quarta-feira, abril 01, 2009

O mundo antes da vitimização

.



"Tudo isto me veio à cabeça quando fui ver esse filme bem escrito e inteligente que é “Gran Torino”, de Clint Eastwood (e a América de Eastwood dava um livro). O filme não é sobre violência urbana nem tolerância nem racismo nem nenhum dos temas modernaços. O filme é sobre os anos 50 e o que deles sobra. Sobre um modelo de sociedade em que a pessoas eram responsáveis por si e não dependiam dos outros nem do Estado. Em que não precisavam de ser salvas e conviviam com os seus erros e fracassos sem desculpas. A vitimologia ainda não tinha sido inventada. Muito menos o reality show e a venda da dignidade. Nem os antidepressivos para curar a mania das compras ou do sexo. Do the right thing. Faz a coisa certa. Andámos um longo caminho. E agora, que perdemos tantas coisas, talvez fosse bom recuperar algumas. Respeitar mais as concretas mãos e menos o dinheiro abstracto. Deitar menos coisas fora. Consertar outras. Respeitar o planeta e a rua, deixando de os usar como lixeira à espera que o Estado venha atrás com o aspirador (já olharam para uma fotografia de rua de Lisboa nos anos 50?). Poupar os carros. Comprar menos tecnologias que nos despersonalizam e nos tornam twittering pardais afogados em pios irrelevantes. Escrever com a mão. Ler um livro com páginas de papel. Mexer na terra. Cozinhar com tachos e com colheres de pau. E contratar a melancolia do amola-tesouras para nos afiar as navalhas. Vamos precisar delas. "
Clara Ferreira Alves, Expresso 28.03.2009
.

1 comentário:

ana disse...

"Já não temos um conhecimento profundo do sofrimento espiritual.

É algo que vamos perdendo, como as técnicas tradicionais de construção ou a arte da poda e da caligrafia. Os psicólogos classificam sintomas de neuroses e psicoses, mas este tipo de sofrimento não provém de uma infância tumultuosa, nem da carência de vitamina B12.

Reconheci o fenómeno na Noruega: uma terra próspera, igualitária, com bom acesso à saúde mental, em que todos me pareceram infelizes.

Reconheço-o nos condomínios de Lisboa, em vizinhos que baixam a cabeça e se apressam a chegar ao elevador para não o partilharem com o outro, o estranho, o inimigo.

Reconheço-o nas gélidas amizades da classe média alta, nos seus cálculos de acasalamento, nos abandonos: será que é suficientemente sexy, bem alimentado, polido, será que está ao meu nível?

Ninguém nos fez isto, foi algo que fizémos a nós próprios. Não é um desequilibrio psíquico, mas uma amputação espiritual — a estranha frieza dos desamparados."

LJ em VB