quinta-feira, abril 30, 2009

A gripe asinina

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"Edgar Hernandez , de cinco anos, é considerado o primeiro paciente da nova gripe que, agora, assola o mundo e ameaça transformar-se em pandemia. Recuperado, o pequeno Edgar recebe de sorriso aberto os jornalistas que o procuram. " (ver +).
O DN online titula: "Paciente zero" volta a brincar nas ruas de La Gloria.
Sou tentado a dizer que me está a dar a "paciência zero" para o chorrilho de exageros que esta gripe asinina, perdão, suína está a desencadear.
Como vêem o Edgar posa, porreiro, a comer o seu gelado tal como o nosso "suspeito", uma criança de Chaves, que já voltou para casa certamente inconsciente de que, durante alguns dias, foi a grande esperança dos Telejornais.
À míngua de suspeitos, quanto mais de infectados, a nossa comunicação social não se conforma com esta nossa condição periférica e fala, fala, fala, quer do estúdio quer do México.
Felizmente para nós, infelizmente para eles, a gripe suína não alastra nem cá nem lá fora.
A única coisa que alastra é a gripe asinina das televisões e dos jornais.

Até à náusea.

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quarta-feira, abril 29, 2009

Egípcios

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Um conjunto de imagens recolhidas em Março no Egipto, entre Luxor e Abu Simbel, pode ser visto AQUI.

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terça-feira, abril 28, 2009

Parlamento Europeu para quê ?

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As Instituições Europeias gastam, por ano, 7,7 mil milhões de euros (ver aqui).
Neste momento de grave crise, e em ano de eleições para o Parlamento Europeu, cabe perguntar se tal verba, enorme, se justifica.

Faz sentido haver um Parlamento Europeu ?
Faz sentido o Parlamento Europeu funcionar "físicamente" numa época em que tudo pode ser tratado à distância ?
Faz sentido haver umas centenas de deputados europeus em paralelo com os deputados dos parlamentos nacionais?

Este modo de funcionar obriga à existência de dispendiosas infraestruturas físicas, enorme burocracia, milhares de viagens e estadias tendo como consequência despesas gigantescas.
Cá para mim bastava que cada parlamento nomeasse um conjunto de deputados nacionais, com respeito pela proporcionalidade, para se ocuparem dos assuntos europeus.
Esses deputados podiam perfeitamente residir nos seus países e participar nos trabalhos europeus através da internet.
Hoje é trivial a distribuição digital de documentos, imagens e sons. Também é trivial discutir-se e votar-se propostas online.

Por que não se adopta então este modelo ?
Porque os lugares de deputado europeu são um exílio dourado com que se afasta os concorrentes ou se enriquece os amigos.

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segunda-feira, abril 27, 2009

Clube das Virgens

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Às virgens que possam eventualmente visitar este blog deixo o link para o
ciente de que o associativismo tem grandes potencialidades.
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Como a Europa está mudada

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clique para abrir

domingo, abril 26, 2009

Turismo no Olimpo

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sábado, abril 25, 2009

25, o dia de cumprir o quê ?

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Detesto a pergunta "o que falta para cumprir Abril ?" com que uma chusma de piedosos comentadores nos bombardeia por estes dias.

"Cumprir" o quê ? mas quem é que tinha que "cumprir" tal coisa ?

Há nesta abordagem uma menorização do povo. Um povo que, pelos vistos, aguarda ainda, passivamente, que "Abril se cumpra". Ou que as mentes esclarecidas e de vanguarda lhe realizem o "céu na terra" e lho ofereçam de bandeja.

Os militares de Abril, e os milhares de homens e de mulheres que antes deles semearam Abril, desbloquearam o acesso à Liberdade como lhes competia. Pode parecer pouco mas, afinal, é tudo.

O ponto onde estamos é exactamente aquele onde, por acções ou por omissões, quisemos estar. Como dizia Brecht "na cama que fazemos é onde nos deitamos". O "povo é quem mais ordena", ou não ?

Começo a ter a desagradável sensação de que muitas das "comemorações de Abril" não passam de oportunismos que em nada ajudam a dignificá-lo.


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sexta-feira, abril 24, 2009

quinta-feira, abril 23, 2009

Obras Faraónicas

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Se é daqueles que têm dificuldade em compreender Manuela Ferreira Leite quando ela fala nas "obras faraónicas" do governo, este post é para si.
Clique AQUI para ver um conjunto de obras faraónicas, originais, que já estão pagas há muito tempo mas que, tal como as nossas, saíram dos costados do povo.
A sorte dos faraós é que no Egipto antigo não havia oposição.

