quinta-feira, março 29, 2007

"O Novo Capital", etc. e tal...

Há dias comecei a receber convites para o lançamento do livro “O Novo Capital” de Francisco Jaime Quesado.






Instituições como a APDSI, a Ordem dos Economistas e até o Instituto de Estudos Estratégicos e Internacionais anunciaram e promoveram a obra.
O Expresso de 17 de Março inseria mesmo uma referência com o suculento título “Afinal Karl Marx tem razão” completada com o destaque “Jaime Quesado recupera ensinamentos do filósofo alemão e aplica-os, no seu último livro, à Sociedade do Conhecimento”.

Fiquei entusiasmado já que, sendo o autor “gestor do POSC” Programa Operacional Sociedade do Conhecimento, um livro com tão ambicioso título trataria certamente das teorias de Marx à luz dos desenvolvimentos tecnológicos e organizativos da produção actual, ou vice-versa.
Quando consegui obter um exemplar deparei, logo na página 3, com uma reprodução do frontespício do “Das Kapital” seguida, em letra grande, da frase “Afinal, Karl Marx tinha Razão”. Tomei isso como uma confirmação das minhas expectativas.
Saltei para o fim do livro à procura da bibliografia, para saber que obras usara Quesado na sua análise. Não havia. Repito: não havia qualquer lista de livros consultados ou recomendados.
Fiquei um pouco surpreendido mas não desisti. Varri o livro de uma ponta à outra, são apenas 135 páginas em letra de formato grande e muitas fotografias, em busca das referências a Marx. Encontrei finalmente, a páginas 132, e resumem-se a isto:

“Nunca como agora Karl Marx passou a ter razão. Na moderna Sociedade do Conhecimento, os meios de produção, sob a forma de computadores, estão na posse dos trabalhadores que deles fazem o instrumento central duma geração de valor baseada nos imperativos da criatividade e da diferença estratégica. Caberá a estes “trabalhadores do conhecimento” imortalizados por Peter Drucker a difícil tarefa de demonstrar que a necessidade colectiva das organizações da utilização dos talentos tem que ser equilibrada com uma vontade individual dos talentos de se relacionarem com as organizações.”

E pronto. De Karl Marx estamos conversados.
Custou-me a acreditar que tudo se resumisse a uma “treta” de café ainda por cima muito mal contada.
Não é verdade que os computadores estejam “na posse dos trabalhadores” pois são na generalidade dos casos propriedade das empresas empregadoras, tal como não estão na posse dos trabalhadores as redes, a maior parte das bases de dados, a maior parte dos programas, e muitos outros componentes da infra-estrutura tecnológica actual.
Também é grave confundir computadores com criatividade pois pode não ter nada a ver uma coisa com a outra; pode-se ser muito criativo sem usar computadores e o inverso também é verdadeiro.

A utilização por Quesado da figura de Marx como “objecto decorativo”, para aumentar a visibilidade do seu livro, constitui um atrevimento detestável. Não se trata de considerar que Marx seja intocável para o comum dos mortais mas sim de exigir que um trabalho que tem pretensões ensaísticas seja feito com um mínimo de rigor e de seriedade. Este caso também revela uma total inconsciência já que o autor não parece perceber o ridículo a que se expõe.

Agora de um ponto de vista mais geral o livro aparece como uma manta de retalhos que tenta organizar, sob um mesmo “chapéu”, material que provavelmente terá sido usado em comunicações e apresentações avulsas.
É no entanto esclarecedor que esse trabalho de montagem apresente notórias faltas de cuidado; por exemplo o quadro de 5 pontos da pag. 67 aparece repetido com ligeiras diferenças nas pgs. 71 e 105. Há também lapsos de revisão que truncam palavras ou repetem bocados de frases (ex. pag. 71) tornando-as insondáveis.

Apesar dessas falhas que revelam uma menor consideração pelos leitores, não é condenável o facto de alguém reaproveitar trabalho seu anteriormente feito.
O que é mais gravoso é o facto de, para além de uma colecção de todas as “buzzwords” que soam nos círculos em que o autor se move, e abundantes citações dos autores estrangeiros de maior nomeada (prémio absoluto para a pag. 87 onde são citados 3 num único parágrafo), pouca matéria de fundo se descortinar no livro que não pudesse ter sido o conteúdo de um qualquer discurso de campanha feito por um dos nossos políticos “oficiais”.
Fez-me lembrar um programa que tínhamos na IBM, onde eu programava em COBOL ao tempo em que Quesado frequentava a primária, que a partir de tabelas de expressões e da escolha de um tema produzia tantas páginas de discurso quantas pedíssemos...

Se o autor fosse um cidadão qualquer que opinasse num “blog”, ou numa coluna de jornal, tudo se resumiria ao exercício da liberdade de expressão.
Tratando-se de um autor com particulares responsabilidades na execução de políticas relevantes, que gasta dinheiro dos cidadãos, e de uma obra tão entusiasticamente anunciada, constatar que a “montanha pariu um rato” não ajudará em nada as “Pessoas Normais” (a que o autor se refere na pag. 62) a confiar na clarividência das “Elites Locais” para as guiar perante “os desafios da globalização”.


A sessão de lançamento e o próprio livro contaram com a participação e mesmo os elogios de vários “notáveis” com destaque para o meio académico. Como é possível que tanta gente responsável, e tantas instituições, pactuem com a falta de rigor e de criatividade patentes neste livro de Quesado (apesar de por ele tantas vezes invocados) ?

A chave poderá estar nesta modesta declaração de Quesado sobre a sua própria carreira:

“Devo a riqueza única desse percurso, em larga medida confundido com a história mais recente do nosso país, à inelutável amizade de muitos “companheiros de geração”, imbuídos desde sempre de um ideal de reformismo positivo para o qual tenho tentado também dar o meu contributo.”

Será que os altos cargos públicos e o poder neles implícito, para além de todas as mordomias já conhecidas garantem agora, também, a irresponsabilidade intelectual ?

terça-feira, março 27, 2007

NIGHT WALTZ

Ciclo Paul Bowles - NIGHT WALTZ

28 de Março de 2007
21h00 Pequeno Auditório

Concerto inserido no ciclo dedicado a Paul Bowles.
Inclui "Six Preludes" para piano solo e canções com letra de Tennessee Williams e Federico Garcia Lorca e música de Paul Bowles.

Parte do premiado filme "Night Walz", de Owsley Brown III, que incide justamente sobre a vida do compositor (e tem a sua música).

A interpretação é da pianista Irene Herrmann, acompanhada da voz de Mário Redondo.

