terça-feira, setembro 04, 2007

A Utopia e as malas Vuitton (2) - a minha dissidência privada

“Eu dissidi, tu dissidiste, ele dissidiu, nós dissidimos, vós dissidistes, eles dissidiram“.

Aqui está um verbo que bem podia ter nascido nos anos oitenta do século XX.
A leitura dos livros da Zita Seabra e do Raimundo Narciso desencadeou em mim uma série de memórias dos “anos Gorbatchev” que sumariamente caracterizei em texto anterior, o primeiro desta série.

Como disse então gostaria de vir a compreender, e não apenas descrever, a sucessão de factos e de transformações que levou tantos milhares à dissidência, activa ou passiva.
Em minha opinião as dissidências só podem surgir quando desaparece um elevado grau de confiança nos líderes. Enquanto isso não acontece os militantes como que se dispensam de pensar, tão convencidos estão de que alguém o faz, melhor, por eles.

No meu caso, que julgo ser similar a muitos outros, o “25 de Novembro” foi o primeiro momento que abriu a porta à dúvida sobre dirigentes até aí considerados quase infalíveis. O curso dos acontecimentos, claramente mal previstos e mal geridos, legitimava a pergunta: “devo confiar cegamente nos dirigentes partidários quando está em causa o futuro do país, a eventualidade de uma guerra civil e, no limite, a minha própria sobrevivência ?”.

Deixemos para outra ocasião Novembro de 1975, assim como todas as coisas mal explicadas que então aconteceram, e voltemos a meados dos anos oitenta quando surgiram Gorbatchev e Cavaco, provocando novas quebras de confiança que redundaram nas dissidências do PCP.
Eu já militava no PCP há 20 anos e, sendo embora amigo de muitos dissidentes “notáveis”, tinha feito um percurso muito diferente. Continuava na célula da minha empresa, o maior potentado nas tecnologias da informação, longe portanto do “sector intelectual” onde as dissidências tiveram quase sempre a sua génese ou o seu principal eco.

Fui sucessivamente eleito, de 1981 a 1993, para a Comissão de Trabalhadores e também, de 1989 a 1993, para a Direcção do CESL, Sindicato do Comércio e Serviços de Lisboa. Paralelamente pertenci ao organismo intermédio do PCP responsável pelos militantes do comércio e serviços da cidade de Lisboa e orientei o grupo de células das empresas multinacionais de informática.
Apesar desses cargos, que desempenhei em paralelo com a actividade profissional, penso que continuei sempre a ser, no essencial, um militante da célula de empresa.

Como qualquer militante “dedicado” fiz de tudo um pouco; passei muitas noites a vigiar as sedes do partido, quando as ameaças de bomba ainda eram para levar a sério, colei muitos cartazes e vendi centenas de entradas para a Festa do Avante. Gastei parte das minhas férias em campanhas eleitorais e até escrevi artigos para jornal oficioso “O Diário”.
Por vezes interrogo-me acerca do efeito que teve sobre a minha evolução política a coexistência da militância no PCP com a minha actividade profissional como consultor num sector tecnológico de ponta. Aconteceu-me, com frequência, reunir com a administração de uma grande empresa industrial durante o dia e partir para uma colagem de cartazes do PCP, contra a exploração, à noite. Ou então chegar de um curso avançado de gestão em Bruxelas e engrenar, de martelo em punho, nas construções da festa do Avante. Há nisto, sem dúvida, algo de esquizofrénico.

Conheci a classe operária de um ponto de vista profissional pois era especialista em aplicações informáticas para a indústria. Isso obrigou-me a estudar in loco o modo de funcionamento de inúmeras fábricas e a contactar não com a classe operária do mito mas com aquela que realmente produz, nas fábricas concretas dos verdadeiros capitalistas.
Parece-me inquestionável que fiquei marcado pela actividade política e sindical num microcosmo empresarial, a minha empresa, onde apenas uma pequeníssima minoria perfilhava as minhas ideias e onde o salário médio era várias vezes múltiplo do salário médio nacional. Liderar reivindicações em tal contexto ensina a evitar o primarismo das mensagens, a nunca desrespeitar o sentimento colectivo sob pena de destituição e a concluir que se pode sempre reivindicar mesmo quando não se está, do ponto de vista económico, no “grau zero” da sociedade.