(As imagens foram obtidas em Março 2009 em Gizé, Mênfis, Luxor, Tebas, Edfu, Kom Ombo, Filae e Abu Simbel.)

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Um (J)AWARD que até arrepia

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O José Simões, no seu DER TERRORIST, fez a fineza de me laurear com o (J)AWARD que ilustra este post. Agradeço a distinção por vir de quem vem, e mais não digo.

Só lamento não estar em condições, por falta de jeito, para continuar a corrente de nomeações. Só de pensar nisso fico todo arrepiado.

terça-feira, abril 21, 2009

A Europa já não é o centro do Mundo

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A China Mobile, líder das telecomunicações no gigantesco mercado da República Popular, divulgou os resultados dos primeiros três meses de 2009 esta segunda-feira, apontando um crescimento de 5,2% nos lucros graças a um incremento de quase 20 milhões de clientes na sua base de subscritores. (Dinheiro Digital 20.04.2009)

A China vai construir o maior laboratório da Ásia para desenvolvimento de usos de tecnologias médicas baseadas em células-tronco, de acordo com a imprensa do país. Esse tipo de técnica consiste no aproveitamente das principais células do organismo para criação de outras células que, segundo cientistas, poderão levar à cura de diversas doenças. (Abril.com)

As vendas de automóveis na China superaram a marca de um milhão em março, pelo terceiro mês consecutivo acima das dos Estados Unidos, que no primeiro trimestre do ano chegaram a 2,2 milhões de unidades, como informa hoje a imprensa local.
"As 14 maiores fabricantes venderam 1,03 milhão de veículos na China no mês passado, o que representa entre 90% e 91% do mercado total", diz Chen Bin, diretor-geral do Departamento de Indústria da Comissão Nacional de Reforma e Desenvolvimento, principal órgão econômico do país. (Globo.com)

O presidente venezuelano, Hugo Chávez, afirmou nesta quarta-feira, em uma reunião com o colega chinês, Hu Jintao, que "o centro de gravidade do mundo se deslocou para Pequim".
"Ninguém pode duvidar que o centro de gravidade do mundo se deslocou para Pequim. Durante a crise financeira, as ações que a China tomou foram muito positivas para o mundo. Não temos dúvida de que a China é o maior motor que existe para conduzir o mundo na crise do capitalismo", afirmou Chávez. (Abril.com)

Mas a capanha para as europeias avança como se a Europa fosse ainda o centro do Mundo

segunda-feira, abril 20, 2009

O lícito implícito

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A palavra "lícito" tinha vindo para a ribalta quando, recentemente, se percebeu que ser corrompido para "acto lícito" é um crime que prescreve muito mais depressa do que ser corrompido para "acto ilícito". Mas não ficou por aí.

Agora voltou, ainda que indirectamente, na legislação que promete perseguir o enriquecimento ilícito. Se há enriquecimento ilícito então, para haver lógica, também terá que haver enriquecimento lícito.

Isto parece uma coisa de nada mas não é. Estas subtilezas semânticas revelam muita coisa.

Quando a Crise Financeira Em Curso (CFEC) rebentou como uma bomba, apesar de toda a gente ter obrigação de a prever, houve logo quem falasse do fim da desregulação, do fim do neoliberalismo e até mesmo do fim do capitalismo. Agora toda a gente, mesmo a "esquerda da esquerda", já só fala do enriquecimento ilícito que é outra forma, implícita, de legitimar todo o enriquecimento que não é ilícito.

Eu não discuto se os ricos fazem falta ou não, pelo menos no sistema actual. Mas os ricos deste sistema tornam-se ricos através de um processo que, mesmo quando considerado "lícito" é, pelo menos, arcaico e socialmente indesejável. Eu preferia que os ricos, a existirem, nascessem de relações de produção mais avançadas e produtivas. Mais igualitárias.

Este protagonismo da palavra "lícito" nos discursos da esquerda significa apenas uma coisa: que apesar da crise, uma oportunidade de oiro, a esquerda não sabe o que propor como alternativa.

Tenho pena. Irrita-me que se varra este problema para baixo do tapete.

