 anos e nasceu em Lisboa, onde se manteve até 1978, altura em que se licenciou em Física Nuclear na Faculdade de Ciências. Mas a sua grande paixão era a música, pelo que foi para Nova Iorque, onde se matriculou na Universidade de Columbia. Nos oito anos que lá permaneceu, licenciou-se, tirou o mestrado e doutorou-se em Música, com especialização em Direcção de Orquestra.

No regresso a Portugal, ensinou na Universidade de Aveiro. Há nove anos que mora no concelho de Arraiolos, no distrito de Évora. Na Universidade local, é professora auxiliar no Departamento de Artes (Secção de Música), preside ao Conselho Pedagógico e pertence ao Senado da instituição. As causas cívicas e sociais sempre a mobilizaram. Por isso, é membro de diversas organizações não-governamentais como a AMI (Assistência Médica Internacional), a Amnistia Internacional, a Associação 25 de Abril, a Deco e a Quercus.

Nunca pertenceu a qualquer partido e só despertou para a política há dois anos, em circunstâncias peculiares: «Quando fiz 50 anos, a prenda que ofereci a mim própria foi uma Constituição comentada e anotada, que estudei a fundo. Da sua leitura, concluí que o Presidente da República, eleito, como é, com o patrocínio partidário, não pode ser isento e muito menos garante da estabilidade».

Manuela Magno começou então a pensar numa pessoa independente que pudesse candidatar-se apenas com o apoio dos cidadãos. E resolveu que essa pessoa seria ela própria. Comunicada a intenção a vários amigos, estes incentivaram-na a avançar. O mais conhecido dos seus proponentes - espalhados pelo continente e ilhas e pelas comunidades portuguesas de Amsterdão, Toronto e Newark - é o filósofo José Gil."

Expresso, 3 Agosto 2005

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Tiro o meu chapéu pela coragem da iniciativa e comecei a investigar para ver se posso sucumbir à tentação de apoiar, contra os partidos, uma pessoa "normal" para a Presidência.


Site da Manuela Magno

Blog da Manuela Magno

segunda-feira, agosto 29, 2005

Em tempo de presidenciais...


Sempre me fascinou a obsessão pelo tempo que tinha o malogrado Presidente Américo Tomás!

Ora vejam:

“Decorreu célere, como os que o precederam, o ano que acabou de sumir-se na voragem insaciável do tempo. Outro o substituiu, para uma vida igualmente efémera. Nesta mutação constante, afigura-se haver agora um fenómeno de visível incongruência, pois, quando tudo se processa a ritmo que se acelera constantemente, pareceria lógico que de tal circunstância resultasse um aparente alongamento do tempo e não precisamente o inverso. Mas a verdade é que, quanto mais aumentam as velocidades e o ritmo da vida, mais rapidamente, também, o tempo parece correr, donde se sempre o presente, mal o é, se torna logo em passado, nunca, como nos nossos dias, tão evidente verdade parece mais evidente.”

(Mensagem de Ano Novo, 1/1/1966)

A celeridade da Justiça...



A INFRACÇÃO


O carro que transportava o presidente do Tribunal Constitucional, Artur Maurício, foi apanhado a uma velocidade de 200 quilómetros por hora na auto-estrada do Sul (A2), na passada terça-feira, cerca das 12h00. Segundo noticiou ontem à noite a TVI, a Brigada de Trânsito da GNR detectou a infracção, mas quando o motorista (membro do corpo especial da PSP) do juiz conselheiro recebeu ordens para parar não lhe foi aplicada a coima por excesso de velocidade. A estação televisiva adiantou também que, para além de a multa não ter sido paga no acto da infracção, não foi apreendida a carta de condução do motorista nem solicitados os restantes documentos. Artur Maurício não quis prestar esclarecimentos à TVI, mas o seu chefe de gabinete, Carlos Brito, afirmou que "o presidente não está permanentemente atento à velocidade a que vai o veículo". E acrescentou ser "provável" que tenham sido "ultrapassados os limites exigíveis". Questionado sobre o não pagamento da coima, Brito respondeu: "[O presidente do Tribunal] sentiu que estava a cumprir uma missão de interesse público e que não devia pagar na altura." Num comunicado enviado à redacção da TVI, o Comando da GNR sustentou que a BT não multou o motorista de Artur Maurício porque o condutor invocou uma "questão de urgência". Carlos Brito alegou que o juiz conselheiro se dirigia para uma reunião agendada para as 15h00.

Publico, 27 de Agosto 2005

terça-feira, agosto 23, 2005

Quem diz que a história não se repete?!

A implantação da Républica



Terminou no Domingo passado a LISBOAPHOTO2005.

Não é de ânimo leve que se percorrem as fotografias de Joshua Benoliel.

Perante elas revivemos cenas da nossa infância onde as vivências que as imagens mostram nos foram transmitidas pelos nossos pais e avós, quer nas histórias que nos contavam quer em muitos dos seus hábitos e princípios.

Há uma sensação familiar ao sermos confrontados, literalmente cara a cara, com um país intrinsecamente rural e bisonho muito mais preparado para Fátima do que para a Republica. E o que é arrepiante é apercebermo-nos de que se “lavássemos a cara” aos figurantes e modernizássemos tecnològicamente o cenário, teríamos o país de hoje.

Tocou-me especialmente a fotografia dos lisboetas anónimos apinhados num automóvel que conduz um oficial da marinha durante a revolução republicana.

Tal como em 1910, também no 25 de Abril os lisboetas anónimos subiram para as chaimites e vitoriaram os militares que lhes abriam a porta para um mundo maravilhoso onde os desejos de cada um se iam finalmente realizar!
Tal como em 1910, também em 1974 se criou nas massas uma enorme onda de expectativa que serviu de alavanca para as alterações da super-estrutura politica; tal como então, na ausência de um projecto social e politico coerente, rapidamente se aprofundou o fosso entre os novos senhores da politica e a sociedade.

Quem diz que a história não se repete?!


Greve na CUF

sábado, agosto 20, 2005

Como é possível ?!?



Dois casos paradigmáticos da inépcia cultural.

Há anos que estes dois edifícios emblemáticos de Lisboa, o Pavilhão de Portugal na Expo e a Casa dos Bicos em Alfama, se encontram sem préstimo.

Como é possível ?!?

quarta-feira, agosto 17, 2005

Prisioneiros do Futuro



Prisioneiros do Futuro
por Miguel Poiares Maduro

Há dias foi anunciado que Portugal apenas atingirá o nível económico médio europeu dentro de 110 anos.

Não sei qual é a base para uma tal previsão mas anunciada assim parece ridícula. Em 110 anos, o mundo e Portugal podem sofrer as maiores transformações pelo que sabemos, até podemos ser invadidos por extraterrestres que percebam de economia ou vir a ter uma geração clonada a partir de uma qualquer célula do António Dâmaso! As circunstâncias que podem afectar o crescimento económico da Europa e de Portugal são tantas que uma previsão deste tipo e a tal distância não faz sentido (é provável até que o estudo assente na presunção de que "tudo se manterá como está" e, nessa medida, a sua conclusão é apenas uma análise crítica do nosso actual modelo de crescimento económico).

Sempre me impressionou esta importância que atribuímos à previsão do futuro. Queremos antecipar o nosso destino. Só que conhecer o que o destino nos reserva pressupõe que o nosso destino já está reservado. E é aqui que está o problema querer conhecer o futuro é negar que somos nós que o determinamos. É deixar-se conduzir em vez de tentar conduzir um pouco. Como é que se pode prever a nossa evolução económica para os próximos 110 anos?

Só presumindo que somos prisioneiros de nós próprios e que não podemos mudar. Isto é a negação da nossa própria humanidade e da liberdade que lhe é inerente. Mesmo para quem não é católico, o episódio do pecado original é belíssimo a esse respeito. Porque teria Deus permitido a Adão e Eva que pecassem e porque teriam eles vontade de pecar estando no paraíso? Só encontro uma explicação o acto de rebeldia permitido por Deus é o reconhecimento da liberdade humana. Mas ao libertarem-se, Adão e Eva deixam de estar protegidos no paraíso e passam a ser responsáveis pelo seu destino. São eles e não Deus que o determina. Deus pode julgar mas não escolhe.

Sendo assim, é absurda a importância que na nossa sociedade adquiriu a noção de destino e toda uma indústria de previsões do futuro. Não existindo um futuro pre-determinado, acreditar no destino é acreditar naqueles que nos lêem o destino (escrito nos astros, nas cartas ou até nas borras de café).