O Maior Português de Sempre




Não vale a pena ensaiar grandes análises sociológicas à volta do resultado do “Maior português de sempre”.

Não passou de um concurso tipo “Chuva de estrelas” onde os grupos de pressão têm campo livre face à muito generalizada preguiça/indiferença do publico.
Não sendo provável que existam fanáticos de Camões ou um lobby de D. Afonso Henriques, manifestaram-se os 3 grupos com capacidade para mobilizar activistas telefónicos: os neo nazis, os comunistas e os judeus. (Arrisco o palpite de que se entre os concorrentes estivesse algum assumidamente “gay”, teria sido o vencedor...)

Convém também não esquecer que a personagem de Santa Comba foi simultâneamente brindada com o troféu de “O pior português de sempre” (organização do Inimigo Publico e do Eixo do Mal).

Não me parece que se possa presumir de tudo isto que os portugueses têm saudades da ditadura ou que há uma investida da extrema direita contra a democracia.
E muito menos se deve fazer figuras tristes clamando com a inconstitucionalidade, numa histeria politica que ombreia com o folclore dos próprios factos.
O melhor que há a fazer é não falar mais no assunto para não lhe dar a publicidade que ele não merece.

Se receamos que a sociedade portuguesa esteja a ficar predisposta para ouvir os cantos de sereia ditatoriais, o que há a fazer é denunciar e combater as práticas que levam as pessoas a desiludirem-se com a politica e os políticos (a corrupção, a incompetência, a burocracia, o nepotismo, a prepotência, o laxismo, o peculato, etc).

O resto, é folclore.

Os Grandes Portugueses

O programa da televisão pública Os Grandes Portugueses teve no Domingo à noite a sua conclusão lógica. A Direcção da RTP I, que foi desenterrar Maria Elisa para fazer este programa, pensava ter um grande êxito entre mãos, com grandes audiências e muitos falsos confrontos para entreter o pagode. Nunca provavelmente admitiu que isto lhe corresse tão mal.




O programa politizou-se e neste marasmo anestesiante que é a vida política portuguesa eis que lhe sai na rifa em 1º lugar o Salazar e em 2º, o Álvaro Cunhal. Os heróis do bloco central: Mário Soares e Sá Carneiro são preteridos e as figuras sempre disponíveis da nossa história: D. Afonso Henriques, Infante D. Henrique, D. João II, Vasco da Gama, etc., são relegadas para segundo plano. Os mais inconvenientes, os menos politicamente correctos, surgem em força. Resolve fazer uma sondagem à pressa para saber quem era o grande português e lá safa a honra do convento descobrindo que o escolhido era D. Afonso Henriques. A sondagem sempre valia mais do que os telefonemas a 1,00 € cada.
Todo este espectáculo foi de uma grande tristeza, exceptuando talvez alguns dos documentários que tinham dados informativos sobre os biografados.
Os Grandes Portugueses não passam de uma versão intelectual do Big Brother, com heróis e vilões, o vencedor e os despedidos da casa (veja-se um dos episódios do Gato Fedorento - Isto é uma Espécie de Magazine), tudo isto apresentado com grandes pretensões culturais e pedagógicas. De cultural tem muito pouco e é o mais anti-pedagógico possível. Mas a RTP, na senda das suas congéneres estrangeiras (não estamos na Europa?), resolveu mesmo assim apresentar este programa e acrescentou-lhe a apresentadora menos classificada para o fazer. Não quanto as suas capacidades profissionais, quem sou eu para discutir isso, mas quanto ao seu comportamento político. Quem já mudou tantas vezes de casaca: de assessora de imprensa de Maria de Lurdes Pintassilgo, a directora de programas de Proença de Carvalho, que tinha a missão, já publicamente assumida pelo próprio, de sanear a extrema-esquerda da televisão, de deputada por Castelo Branco pelo PSD a adida cultural em Londres, não era de certeza a pessoa mais indicada para dar um tom de seriedade ao programa, que, como se veio a verificar, acabou na desgraça que foi. Maria Elisa rodeou-se de pessoas mediáticas, mas pouco classificadas, com as raras excepções do Hélder Macedo e talvez, não sou pessoano, de Clara Ferreira Alves. A escolha de Odete Santos foi nitidamente para matar pela segunda vez o Álvaro Cunhal.
Além do mais, Maria Elisa levou o programa a sério, apesar de ir sempre dizendo que era um passatempo. Escolhe primeiro os que lhe dariam prestígio intelectual, como o Professor Eduardo Lourenço no debate de apresentação, mas combate e afasta depois todos os que o ridicularizavam. Reúne-se com aqueles que podiam atacar o Cunhal e, mais moderadamente, o Salazar. Ainda na noite de Domingo, a seguir a duas intervenções da tresloucada Odete Santos, achou por bem, o que não fez com nenhum outro interveniente, contrapor à opinião daquela deputada a de um historiador (António da Costa Pinto) e a de um jornalista (José Manuel Barroso), este último que sempre se notabilizou pelo seu anticomunismo militante e que achou, em artigo que escreveu recentemente para o Diário de Notícias, que Salazar ainda vá lá que fosse escolhido, agora Cunhal é que nunca.
A RTP teve pois o que merecia e os portugueses o que na sua maioria não desejavam, mas que, dada a sua tolerância para com o fascismo, agora apodado de Estado Novo, tiveram que engolir.

sábado, março 24, 2007

Revolução nas artes do desenho

Penso que já se percebeu que sou apaixonado por fotografia.
Por mero acaso obtive exemplares de uma revista, "O Panorama", publicados nos anos 30 do século XIX, onde fui encontrar as que são, talvez, as primeiras referências a Daguerre e à invenção da fotografia publicadas em Portugal.
Têm um encanto irresistível (pelo menos para mim) pelo que decidi partilhá-las.



Revolução nas artes do desenho


O INVENTO, ou descubrimento de que vamos fallar, merece um e outro título; a natureza e o engenho do homem, podem ahi apostar primasias. A natureza apparece retratando-se a si mesma, copiando as suas obras assim como as da arte, não em painéis presenciaes, inconstantes e fugitivos, como eram e são os rios, os lagos, as pedras e metaes polidos, mas em matéria que retem o simulacro do objecto visivel e o fica repetindo com a mais cabal semelhança ainda depois de ausente: isto pelo que toca á natureza. Agora pelo que respeita ao engenho do homem, foi elle quem a forçou a este milagre novo e inesperado. Duas coisas nos dão pena querendo escrever esta noticia; a primeira é que não possamos explica-la e circumstancia-la como cumprira, por fallecerem ainda as precisas e miúdas informações; a segunda que desse mesmo pouco com que um jornal de Paris, o Século, nos vem acenando, não nos consente a indole e extensão da nossa folha apresentar senão o pouquíssimo.