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Dia Mundial do Livro

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domingo, abril 19, 2009

Fundamentalismo grotesco

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Subversivo, à sua maneira, sem dúvida, mas ninguém imaginava que um dia também o Sr. Hulot se tornasse "incorrecto". Já aconteceu.
A Cinemateca Francesa, em Paris, que organiza actualmente uma retrospectiva da obra de Jacques Tati, o realizador de As Férias do Sr. Hulot, O Meu Tio ou Playtime, não pôde incluir, nos cartazes promocionais do ciclo, o cachimbo que fazia parte integrante da silhueta da personagem Sr. Hulot. A lei francesa da publicidade ao tabaco não deixa.
Trata-se do maior ataque à "iconografia popular" desde que Lucky Luke foi constrangido a perder o cigarro a favor de uma palhinha. Tem havido manifestações de protesto em Paris, a que se associou a própria Liga dos Direitos Humanos. Depois de tanto a criticarem, eis que Tati e o Sr. Hulot se vêem vítimas da "vida moderna". Há aqui alguma ironia, e, como diz o cineasta Costa-Gavras, presidente da Cinemateca Francesa, se tivesse visto isto, Jacques Tati "morreria de riso". A falta que ele faz, a falta que fazia um Playtime II para o tempo da saúde e da higiene.
Público, 18.04.2009

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sábado, abril 18, 2009

O estranho sabor da Liberdade


Há exactamente 35 anos, num dia anónimo como hoje, começou o meu 25 de Abril. Meia dúzia de pides conduziram-me a Caxias de onde só saí depois da Revolução, para uma Liberdade que mal sabia imaginar.
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quinta-feira, abril 16, 2009

A margens do Nilo

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Antes de partir para o Egipto interroguei-me muitas vezes acerca de como seriam as margens do Nilo.
Agora que regressei resolvi deixar AQUI uma panorâmica para quem estiver interessado nesse assunto. Eu percorri o Nilo entre Luxor e Assuão.
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quarta-feira, abril 15, 2009

Peter Kogler - um nome a reter

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foto que recolhi no CCB com o telemóvel


Fui ao CCB para ver a exposição "Arquivo Universal", uma colecção esmagadora de fotografia documental do século XX, que nos faz sentir insignificantes pela quantidade e qualidade da fotografia que veio antes de nós.

Pelo caminho fui atraído por enormes desenhos "orgânicos" que amarinham pelas altas paredes interiores do edifício e que não são mais do que uma parte da exposição de trabalhos de Peter Kogler.
"O artista austríaco Peter Kogler (n. 1959) alcançou projecção internacional com os seus trabalhos sobre o espaço e os meios tecnológicos. O seu vocabulário imagético une o orgânico ao tecnológico, o real ao virtual, fazendo referência à mediatização da sociedade, com todas as suas potenciais virtudes e armadilhas."

Um trabalho fascinante que, só por isso, justificaria uma deslocação a Belém.

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terça-feira, abril 14, 2009

Tia de verdade

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Com o sobrinho "em pensamento"

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Frente anti-Santana ?

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O DN publica hoje uma reportagem intitulada "Frente anti-Santana arranca em Lisboa".
Eu preferia que uma Frente, para mais de esquerda, caso fosse possível, se baseasse em projectos e propostas positivas.

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A gaiola do hamster

A justiça em Portugal parece-lhe confusa? Não faz ideia porque é que todos os processos que envolvem pessoas importantes acabam sempre em regabofe? Diga não à desorientação! Em apenas 20 passos, eis o guia ideal para entender todos os casos que em Portugal começam com a palavra "caso":

1) Os jornais publicam uma notícia sobre qualquer pessoa muito importante que alegadamente fez qualquer coisa muito má.