Ao acreditarmos nessas previsões ficamos prisioneiros de quem as faz. Tornamo-nos os seus executantes. Nunca demonstraremos que são falsas porque nós mesmos garantimos, através da nossa obediência, a sua concretização.

Admito, por exemplo, que a colocação dos astros quando nascemos até possa determinar alguns tratos da nossa personalidade (há tantas coisas que podem influenciar o que somos, desde os genes que temos à cara da enfermeira que vimos quando nascemos…). Mas não consigo compreender como se passa da influência dos astros na nossa personalidade à previsão de acontecimentos específicos.

Será que de uma concentração de "Balanças" se deve esperar uma grave perturbação pública ou que o facto de o Sporting ter 11 Capricórnios a jogar garante a vitória no campeonato nacional? Por que motivo hão-de os astros permitir prever certos acontecimentos? Não será que a nossa ansiedade em saber o que o futuro nos reserva é antes um escape para o que sentimos ser a nossa impotência em lidar com ele?

A nossa descrença num futuro aberto resulta da nossa dificuldade em saber o que fazer com esse futuro. Não é que nos falte vontade de ter a liberdade de determinar o futuro. Falta-nos é a vontade de escolher o que essa liberdade implica. É que o insucesso resultante da não decisão pode ser atribuído ao destino ao que nos aconteceu ou estava reservado. O insucesso resultante de uma nossa decisão é antes visto como sendo da nossa responsabilidade: "foste tu que fizeste isso a ti próprio!". Daqui resulta uma enorme tendência para imobilidade perante a vida e o destino.

Quem nada faz e é infeliz tem a pena de todos era esse o seu destino. Quem tenta mudar o seu destino é um aventureiro. Socialmente, somos induzidos à inércia. Daí que até a mudança, para ocorrer, tenha por vezes de ser promovida pela antecipação de um destino diferente. Essa é também uma razão para o recurso aos astros e a outras "ordens do futuro": procurar uma responsabilização alternativa ("os astros são quem mais ordena"). Mas essa é apenas uma outra forma de perder a liberdade.

Em Portugal, o futuro é mais irreversível do que a História. Perante a História adoptamos muitas mais liberdades. Paradoxalmente, achamo-nos donos da História e escravos do destino. Mudamos a História de acordo com a nossa necessidade de justificar ou legitimar diferentes opiniões ou sentimentos. É que a História, ao contrário do futuro, não é vista como sendo da nossa responsabilidade e até serve para nos demitir de responsabilidades ("foi sempre assim").

Frequentemente, a História muda não porque muda o nosso conhecimento dela mas sim porque mudam as nossas necessidades quanto ao que concluir com base nela. É curioso como em Portugal uma pessoa teimosa, ortodoxa, fundamentalista, passa, após a morte, a ser definida como coerente, íntegra, corajosa. Não há nada como a morte para mudar a história de uma vida. A História não muda, mas o que muda é a nossa história da História.

Exercemos a nossa liberdade na forma como contamos diferentes Histórias da nossa História. É que a História é uma construção da memória e, como tal, sugestionável. É mais fácil reescrever a História do que escrever o futuro. E quanto mais distante a História mais fácil é de nos apropriarmos dela. Ninguém pode lá voltar para controlar a nossa versão.

Não temos medo de manipular a História mas temos um enorme receio de tomar conta do destino. Exercemos a nossa liberdade para justificar onde estamos mas não para determinar onde vamos. E, no entanto, só há uma coisa certa no nosso destino a morte. E mesmo essa, se puder, evito-a.


por Miguel Poiares Maduro
Miguel.Maduro@curia.eu.int

domingo, agosto 14, 2005

O destino da Colecção Berardo



Mais uma coisa a correr bem.
A 19 de Maio denunciámos as hesitações do Governo em relação a "uma casa para a colecção Berardo".

Agora, segundo o Expresso, a situação parece resolver-se:

O Antigo Museu de Arte Popular, em Belém, é o mais provável destino da Colecção Berardo. O empresário madeirense que fez fortuna na África do Sul ameaçou levar para o estrangeiro a sua colecção - uma das mais valiosas do mundo em arte contemporânea - no caso de o Governo português não assegurar um local condigno para a expor. Actualmente, parte da colecção está em exibição em Sintra, no edifício do antigo casino, e no Centro Cultural de Belém.

O antigo Pavilhão de Portugal, no Parque das Nações, seria uma solução satisfatória, mas Berardo prefere a que está actualmente a ser trabalhada e contempla um enriquecimento da zona envolvente do Mosteiro dos Jerónimos.

O edifício do Museu de Arte Popular, um legado da Exposição do Mundo Português de 1940, albergará o núcleo central da colecção, que terá uma extensão no CCB.

A cereja no topo do bolo desta proposta consiste na sugestão de Berardo de instalar ao ar livre, na zona entre a Torre de Belém e o Padrão dos Descobrimentos, uma obra de arte pública de grandes dimensões.

«Sonho com uma obra de grande qualidade e impacto que possa tornar-se um ex-líbris de Lisboa, tal como a Torre Eiffel é de Paris ou o Empire State Building é de Nova Iorque», explica Joe Berardo.

quinta-feira, agosto 11, 2005

Aviso à navegação











Soube agora mesmo que "A Ópera de Três Vinténs", no Teatro Aberto, só estará em cena até Domingo dia 15 de Agosto.

Quem ainda não viu esta versão do clássico de Brecht, com a esplendorosa música de Kurt Weill,


que se apresse....

quarta-feira, agosto 10, 2005

A carta que escrevi a mim mesmo (há 40 anos)

Num outro Agosto, há exactamente 40 anos, publiquei no Diário de Lisboa este poema...



ANTEVISÃO

Ponho-me a pensar
na recordação que perdurará desta tarde
quando o momento-agora
se precipitar no abismo guloso
que é o futuro

É uma tarde vulgar
com conversas banais
com a criada a passar a ferro
num canto do quarto
com a miudagem a gritar lá fora no quintal
brincadeiras que eu já não entendo
com alguém a chamar da varanda
um chamamento sem resposta
que desiste
e entra batendo a porta atrás de si.

Nisto tudo só o vento destoa
como se fosse lá fora um grande búzio
gritando e gemendo simultâneamente
num vendaval
que eu sei que não existe.

Daqui a muito tempo terei eu talvez
perdido este espanto-sempre
que colho como uma flor de vez em quando
e alinho em versos rabiscados.

Estarei talvez um homem de meia idade
obeso e careca
com a carne flácida e sem frescura
já na curva descendente
que acaba sempre no mesmo sítio.

Talvez toda a minha angustia de agora
que não tem razão (pelo menos aparente)
se transforme nessa altura
numa raiva surda
pela mocidade que já não volta
por esse estranho sabor
de ter o corpo todo em flor
cantando hinos ao sol e ao mar
que so sente na juventude
e eu me tome alguém sádico
e vulgar
e estranhamente convencido de mim
e só de mim
e tenha um riso velho
e goste só de chispe e cozidos
e dobrada e aguardente.

Talvez até me ria
ao saber que alguém tem a mania de escrever versos.

Talvez até me ria
e diga piadas
e faça força cá dentro
para sepultar as recordações
de tardes como esta.

E se acaso algum dia estiver só
e sentir a minha vida escoando-se vazia
talvez procure numa velha mala
estas páginas com versos rabiscados
e consiga num momento de abstracção e sonho
ouvir o vento desta tarde banal.

Fernando Penim Redondo
Diário de Lisboa, 27/8/1965

segunda-feira, agosto 08, 2005

Oito mil discos de 78 rotações



Finalmente alguma coisa corre bem. Parece que o Ministério da Cultura e a CML, ajudados por mecenas, vão adquirir a fabulosa colecção de discos de fado do inglês Bruce Bastin. Nas palavras do DN:

Manassés de Lacerda, Reinaldo Varela, Luís Petroline, Júlia Florista, Roberto Catão, José Bastos, Isabel Costa, Almeida Cruz, Eduardo de Souza, Rodrigues Vieira, Delfina Victor, Maria Vitória. Nomes de velhas glórias do fado inscritas na memória popular, sobre a maioria das quais não havia sequer certeza de que alguma vez tivessem gravado a sua arte. O único testemunho documental dessa importante parcela da história cultural portuguesa encontra-se em Inglaterra, entre o espólio de oito mil registos em discos de 78 rpm que o coleccionador Bruce Bastin acumulou ao longo das últimas três décadas. Um acervo dedicado ao fado, mas onde se guarda também algum repertório de revista, de outras formas de música popular tradicional e até encenações históricas - como uma gravação do texto da proclamação da República. Os títulos mais antigos remontam a 1903 e esta é unanimemente considerada a mais valiosa e importante coleccção de fado do mundo.