Tratando-se de uma empresa de tecnologia também se aprendia a importância do desenvolvimento tecnológico para a economia e para a sociedade. Mas acontecia, à medida que os anos iam passando, que havia um fosso cada vez maior entre as experiências profissionais e sindicais, na empresa, e o estilo de trabalho de um “colectivo” tão peculiar como era o PCP. Coisas tão comezinhas como a projecção de transparências para suporte do discurso ou o pagamento das quotas por transferência bancária, por exemplo, eram impensáveis no partido nessa época.
Os funcionários destacados para controlar a nossa célula tinham cada vez menos capacidade, ou paciência, para lidar com as nossas questões que para eles, sem dúvida, soavam a “chinesices de quem ganhava um balúrdio”. Era frequente convidarem “camaradas mais responsáveis” para virem, com a sua aura, pôr um pouco de água nossa fervura. A partir de certa altura tive a sensação de sermos polidamente tolerados.

A profissão obrigava-nos a múltiplas viagens pela Europa. No plano sindical da empresa, através da “IWIS - IBM Workers International Solidarity”, acabei por contactar com modos mais espontâneos de funcionar como nos sindicatos dos EUA, da Coreia, e do Japão ou mais calculistas, como no caso dos alemães dos franceses ou dos italianos, por exemplo. As reuniões da IWIS em Paris (1989) e Estugarda (1992) ajudaram-me a relativizar os “tabus” que ainda nos condicionavam localmente.
Também fui tomando contacto cada vez mais imediato com os “países de leste”.
A minha estreia ocorrera em 1979 na Hungria e depois em 1980, quando as nuvens ainda não toldavam o horizonte, em Moscovo, no Cazaquistão e na Sibéria.
Meses depois da ascensão de Gorbatchev, em 1985, percorri de automóvel durante um mês, e em campismo com os meus filhos, a RDA, a Checoslováquia e a Hungria.
No ano seguinte, 1986, aproveitando uma viagem profissional a Berlim, usei a estação de metro em Friedrichstrasse como porta de passagem para Berlim Leste e, em 1987, fiz parte de uma delegação sindical numa visita de estudo do desenvolvimento informático da Bulgária.
Finalmente, mas não menos importante, visitei a parte ocidental da URSS (Leninegrado, Kiev e Moscovo) no Verão de 1988, em plena abertura política lançada por Gorbatchev e com as ruas cheias de discussões e manifestações.



Este conjunto de viagens permitiria, só por si, um longo texto que não cabe neste concreto discorrer.
Em síntese pode dizer-se que fui interiorizando uma compreensão cada vez mais vivida das limitações e desafios que se punham ao “socialismo real”, sem nunca isso ter chegado a por em causa as minhas convicções mais profundas. O impacto das viagens ao leste europeu deu-se a um outro nível que espero vir a esclarecer mais à frente.


Assim nos aproximámos paulatinamente do fim dos anos oitenta e constatámos que as nossas esperanças na abertura da URSS, e num novo curso que relançasse os nossos ideais nesse imenso país, se iam transformando em desilusões, desmembramento e caos. Por cá Cavaco reinava, numa aparência de impunidade, contra todos os vaticínios do PCP.

É altura de voltarmos à questão da perda de confiança nos dirigentes.

Os Congressos do PCP, em 1988 no Porto e em 1990 em Loures, revelaram uma enorme incapacidade para explicar a evolução da URSS, por um lado, e para dar resposta aos avanços da economia liberal, por outro. Eu creio mesmo que uma e outra coisa se confundem e são as duas faces da mesma moeda.