2) Essa pessoa muito importante considera-se vítima de perseguição por parte de forças ocultas.
3) Outras pessoas importantes vêm alertar para o vergonhoso desrespeito do segredo de justiça em Portugal, que possibilita a actuação de forças ocultas.
4) Inicia-se o debate sobre o segredo de justiça em Portugal.
5) Toda a gente tem opiniões firmes sobre o que é preciso mudar na legislação portuguesa para que estas coisas não aconteçam.
6) Toda a gente conclui que não se pode mudar a quente a legislação portuguesa.
7) A legislação portuguesa não chega a ser mudada para que estas coisas não aconteçam.
8) As coisas voltam a acontecer: os jornais publicam notícias sobre essa pessoa muito importante dizendo que ainda fez coisas piores do que as muito más.
9) Outras pessoas importantes vêm alertar para o vergonhoso jornalismo que se faz em Portugal, que nada investiga e se deixa manipular por forças ocultas.
10) Inicia-se o debate sobre o jornalismo português.
11) Toda a gente tem opiniões firmes sobre o que é preciso mudar no jornalismo português.
12) Toda a gente conclui que estas mudanças só estão a ser debatidas porque quem alegadamente fez uma coisa muito má é uma pessoa muito importante.
13) Nada muda no jornalismo português.
14) Enquanto o mecanismo se desenrola do ponto 1) ao ponto 13) a justiça continua a investigar.
15) Após um período de investigação suficientemente longo para que já ninguém se lembre do que se estava a investigar a justiça finaliza as investigações e conclui que a pessoa muito importante: a) Não fez nada de muito mau. b) Já prescreveu o que quer que tenha feito de muito mau. c) É possível que tenha feito algo de muito mau mas não se reuniram provas suficientes. d) Afinal o que fez não era assim tão mau.
16) Pessoas importantes que são amigas dessa pessoa muito importante concluem que ela foi vítima de perseguição por parte de forças ocultas.
17) Pessoas importantes que não são amigas dessa pessoa muito importante concluem que em Portugal nada acontece às pessoas muito importantes que fazem coisas alegadamente muito más.
18) As pessoas citadas no ponto 17) iniciam mais um debate sobre a justiça em Portugal.
19) As pessoas citadas no ponto 16) iniciam mais um debate sobre o jornalismo em Portugal.
20) Os jornais publicam uma outra notícia sobre uma outra pessoa muito importante que alegadamente terá feito outra coisa muito má. Repetem-se os passos 1) a 19).

Texto de Miguel João Tavares, "Inteiramente gratuito, eis o guia com que sempre sonhou", no DN de hoje

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segunda-feira, abril 13, 2009

A mentira das imagens (1)

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Expresso Única (11 Abr 2009)

A Única, do Expresso, publicou esta semana um curioso artigo com o título "A Grande Mentira".
Trata-se de verberar os malefícios do uso, cada vez mais corrente, das tecnologias modernas para "retocar e recriar" as imagens. Diz a abrir:
"O olhar contemporâneo perdeu-se entre as armadilhas do Photoshop, uma ferramenta de tratamento digital de imagem cuja utilização desregrada está a reconfigurar a compreensão da realidade. A veracidade da fotografia- incluindo a jornalística- está em causa depois de mais de um século de uma preguiçosa crença na imagem fotografada."
Depois são apresentados vários exemplos de eliminação de rugas e outras imperfeições para embelezamento de mulheres e automóveis bem como casos de trucagem de fotografias noticiosas para aumentar a sua carga emocional.
A autora, Christiana Martins, está aparentemente preocupada com a perda da credibilidade dos meios em consequência da falta de confiança gerada pela manipulação digital das imagens; "Ver para crer ? Não. Ver para duvidar !", diz ela.
Não sei se este escrito resulta da ingenuidade ou se é obra do cinismo.
Trata-se de ingenuidade se a autora acredita que as possibilidades de manipulação começaram agora ou se pensa que para uma imagem ser "pura" lhe basta ser mostrada tal como foi registada (seja lá isso o que for).
Os programas de tratamento de imagens sem dúvida banalizaram (democratizaram?) as manipulações mas, na maior parte dos casos, limitaram-se a reproduzir sob a forma digital operações já exequíveis no mundo analógico.
Independentemente de terem ou não sido modificadas no computador, todas as imagens carregam um sentido que, de uma forma ou de outra, o autor lhes conferiu. Esta realidade inescapável é agravada pelo uso nesses processos de uma linguagem cuja sintaxe e semântica estão longe de ser óbvias.
Fotografar isto e não aquilo, fotografar agora e não depois, fotografar de um plano superior ou inferior, são formas, como tantas outras, de influenciar a leitura posterior das imagens e dos factos que, pretensamente, estiveram na sua origem.
Fotografar um ditador numa parada militar ou afagando uma criança não é a mesma coisa ainda que a imagem resultante esteja "isenta de manipulações".
Qualquer imagem, como qualquer texto, tem um significado que lhe foi conferido pelo autor.
Não me parece razoável acreditar que um jornalista desconheça o que acabo de escrever e pense que as imagens "reflectem a realidade". Por isso estou em crer que o artigo da Única assenta num certo cinismo, admito que bem intencionado, que consiste em considerar preferível, apesar de tudo, que os leitores confiem cegamente nas imagens publicadas, para bem dos jornais e do que eles representam.
Eu discordo. Acho que é preferível os leitores desconfiarem sempre, quer das imagens quer dos textos que lhes apresentam.
Não só porque têm boas razões para o fazer mas também porque um espírito crítico e questionador impedirá o embrutecimento e o desinteresse. O que é importante para o futuro dos próprios jornais.
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domingo, abril 12, 2009

sábado, abril 11, 2009

Photo Portfolio

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Uso esta foto, feita em Los Angeles em 1989, para informar que remodelei o meu Photo Portfolio.