A camara luminosa ou óptica, segundo vulgarmente se diz, é formosa recreação de nossa infância, e nos permite viajar sentados n’uma cadeira, no canto da nossa casa, por todos os Portos, cidades e ruínas, bosques e desertos do mundo; mas se taes pregrinações nos não custam nem fadigas nem perigos, nem dinheiro e largos annos, tambem a idéia que nos trazem das coisas apartadas é pelo demais incompleta ou falsa; e todos esses quadros de mão humana são imperfeitos como tudo o que d’ella sae.

A camara luminosa levava grandes vantagens á câmara obscura em um sentido, se em outro lhas cedia; porque, se ahi o artista cercado de trevas via descer sobre o seu papel alvo e nú, as formas perfeitas, córadas e vivas das coisas externas, e dessas, todas as que lá por fóra senão levavam e fugiam, as prendia com o lápis e pincel, e compunha, ou antes copiava natural e verdadeiro o seu quadro; por outra parte o alcance desta sua magica era sempre mui limitado: e de mais, dado que as formas e cores que primitivamente ao seu papel fossem, nem podessem deixar de ser completas e exactas, como o prendê-las era trabalho de mão e instrumentos humanos; ahi vinham tambem forçosamente as differenças, os erros e quando menos os desprimores.

Da camara obscura saíam lindas recordações abreviadas do mundo circumstante; mas esses paineis eram mais formulas representativas do que emanações reaes dos corpos; mais retratos levemente desfigurados do que reflexos proprios, inteiros e absolutos, esses paineis, requeriam tempo, paciencia, arte e uso de uma palheta carregada de todas as cores do íris.

D’ora ávante porém, sem palheta, nem lapis, sem preceitos artisticos nem dispendio de horas e dias, que digo, sem mover a mão, sem abrir os olhos e até dormitando, poderá o viajante enriquecer a sua pasta com todos os monumentos, edificios e paizagens, das longes terras, e o amante mais hospede das bellas artes, obter por si proprio o retrato dos seus amores; tão ao natural como o traz debuchado no coração, e mais natural ainda porque não lhe faltarão as miudesas mínimas que a vista não alcança e que só a lente lhe poderia revelar. Os nossos leitores nos estão já aqui pedindo impacientes a solução de tão incrivel problêma; o que podemos é apontar-lha, isso vamos fazer.

Eis-aqui o que o senhor Arago relatou á academia franceza de cuja é secretario: o senhor Daguerre, famigerado pintor do diorama, andava, largos annos havia, todo embebido em procurar alguma substancia onde a luz se podesse imprimir, e deixar de si vestigios distinctos, que ainda depois d’ella ausente a denunciassem com todas suas modificações e circumstancias; para este fim andou batendo á porta das várias matérias e interrogando todos os corpos e invocando toda a natureza. Em tudo é a diligencia mãe da boa ventura. Encontrou ao cabo uma substancia como a elle sonhára, tão sensivel á acção immediata da luz, que esta lhe deixa os vestigios evidentes do seu contacto, d’esse contacto tão subtil e inapreciavel. Estes vestígios ficam representados por côres que teem em cada ponto uma relação perfeita com os diversos gráus de intensidade da mesma luz.




Não se cuide, comtudo, haver nesta estampa as proprias côres do objecto que ellas representam; não, as diversas côres dos originaes só são denotadas e significadas na copia, com uma extrema exactidão, pela maior ou menor força da luz, isto é, pelo maior ou menor effeito da impressão da luz: vae do original á copia uma differença a este respeito bem comparavel com a que faz uma gravura optima d’um painel a oleo cujo ella for perfeitíssimo traslado. O vermelho, o azul, o amarello, o verde etc, são significados por combinações de luz e sombra, por meias tintas mais ou menos claras ou escuras, segundo a somma de potencia clarificante que encerra por sua natureza cada uma destas côres. Mas o que é certo, apesar de todo esse desconto, é, que estas copias são tão extremadas, tem um tal relevo e tamanha verdade como se não pode imaginar sem as ter visto.

A delicadesa de traços, a puresa das fórmas, a exactidão e harmonia dos tons, a perspectiva aeria, o primor das miudesas, isso tudo se representa com a suprema perfeição. A lente, malsim terrível das maiores obras de desenho, que em todas encontra senões e desares inevitaveis para a arte, gire quanto quizer sobre estas figuras, fite n’ellas, quanto tempo lhe agradar, o seu olho inexorável, desesperar-se-ha de não descubrir senão perfeições, depois perfeições, e sempre em tudo perfeições.

Não ha porque nos espantemos: a luz, a propria luz, foi a pintora. Do pae da luz creáram divindade ás artes os fabuladores da Grecia; da fabula fez historia o engenho mais creador da nossa edade. Estas gravuras abertas pelo buril dos raios luminosos, estas estampas baixadas, porque assim o digamos, do ceu, mostrou-as o senhor Daguerre aos senhores Arago, Biot, Humboldt e outros, que todos ficaram suspensos e enfeitiçados.

O auctor limitado n’um pequenino espaço da ponte, chamada das Artes, trasladou toda a carreira de grandiosidades monumentaes que ufanam e affamam a margem direita do Sena comprehendendo aquella parte do Louvre que alardea a opulenta galleria das pinturas; e não ha linha, não ha ponto que não saísse perfeitíssimo. Da mesma arte apanhou aquella immensa e gigantesca fabrica de Nossa Senhora de Paris, com toda a sua profusissima cuberta de esculpturas gothicas. Mais fez, que repetiu o prospecto do mesmo edifício, ás oito da manhaã, ao meio dia e ás quatro da tarde, e isto em dois dias diversos, um de chuva, outro de sol; e todas estas vistas, sem exceptuar aquellas mesmas em que a extensão relativa das sombras é identica para quem as observa, teem physionomias tão próprias e tão suas, que n’um relanciar de olhos se adivinha a hora do dia e circumstancias atmosphericas em que se fez cada retrato.