Como delegado ao XII Congresso, no Porto, eu estava ainda numa atitude expectante mas no XIII Congresso, já depois da queda do muro, vi-me forçado a reagir. Foi uma decisão meramente individual, obedecendo a um imperativo de consciência, sem cobertura mediática e sem a procurar (para minha surpresa o Público de 19 de Maio acabou por fazer uma descrição bastante fidedigna da minha intervenção no XIII Congresso).

Em Agosto de 1989, poucos meses depois do XII Congresso do PCP mas antes da queda do muro de Berlim, apresentei em S. Francisco, ao 11º Congresso Mundial da IFIP (International Federation for Information Processing), uma comunicação que revelava, em embrião, as teses que tenho vindo a desenvolver até hoje. Sucintamente: a transformação tecnológica actual está a tornar obsoleta a relação social de assalariamento e, por tabela, a forçar o capitalismo a uma transição que resultará num novo modo de produção. A experiência do “socialismo real” foi prematura pois não havia ainda, quando ocorreu, a base técnica onde escorar um novo sistema de relações de produção.
Esta tomada de posição feita em inglês e a milhares de quilómetros de Lisboa ficou no conhecimento de um círculo restrito de amigos.

No princípio de 1990, já em plena preparação do XIII Congresso, elaborei um texto intitulado “Do Socialismo Prematuro para o Socialismo do Futuro” que desenvolvia as ideias apresentadas em S. Francisco. A minha principal preocupação era conceber um conjunto de argumentos e raciocínios que permitissem a qualquer militante lidar racionalmente com o descalabro do sistema político do leste europeu. Essa preocupação resultava de me sentir politicamente responsável por tantos militantes que recrutara, ou dirigira, no decurso da minha actividade política.

O texto referido foi discutido na célula de empresa mas não foi encontrada uma fórmula para o usar no quadro dos “contributos” para as Teses do Congresso, tal era a distância que o separava do texto “oficial” proposto. Basta dizer que, nas Teses que vieram a ser aprovadas em Congresso, ainda se admitia a inversão da derrocada do "socialismo real" como, por exemplo, neste excerto:
“A situação é ainda instável e em alguns aspectos indefinida. Os povos destes países dentro em breve avaliarão melhor o que o socialismo lhes deu. O processo pode ainda trazer surpresas. O desmatelamento das realidades objectivas do sistema socialista e a sua substituição por relações capitalistas não serão um processo fácil. A vida já mostrou que não é fácil a passagem do capitalismo para o socialismo. Esperamos que demonstrará que a inversa também é verdadeira. Ainda mais porque contraria o sentido da história.”

É então que acontece um episódio curioso. Fernanda Barroso, então nossa "controleira" e companheira de Álvaro Cunhal, ofereceu-se para mostrar informalmente “ao Camarada” o incómodo texto que eu escrevera. Algumas semanas mais tarde trouxe de volta um papel manuscrito em que alguém tinha escrito qualquer coisa do tipo “revela um grande trabalho de reflexão”. E assim ficámos.
Do Socialismo Prematuro para o Socialismo do Futuro” acabaria por ser publicado na revista Vértice em Julho de 1990.

Quando se realizaram as reuniões de militantes preparatórias do XIII Congresso, que teve lugar em Maio de 1990, eu fui indigitado como delegado. Antes que se procedesse à eleição comuniquei às dezenas de militantes presentes quais eram as minhas opiniões e deixei claro que, se me elegessem, eu faria uma intervenção no Congresso na linha do que antes explicara. Apesar destes avisos fui eleito delegado. Ao contrário de tantos outros não posso portanto queixar-me de ter sido impedido de expressar a minha opinião em pleno Congresso. Poder-se-á talvez argumentar que, não sendo figura mediática, ninguém receou as consequências de tal liberalidade.