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sexta-feira, abril 10, 2009

As leis mais parvas do mundo

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Somos todos iguais perante a lei, mas nem todas as leis são iguais perante o senso comum. No Reino Unido, por exemplo, é ilegal morrer na Câmara dos Comuns, enquanto no Ohio é proibido embebedar peixes e na Florida as mulheres solteiras que saltem de pára-quedas ao domingo arriscam--se a ser presas. Mostrando que levam o patriotismo a sério, os britânicos consideram um acto de traição colar um selo com a efígie do monarca de cabeça para baixo, mas em França é proibido chamar Napoleão a um porco.

Estes e outros exemplos, que constam de uma lista das leis mais ridículas do mundo, publicada no diário Daily Telegraph, mostram que Cícero tinha razão quando dizia que quanto mais leis há, menos justiça se tem e que o filósofo americano Emerson não estava menos certo quando recomendava aos homens bons que obedecessem à lei, mas não em excesso.

Se há país que sofre certamente do excesso de leis é Portugal e por isso também não é necessariamente certo que sejamos bons obedecendo excessivamente à lei.
Supõe-se mesmo que haverá leis adequadas para os homens que não querem fazer coisas boas não serem obrigados a violar a lei - o que seria, de algum modo, excessivo.
Na lista das leis mais absurdas estão a que proíbe os homens na Suíça de se aliviarem em pé depois das dez da noite ou a que considera legal matar um escocês dentro das muralhas da cidade de York se este estiver armado com um arco e flechas. Mas o mais absurdo de tudo é não figurar lá nenhuma lei portuguesa - e não é com certeza um problema de escassez.

Veja-se, por exemplo, a lei que distingue a corrupção para acto lícito de corrupção para acto ilícito, que vem iluminando o debate público nacional. Faz até menos sentido do que a lei do Alabama que especifica inequivocamente que é proibido guiar com uma venda nos olhos. Se uma peca pelo excesso, a outra peca pelo defeito - e pela contradição de minorar um acto ilícito relacionando-o com um fim lícito. Para essa lei fazer sentido, seria necessário alargá-la a todo o tipo de crimes. Por exemplo, um assaltante de bancos é julgado e explica ao juiz que roubou para construir uma casa de férias. Como não considerar isso uma atenuante? Afinal, é um objectivo perfeitamente lícito. Por que não beneficiará o assaltante de banco da mesma consideração? No mínimo, esta lei é discriminatória. Até por que o assaltante de bancos não tem o poder de adaptar as leis à medida dos seus fins.

A corrupção para acto lícito não é menos absurda do que a proibição de morrer na Câmara dos Comuns. Mas não é certamente o único exemplo na extensa relação da produção legislativa doméstica. Na lei sobre o enriquecimento ilícito, por exemplo, diz-se que o ónus da prova não pode recair sobre o titular de cargos públicos que é investigado. E muito bem, que lá por alguém ser detentor de um cargo público não tem nada que ser menos do que os outros. Mas só podemos aceitar esta lei se partirmos do princípio que um titular de cargos públicos pode furtar-se ao princípio da transparência. Se esse princípio vigorasse nos EUA, assistiríamos àquelas longas e minuciosas investigações do Senado aos candidatos a cargos no governo? Não será essa prática uma "inversão" do ónus da prova?

Muitas são as pessoas que dizem e repetem que a corrupção é o pior veneno da sociedade portuguesa. Estão erradas. Muito pior do que a corrupção é a tolerância em relação à corrupção ou a capacidade de quase a despenalizar através da lei. Mesmo num país com um longo historial de corrupção como o nosso, é um refinamento. Prova como o excesso de leis é a melhor maneira de contornar a justiça. E como é possível não se ser bom, mesmo obedecendo excessivamente a lei.

Público 09.04.2009
Miguel Gaspar (miguel.gaspar@publico.pt)

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quinta-feira, abril 09, 2009

BES Photo

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EDGAR MARTINS venceu o prémio BES Photo (ver mais aqui)

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quarta-feira, abril 08, 2009

Batalha de Sombras

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Colecção de fotografia Portuguesa dos anos 50. Em exibição no Museu do Neo-Realismo em V. Franca de Xira.