E devendo parecer já isto a maxima maravilha, ainda ha outra e é a quasi magica ligeiresa com que se opera; oito ou dez minutos bastam no clima e ceu ordinariamente aspero de Paris para começo e remate de taes quadros; mas com ar mais puro e luz mais estreme, como no Egypto, um minuto bastaria. Todavia, diz o noticiador do Seculo, estas admiraveis representações das exterioridades da natureza, certamente por passarem por ellas mãos humanas, carecem do que quer que seja como objectos d’arte. Coisa admirável! Aquella mesma potencia que as creou parece ausentar-se logo d’ellas: estas obras da luz carecem de luz. Nos proprios pontos mais directamente clareados ha uma fallencia da vivesa e de lustre; e na verdade são umas vistas, que a despeito de todas as harmonias de sua impecavel perfeição, como que apparecem sob um ceu denso e boreal que se está esmorecendo e esfriando: parece que ao coarem-se pelo aparelho óptico do auctor, todas á uma se revestem do aspecto melancholico do horizonte quando quer anoitecer.

Segundo contra. Apesar da summa rapidez da luz, como o seu effeito na substancia do Sr. Daguerre não é instantaneo, qualquer objecto que se mova com velocidade ou lhe não deixa vestigios seus, ou só muito confusos. As folhas das arvores por exemplo, como aquellas que sempre se andam balançando no vento, ficam pelo demais mui perturbadas: mas onde só se pertenderem imagens da natureza sem vida, edifícios, monumentos, estatuas, ou cousas de semelhante género, ahi sim, ahi triunfa de todos os outros este novo methodo. Rosto de homem vivo ainda até hoje o não pôde retratar que satisfizesse. Mas o auctor ainda não perdeu a esperança de lá chegar.

É inegavel á vista do que levamos apontado, que este invento, um dos mais admiráveis de nossos tempos, terá largas consequências em todas as artes do desenho, e contribuirá não só para o progresso do luxo util e aformoseador da sociedade, mas também para o maior aproveitamento das viagens, quer sejam scientificas, ou artisticas, ou moraes, quer de simples divertimento e recreação. O auctor, porém, ainda não declarou o seu segredo; e esta immensa revolução, para arrebentar e espalhar-se por todo o mundo, só aguarda uma palavra d’elle, o seu fiat lux.


Revista “O Panorama”, 16 de Fevereiro de 1839, Vol. 3, página 54.




"Now, sir, if you dare move a muscle of your face I'll blow your brains out!--I want a placid expression sir; my reputation as a daguerreotypist is at stake!"

From Frank Leslie's Illustrated Newspaper. Vol. 7, No. 289 (28 May 1859) pg. 414.

quinta-feira, março 22, 2007

Jograis U...Tópico


Aqui fica a referência a uma interessante iniciativa dos Jograis U... Tópico tal como eles a descrevem:

Quarta-feira, 28 de Março de 2007 - Café Império (Av. Almirante Reis - Lisboa)
No Café Império, de gratas recordações, hoje remodelado graças aos novos proprietários - Paulo Relva e sua mulher Paula Moura - que mantiveram a antiga traça, mas que lhe conferiram um tom de conforto muito agradável, vai ocorrer um "Jantar-Poético" com a presença do Grupo de Jograis.
Às 20h inicia-se o jantar, tipo buffet (sopa, dois pratos, sobremesa, vinhos e café - à descrição pelo preço de 15€ (quinze euros). Para quem não puder estar presente a esta hora, ou não queira simplesmente jantar, será posto à disposição um bar aberto com café, cerveja e outras bebidas.
Pelas 21,30h começará o recital de poesia pelos Jograis "U...Tópico" que se repartirá por dois períodos. No primeiro o grupo dirá 6 (seis) poetas africanos de expressão portuguesa e 4 (quatro) brasileiros. Seguir-se-á um pequeno momento musical (cantora brasileira acompanhada ao piano) após o que voltará a actuar o grupo de jograis para dizer mais 10 (dez) poetas portugueses. Todos os autores que diremos são de reconhecido prestígio.

quarta-feira, março 21, 2007

Religiosidade "gourmet"...



As recentes directivas do papa Bento XVI, de regresso a preceitos mais rígidos e tradicionais, têm provocado diversas reacções interpretativas.

Para mim, que sendo ateia só me interesso pelo facto do ponto de vista sociológico, isto aparece relacionado com a tendência cultural de uma certa “elite” para a procura da distinção num mundo cada vez mais massificado.

Ou seja, em oposição ao turismo de massas e hotéis iguais em todo o mundo, viagens de aventura e estadias em castelos renascentistas. Em vez da lagosta e da perdiz congelados em todos os hipermercados, enchidos feitos segundo receitas milenares e curados ao fumeiro em cozinhas familiares de granito.

E contra a missa com pandeiros e sotaques sul-americanos ?
Latim e cantochão...
.

terça-feira, março 20, 2007

Entre as Brumas da Memória II

Li com muito interesse o livro de Joana Lopes, colaboradora do nosso blog, referente a Os católicos portugueses e a ditadura. O período abrangido, que corresponde grosso modo aos anos 60 do século passado, foi para muitos de nós, hoje sexagenários, o período de formação e de abertura para o mundo. Apesar, das vivências de cada um, estes factos constituem, no entanto, um património comum daqueles anos tão importantes para o fim do fascismo.
Assim, recordaria que um exemplar da Igreja Presente me foi dado na Faculdade por um católico progressista da época, que hoje deve ser afim do PSD e atarefado funcionário da SONAE.
Por outro lado, a visita de Paulo VI a Portugal foi acompanhada por mim na televisão para perceber até que ponto ela era aproveitada pelo regime. E guardo dessa visita a sessão de autógrafos, que foi dada por esses dias, pelo poeta soviético Ievtuchenko, de quem tinha sido lançado a Autobiografia Prematura pela Dom Quixote.