Assim, quando me dirigi à tribuna do Pavilhão Multiusos de Loures para falar ao Congresso eu não o fazia por inerência, ou aproveitando um qualquer subterfúgio formal. O meu discurso tinha sido aprovado, ou pelo menos aceite como pertinente, por dezenas de militantes em assembleia convocada para o efeito.
O ruído de fundo, que as intervenções convencionais sempre propiciam, foi desaparecendo à medida que eu ia falando até se transformar em absoluto silêncio à medida que os delegados se apercebiam de que eu estava a dizer coisas que claramente escapavam às “normas” tácitas.
Comecei assim:
“O objectivo desta intervenção é transmitir-vos o meu contributo para a questão mais candente que nós,comunistas, temos de enfrentar: como tomar o socialismo, de novo, uma perspectiva capaz de entusiasmar os povos. (Porque nós não somos daqueles que acreditam que o capitalismo seja eterno).
Tal implica, antes de mais, fornecer uma explicação para o que se tem estado a passar no Leste; tal explicação tem que ser rigorosa e credível, tem que conter pistas para o caminho que trilharemos no futuro; tal explicação, sendo produzida por nós, tem de basear-se no marxismo.
Tal explicação não a consegui encontrar nas Teses propostas pelo Comité Central. Tentarei explicar porquê. Em primeiro lugar penso que as Teses do CC deixam perpassar uma esperança, compreensível mas infundada, de que possa vir a ser estancado o decalabro no Leste. Pelo caminho que as coisas tomaram parece-me mais prudente partir do princípio de que haverá um retorno generalizado a formas de organização social e económica de tipo capitalista.”



E depois, entre outras coisas disse:
“Sustento que nos países de Leste nunca se implantou o socialismo, que não se implantou um novo modo de produção. Assim como o capitalismo não se construiu sobre a base material do feudalismo, também o socialismo não se podia edificar, e não se edificou, sobre a base material do capitalismo, a grande indústria mecanizada.”...
...“O socialismo chegará, estou seguro, tanto pela luta dos explorados como pelo desenvolvimento da tecnologia. Não posso concordar com um lugar-comum também incluído nas Teses do CC, que considera estar a ser «artificialmente» adiado o fim do capitalismo em consequência da revolução científica e técnica. Os sistemas sociais caducos dão-se mal com revoluções, mesmo tecnológicas; ou então não estariam tão caducos como estão.”


Quando eu acabei houve uma hesitação de silêncio e depois uma parte dos delegados aplaudiu. O que é mais espantoso é que nenhum dos oradores que me sucederam fez qualquer referência às “enormidades” por mim proferidas.
Mais do que a discordância relativamente às minhas opiniões, que ninguém expressou, considerei significativo o manto de silêncio que sobre elas foi lançado. Mais do que o desprezo pelas minhas opiniões o que me impressionou foi o menosprezo das questões incontornáveis que eu levantava. Foi muito duro para mim compreender que ninguém se preocupava com a angústia dos milhares de militantes que nesse momento viam o edifício das suas convicções abalado até aos alicerces.



Para ser justo devo acrescentar que esta atitude de fuga à responsabilidade se repetiu quando tentei sensibilizar os dissidentes do PCP, ao longo das diversas vagas que se sucederam e que eu fui acompanhando como a “Terceira Via”, o lançamento do INES em 1990, ou a reunião do Hotel Roma em 1991. O mesmo veio a suceder com a Renovação Comunista já no século XXI.
Apesar de as iniciativas dissidentes terem sido para mim uma fonte de esperança acabei por sentir que havia um certo “fulanismo”, como se a exibição dos cargos na academia ou nas autarquias e do currículo intelectual garantissem, sem mais, o sucesso do empreendimento. Ninguém se dispôs a assumir a responsabilidade de encontrar respostas para as questões que eu colocara. Até hoje.