Um número significativo dos registos em posse de Bastin representam as únicas cópias conhecidas de algumas gravações e só se soube da sua existência através da sua colecção. De algumas delas, o coleccionador inglês guarda até mais que um exemplar.

"É uma colecção deslumbrante que permite reconstituir uma importante parte da nossa história cultural", explica Rui Vieira Nery. "Com ela vamos finalmente conseguir aferir com certeza a evolução do fado que fados se cantavam no século XIX ou nas décadas de 10 e de 20, período de grandes transformações sociais e culturais? Que tipo de formas musicais e poéticas se usavam?"

O espólio encontra-se rigorosamente organizado e catalogado, como de resto foi testemunhado pela primeira delegação enviada a Inglaterra em Novembro de 2001 pelo então ministro da Cultura, Augusto Santos Silva. No parecer resultante dessa primeira visita, Joaquim Pais de Brito, director do Museu Nacional de Etnologia dava testemunho da "importância única deste acervo". Em 2003, uma segunda delegação liderada por elementos da Egeac - empresa da Câmara Municipal de Lisboa que gere a Casa do Fado - aconselhou a compra do espólio, então constituído por cinco mil discos de 78 rpm. Nessa altura, a Casa do Fado possuía apenas 50 registos deste tipo.

Coleccionador compulsivo de discos desde a juventude, Bastin detém começou a perseguir registos de música portuguesa rara na década de 70. Em Inglaterra, nos Estados Unidos e um pouco por toda a parte, onde quer que o circuito dos coleccionadores o levasse. Mas também em Portugal. Em 1990 garimpou uma importante parte do seu espólio num velho armazém do Porto. Centenas de discos postos de parte há anos, desde que novos equipamentos os deixaram de ler. Abandonados por quem não lhes percebia o valor. Bruce Bastin percebeu.


ver mais sobre a influência na candidatura à UNESCO

sábado, agosto 06, 2005

Hiroshima, 6 de Agosto de 1945, 8:15 A.M.




Museu de Hiroshima

domingo, julho 31, 2005

Descobrir Josef Koudelka


A magnífica exposição Espelho Meu no CCB, para além de outros fotógrafos importantes, levou-me à descoberta de Joseph Koudelka.

As fotos aqui mostradas nem são, quanto a mim, as mais significativas. No CCB ele tem toda uma série de "paisagens desertas" que é simplesmente fabulosa.

Uma maneira de gozar o Agosto em Lisboa e aproveitar para perceber que Portugal continua, como antes, a não rimar com cosmopolitismo.

sexta-feira, julho 29, 2005

Salazar preocupado com o PREC


“As letras estão fundidas no bronze ou simplesmente aparafusadas? É que se estão fundidas no bloco de bronze vão dar depois muito trabalho a arrancar”.

(Salazar, 6 de Agosto de 1966, dia da inauguração da Ponte sobre o Tejo, quando viu o seu nome num dos pilares)

Olha quem voltou



Publicado no genial "Inimigo Público":

Américo Tomás pode ser a surpresa da direita

Perante dois candidatos de centro-esquerda, a direita procura afanosamente um presidente e, à hora do fecho desta edição, já ia em Américo Tomás.
Com Paulo Portas ausente nos Estados Unidos e Sidónio Pais oficialmente morto, a direita portuguesa sente-se desamparada e não se revê nos candidatos que se perfilam no horizonte, especialmente em Freitas do Amaral, que considera uma espécie de Rosa Luxemburgo com um latifundio na Quinta da Marinha e três Rolex.

quarta-feira, julho 27, 2005

Are you talking to me?




por Miguel Poiares Maduro

Are you talking to me?
Esta frase, proferida pelo personagem de Robert de Niro em Táxi Driver, é um clássico. Recentemente, numa eleição do American Filme Institute, foi considerada uma das frases mais marcantes da história do cinema. E, no entanto, em si mesma, esta frase é de uma banalidade confrangedora: "Estás a falar comigo?" Foi o contexto (a que propósito foram ditas mas também como foram ditas, como foram escutadas, e a quem e por quem foram ditas) que deu um significado particular a estas palavras. No filme de Scorsese as palavras do taxista Travis Bickle são mais uma expressão da sua intolerância crescente para com o mundo que o rodeia. Mais um indício da detonação iminente da sua loucura homicida: uma bomba prestes a explodir que Scorsese sugere de forma magistral através de múltiplos símbolos, como o contador de táxi que recorda o tick-tack de uma bomba.
A linguagem é feita de texto e contexto: o que dizemos não são apenas as palavras que proferimos mas também o seu contexto. Neste sentido, a linguagem do cinema, é apenas uma metáfora dos diferentes significados e usos paradoxais da linguagem na vida: ela tanto aproxima como afasta, tanto procura ser clara como se refugia na ambiguidade, tanto democratiza como é um instrumento de autoridade. Eis alguns exemplos:
What we have here is a failure to communicate (Cool Hand Luke, 1967)
A linguagem é acima de tudo entendida como um instrumento de comunicação. De acordo com a sociologia da evolução a linguagem existe para responder à nossa necessidade de cooperar. Para agirmos colectivamente necessitávamos de prever o que os outros iriam fazer e isso exigia um instrumento de comunicação. A linguagem surgiu assim como um instrumento de cooperação e acção colectiva. Não é por acaso que, no episódio da Torre de Babel do Génesis, a forma que Deus encontra para a impedir as ambições do povo que pretendia construir uma torre até ao céu é acabar com a sua língua comum.
Só que a linguagem é hoje também um instrumento de identidade e diferenciação. A nossa linguagem (que é mais do que apenas a língua) identifica-nos com um povo ou com uma classe social ou cultural. Diferentes línguas não são apenas diferentes sons são também diferentes formas de conceber as mesmas coisas. I love you, te quiero, ich lieb dich, não são apenas diferentes traduções do amor, são diferentes formas do entender (como abandono, conquista ou prazer).
As nossas linguagens são uma forma de reconhecermos "os nossos" e, por vezes, excluirmos os outros. A especialização e codificação da linguagem podem ser positivas: são atalhos de reconhecimento daqueles que nos são mais próximos, uma forma de construção de identidade e de comunicação mais profunda entre aqueles que partilham um certo código linguístico. Mas também podem ter muito de negativo: estratificam a comunicação e impedem um diálogo aberto. Nesta segunda dimensão, a linguagem separa em vez de unir.
Toto, I've got a feeling we're not in Kansas anymore (O Feiticeiro de Oz, 1939)
Este exemplo máximo do que os ingleses chamam um understatement (que a linguagem não me permite traduzir…) reflecte um dos paradoxos da linguagem: por vezes é através da ambiguidade que ela nos aproxima. Muitas vezes não se busca a clareza nas palavras que proferimos.
É assim no amor, onde existe essa enorme tensão entre a necessidade de comunicar profundamente mas, também, de preservar algum segredo. Wittegenstein dizia que as palavras disfarçam os pensamentos. Eu acho que, por vezes, elas também disfarçam os sentimentos.
Mas é assim também na nossa vida pública. Muitas vezes, a única forma de concordarmos não é sequer concordarmos em discordarmos. É sim, concordarmos em certas palavras atribuindo-lhes significados diferentes: as mesmas palavras, duas linguagens. Isto não evita o conflito mas pacifica-o e racionaliza-o. Deixa de ser um conflito entre valores diferentes a dirimir através de uma relação de forças para passar a ser um conflito de interpretação a resolver através de mecanismos de decisão racionais aceites por todos.
You can't handle the truth (A Few Good Men, 1992)
Mas linguagem também pode ser utilizada como um instrumento de poder. Uma forma de excluir os outros de certos círculos de conhecimento e decisão ou de se arrogar uma posição de superioridade. É isso que exprime a frase do general representado por Jack Nickolson em A Few Good Men: a incapacidade de alguns para lidar com certa informação justifica que lhes seja negado o acesso a ela. Subjacente, está uma tomada de poder por quem detém um certo código linguístico a cujo conhecimento é atribuída uma autoridade superior.
É a linguagem desprovida de outro sentido que não o impor um certo sentido da vida. Esta arrogância é hoje muito comum, se bem que de forma não claramente assumida, em certas comunidades intelectuais, culturais e científicas. Dizer, por exemplo: "sofri uma metamorfose existencial na minha inteligência crítica aplicada" em vez de… "mudei de ideias". Ou utilizar citações para impor uma pretensa supremacia (não é o meu objectivo aqui…). A linguagem complicada, erudita, difícil, é frequentemente usada como um instrumento de intimidação. É um pouco como aquelas pessoas que confundem o autoritarismo com a autoridade ou que vêem na doçura e gentileza um sinal de fraqueza e insegurança.
As palavras são também poder enquanto forma de reconhecimento social ou político. Ao contrário do que defendeu, a certa altura, Wittgenstein as palavras têm significado mesmo que o significante (a realidade que é suposto elas identificarem) não exista. Elas afectam a nossa percepção da vida mesmo que não existam nela. Num filme dos Monty Python há um personagem masculino que passa o tempo a exigir ter o direito a ter um filho. A certa altura, os seus companheiros, fartos de o ouvir, dizem-lhe: "mas tu és um homem, não podes ter filhos!" Ele responde: "pois, mas quero ter o direito a tê-los na mesma".
É por isso que hoje se batalha tanto pelas palavras. Quanto ao seu género por exemplo. E é verdade que as palavras, por vezes, reflectem mais uma estrutura de poder do que um significado neutral. Hoje, no nosso subconsciente, Deus é uma imagem masculina, mas na versão hebraica da bíblia (bem como noutras religiões) a palavra Deus tende a ser neutral do ponto de vista gramatical. Será que a tradução latina de Deus, atribuindo-lhe um género masculino, reflectiu uma estrutura social de poder ou foi uma pura coincidência? E será que essa atribuição de género masculino se reflectiu noutros aspectos da religião? Trata-se de um debate sobre o poder das palavras.
Oh Jerry, don't let's ask for the moon. We have the stars (Now, Voyager, 1942)
Diferentes expectativas traduzem-se em diferentes compreensões das mesmas palavras. Como escrevia Shakespeare na Tempestade: "disse mais do que queria dizer ou entendeu mais do que eu queria que entendesse." Traduzimos tudo o que ouvimos, no sentido em que o filtramos de acordo com os nossas expectativas ou os nossos desejos. A verdadeira comunicação é aquela em que a linguagem escrita consegue ser também uma linguagem de emoções. Em Lost in Translation, o filme de Sofia Copolla, não sabemos o que Bill Murray segreda ao ouvido de Scarlett Johansson na cena final: terá sido adeus ou até breve? As palavras que lhe atribuímos dependem da nossa leitura de todo o filme. Para mim é uma parábola sobre a dificuldade da linguagem das emoções. Johansson encontra em Murray alguém que consegue traduzir os seus sentimentos. Murray encontra em Johansson alguém que desafia os seus. Terá esse amor futuro? Ambos têm de abdicar de alguma coisa.
Não sei se ao falar de linguagem não utilizei uma linguagem demasiado complicada ou até várias linguagens. Escolha o leitor a sua. Este texto é seu. Por mim, e para citar novamente Wittgensten, "quando já não se tem nada para dizer, deve ficar-se calado!"