Ainda hoje conservo a assinatura do poeta na foice e martelo que fazia parte de uma das suas fotografias que compunham o livro. Para quem não se recorde, Ievtuchenko foi autorizado a entrar em Portugal, conjuntamente com milhares de peregrinos que vinham de Espanha, para participar nas cerimónias de Fátima presididas por Paulo VI.
Mas o mais inesquecível é, para mim, a cena descrita pela autora das célebres conferências subordinadas ao tema "Lusitania, Quo vadis?", a que assisti, principalmente a última que decorreu na tal fábrica de papel situada na Avenida do Brasil, em que devido ao meu aspecto “certinho e bem comportado” pude aceder, dado que foi estabelecida uma verdadeira barreira, pois não cabiamos todos na sala. Quem na altura desempenhava o papel de porteiro, se bem me recordo, seriam o Jorge Sampaio e o Vítor Wengorovius.
Há da parte de Joana Lopes uma recordação muito comedida sobre o papel desempenhado por "dirigentes estudantis da extrema-esquerda muito aguerridos", que ficaram no exterior da fábrica. Na verdade, cá fora Arnaldo Matos e os seus companheiros do MRRP não faziam mais do que insultar os que estavam lá dentro, parafraseando a canção do Luís Cília,”É sempre a mesma melodia, Mário Soares e a social-democracia”, em que substituíram o Salazar da letra da canção pelo Mário Soares. Este comportamento, que era verdadeiramente provocador e que nessa conjuntura visava atrair os polícias para reprimir a sessão, verificou-se repetidas vezes a quando das eleições de Outubro de 1969, principalmente em relação aos comícios da CEUD e em que Mário Soares participava. Para o MRRP, nesse momento, Soares era o inimigo principal, como depois, ou mesmo concomitantemente, veio a ser o PCP.
Para terminar, não deixaria de notar esta espantosa moção aprovada por 68 padres em que se propõe “denunciar os sistemas de exploração capitalista que provocam o esmagamento económico e cultural de grandes camadas da população”. Que boas ideias manifestavam esses padres em 1969. Hoje, arrancar uma condenação tão explícita do capitalismo, já nem provavelmente do PCP.
Passados todos estes anos e conhecendo da vida pública alguns dos intervenientes desta história, penso como tanta gente se acomodou e como é possível a Igreja ainda estar pior hoje do que estava há 40 anos e que os leigos, pela amostra dos que apareceram a combater o aborto, não sintam um friozinho na alma pelos disparates que produzem.

segunda-feira, março 19, 2007

Conteúdos digitais sem espaço em 2010 ?



A manter-se o actual ritmo de produção de dispositivos para guardar conteúdos digitais, a informação produzida em 2010 será superior à capacidade de armazenamento no mundo.
De acordo com um estudo da multinacional IDC (que será apresentado em Lisboa na terça-feira), em 2005 foram produzidos 161 mil milhões de gigabytes (ou 161 exabytes) de dados digitais. Isto inclui, por exemplo, páginas de Internet, ficheiros nos computadores ou chamadas telefónicas - basicamente, tudo o que possa ser convertido em zeros e uns.
Os 161 exabytes de informação permitem comparações assombrosas: equivalem a três milhões de vezes o conteúdo de todos os livros já escritos na história da humanidade. Uma das razões para tão grande quantidade de informação é que muitos conteúdos - vídeos, e-mails, música - são replicados várias vezes.
Para 2010, os analistas estimam que o mundo gere 988 exabytes de informação digital, ao passo que a capacidade de armazenamento se ficará por uns meros 601 exabytes.
Não há, contudo, razões para alarme, garante o responsável pelo estudo. John Grantz, entrevistado pela Time Online, explica que nem todos os dados produzidos ao longo de um ano são guardados. É o caso dos telefonemas ou de parte dos e-mails. Por outro lado, os dispositivos de armazenamento estão a ficar cada vez mais baratos.
O investigador Daniel Gomes, da Universidade de Lisboa, explica que os preços variam consoante a tecnologia necessária. Para as empresas, que precisam de discos rígidos de rápido acesso, o preço por gigabyte é muito superior ao que paga o utilizador comum.
O espaço físico para alojar a informação também não deverá ser problema. Daniel Gomes é um dos responsáveis pelo Tomba, um arquivo da Web portuguesa com 1500 gigabytes de dados, mas que parou de indexar páginas por falta de espaço. Toda a informação já recolhida está contida num computador cujo tamanho não excede o de um armário médio.
No futuro, prevê o investigador, será possível armazenar cada vez mais informação em espaços reduzidos: "Os cartões de memória das máquinas fotográficas têm o tamanho de uma unha e atingem quatro gigabytes. Há uns anos pensávamos que estávamos prestes a atingir o limite, mas surgem sempre novas tecnologias."

João Pedro Pereira in jppereira@publico.pt

sexta-feira, março 16, 2007

As novas burkas



Clique na Imagem para VER os modelos de burka da próxima estação

terça-feira, março 13, 2007

Entre as Brumas da Memória



Já está nas bancas o livro "Entre as Brumas da Memória" (belo título) da nossa colega Joana Lopes.

Como ainda não li aqui fica, para já, um dos textos de apresentação:

"Um livro sobre a ditadura e o papel que as elites católicas tiveram na luta contra o regime fascista. A autora escreve sobre um tema que bem conhece, pois participou em iniciativas e organizações ligadas a um grupo que ficou conhecido como Católicos Progressistas. A História recente de Portugal tem vindo a suscitar grande interesse do público. De salientar o Prefácio de Pedro Tamen, escritor de prestígio e figura destacada dos grupo de católicos progressistas."

sexta-feira, março 09, 2007

"As vidas dos outros" e as nossas


"As vidas dos outros" é um filme interessantíssimo.
A história muito bem construída prega uma partida ao espectador, o que resulta quase sempre, fugindo dos lugares comuns sobre o tema tratado, a sociedade da RDA (vulgo Alemanha de Leste).

Um fanático do regime compreende os seus erros e salva aqueles que devia perseguir pagando por isso com a destruição da sua carreira mas os seus chefes, boçais e nada idealistas, continuarão a prosperar mesmo depois da "reunificação".

Suspense, reviravoltas e emoções conduzem o espectador para a "conclusão" de que os sistemas de limitação das liberdades acabam sempre por se tornar pasto de todos os oportunismos e carreirismos em vez de serem, como muitas vezes se pensa, dominados pelos idealitas.

Uma outra questão interessante neste filme é haver em Portugal muita gente que viveu interrogatórios "pidescos" como aqueles que se vêem no ecran.

É duro constatar a semelhança entre a repressão que se praticava durante o "Estado Novo" e aquela que ocorria num país que, pelo menos até certa altura, era considerado como modelo por muitos dos que se batiam pela liberdade em Portugal.





terça-feira, março 06, 2007

A China em Abrantes

A Biblioteca Municipal António Botto , que manifesta um dinamismo notável e uma invulgar capacidade de realização, aproveitou uma exposição de fotografias da China para realizar um vasto conjunto de iniciativas de índole cultural.

Essas iniciativas constituem uma forma divertida de enriquecer e contextualizar as imagens apresentadas na exposição.

Está na altura de esquecer o velho aforismo "Tudo como dantes, quartel-general em Abrantes".


____________________________

Aqui fica a promoção, feita pela Biblioteca, das realizações à volta da exposição de fotografia:


Se a China o fascina ou se gostava de saber mais sobre este país do extremo oriente, então não perca a iniciativa que a Biblioteca Municipal António Botto vai promover ao longo do mês de Março. E começamos logo a tentar apanhá-lo pelo estômago...