No princípio dos anos noventa decidi auto-suspender a minha actividade partidária. Não me demiti nem fui, que eu saiba, expulso do PCP. Simplesmente deixei de militar. Nunca encarei a hipótese de aderir a qualquer outro partido.
Em 2003 publiquei o livro “Do Capitalismo para o Digitalismo” para dizer que a queda do “socialismo real” não tornou o capitalismo insuperável. É esse o pântano ideológico em que a esquerda se tem atolado nos últimos anos.

Não se trata de inventar, à pressa, novos “amanhãs que cantam”. Os amanhãs cantarão inevitavelmente façamos nós o que fizermos; trata-se de saber se ainda queremos participar na escolha da melodia e do poema.

No próximo capítulo vou tentar explicar por que é essencial ter sempre uma utopia pós-capitalista no horizonte e também por que é que isso só será possível quando fizermos o “luto racional” da experiência soviética.

5 comentários:

Joana Lopes disse...

Li tudo, muito atentamente.
Comentar não sei (ainda?) como.

F. Penim Redondo disse...

Joana, deves ter reparado que a referência aos "amanhãs que cantam" foi motivada pelo teu comentário ao meu texto anterior no "Entre as Brumas..."
Ainda hesitei sobre se devia colocar um link mas depois resolvi que não já que se trata de uma "crítica" que surge com alguma frequência.

JMC disse...

O comentário é apenas para lembrar que são lidos, porque é sempre bom receber algum eco para além do que o contador deixa pressupor.

Aguarda-se, com interesse, o resto da história.

Se possível, com a explicação do porquê que o amanhã terá de cantar.

Cumprimentos.

JMC.

F. Penim Redondo disse...

Caro JMC, realmente todos gostamos de ter retorno.
Completarei o tema se e quando para tal houver "engenho e arte"...

Anónimo disse...

Memorial dos dias felizes
artigo do escritor chileno
Luís Sepúlveda


(publicado em 11.9.2003 no Público)



Os mil dias do Governo de Unidade Popular foram muito duros, intensos, sofridos e ditosos. Dormíamos pouco. Vivíamos em todo o lado e em lado nenhum. Tivemos problemas sérios e procurámos soluções. Esses mil dias podem ser acompanhados de qualquer adjectivo, mas se há uma grande verdade é que, para todos aqueles e aquelas que tivemos a honra de ser militantes do processo revolucionário chileno, foram dias felizes, e essa felicidade é e será sempre nossa, permanece e permanecerá inalterável.

Queridas companheiras, queridos companheiros. Quem de nós pode esquecer o sorriso dos irmãos Weibel, de Carlos Lorca, de Miguel Enríquez, de Bautista von Schowen, de Isidoro Carrilo, de La Payita, de Pepe Carrasco, de Lumi Videla, de Dago Pérez, de Sérgio Leiva, de Arnoldo Camú, de todas e todos os que hoje, trinta anos mais tarde, não estão connosco mas vivem em nós?

Cada uma e cada um tem na sua memória um álbum particular de recordações felizes daqueles dias em que demos tudo, e parecia-nos que dávamos muito pouco, porque tínhamos gravado na pele os versos do poeta cubano Fayad Jamis: "por esta revolução haverá que dar tudo, haverá que dar tudo, e nunca será o suficiente". Houve quem no cómodo e cobarde cepticismo desfrutou de um tempo morto a que chamaram juventude. Nós, sim, tivemos juventude, e foi vital, rebelde, inconformista, incandescente, porque se forjou nos trabalhos voluntários, nas frias noites da acção e propaganda. Não houve beijos de amor mais fogosos do que aqueles que se deram no fragor das brigadas muralistas. Aquele que beijou uma rapariga da brigada Ramon Parra ou Elmo Catalán beijou o céu e não houve espada capaz de tirar esse sabor dos lábios.