por Miguel Poiares Maduro
Miguel.Maduro@curia.eu.int

segunda-feira, julho 25, 2005

Às arrecuas



Depois de várias trapalhadas e de muitos dedos no ar tudo leva a crer que nas próximas presidenciais nos vão obrigar a escolher entre Cavaco e Soares.

Trata-se por um lado da demonstração da decadência da nossa democracia, que já progride às arrecuas, e por outro de uma autêntica provocação perpetrada pelos dois maiores partidos.

Numa altura em que o regime, tendo tomado consciência da sua profunda crise, devia estar a gerar novas ideias, novos políticos ou mesmo novos partidos, eis que nos é apresentado um menu aonde constam os dois principais responsáveis pelo “estado a que isto chegou”.

Bem diz José Gil que os nossos males resultam no essencial de nunca sermos capazes de responsabilizar ninguém.

Ao votar no Cavaco ou no Soares, a grande maioria do povo português como que ilibará a classe política das suas responsabilidades e, sem o dizer expressamente, aceitará para o povo as culpas do cartório. Só se for pelo “deixa andar”...

quinta-feira, julho 21, 2005

Um socialismo da birra ?



"Há "um capitalismo predador e selvático" que "só pode ser substituído por uma sociedade socialista""
Francisco Louçã, Publico 21/07/2005


Faz uma semana fiquei horrorizado com a entrevista do Público ao Jerónimo de Sousa, que considerei paradigmática da pobreza da reflexão e teorização da esquerda em Portugal.

Hoje, após ter lido a entrevista com o Francisco Louçã, em especial a sua parte "teórica", vejo-me obrigado a reeditar o meu desencanto pois ela confirma todos os meus receios.

A salganhada de conceitos, a fuga às definições claras e responsabilizantes, a falta de rigor na caracterização da situação actual e de perspectivação do futuro são a marca de uma política que navega à vista e para a câmara.

Não há uma única referência às relações de produção que parecem ter perdido o protagonismo para as relações sexuais (o homem diz que é marxista ?).

Quando perguntado "E o que é que é ser socialista no século XXI ?" apenas sabe referir aquilo que não quer, não há qualquer laivo de um mundo novo.

Trata-se então de um socialismo da rejeição ? da exclusão de partes ? um socialismo da birra ?

Mais inacreditável só a campanha do Louçã contra as "grandes fortunas" que ele avalia em 750.000 euros.

quarta-feira, julho 20, 2005

A Providência já não é o que era...


Num dia em que fomos bombardeados pelos media com minudências sobre os vários possíveis candidatos à Presidência da República, caiu-me sob os olhos esta pérola:

“Por felicidade do País, ao desempenhar-se do encargo constitucional da eleição, não tem que escolher: felizes as nações que nos momentos cruciais da sua vida não são obrigadas a escolher, e às quais a Providência com desvelado carinho dispõe os acontecimentos e suscita as pessoas de modo tão natural a-propósito que só uma solução é boa e essa a vêem com nitidez no íntimo da sua consciência todos os homens de boa vontade! Felizes porque não se debatem em dúvidas angustiosas, porque não se arriscam em desmedidas contingências, felizes sobretudo porque não se dividem!.”

(Do discurso proferido por Salazar em 7/2/1942, véspera da reeleição de Carmona para PR.)

Estou a ver este filme...


...aqui, agora, 10 anos depois....


Raffarin - Munch



Cada primeiro-ministro prometia conciliar o liberalismo económico e o progresso social; todos falharam nessa tarefa e a opinião pública, depois de ter acreditado neles, retirou-lhes a sua confiança.
Finalmente, Jacques Chirac, encurralado pela próxima criação da moeda única europeia, encorajou Alain Juppé a fazer uma política de redução dos défices públicos que se traduziu numa forte baixa dos rendimentos e, portanto, num novo agravamento do desemprego.
A grande crise que rebentou no fim de 1995 não se deveu nem a um movimento social portador de uma visão de futuro nem foi puro efeito da resistência das vantagens adquiridas; sancionou o desmoronamento de uma sociedade política que, decididamente, não conseguia realizar as transformações económicas necessárias de maneira a reduzir desemprego, mantendo intacto o sistema de segurança social.
A crença suicida na incompatibilidade da abertura económica e da integração social empurrava a França para a beira do precipício.

Alain Touraine em "Como sair do liberalismo ?"

segunda-feira, julho 18, 2005

Paraíso perdido ?