A Biblioteca Municipal António Botto vai promover entre os dias 5 e 28 de Março uma exposição de fotografia da autoria de Fernando Penim Redondo com trabalhos recolhidos numa viagem à China. A inauguração da exposição terá lugar às 18h00 do dia 5, após a qual acontecerá no Restaurante chinês Fu-Hao, um jantar seguido de uma conferência por Fernando Penim Redondo. O preço do jantar é 11 euros por pessoa e os interessados poderão inscrever-se na Biblioteca Municipal, nos contactos abaixo indicados.

E aproveitando o balanço da exposição, a Biblioteca resolveu desenvolver um programa paralelo de actividades que vão acontecer durante este período, com as quais pretende estabelecer a ponte entre a comunidade abrantina (escolas de todos os níveis de ensino, Universidade da Terceira Idade, centros de dia, instituições de todos os sectores da vida civil, população em geral, etc) e a China, envolvendo também a comunidade chinesa existente em Abrantes. Desde a medicina tradicional chinesa à vertente económica pretendemos dar a conhecer uma realidade completamente diferente da nossa e que, muitas vezes, nos passa ao lado.

E dado a Ásia ser tão fascinante, ultrapassámos mesmo as fronteiras da China e fomos conhecer outras artes cujas raízes chinesas foram adaptadas pelos povos da região. Acupuntura, Shiatsu, Reiki, Fitoterapia, Taichi, Massagem Vibracional (Taças Tibetanas) são algumas das actividades que ao longo do mês vão acontecer no espaço da Biblioteca. As actividades são gratuitas! Participe, inscrevendo-se na Biblioteca ou através do telefone 241 379 990 ou, ainda, por e-mail para biblioteca@bmab.cm-abrantes.pt.


A exposição vista do claustro do convento de S. Domingos

.

sábado, março 03, 2007

Dido e A Valquíria

"A magia do fogo" de Newell Convers Wyeth

"A Valquiria" no S. Carlos

.


Quis o destino que eu visse, no espaço de três dias, as óperas "A Valquíria" e "Dido e Eneias".

Nessas circunstâncias não pude deixar de as comparar e sentir, "na pele", como eram diferentes as sociedades da Inglaterra no século XVII e da Alemanha no século XIX para dar origem a obras com "atitudes" tão diferentes.

Numa tudo é graça na outra tudo pesa, numa tudo respira optimismo mesmo quando a tragédia se abate e na outra não se vislumbra qualquer saída, numa o amor é uma forma de os humanos tentarem construir o seu próprio destino e na outra o próprio amor é apenas a realização de um plano transcendente.

Dito isto convém esclarecer que considero as quatro horas passadas em S. Carlos como a oportunidade de "viver" uma experiência notável. A hora e meia passada no CCB foi bem recheada de canto e música mas, na vertente da coreografia, considero que as oscilações na qualidade foram muito grandes.

.
.


"O adeus de Eneias a Dido em Cartago" de Claude Lorrain


"Dido e Eneias" no CCB

quinta-feira, março 01, 2007

Grandes momentos


Para o caso, improvável, de ainda haver alguém que não conheça este video AQUI está.

Também pode clicar na imagem.

segunda-feira, fevereiro 26, 2007

Sabem o que é isto ?



É um disco rigido de 5MB a ser embarcado num avião em 1956
...

quarta-feira, fevereiro 21, 2007

Um carnaval sem samba



Ontem passei a tarde em Lazarim, no concelho de Lamego, onde o carnaval ainda não foi "infectado" pelo samba. O pessoal mistura-se com as máscaras esculpidas em madeira







e depois acaba tudo à volta das panelas do feijão.



O prato forte durante a tarde de terça-feira são os testamentos dos compadres e das comadres que consistem, no essencial, em "rebentar as broncas" aos jovens da terra.

Aqui vão alguns exemplos das quadras lidas no largo da aldeia perante os foliões:




Quando tocares no apito
Não o mostres a ninguém
Apenas à namorada
Para ela o tocar também

Não sei que raio vos deu
Parece que é comichão
Passais a vida a coçar
O instrumento com a mão.

Sois todos uns paneleiros
Que não valem 2 vinténs
Ninguém quer de vós saber
Até vos mijam os cães.



[excerto do Testamento do Compadre de 2000]