Uma viagem comovente à sempre repetida batalha das imagens, do seu sentido, da sua missão na sociedade.

Uma oportunidade para lembrar e rever fotógrafos como Carlos Calvet, Gérard Castello-Lopes, Carlos Afonso Dias, Franklin Figueiredo, Eduardo Harrington Sena, Fernando Lemos, Adelino Lyon de Castro, João Martins, António Paixão, Victor Palla, Varela Pécurto, Frederico Pinheiro Chagas, Sena da Silva e Fernando Taborda.

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terça-feira, abril 07, 2009

Patetices verdes

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Lamento informar que, mesmo com a sua ajuda, limpar a CML é uma missão impossível.
A última ideia brilhante: gastar balurdios numa "campanha de comunicação" pateta em que nos dizem quantos carros fazem as limpezas e nos dão conselhos caridosos acerca de nosso mau hábito de atirar papéis para o chão.
No vídeo que as televisões mostram os garbosos trabalhadores do lixo, em tons de verde, fazem lembrar uma recente campanha promocional do Sporting (sem tranquilidade).
Aposta-se numa retórica de culpabilização dos cidadãos, que são tratados como mentecaptos. Uma abordagem que nada resolve.
Enfim, as improvisações do costume com cheiro a eleições. Assim não vamos lá.
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Galileu na China pela mão dos portugueses

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Em 1615, cinco anos depois de Galileu Galilei ter anunciado as suas descobertas em livro, o jesuíta português Manuel Dias publicou na China o seu livro Tien Wen Lueh. Foi através deste livro que as novidades científicas do astrónomo florentino chegaram pela primeira vez ao conhecimento dos intelectuais chineses. A obra está a ser estudada por dois portugueses

O livro é um diálogo entre um ocidental e um chinês. Às perguntas do oriental, o primeiro fala de astronomia e de cosmografia e relata, no fim, em pormenor, as descobertas de um grande sábio ocidental, com um "maravilhoso instrumento", que mostra "a Lua mil vezes maior". O livro, escrito em chinês, tem por título Tien Wen Lueh (Tratado de Questões sobre os Céus) e foi publicado na China, em 1615. O seu autor chamava-se Manuel Dias e era um jesuíta português. Foi pelo seu punho que a China tomou conhecimento, pela primeira vez, das descobertas realizadas por Galileu, cinco anos antes, graças às observações com telescópios.
Este é o início de uma curiosa "história da história", publicada pelo DN no dia 4, acerca de um tempo em que Portugal exportava mais do que futebolistas e treinadores.
Além deste artigo quem tiver interesse pode ler mais aqui: http://cvc.instituto-camoes.pt/ciencia/e8.html
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segunda-feira, abril 06, 2009

Apanhados com o telemóvel (2)

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Mais um absurdo no Parque das Nações (que eu não consigo deixar de chamar Expo).
Hoje de novo, como tantas vezes nos anos recentes, lá estava um equipa a reparar as ripas do caminho sobre a água que circunda aquilo que foi em tempos a Doca dos Olivais e onde hoje se ergue o Oceanário.
Já toda a gente percebeu que a solução existente, com ripas de madeira, tem uma durabilidade reduzida para além de provocar acidentes. Já vi naquele local várias quedas aparatosas de ciclistas cujas rodas ficaram presas nos intervalos entre as ripas.
No entanto prosseguem as reparações, ano após ano, com um dispêndio de recursos que só pode alegrar o fornecedor de tais serviços.
Porque não se adopta uma solução mais segura e durável ?
Será que só os gestores da Parque Expo não se apercebem deste absurdo ?
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domingo, abril 05, 2009

Névoaparque

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É no mínimo perturbante assistir ao festival de indignação que ergueu a comunidade, "como um só homem", contra a eleição de um certo empreiteiro para dirigir uma empresa intermunicipal no Minho.

Um país que tolera os maiores desmandos e corrupções usa estes peixes miúdos para se convencer de que está no bom caminho.

Mas não bastam um Névoa e um Vale e Azevedo, uma andorinha ou jmesmo duas não fazem a Primavera. Eles não são melhores nem piores do que outras centenas de "habilidosos" que a nossa sociedade propicia e, no fundo, inveja e admira.

Os seus golpes são até um bocado canhestros e ridículos.

A única coisa que os distingue é terem angariado os inimigos errados, no espaço ou no tempo.