Tróia - Sines, 50 km de areia e mar


"Interesse público" de projectos em Grândola pode levar a queixa em Bruxelas


Presidente da câmara acusa Ministério do Ambiente de ceder a interesses da Quercus

Se os ministérios do Ambiente e da Economia emitirem um despacho conjunto declarando a utilidade pública para viabilizar o empreendimento turístico Costa Terra, previsto para Melides, no concelho de Grândola, a Quercus "não terá outra alternativa" senão avançar para os tribunais e para a Comissão Europeia.
O presidente da Quercus, Hélder Spínola, que ontem se reuniu com o ministro do Ambiente, conta que a declaração de impacte ambiental (DIA) do projecto foi emitida, mas que, apesar de favorável, é condicionada à emissão de uma declaração de utilidade pública por aqueles ministérios. "Estamos a estudar os mecanismos legais mais adequados para impedir a concretização do empreendimento, porque consideramos que há matéria e argumentos jurídicos suficientes para o fazer", diz o presidente da Quercus.
Em causa está a construção de um empreendimento com perto de três mil camas num sítio classificado na rede Natura. "Aquele tipo de investimento não se pode confundir com utilidade pública e, a ser feito, tem de ser fora da rede Natura", considera Hélder Spínola. Fonte do Ministério do Ambiente adiantou ainda que, para além da utilidade pública, o despacho conjunto terá de reconhecer que "não há alternativa ao loteamento" e que "são cumpridas as medidas de minimização e planos de monitorização" indicados no estudo de impacte ambiental. O campo de golfe terá de ser compatível com o regime da Reserva Ecológica Nacional.
Um outro projecto previsto para a mesma freguesia do litoral alentejano, conhecido como Herdade do Pinheirinho, também está na mira da associação ambientalista. "Os estudos de impacte ambiental foram feitos com intervalo de dias e é provável que se venha a aplicar o mesmo princípio", antevê Hélder Spínola. Só estes dois empreendimentos prevêem, numa extensão de três quilómetros, 410 moradias, três hotéis, uma estalagem, sete aldeamentos/apartamentos e dois campos de golfe. Dada a dimensão dos projectos, a Quercus exige a realização de uma "avaliação conjunta dos impactes ambientais cumulativos". Para Hélder Spínola, "não basta avaliar os projectos isoladamente, é preciso aferir as suas implicações em conjunto". Tal mecanismo, adianta, "está previsto na lei" e deverá ser conduzido pelo próprio Instituto de Conservação da Natureza, em articulação com o Instituto do Ambiente e com a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Alentejo.
Para o presidente da Câmara de Grândola, a exigência agora feita pelo Ministério do Ambiente não é mais que "um novo entrave" ao andamento de um processo que se arrasta há 15 anos. Carlos Beato garante nunca ter sido abordada, em reuniões com o ministério, a questão do interesse público. "Fala-se tanto em interesses, esta também é uma cedência a interesses dos ambientalistas", critica o autarca, acrescentando ser "lamentável não ter sabido disto através dos órgãos próprios", o que configura uma "violação da confiança entre os diversos níveis da administração".
O presidente da Câmara de Grândola tem sido a face mais visível na defesa dos projectos turísticos para o seu concelho. A necessidade de uma declaração de utilidade pública para que o processo avance é, em seu entender, "uma mudança de regras a meio do jogo". Todos os procedimentos legais têm sido "rigorosamente cumpridos", pelo que a decisão é "mais um duro golpe para as oportunidades de desenvolvimento do Alentejo litoral", considera Carlos Beato.
A Herdade do Pinheirinho, um loteamento para 200 hectares da empresa Pelicano, apoiado pelo programa One Planet Living, da World Wildlife Fund, contempla 204 lotes para moradias, dois lotes para hotéis, quatro lotes para aparthotéis e três lotes para aldeamentos ou apartamentos turísticos. Associados estarão ginásio, centro de convívio, capela e áreas de comércio. Para a zona sul da área habitacional está projectado um campo de golfe com 27 buracos, em 90 hectares.
O Costa Terra prevê um investimento de 450 milhões de euros, noutros 200 hectares da freguesia de Melides. Terá 2912 camas, distribuídas por 204 moradias e 862 apartamentos, que não ultrapassarão os oito metros de altura e que respeitarão a traça original alentejana. Contempla centro de talassoterapia, centro hípico, clubes de ténis, zonas comerciais e um campo de golfe de 18 buracos.

Cláudia Veloso
Publico, 16/07/2005

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quarta-feira, julho 13, 2005

"Bits" e "Bytes" nos idos de 70


Já que o Fernando Redondo resolveu desenterrar histórias de computadores, lembrei-me de pôr no “blog” este texto, escrito já há algum tempo. São recordações da minha primeira experiência como informática. Limitei-me a alterar os nomes das pessoas.

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O Sr. Santos aperta a mão a cada um dos colegas, como todos fazem quando chegam de manhã.
O Sr. Silva vira a página do calendário e enfia as mangas de alpaca pretas, com elástico em cima e nos punhos, para poupar o casaco cinzento que comprou no Natal.
O Sr. Martins tira o meio lápis que já tinha guardado atrás da orelha e pega no escantilhão para continuar a desenhar o complexo fluxograma que colocará mais tarde na corticite a que encosta a cadeira.
A Célia começa a perfurar um programa novo em cartões azuis.
A Leonor queixa-se das insónias da noite anterior.
As duas doutoras verificam cuidadosamente os maços de cartões que a Célia pôs nas suas secretárias e voltam a colocar elásticos em cada um. Nessa noite, seguirão de avião para a Bélgica os seus primeiros programas.


É assim que se prepara a chegada de um novo computador, numa cave de Almirante Reis, numa manhã da Primavera de 1970, numa empresa dita de “Service Bureau” - e que, se tivesse existido trinta anos mais tarde, estaria a fazer “Outsourcing”.
O chamado material clássico e os pesados computadores a cartões, todos cinzentos, continuam a executar as aplicações de salários e de contabilidade dos clientes. Mas não chegam para satisfazer as exigências e a visão que o Dr. José Azevedo tem para a sua empresa, no início de uma nova década.
Por isso vem aí “O” computador que ainda precisará de cartões, mas que terá também discos e bandas magnéticas e 30K “bytes” de memória! O seu espaço já está reservado e devidamente envidraçado, o chão falso colocado e a instalação de ar condicionado não tardará. Por isso também admitiu as duas doutoras.

O Sr. Silva combina mais uma almoçarada com frango de churrasco e tenta convencer as doutoras a participarem. (Só é costume irem homens: as perfuradoras levam comida de casa e as doutoras fazem companhia uma à outra num restaurante perto da Praça do Chile.) Elas dizem que talvez para a semana.
O Sr. Martins explica às doutoras por que razão é preciso utilizar tantas instruções de condensação nos programas: há que poupar meios “bytes” sempre que possível, todo o desperdício pode ser fatal, mesmo com o grande sistema que aí vem.


O Sr.Martins é o chefe da Programação e Análise. Só tem a 4ª classe, mas todos acham que ele é um génio. Nem percebem para que servem doutores, o exemplo do Sr. Martins mostra bem que não são precisos canudos para lidar com computadores.

A Drª Júlia telefona para o fornecedor do novo computador para que mande buscar os cartões com os programas. Estes serão compilados em Bruxelas – tem que ser assim já que o dito computador será o primeiro da sua espécie, o maior, o mais rápido a ser instalado em Portugal.
O Sr. Santos pergunta a todos se acreditam que o arranque do novo sistema se fará em Maio como previsto. Ninguém responde porque toda a gente duvida. Ele volta para a sua Separadora.
A Leonor diz à Célia (que é a responsável pela Perfuração, ou seja por ela própria e pela Leonor) que o papel higiénico de reserva não vai chegar até ao fim do mês se não houver um esforço colectivo de poupança.


É 6a feira, 1h da tarde. Os homens atravessam a avenida e vão comer o tal frango de churrasco numa tasca com azulejos brancos na parede. Já está calor desde manhã, mas eles não sabiam porque não há janelas na cave de Almirante Reis.
Os eléctricos passam devagar, meios vazios. Os portugueses continuam tristonhos, mas há algo de diferente nas ruas. As raparigas encurtaram muito as saias, há mesmo algumas de “hot pants”.

O Sr. Martins e o Sr. Santos retomam a codificação dos seus programas.
As duas doutoras não têm nada que fazer porque as listagens de Bruxelas só chegarão lá para 3ª feira. O tempo custa a passar.
A Célia recorda que há um lanche às 5h no átrio da casa de banho das senhoras porque a Leonor faz anos.
A Drª Júlia telefona ao namorado e combinam ir ao cinema. A Drª Rita pergunta-lhe o que vai ver. Diz que ainda não sabe: parece-lhe demasiado esotérico explicar que será “A Paixão de Joana d’ Arc”, numa retrospectiva de Carl Dreyer no Palácio Foz...
A Leonor diz que está desejando que o dia acabe para ir buscar a filha que só vê aos fins de semana: de 2a a 6a fica em casa dos avós na Malveira.
Há menos barulho porque ninguém trabalha com a Separadora – para ela já é sábado...