Outros, na atroz cobardia dos que criticaram sem dar nada, sem se queimar, sem arriscarem, sem conhecer o magnífico sentimento de fazer o que é justo e no momento justo, nas suas mansões sem glória, comendo na prata que herdaram dos comendados e bebendo puro suor dos operários, avisavam que estávamos a cometer excessos. Claro que cometemos erros. Éramos autodidactas na grande tarefa de transformar a sociedade chilena. Metemos muitas vezes o pé na argola mas nunca as mãos nos bens do povo. Enquanto outros conspiravam, nós alfabetizávamos. Enquanto outros se aferravam com fúria homicida aos seus bens mal adquiridos, pois a propriedade da terra vem sempre do roubo, nós permitimos que os párias da terra olhassem pela primeira vez para os olhos do patrão e lhe dissessem: "Grande filho-da-puta, exploraste-me, tal como aos meus pais e avós, mas aos meus filhos e aos filhos dos meus filhos não os explorarás." E essas palavras são parte do nosso legado feliz, da nossa memória feliz.

Fumávamos "marijuana" dos Andes misturada com tabaco doce dos Baracoas. Ouvíamos os Quilapayún e Janis Joplin. Cantávamos com Victor Jara, os Inti Illimani e os The Mamas and Papas. Dançávamos com Hector Pavez, Margot Loyola, e os quatro rapazes de Liverpool fizeram suspirar os nossos corações. Usámos calças à boca de sino e as nossas raparigas minissaias que excitavam Deus e o Diabo. E tínhamos maneiras próprias de estar, que com uma só palavra diziam quem éramos e o que sonhávamos: Olá, companheira, olá companheiro. E com isso ficava tudo dito.

Angel Parra, Rolando Alarcón, Isabel Parra e mil cantores populares deram-nos uma nova dimensão do amor, esse formidável verbo que começámos a conjugar à nossa maneira.

Traçámos metas impossíveis, SUL-realistas, e cumprimo-las. Por uma vez na nossa história, todos os meninos do Chile mamaram meio litro de leite, de leite branco e justo, de leite necessário e proletário, porque o pagaram justamente os que produziam a riqueza. Um dia fez-se a grande conferência da UNCTAD [Conferência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento], e os arquitectos, e os engenheiros, e os capatazes opinaram que não era possível levantar o grande edifício que nos mostraria como um povo em marcha, mas os nossos pedreiros, electricistas, estucadores e professores de capacete salpicado de gesso disseram que sim, que era possível, e fizeram-no. Mais tarde foi o edifício da juventude chilena. Quem não comeu algum dia na UNCTAD, chamado também edifício Gabriela Mistral e que mais tarde foi usurpado pelos assassinos? Todavia, ele aí está e aí permanecerá como um enorme testemunho desses mil dias em que tudo foi possível.

Os que não tinham imaginação nem lugar nesse reino do possível, do dito possível, conspiravam contra o sol, contra o mar, contra o Verão a partir das suas mansões de Reñaca ou Papudo. Mas nos balneários populares as famílias dos operários tinham pela primeira vez a possibilidade de estar ao sol, junto ao mar, que de verdade nos banhou tranquilo. Jogaram ao pôr-do-sol, passearam de mão dada, amaram-se, fizeram planos possíveis, enquanto as crianças eram entretidas pelos voluntários da Federação de Estudantes do Chile, e divertiam-se com os títeres, o teatro, as aulas de música e de pintura dadas por artistas militantes de um povo em marcha.

Hoje, trinta anos depois, alguns dos que não tiveram a ousadia de se envolver, de dar tudo, ufanam-se de uma estranha capacidade premonitória que lhes permitiu vaticinar o desastre e os aconselhou a manter-se à margem. Miseráveis, pobres miseráveis que perderam a oportunidade mais bela de fazer história, mas de a fazer justa. Esses mesmos são hoje os paladinos da reconciliação e apontam-nos os "excessos". Mas esses iluminados nunca mencionam um desses excessos em particular: Provocámos o imperialismo ianque quando nacionalizámos o cobre? Esquecem que o fizemos com tanta suavidade, inclusivamente pagando indemnizações, que chegámos a ser alvo de críticas da própria esquerda. Mas fizemo-lo assim porque não queríamos a confrontação directa com o inimigo da humanidade. Soubemos responder às provocações com vigor e com violência quando ela foi precisa, mas nunca provocámos. O nosso tempo era o tempo dos construtores, prestávamos toda a atenção à argamassa que uniria os ladrilhos da grande casa chilena, e nenhuma à conjura porque éramos e somos mulheres e homens de honra.