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sábado, abril 04, 2009

Árbitro no G 20

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A China avança e antes da cimeira de Londres foi a única participante que articulou a sua posição. Não com bravatas em bicos de pés, ao estilo do francês Nicolas Sarkozy, mas de forma coerente. Dez dias antes da cimeira, o governador do Banco do Povo da China, Zhou Xiaochuan, publicou no respectivo site uma análise da situação em cinco páginas densas, e apontou para a necessidade de uma nova unidade de pagamento a nível mundial. Obviamente, a proposta não era para aprovar já, nem ninguém espera que o fim do reino do dólar seja tão amistoso como a transição da libra para a nota verde, "à volta de um brandy em Bretton Woods".

Zhou Xiaochuan esteve na cimeira do G20 ao lado de Wen Jiabao e, quase sem se fazerem ouvir, são capazes de ter sido os vencedores. Um dos analistas internacionais que apontou a China como ‘vencedora’ sublinhou que "os chineses tiveram um papel efectivo de arbitragem em todas as matérias sensíveis".

Arbitrar é, aliás, o que mais agrada a Zhou Xiaochuan. Conhecido como ‘o esfolador’ pela maneira como, na viragem do século, atacou a corrupção que gangrenava a economia chinesa, ele tem como máxima deixar o mercado funcionar, embora não confie em qualquer ‘mão invisível’. "Se o mercado pode resolver um problema – diz – deixemos o mercado fazê-lo. Eu sou apenas um árbitro. E não sou nem um jogador nem um treinador".

No seu papel de ‘tio Patinhas’, à frente de um banco central que tem 2000 biliões de dólares nas reservas, ele é o último a desejar a queda da moeda americana, mas vai preparando a transição com acordos bilaterais em yuans. O ensaio está a ser feito com a Argentina e a Indonésia e tem em vista a tal futura moeda mundial que ele vê como uma espécie do ‘bancor’ idealizado por Keynes.

Correio da Manhã, 04.04.2009
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sexta-feira, abril 03, 2009

O Cairo para além das Pirâmides

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Agora que me encontro na fase de digestão da viagem vou falar mais um pouco do Cairo.

Como já disse anteriormente, é uma cidade imensa (20 milhões) que atrai e repugna ao mesmo tempo. Tem um tumor nas costas, chamado pirâmides, que não pára de crescer ao ritmo de oito milhões de turistas por ano.



O Nilo dá-lhe o espaço necessário para respirar. Eu fiquei no Ramsés Hilton, junto à margem, de onde e à noite via os inúmeros barcos que brilham como carrocéis de feira enquanto passeiam pares de namorados.

Em nenhum lugar eu vi como no Cairo, em pleno centro, junto aos grandes hotéis e às torres de escritórios, tamanhos bairros decadentes e caóticos. O tráfego rodoviário é demencial e prolonga-se noite fora pelas grandes avenidas erguidas sobre pilares até à altura do segundo andar dos prédios.



Há também um toque do século dezanove com a sua arquitectura da Europa de então. Como se fossem restos de uma civilização desaparecida sob a balbúrdia de um novo quotidiano.

Os turistas confluem, como moscas, para o bazar Khan El-Khalili e para as incontáveis mesquitas. Eu, que não tinha muito tempo, pude apesar disso visitar com algum detalhe as mesquitas de al-Azhar e de Mohammed Ali (na Cidadela).


Fumei a sheesha no famoso café Fishavi's, numa ruela junto da mesquita al-Hussein e jantei no restaurante Khan El-Khalili onde se homenageia o prémio Nobel egípcio Naguib Mahfouz.

Como qualquer cidade caótica e exótica o Cairo é um encanto para os fotógrafos. Enquanto lutava contra a falta de luz no entardecer das vielas cheguei a ser alertado, com gestos convincentes, para o perigo mortal de fotografar mulheres em tais paragens.



Dei uma volta pelo antigo bairro copta do Cairo, que se anichava por trás de portas pesadas e que nos remete para os tempos de remotos cristianismos dissidentes.

Depois de tudo isto ficou-me a sensação de precisar de várias semanas para esquadrinhar uma cidade tão vasta e tão antiga. Mas o mundo é muito grande e não espera...


Ver aqui as imagens que recolhi no Cairo.