Acabou o fim de semana, passou-se mais um mês.
É noite e Marcelo Caetano entra pela casa dos portugueses com mais uma “Conversa em Família”. Em Alfama, preparam-se as ruas para a noite de Santo António.

O computador chegou entretanto. Foram abertas dezenas de caixotes, os técnicos do fornecedor esticaram muitos metros de cabos. Já piscam luzinhas desde a véspera.
É tarde mas ninguém se vai embora. Finalmente, “o sistema “arranca”! Vem o Dr. Azevedo, abre-se uma garrafa de champanhe. As perfuradores põem batom, o Sr. Silva tira as mangas de alpaca.
O computador só compila e só executa um programa de cada vez (modernices de multiprocessamentos só virão mais tarde), mas tem 30 K, é grande, é bonito e fica muito bem na sala envidraçada.

Afinal, Portugal não é tão atrasado como dizem!

segunda-feira, julho 11, 2005

Retrato Robot de um Informático




Retrato Robot de um Informático
Publicado em "O Diário" de 29 de Agosto de 1987



Suponhamos que tem 42 anos. E trabalha nestas coisas dos computadores há 18. Terá, por hipótese, aquela formação que se costuma designar por "Frequência Universitária" e passou portanto pelo caldeirão das crises académicas dos anos 60.

Os primeiros manuais que lhe meteram na mão foram, provavelmente, ainda os referentes ao "material clássico", máquinas devoradoras de cartões perfurados que os separavam, ordenavam, e totalizavam valores neles contidos.
Esta coisa dos cartões perfurados é já dificil de explicar aos filhos mas os mais velhos ainda se lembram concerteza dos rectangulos de cartolina, cheios de furos, em que lhes chegava a conta da luz.

A programação nesses tempos era uma especie de tricot feito com fios que se emaranhavam disputando uma matriz de orifícios que davam aos painéis um ar de favos metálicos.
Os operadores eram rapazes robustos que passavam horas manipulando milhares de cartões que manuseavam como acrobáticos jogadores de cartas num jogo de milhares de baralhos. Os cartões andavam numa roda-viva da separadora para a ordenadora e daí para a tabuladora num circuito só interrompido pela catástrofe de uma temida queda. Os operadores trajavam uma incompreensível bata branca.

A tecnologia deu um salto e os programas passaram a residir na memória dos computadores. O tricot agora passara para a escolha das instruções dos programas que tinham que caber em memórias tão pequenas que fariam rir os nossos ases do "Spectrum".

Depois vieram os suportes magnéticos para os dados; primeiro as bandas depois os discos e por fim as diskettes. Foi uma revolução e um drama. A informação deixou de estar ao alcance da vista (já não era possivel pregar a partida aos novatos de os mandar procurar aquele "8" perfurado por engano e que era preciso colar no respectivo buraco do cartão).
Mas as máquinas eram mastodonticas e só atendiam um utilizador de cada vez.
Formavam-se bichas e havia discussões pois que a falta de uma virgula obrigava a mais uma hora de compilação do colega anterior. Ninguem se atrevia a fazer planos mais rigorosos do que ao nível dos dias ou das semanas.

Por isso foram bombásticas as primeiras experiências de "spooling". Já era possivel isolar as morosas operações de entrada e de saída do trabalho própriamente dito. As unidades de leitura e as impressoras trabalhavam dia e noite independentes das operações de calculo e agora a luta centrava-se à volta da posição de cada um nas filas de espera de leitura e impressão. Também apareceu um novo cataclismo que consistia no misterioso desaparecimento do nosso mapa que deveria estar no meio da enxurrada despejada pela impressora durante a noite passada.

O salto seguinte teve a ver com os sistemas multiposto com todas as preplexidades resultantes de tentar perceber a lógica que a máquina usava para atender as multiplas solicitações. A guerra transferiu-se para a aquisição de prioridades no atendimento pelo sistema. Os primeiros a ler os manuais entretinham-se a relegar os colegas para estatutos em que a máquina só lhes passava cartão quando não tinha mesmo nada que fazer.

Chegou-se assim aos grandes sistemas de hoje, com centenas de utilizadores locais ou remotos, e com as suas máquinas virtuais que nos dão a ilusão de termos o computador todo só para nós (isto quando o dimensionamento foi correcto pois de contrário em vez de tempo de resposta temos os famigerados prazos de entrega).

Esta breve recapitulação histórica tem como objectivo transmitir aos mais jovens um "cheirinho" das vicissitudes por que passaram os colegas que, como agora parecerá lógico, têm alguns cabelos brancos. As vicissitudes que todos nós, velhos e novos, partilhamos agora com as ultimas palavras da tecnologia ficam para outra ocasião.

Mas vale a pena colocar uma outra questão pertinente depois desta breve viagem pelo passado. Quantas linguagens, comandos e truques foram ficando pelo caminho ?
Quantas palavras-chave, parâmetros e códigos tivemos que aprender para depois esquecer ao longo das nossas vidas ?

Todos os Sistemas Operativos e Arquitecturas foram anunciados com fanfarras de genialidade eterna para morrerem quase de vergonha alguns anos (ou mesmo meses) mais tarde.
Dir-nos-ão que o saber não ocupa lugar. Nada mais demagógico. Com excepção de uma certa disciplina na análise dos problemas pode dizer-se que os conhecimentos que adquirimos (quantas vezes a mata cavalos) não podem ser considerados conhecimento no sentido nobre do termo.

Sentimo-nos um pouco como alguem que tendo aprendido alemão descobrisse algum tempo depois que já ninguem falava tal lingua. Depois aprendesse francês e constatasse que os franceses eram um povo em vias de extinção e assim sucessivamente.

Temos que invejar os velhos camponeses que nem com a esquisitice de um tractor perdem a face perante os netos. Nós temos experiências muito mais traumatisantes com os nossos putos e os seus "pokes".

Quem nos devolve as horas e mesmo noites que mergulhamos nos "traces" de programas cheios de ;,<,),&,%,#,$ ? Como vamos recuperar da erosão provocada por vagas sucessivas de lixas informáticas sobre as nossas memórias pessoais ?

Nós fomos a argamassa de todos os "ease of use, "user friendly", linguagens de query, interfaces em linguagem natural, sistemas periciais e outras iguarias com que se empanturram os utilizadores actuais.

Que captemos ao menos a lição dos factos e passemos a olhar com maior bonomia o que temos que aprender hoje. Não podemos fechar os olhos, e o espírito, ao mundo em que vivemos sob pena de virmos a ser os velhos mais ignorantes da história da humanidade.

Fernando Penim Redondo

domingo, julho 10, 2005

O “Escritório do Futuro”... há 18 anos.



O “Escritório do Futuro”... amanhã às nove e meia
Publicado em "O Diário" de 3 de Outubro de 1987


Chega-se ao 11º andar de um edifício de cimento e vidro pelas 9.30 horas se o percalço de um engarrafamento não ocorre.

O espaço de trabalho pode ser "open" ( descampado, em tradução livre) ou constituído por gabinetes de 3/4 habitantes cada. O que importa agora, o que distingue, é a presença em cada secretária de um terminal de computador ( para não complicar imaginem um televisor com teclado, que serve).

Tambem lá estarão, é claro, os apetrechos tradicionais: um bloco calendário, um cesto "IN/OUT", um estojo de miudezas como "clips" e elásticos, eventualmente um cinzeiro, mas como veremos mais adiante reduzidos a um papel decorativo. Uma manifestação de tradicionalismo, se quiserem uma ligação sentimental a um passado de mangas-de-alpaca.

Analisemos agora o comportamento desse individuo que, vencidos os engarrafamentos ao volante do seu automovel, pousa a pasta e pendura o casaco num cabide suspenso da ilharga do armário. Em certas situações pode ser que dedilhe um jornal, mas com o ar pouco atento de quem quer apenas ter a certeza de não deixar passar algo de especialmente importante. Posto o jornal para o lado, por vezes mesmo antes disso, os dedos procuram as teclas mais do que batidas, para iniciar a sessão de trabalho com o computador.

Este acto, que técnicamente pode assumir as mais variadas formas, corresponde ao antigo ligar da máquina de escrever, se era electrica, ou mais genericamente ao gesto de preparar a ferramenta com que se vai trabalhar. A diferença estará apenas na poténcia e variedade das fun‡óes proporcionadas pela "ferramenta" computador.