A maior expressão cultural de um povo é a sua organização, e fomos um povo muito culto porque a nossa organização, polifacetada, plural, às vezes docemente anárquica, orientava-nos para a vida. O sonho de Salvador Allende era elevar a expectativa de vida dos chilenos para os níveis dos países desenvolvidos. O seu desafio pessoal era permitir que cada chileno tivesse vinte anos mais para desenvolver a sua capacidade criadora, o seu engenho, e para que a velhice deixasse de ser um espaço de miséria e derrota, e fosse, pelo contrário, a soma de uma experiência, a herança de um povo.

Numa entrevista com Roberto Rossellini, o companheiro Presidente conta-lhe que as suas mãos de médico tinham realizado mil e quinhentas autópsias, que as suas mãos de médico conheciam a atroz força da morte e a precária fortaleza da vida. Salvador Allende foi o líder mais preclaro da América Latina, a vida era a sua companhia, e a vida foi a nossa bandeira de luta.

A trinta anos do crime, há miseráveis que interpretam o suicídio de Allende como uma derrota. Não entendem as razões de um homem leal, que no fragor do combate entendeu que o seu último sacrifício evitaria ao seu povo a máxima das humilhações: ver o seu dirigente, o seu líder, algemado e à mercê dos tiranos.

Queridas companheiras, queridos companheiros: não há maior honra do que a de ter sido companheiros de luta e de sonho como Salvador Allende. Não há maior orgulho do que esses mil dias liderados pelo companheiro Presidente.

Não somos vítimas nem do destino nem da ira de um deus enlouquecido. A história oficial, a mentira como razão de Estado, apresenta-nos como responsáveis de um crime que, cada vez que tentam explicar, as palavras fogem das suas bocas, pois não querem ser parte do vocabulário da vergonha. Se a nossa intenção de fazer do Chile um país justo, feliz e digno nos faz culpados, então assumimos a culpa com orgulho. A prisão, a tortura, os desaparecimentos, o roubo, o exílio, o não ter um país para onde voltar, a dor, se tudo isso era o preço a pagar pelo nosso esforço justiceiro, então saiba-se que o pagámos com o orgulho dos que não renunciaram à sua dignidade, dos que resistiram nos interrogatórios, dos que morreram no exílio, dos que regressaram para lutar contra a ditadura, dos que ainda assim sonham e se organizam, dos que não participam na farsa pseudodemocrática dos administradores do legado da ditadura.

Juntamente com Salvador Allende fomos protagonistas dos mil dias mais plenos, belos e intensos da história do Chile. Sobre nós deixaram cair todo o horror, mas não conseguiram apagar dos nossos corações o Memorial dos Anos Mais Felizes.

Quando, nos momentos mais duros dos nossos mil dias, a provocação do fascismo, da direita, do imperialismo ianque, fazia com que a ira se instalasse perigosamente nos nossos ânimos, o companheiro Presidente aconselhava-nos: "Vão para vossas casas, beijem as vossas mulheres, acariciem os vossos filhos." Agora, a trinta anos da grande traição, que a proximidade dos nossos, que a recordação dos que faltam, e o orgulho de tudo o que fizemos sejam os grandes convocantes do que devemos lembrar. Que as palavras "Companheira" e "Companheiro" soem como uma carícia, e bebamos com orgulho o vinho digno das mulheres e dos homens que deram tudo, que deram tudo pensando que não era o suficiente.