terça-feira, fevereiro 07, 2012

Os amanhãs cantarão façamos nós o que fizermos.





A grande questão da actualidade é o desaparecimento de uma sociedade sonhada, de um eldorado futuro, um sonho como aquele que alimentou a minha geração. Quase toda a agitação a que se assiste de há uns anos a esta parte tem um carácter defensivo, sindical. 
Neste momento, por exemplo, a esquerda resume-se a três mensagens.


1. indignar-se com declarações avulsas (do presidente, do relvas, da ferreira leite. etc) o que é inútil como a história mostra. Se estas denúncias funcionassem Cavaco não teria obtido quatro maiorias absolutas. 
2. defender que se pode sair do buraco em que estamos fazendo menos sacrifícios. Acho que nem os próprios acreditam nisso, e o povo muito menos. Qualquer pessoa percebe que se trata de um oportunismo que nunca passaria à prática no caso de os seus defensores chegarem ao governo.
3. invocar a falta de equidade nos sacrifícios. Esta linha de argumentação é válida mas vê limitado o seu efeito, em muitos casos, pela forma como é exercida. Ou por falta de credibilidade de quem a invoca, ou por fazer a defesa de classes que o povo vê como privilegiadas ou por apoiar a penalização de estratos sociais com base em preconceitos (como acontece por exemplo com os senhorios). 


Em suma, mesmo perante a falência do "antigo regime", não há uma única utopia redentora.

A utopia é um ingrediente fundamental. Não foram as utopias que nos atraiçoaram durante o século XX mas sim os fanatismos. Não há só Hitlers e Estalines, há também o sonho sereno dos Gandhis e dos Mandelas. 

Os sofrimentos de hoje só podem ser minorados pela caridade ou pela segurança social, o papel da política é outro: desenhar uma sociedade futura onde os sofrimentos actuais não mais possam ocorrer. 

Não devemos descartar a hipótese vir a ter uma sociedade pós-capitalista sem assalariamento mas, apesar de tudo, com as classes correspondentes às novas relações de produção que entretanto se desenvolvam (esperemos que mais justas). Novas classes e também novas formas de exploração, tal como sucedeu quando o capitalismo substituiu o feudalismo. 

A total ausência de classes e de desigualdades podemos deixá-las para um futuro incerto e mítico. 
Mas não devemos nunca esquecer que para criar uma sociedade nova não basta distribuir pelos pobres a riqueza dos ricos como parece implícito em quase toda a propaganda de uma esquerda sem visão.

Não se trata de inventar, à pressa, novos “amanhãs que cantam”. Os amanhãs cantarão inevitavelmente façamos nós o que fizermos; trata-se de saber se ainda queremos participar na escolha da melodia e do poema.





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2 comentários:

Anónimo disse...

Interessante, no mínimo.
Vê-se que sabes da matéria... E isso é bom, é uma vantagem, nem que nos confinemos, apenas, ao plano intelectual.
Aprecio, confesso, por isso sou visita assídua do blog de que és titular, mas, esta luta por um mundo melhor é árdua. Esta luta por um mundo sem opressores nem oprimidos sem exploradores nem explorados é uma luta milenar.
Vou longe e lembro-me de Spartacus. Regresso aos nossos dias e sei que é possível fazer um mundo melhor, é o que quero, para já, e sei que com os comunistas e outros patriotas isso é possível.
E não me digas (...) que isso é uma banalidade, um lugar comum, a mim que sou tão-somente uma pessoa comum.
Saudações
JPedro

Rogério Pereira disse...

"Os amanhãs cantarão inevitavelmente façamos nós o que fizermos;"

...e eu para aqui ralado... coitado de mim, coitado. (Dia 11 vou estar é sossegado)