Muito provavelmente o primeiro serviço pedido será aquele que se vulgarizou como "correio electrónico". Como o nome indica permite trocar "correspondéncia" sem fazer viajar papéis ( os cientistas descobriram que os impulsos eléctricos são substancialmente mais rápidos do que os continuos).
O gesto primordial do "correio electrónico" é o de "abrir a caixa do correio", isto é, saber quem e quando nos enviou o qué. Tal pode, no entanto, ter consequéncias indesejaveis. Vejamos porquê.

O seu autor tanto pode pertencer a uma comunidade informática de dezenas de utilisadores trabalhando na área da Grande Lisboa como estar integrado numa rede com dezenas de milhares de membros espalhados por todos os continentes. Assim, feito o pedido de "abertura" da "caixa do correio", pode deparar-se com uma lista de "cartas" vindas tanto do parceiro da sala do lado como de um colega da Austrália.

O caso agrava-se indubitavelmente se o numero de tais "cartas" for, por exemplo, 174. O destinatário, nestes casos, sente que tem o dia estragado. Um dia não chegará, provavelmente, para ler nem que seja em diagonal todas as mensagens recebidas.

Então, perante a lista imensa, lá irá seleccionando e lendo aquelas que lhe parece poderem necessitar de atenção e eventual resposta mais urgente. Convem explicar, para os mais afastados destas coisas, que tanto a lista das mensagens como o respectivo conteudo são visualisados no "ecran" ( um pouco como se pudessemos receber as cartas da família do Norte no televisor lá de casa).

Claro que é reconfortante enviar uma mensagem, por exemplo para Singapura, e saber que o destinatário poderá lé-la daí a instantes ( a não ser que haja bronca na rede telefónica, claro); mas não há bela sem senão. Neste caso, o senão resulta do abuso na utilização destes meios; há quem envie mensagens a propósito e a despropósito. O pior ainda é o abuso das facilidades da redistribuição de mensagens pois nestes casos os prevaricadores nem sequer tém que se dar ao trabalho de produzir um texto original.

Funciona assim: alguem recebe uma mensagem e julga que o seu conteudo é importante para os senhores A, B e C. Então junta ao texto que recebeu uma frase inteligente tipo "penso que este assunto é extraordináriamente importante para si" e envia para os trés presumíveis interessados. Alguns destes podem ter uma ideia semelhante e assim nasce uma assustadora reacção em cadeia. As mensagens que chegam depois de ter passado por vários destes "distribuidores" são particularmente irritantes porque obrigam a ler todos os comentários bacocos antes de poder decidir se o conteudo é, ele próprio, tambem bacoco.

Tal como as cartas em papel estas, as electrónicas, uma vez tratadas são muito bem arrumadinhas em ficheiros magnéticos ( versão actual dos dossiers).

Mas o computador não serve apenas para "correio electrónico". Ao longo do dia vai servindo como:
- Máquina de calcular
- Máquina de escrever (associado a impressoras de qualidade)
- Prontuário ortográfico automático- Enciclopédia técnica
- Consultor técnico em vários domínios
- Agenda e gerador automático de avisos
- Intercomunicador ( mensagens escritas que interrompem o destinatário) etc, etc.

Assim, a ligação do trabalhador a esta super-ferramenta é muito estreita e só quando uma quebra na corrente inviabiliza a sua utilização é possivel retomar os placidos rituais da leitura e do despacho dos papéis (que apesar de tudo continuam a existir, claro).

Moral da história...

A descrição feita não pretende ser exaustiva, e muito menos rigorosa, mas destina-se a divulgar em traços largos o ambiente de trabalho daqueles que, já hoje, vivem uma versão necessáriamente mitigada do "escritório do futuro". Se considerarmos redes com centenas ou milhares de utentes, acesso a grandes bases de dados locais e remotas, a disponibilidade permanente de tais meios e a sua efectiva utilização nas tarefas do dia a dia estaremos a falar do ambiente de trabalho de umas quantas centenas de portugueses.

Se atendermos á previsível generalização deste tipo de ambientes, que tudo leva a crer serão o habitat de cada vez maior numero de trabalhadores dos serviços, é facil perceber como se torna importante analisar as "ilhas" já hoje existentes.

Desde logo o aumento enorme da velocidade de circulação da informação, bem como os volumes disponíveis, se por um lado permitem resolver problemas complexos e numerosos impóem tambem um elevado ritmo de trabalho e situações de atraso permanente relativamente ás solicitações. As relações com os superiores hierarquicos tendem a perder o caracter de relação social ( as conversas para definição das tarefas e suas implicações tendem a ser substituídas por listas "electrónicas").

Os próprios métodos de avaliação do trabalho realizado sofrem grandes alterações pelo recurso a ferramentas do tipo "controle de projectos", memoranduns automáticos e outras (é por exemplo possivel saber em qualquer momento quem está a trabalhar com determinado computador, é possivel pór o computador a verificar se todos os participantes pretendidos numa reunião tém as suas agendas livres nesse dia e hora, etc) .

Tambem se verifica uma redução das deslocações e dos contactos pessoais delas derivados. Os contactos profissionais, em que se opera uma substituição do telefone pelas mensagens escritas, tendem a formalizar-se. O esclarecimento das situações pode tornar-se mais dificil pois a forma escrita, passível de utilização posterior, retira alguma maleabilidade e espontaneidade na superação dos problemas.

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Muitos analistas prevéem um crescimento enorme do numero de empregados nos serviços o que parece contraditório com as produtividades gigantescas dos meios tecnológicos descritos.
Com efeito já hoje são observaveis reduções nos efectivos de certas tipos de profissões. Alguns exemplos:

- As(os) dactilografas - Hoje, como vimos, cada um pode escrever os documentos que desejar no seu próprio terminal
- As(os) secretárias - As funções de atendimento telefónico durante as auséncias podem ser resolvidas pela telefonista, se dispuser de um terminal para enviar um aviso para a "caixa do correio" do destinatário da chamada. O arquivo é, como vimos, cada vez mais electrónico.
- Os operadores de recolha de dados - A disseminação de dispositivos cuja utilização produz, automáticamente, o registo electrónico está a ser feita a ritmo acelerado (veja-se o caso das transacções bancarias através das máquinas).

Parece pois legítimo concluir que as operações tradicionais do escritório estão sujeitas, tal como as da agricultura e da industria, a um processo de progressiva automatização e provavel redução de efectivos.

Com a produção agrícola e industrial garantidas por robots ou por trabalhadores baratos do "terceiro mundo" e com o trabalho dos escritórios entregue a um reduzido numero de operadores de máquinas complexas, o nosso destino na Europa e na América do Norte, dizem alguns analistas, é tornarmo-nos gigantescas colmeias de super-produtivos "prestadores de serviços".

É neste ponto que me lembro sempre do magistral "Ghost-busters" em que um grupo de jovens empreendedores resolve montar uma empresa para prestar serviços de "caça de fantasmas" na pragmática New York.

Seja como fór:

- O escritório não voltará a ser o mesmo
- Os "serviços" de que se ocuparão tantos milhões dos nossos filhos e netos ainda estão por inventar, bem como as relações socio-económicas que lhes hão-de corresponder.

...mas isso terá que ficar para outra altura.


Fernando Penim Redondo

sábado, julho 09, 2005

Atribulações de um "posterior" no Japão II


Em vez de escrever um comentário ao "post" que o Fernando publicou ontem sobre este assunto, penso que é mais esclarecedor difundir estas instruções detalhadas.

Em todo o caso, e em relação às dúvidas do Fernando quanto às diferenças enter "shower" e "bidet", devo dizer que também as tive: a distinção entre "to rinse" e "to spray" nem sempre era muito nítida na prática!...

Mergulho




Silvia Patrício

Exposição de pintura

Até 30 de junho (Entrada Livre)

Arquivo livraria (espaço de galeria)

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sexta-feira, julho 08, 2005

Atribulações de um "posterior" no Japão

No seu post "E o Japão ali tão longe" a Joana fazia uma declaração que desencadeou a nossa curiosidade: "Por decoro, não descrevo todas as funcionalidades de que dispõe uma simples sanita".

Como não consideramos este assunto inferior, e não gostamos de atirar dúvidas para trás das costas, lá conseguimos aliviar o decoro da Joana e convencê-la a facultar-nos a documentação que segue:

I





II




III




Desafiamos agora a Joana, através dos comentários que entender necessários, a precaver os potenciais turistas contra os percalços que as instruções auguram.