terça-feira, fevereiro 20, 2007

Ainda o Mapa do Referendo

Quando escrevi o post anterior, ainda a procissão ia no adro, posteriormente, tornou-se o principal motivo de análise dos resultados eleitorais.
Confirmando aquilo que tinha dito, a maioria dos comentadores da direita e, muita vezes, alguns dos adeptos do sim, tentaram retirar a Igreja Católica da lista dos derrotados do Referendo e negam que haja qualquer relação entre a sua influência e a distribuição dos não. Valha-nos o inefável César das Neves que escreve um artigo sobre A enorme derrota da Igreja (Diário de Notícias, 19/02/07).
Mas voltemos ao mapa dos resultados eleitorais. O Público (18/02/07) afirma em título que O voto católico não existiu no referendo sobre o aborto, depois, utilizando aquela sopa muito do agrado dos jornalistas, vai amontoando opiniões de estudiosos que, espremidas, levam à conclusão do título. Assim, temos algumas sentenças que são do senso comum: “a repartição faz sentido se o factor religiosos não for isolado” (Alfredo Teixeira) ou “a influência religiosa é mais determinante no sentido do voto do que (o eleitor) ser da zona rural ou urbana” (José Barreto) ou que resultam da superioridade intelectual de quem já tem outro nível de conhecimento: “teríamos ainda um certo paternalismo das elites intelectuais anticlericais” (Helena Vilaça).
Mas este é o fait divers das pequenas almas, falta-nos as opiniões dos grandes comentadores. Rui Ramos, esse pequeno provocador da direita, tem no Público (14/02/07) esta prosa bem informada: “as esquerdas em Portugal acreditaram sempre que a “modernidade” consistia numa simples versão laicista da homogeneidade católica, todos um dia seriam “homens de esquerda” (inclusive as mulheres). Foi o que aprenderam com Auguste Comte. O progresso iria consistir no triunfo total do secularismo socialista... Foi assim que Afonso Costa, em 1910, se convenceu de que poderia acabar com o catolicismo em “duas gerações”. O que aconteceu a seguir é conhecido. Mas, pelos vistos, houve quem não tivesse aprendido nada. As esquerdas portuguesas dão-nos as boas-vindas ao século XXI com as ideias do século XIX”.
Constança Cunha e Sá, sem a erudiçãozinha de Rui Ramos, pois não é Historiadora, afirma igualmente no Público (15/02/07): “Embora a esquerda, com o seu incurável optimismo, se refugie mais uma vez, no improvável progresso da história para saudar efusivamente a entrada de Portugal no século XXI, só muito dificilmente o mapa eleitoral deste fim-de-semana se presta a este tipo de simplificações. Nem o distrito de Braga, onde ganhou o “não”, se pode tomar como um exemplo de “arcaísmo” e de “ruralidade”, nem o Alentejo, pobre e desertificado, preenche os requisitos mínimos que se exigem à “modernidade”.”
Em primeiro lugar, assinalar a irritação que o cartaz do Bloco de Esquerda provocou nas hostes da direita. O Bem-vindo ao Século XXI pô-los possessos.
Em segundo, alguns comentários de fundo. Como demonstra André Freire (Público, 19/02/07) existe uma correlação claramente positiva entre as zonas onde se verifica maior prática religiosa e o voto do não. Por isso, não faz sentido negar que o não não venceu em zonas de maior influência Católica. Olhando para o mapa da votação por conselhos publicado no Público (12/02/07), verifica-se que a vitória do não ocorreu na totalidade dos distritos de Braga, Bragança, Vila Real e nas duas Regiões Autónomas. Na maioria dos concelhos de Viana do Castelo, Viseu, Aveiro e Guarda, nestes dois últimos com a excepção notória das capitais de distrito, e ainda na Zona do Pinhal, localizada no Centro do país e que abrange concelhos dos distritos de Castelo Branco (Sertã, Vila do Rei, Proença-a-Nova), Santarém (Ferreira do Zêzere) e Leiria (Ansião, Alvaiázere, Figueiró dos Vinhos). O concelho de Ourém (distrito de Leiria), onde se localiza Fátima, está incluído nesta mancha central. Tudo o mais são vitórias do sim. Só por grande má-fé se pode negar que esta distribuição não corresponde ao voto Católico. É evidente que, como também nota André Freire, há uma correlação positiva, em relação ao voto do não, entre as votações para o Referendo e para a Assembleia da República (2005) do PP-CDS e do PSD, mais deste último do que do primeiro. Por isso, é uma verdade de La Palisse dizer que o factor religioso não está isolado. No post anterior interrelacionei a componente religiosa e política. Lembraria igualmente que a conspiração contra as forças revolucionárias no pós 25 de Abril teve um dos seus esteios na Sé de Braga, na figura do Cónego Melo.
Há depois a questão do voto rural e urbano e aqui uma das citações a que recorri, chega à brilhante conclusão de que o sentido do voto é mais religioso do que a resultante da dicotomia urbana rural. É o que tenho vindo a dizer. Mas este tema serve a Constança Cunha e Sá para falar da moderna Braga que vota não e do Alentejo rural que vota sim, pondo assim em causa a classificação do Norte como arcaica e do Sul como moderna. No entanto, se compararmos as diferenças entre o não e o sim na cidade de Braga e em conselhos rurais desse distrito verifica-se que nestes últimos a diferença é muito maior, a favor do não. Mesmo no Norte não é indiferente estar em cidades médias ou no campo (veja-se os casos já citados de Aveiro e Guarda). A Igreja Católica tem muito mais influência neste meio do que naquele.
Por outro lado, Constança Cunha e Sá simplifica e pretende fazer graça com os alentejanos a votarem na modernidade e os trabalhadores de Braga a votarem no arcaísmo. Esquece, no entanto, que o que esteve em causa foi a oposição entre a laicidade e a liberdade individual de cada um, que são conceitos das Luzes, da Revolução Francesa, da modernidade civilizacional europeia, e a obrigatoriedade de forçar a sociedade a cumprir as leis impostas pela moral da Igreja, no fundo semelhante à imposição das regras do Corão às sociedades muçulmanas. Neste caso os pobres alentejanos estão com a modernidade e algumas das trutas da medicina estão os com os valores conservadores e retrógrados. Venceu o progresso e é isso que a direita não admite e tudo tem feito para minimizar esta sua derrota.
Deixei para o fim o Sr. Rui Ramos, Historiador, com H maiúsculo. Impressionado com os conhecimentos que tem de Auguste Comte e da política anticlerical de Afonso Costa, foi incapaz de compreender que o país há muito mudou. A questão religiosa deixou de ser uma bandeira da esquerda. Na longa noite do fascismo, que aquele senhor provavelmente nunca conheceu, os comunistas e a oposição em geral sempre estenderam a mão aos católicos. No pós 25 de Abril a moderação com que o PCP e o PS trataram o problema religioso foi exemplar. O único afloramento foi a questão do divórcio, que foi resolvida sem grandes rupturas. E que grandes culpas tinha a Igreja no apoio dado a Salazar, avalizando a tortura, as prisões, a Guerra Colonial, favorecendo a ideologia oficial e apoiando activamente a censura e a supressão de tudo aquilo que traduzisse, aos seus olhos, qualquer licenciosidade. Há muito que a esquerda se deixou do simplismo da I República, para quem a abertura de uma escola correspondia ao fecho de uma igreja. A esquerda ultrapassou, para infelicidade do comentarista, o positivismo comtiano que relacionava o acesso à educação coma diminuição da crença religiosa. Portanto, o Sr. Rui Ramos aldraba quando diz que as esquerdas portuguesas não aprenderam nada depois da I República, ele é que continua a manter o mesmo ódio a tudo o que é progresso e transformação das mentalidades.
PS.:noutro blog apareceu simultaneamente uma crítica ao texto de Rui Ramos. Sem a acrimónia que aqui lhe manifesto, parece-me ser uma análise bastante fundamentada ao referido comentário. Preocupei-me unicamente com a sua afirmação de que a esquerda não tinha aprendido nada depois da I República, António Figueira, e bem, desmonta todo o texto. Os meus parabéns.

segunda-feira, fevereiro 19, 2007

O Ano (chinês) do Porco

Assistimos ontem, em directo, à chegada do Ano (chinês) do Porco.
Aqui fica este registo fotográfico do evento e também uma caracterização dos nascidos neste signo:

O décimo segundo ramo da astrologia chinesa é simbolizado pelo signo de Porco (Hai). A generosidade é a característica mais marcante da pessoa nascida sob este signo. Ela faz o que pode para ajudar as pessoas queridas e está sempre aberta para ouvir os problemas dos outros e oferecer conselhos. É bondosa, amorosa e nutre uma profunda necessidade de se sentir aceite. Aliás, para conquistar o afecto dos outros, ela chega a fazer sacrifícios e a passar por cima dos próprios interesses. Ao mesmo tempo, o Porco tem também um lado ávido e egoísta, que preza demais os bens materiais e os prazeres, em todas as suas formas - o sexo, o conforto, a boa mesa... Apesar do seu coração puro e quase infantil, o nativo de Porco pode revelar uma faceta negativa, caracterizada pelo espírito de vingança e pela dificuldade em aceitar as limitações impostas pela vida.

