sexta-feira, março 16, 2018

Foi neste mesmo cais do Cacheu



Foi neste mesmo cais do Cacheu
que se passou a história que eu vou contar.
Chegáramos extenuados depois de andar a fugir aos baixios na foz do Cacheu. Que já lá tínhamos encalhado das outras vezes.
Logo por azar fomos encontrar o cais sobrecarregado de lanchas e batelões. Tivemos que atracar ao último, que chegara antes de nós, e para ir a terra era preciso saltitar de embarcação em embarcação.
A noite veio depressa e depressa se foi a janta à roda do tabuleiro comunitário, de onde toda a tripulação picava o seu pedaço de frango comprado na tabanca.
Não havia disposição para serões e não tardou que cada um armasse o respectivo "burro" de lona e pés de madeira, e se cobrisse com uma manta que prevenia o frio noturno e algum ataque da mosquitada.
Noite alta soou o brado "fujam...fujam..." que em tais paragens, e circunstâncias bélicas, resultava ainda mais urgente do que é normal. Só sei que abri os olhos e deparei com labaredas a cerca de três metros.
Saltei como uma mola, atirei com a manta, e lá fui como os outros aos pinotes por cima dos batelões na direcção da terra firme. Metros adiante lembrei-me que deixara para trás a minha amada e fiel Pentax e voltei a buscá-la, aos encontrões dos que ainda fugiam.
Acabámos todos no pontão a ver a lancha arder e logo percebemos que era necessário tirá-la dali, para não propagar o fogo às outras embarcações.
Lá fomos, receosos, soltámos amarras e atirámos a lancha contra o lodo da margem uns cem metros mais para juzante. As chamas iam alteando e não tínhamos com que apagar.
O sargento foi mandado em busca de uma bomba de água e por milagre voltou com ela. Começou então o trabalho de a pôr a chupar a água do rio, de um lado, e a lançar a água sobre as chamas do outro.
A chapa queimava-nos os pés, mesmo calçados com sola, e não sabíamos quanto tempo teríamos antes que o combustível ou as munições provocassem alguma explosão.
Estivemos naquela luta até ao nascer do dia, com o credo na boca, até que finalmente murcharam as últimas labaredas. A lancha estava devastada e dos nossos pertences pouco havia sobrado.
Mas não podíamos sossegar pois os cunhetes fixos de munições, em ferro, tinham sido sujeitos a enormes temperaturas.
A tampa fechava sob pressão e, depois de forçar a mola, espreitámos para o interior. Havia granadas de mão, projécteis de 20mm da peça Oerlikon, e munições de G3. Fumegavam.
Tínhamoss consciência da imprevisibilidade da situação. E também da inevitabilidade de encontrar uma solução.
Começámos então um tráfico sinistro.
Enchíamos um caixote com granadas, passávamos o caixote para um bote de borracha e íamos despejá-lo no meio do rio. Uma vez e outra.
Confiando na sorte.
À cabra-cega com a morte.

1 comentário:

Gil António disse...

Visitando, lendo, gostando e elogiando as suas publicações. Voltarei...
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* Nosso Amor ... a alvura do Universo *
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Deixo cumprimentos.