Por exemplo eu tenho alguma dificuldade em diferençar o "shower" do "bidet" o que pode ter efeitos nefastos no "posterior"...

quinta-feira, julho 07, 2005

Em defesa de "Cândido"



Em defesa de "Cândido"
Miguel Poiares Maduro
miguel.maduro@curia.eu.int


Acredita num final feliz? Eu sempre preferi acreditar. É por isso que sempre simpatizei com o "Cândido", eterno optimista vítima do sarcasmo de Voltaire. Na personagem de Cândido, que permanecia optimista face às maiores desgraças, seguindo a filosofia do seu mestre Pangloss para quem todas as desgraças aconteciam para seu bem, Voltaire criticava o naturalismo optimista da condição humana da filosofia do seu tempo. Esse optimismo cego e atávico corre o risco de nos tornar passivos perante a vida, aceitando todas as adversidades sem as combater e sem tentarmos melhorar a nossa existência. Mas Voltaire enganou-se ao confundir Cândido com Pangloss e optimismo com resignação. O optimismo de Cândido é positivo, o que é negativo é o transformar esse optimismo numa filosofia passiva e acrítica da vida como a de Pangloss.
Na verdade, uma filosofia pessimista conduz ainda mais seguramente a um cepticismo imobilista. Para os pessimistas, mesmo o que a vida nos pode dar de bom é seguramente transformado em mau pela natureza humana. O que identifica um pessimista é o seu cepticismo face à natureza humana. Normalmente, isso esconde-se por detrás de uma concepção cínica do que se passa à sua volta que facilmente se transforma numa visão conspirativa do mundo. Para um pessimista há sempre alguma outra coisa por detrás de um gesto simpático, há sempre uma mentira escondida numa promessa, há sempre uma desilusão a seguir a uma ilusão. Da vida, dos outros e, por vezes, até de si próprios nada podemos esperar de bom. Na dúvida, deve-se presumir o pior! Só que isto conduz a negar qualquer capacidade transformadora na nossa condição humana. Não podemos melhorar-nos nem tentar melhorar os outros. A nossa relação com os outros só pode ser vista como estratégia: a bondade não convence, apenas o engano vence.
Claro que o cinismo inerente a uma filosofia pessimista nos dá uma posição confortável perante a vida. Podemos olhar o mundo de cima para baixo e ser sarcásticos com o "engano" dos outros. Talvez seja por isso que hoje em dia se encontrem muitos mais cínicos que optimistas. É bem mais fácil ter piada sendo cínico do que positivo. Sempre me diverti com a escrita de Vasco Pulido Valente mas sempre me perguntei como se sairia ele se lhe pedissem para escrever algo positivo durante algumas semanas…
Diz-se que a arte reflecte a vida e o pessimismo é hoje dominante na arte e até na filosofia. Será porque realmente o mundo nós dá hoje mais razões para sermos pessimistas? O pessimismo é consequência do mundo ou de nós? Adorno escreveu que depois do Holocausto já ninguém conseguia escrever poemas. Neste caso, a arte apenas exprime o mal do mundo. Mas será que o mundo se tem tornado pior? É que me parece que a arte se tem tornado mais pessimista.
Muitos dramas clássicos exprimiam um optimismo triste: na tragédia final estava sempre ínsita uma possibilidade de redenção humana. É importante não confundir optimismo com comédia e pessimismo com drama. Há tragédias optimistas porque acreditam na natureza humana. Mesmo Romeu e Julieta é uma peça optimista ao demonstrar que o amor é possível entre duas pessoas de famílias que se combatem. Shakespeare exprime algum pessimismo quanto ao contexto social que impede esse amor mas é optimista quanto à natureza humana que o concretiza. No lado oposto, o fantástico filme de S. Kubrick Dr. Strangelove, é uma comédia que exprime um enorme cepticismo quanto à natureza humana.
Da mesma forma, não se deve confundir um optimista com alguém feliz. Ser optimista pode é ser a melhor forma de reagir à infelicidade. Nem se confunda pessimismo ou optimismo com vontade de morrer. Será que um optimista é alguém deprimido que não se suicida ou, pelo contrário, ele não se suicida porque é tão pessimista que acredita que o que o espera na morte ainda é pior?... O pessimismo a que me refiro aqui é uma filosofia da vida assente num profundo cepticismo quanto à natureza humana.
Há uma forte tendência na arte actual para exprimir este enorme cepticismo. O que aconteceu? Onde foram parar todos os optimistas? Há duas explicações possíveis. A primeira, é que o crescente pessimismo é uma reacção aos limites da razão: a crença absoluta na razão do período iluminista revelou-se excessiva enquanto instrumento de promoção do desenvolvimento humano e pessoal e isso traduziu-se num enorme cepticismo face à natureza humana. O pessimismo antecipou, neste caso, a crítica pós-moderna à razão.
A segunda explicação é mais banal. É simplesmente mais fácil ser pessimista. Havia um tempo em que a arte mediatizava a vida, exaltando-a ou permitindo-nos esquece-la. Os seus tempos eram lentos pois lenta era a forma de viver a vida. Hoje a arte tem de ser mais rápida que a vida para poder ser consumida ao ritmo desta. Neste contexto, o cinismo é a forma mais rápida de fazer arte. É hoje mais fácil matar um personagem do que encontrar um razão para o fazer viver. Não se enganem, eu também não resisto ao gosto da tirada rápida e espontânea, da arte por instinto, do cinismo bem dirigido. Mas custa-me ver a arte reduzida a uma mera expressão do nosso pessimismo existencial.
Na vida, passa-se o mesmo. Ser optimista dá mais trabalho. Significa reconhecer que temos algum controlo sobre a vida e exige que estejamos dispostos a investir na nossa capacidade de nos transformamos e a transformarmos. Mas isso co-responsabiliza-nos. Somos co-autores da vida e não apenas os seus destinatários. É mais fácil ser pessimista e escondermo-nos no cinismo.
Em Portugal, uma sondagem recente indicava que mais de 70% dos portugueses estavam pessimistas. Seria importante clarificar bem o que isto quer dizer. Estar pessimista e ser pessimista são coisas diferentes. Até um optimista pode por vezes estar pessimista… Mas o optimista acha que pode fazer algo para vencer o pessimismo e assume essa responsabilidade. O importante é que os portugueses parem de agir como pessimistas, cínicos e conspirativos perante tudo o que se passa a sua volta, descrentes da natureza dos outros e, dessa forma, desculpando a sua própria natureza também. Um livro recente de Helmut Gaus faz corresponder as fases de desenvolvimento económico com os anseios e receios psicológicos colectivos. De acordo com esta tese, somos, em larga medida, os executores da nossos próprios receios…
Com o pessimismo acontece o mesmo que com as profecias: se as aceitamos, elas realizam-se, pois somos nós mesmos que nos tornamos nos agentes da vontade dos profetas.
Necessitamos de optimistas embora eu esteja algo pessimista quanto à possibilidade de os encontrarmos…

Miguel Poiares Maduro
miguel.maduro@curia.eu.int

quarta-feira, julho 06, 2005

Estocolmo para amigos



Por Ali !!


Clique na foto se quer ver o resto das fotografias feitas em Estocolmo por altura do Solistício de 2005.

segunda-feira, julho 04, 2005

Atendimento Automático



e agora, para descontrair, uma piada qua "anda por aí"


Responde o atendedor de chamadas da Casa de Saúde:

"Obrigado por ter ligado para o Júlio de Matos (Instituto de Saúde Mental), a companhia mais adequada aos seus momentos de maior loucura."

* Se você é obsessivo-compulsivo, marque repetidamente o 1;

* Se você é co-dependente, peça a alguém que marque o 2 por si;

* Se você tem múltipla personalidade, marque o 3, 4, 5 e 6;

* Se você é paranóico, nós sabemos quem é você, o que você faz e o que quer. Aguarde em linha enquanto localizamos a sua chamada;

* Se você sofre de alucinações, marque o 7 nesse telefone colorido gigante que você, e só você, vê à sua direita;

* Se você é esquizofrênico, oiça com atenção, e uma voz interior lhe indicará o número a marcar;

* Se você é depressivo, não interessa que número marque. Nada o vai tirar dessa sua lamentável situação;

* Porém, se VOCÊ votou Sócrates, não há solução, desligue e espere até 2009.
Aqui atendemos LOUCOS, não atendemos PARVOS ou INGÉNUOS! Obrigado!