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quinta-feira, abril 02, 2009

Tantos Mil ionários


Pequim, 01 Abr (Lusa) – O número de milionários na China, que em 2008 já atingiu os 300.000, continuará a aumentar este ano, apesar da crise económica, indicam as previsões de um banco chinês citadas na imprensa local.
Pelas contas do China Merchants Bank, no final de 2009 o número de chineses com mais de 10 milhões de yuan (1,1 milhões de euros) deverá chegar aos 320.000, um aumento de seis por cento em relação ao ano anterior.
No conjunto, as respectivas fortunas deverão somar nove biliões de yuan (cerca de 1 bilião de euros), mais sete por cento que no final de 2008.
As previsões assentam numa sondagem iniciada em Dezembro e que concluiu também que 15 por cento dos chineses ricos são de Guangdong, a província do Sul do país que confina com Hong Kong e Macau.
“A actual crise não teve impacto nos chineses ricos porque a maioria deles são investidores conservadores”, disse um consultor financeiro citado pelo jornal China Daily.
Segundo estatísticas oficiais, o rendimento anual per capita nas zonas rurais da China, onde a maioria da população chinesa ainda vive, ronda os 4.800 yuan (530 euros).
Na capital, em 2008, o rendimento anual médio entre a população activa foi de 44.715 yuan (5.000 euros), uma subida de 12 por cento em relação ao ano anterior.
A tabela era encabeçada pelos executivos de algumas empresas dos sectores das finanças, transportes e media, que em alguns casos chegaram a ganhar um milhão de yuan (111 mil euros). AC. Lusa/Fim

quarta-feira, abril 01, 2009

Exílio Internet

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"Mas o ponto é que os intelectuais perderam o poder: não são eles que medeiam a cultura nos espaços colectivos, em especial na televisão.
Agora, ocupam um nicho: são seus alguns lugares da cidade, certas ruas, certas salas de espectáculos. Para lá chegarem, têm que atravessar ruas e praças que detestam.
São seus certos programas de televisão, a certas horas. Para os verem têm que fazer zapping.
São suas certas estantes de certas livrarias. Para verem o que lá está, têm que passar pelas outras estantes com intenso espanto perante as porcarias que o "povo" lê.
Ao viajarem, restam -lhes cada vez menos paisagens intocadas por horrendas casas, estúpidos anúncios, hordas de turistas que todos os dias os fazem pensar que o mundo está cada vez mais feio.
Como não têm dinheiro para fugir para longe ou construírem um mundo aparte, remetem-se aos seus nichos como se os tivessem escolhido. Mas não se trata de escolha. Trata-se de exílio.
Todavia, há um território onde os intelectuais podem entreter a ilusão da sua importância: a Internet.
A ilusão é aqui possível porque na Internet não há espaço público, não há ruas, não há praças, não há sobretudo televisão, ou seja, na Internet os intelectuais não são obrigados a conviver com o "povo"-podem, como toda agente, saltar de sítio em sítio nesse território atomizado e sonhar que estão na academia, numa enciclopédia, numa galeria de arte.
Refugiados em casa, vêem suspensa, no brilho tremeluzente do ecrã do computador, a sua condição de exilados. "
Paulo Varela Gomes, Público, 02.01.2009
(ilustração de André Carrilho)
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O mundo antes da vitimização

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"Tudo isto me veio à cabeça quando fui ver esse filme bem escrito e inteligente que é “Gran Torino”, de Clint Eastwood (e a América de Eastwood dava um livro). O filme não é sobre violência urbana nem tolerância nem racismo nem nenhum dos temas modernaços. O filme é sobre os anos 50 e o que deles sobra. Sobre um modelo de sociedade em que a pessoas eram responsáveis por si e não dependiam dos outros nem do Estado. Em que não precisavam de ser salvas e conviviam com os seus erros e fracassos sem desculpas. A vitimologia ainda não tinha sido inventada. Muito menos o reality show e a venda da dignidade. Nem os antidepressivos para curar a mania das compras ou do sexo. Do the right thing. Faz a coisa certa. Andámos um longo caminho. E agora, que perdemos tantas coisas, talvez fosse bom recuperar algumas. Respeitar mais as concretas mãos e menos o dinheiro abstracto. Deitar menos coisas fora. Consertar outras. Respeitar o planeta e a rua, deixando de os usar como lixeira à espera que o Estado venha atrás com o aspirador (já olharam para uma fotografia de rua de Lisboa nos anos 50?). Poupar os carros. Comprar menos tecnologias que nos despersonalizam e nos tornam twittering pardais afogados em pios irrelevantes. Escrever com a mão. Ler um livro com páginas de papel. Mexer na terra. Cozinhar com tachos e com colheres de pau. E contratar a melancolia do amola-tesouras para nos afiar as navalhas. Vamos precisar delas. "
Clara Ferreira Alves, Expresso 28.03.2009
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