Quem queira saber mais sobre os signos chineses deve ir AQUI

quinta-feira, fevereiro 15, 2007

O Mapa da Distribuição dos Votos no Referendo

Parece que está a causar muita polémica o mapa da distribuição dos votos no Referendo sobre a IVG.



Os do Não, tentando desvalorizar o seu acantonamento às zonas rurais do Norte e de maior influência da Igreja Católica, arranjam todos os pretextos para justificar a sua derrota, recorrendo quer à intervenção pessoal do Secretário-Geral do PS, quer à campanha “light” do Sim ou quer à propaganda dos media em torno dos julgamento das mulheres que abortaram. O que não querem, e isso foi visível, tal como eu já tinha aqui referido, com Marcelo Rebelo de Sousa, na noite eleitoral da RTP 1, e agora com Lobo Xavier, na Quadratura do Círculo da SIC Notícias, é estabelecer qualquer ligação entre esta distribuição e o mapa da influência da Igreja. Para este último a oposição não será entre o Portugal moderno e citadino e o Portugal rural e conservador, dando como exemplo que não se pode considerar moderna certa esquerda que se opõe às delícias da flexibilidade das leis laborais, enquanto ele e os seus amigos, que votaram Não no Referendo, é que devem ser considerados modernos por proporem a alteração daquelas leis. Esquecendo deliberadamente que as propostas do Não, principalmente a última, a que foi apresentada na noite da derrota eleitoral, que atribuía a cada mulher que não queria abortar o mesmo dinheiro que se daria para uma IVG, são um exemplo acabado de transformar as putativas abortadoras em subsídio-dependentes do Estado se não o levarem à prática. Estas propostas vão pois ao arrepio do neoliberalismo anteriormente defendido.
Mas voltemos novamente ao mapa da distribuição dos votos. Alguns, com dúvidas legítimas, interrogam-se sobre esta distribuição (ver aqui). Sem precisar de recorrer à erudição, como o fez Manuel Vilaverde Cabral (RTP 1), ao remontar esta distribuição às lutas liberais, sabe-se que a Igreja tem muito mais influência no Norte do que no Sul do país. Basta recuar ao PREC para reconhecer que foi no Norte que a Igreja organizou as populações contra os subversivos do Sul. No Verão Quente de 1975, as sedes dos partidos à esquerda do PS foram queimadas no Norte por populações muitas vezes arregimentadas à saída das missas. Recordam-se aqueles que já eram nascidos que, no 25 de Novembro, Portugal estava dividido em dois, a norte de Rio Maior predominava a contra-revolução, a sul era a Comuna de Lisboa. Sabe-se que o Alentejo e o Algarve sempre foram terras de missão para a Igreja Católica e que durante o fascismo esta não conseguia controlar os trabalhadores rurais alentejanos, enquanto o Norte era o viveiro de recrutamento das forças repressivas do regime, PIDE, PSP e GNR Há pois uma história longa que divide Portugal em dois. Por isso, este Referendo reflectiu isso mesmo, mas igualmente a perda de influência da Igreja nas grandes populações urbanas (veja-se o caso do conselho de Aveiro ou do distrito do Porto, em que agora o Sim ganhou ). Pacheco Pereira, na mesma Quadratura do Círculo, considerava que estas populações consideravam-se Católicas, mas não iam regularmente à missa.
Por tudo isto é interessante reparar que alguns, para não serem chamados de rurais e anti-modernos, arranjam um conjunto de justificações que chegam mesmo, contra os seus interesses políticos, a hipervalorizar a acção do Primeiro-Ministro, outros, por ignorância política, que na sua maioria é o caso dos jornalista, ficam perplexos e não compreendem a distribuição geográfica do Sim e do Não. Por mim, que, com alguma simplificação, reduzi este confronto, entre o Portugal laico e liberal e o Portugal agarrado à Santa Madre Igreja, não me custa nada compreender esta distribuição.

Não me entendi com Babel



As leituras tinham aguçado o meu desejo de ver este filme de Alejandro González Iñárritu mas cofesso que constituiu uma enorme desilusão.

Os cordelinhos da trama estão demasiado à vista e é tudo bastante previsível.

Ao contrário do que o nome indica o filme não é tanto sobre a dificuldade da comunicação (como fazia o portentoso "Colisão") mas sim sobre a probalilidade de as coisas na vida correrem mal, ou muito mal.

O "folclore" das histórias que se desenrolam em continentes distintos e uma banda sonora que destrói o ritmo narrativo contribuem para o desastre.

segunda-feira, fevereiro 12, 2007

Reflexões sobre o referendo - Final

Terminou em bem este episódio do referendo à IVG. O Sim à mudança da actual lei venceu expressivamente. Não quero procurar justificações porque é que, mais uma vez, o referendo não foi vinculativo. Só acrescentaria que, sem ter feito quaisquer contas, é muito provável que aquele fosse vinculativo se eliminássemos a chamada abstenção técnica, a que resulta dos cadernos eleitorais não estarem devidamente actualizado e que alguns estimam em cerca de 7 %.
Mais uma vez, na noite eleitoral, se assistiu à classificação dos intervenientes de ambos os lados em moderados e radicais. Na SIC, Lobo Xavier apelava para que o Primeiro-Ministro fizesse um discurso moderado, invectivando, verdadeiramente em estado de fúria, os agradecimentos aos Católicos feitos por Louçã por estes terem votado a favor do Sim. Estes senhores, quando perdem eleições, dá-lhes para o desnorte. Assim, a despropósito, referiu a IV Internacional, insinuando que aquele pertenceria aquela organização. Mas, voltando aos moderados e aos radicais, Pacheco Pereira (PP), reincidente, distribuiu na SIC epítetos por ambos os lados, acusando os adeptos do Sim de se terem manifestado ruidosamente com a vitória do seu campo, e de terem mesmo, horror dos horrores, batido palmas e gritado vivas. Queria que ficassem todos a velar defuntos, pois o que estaria em causa era o aborto de inocentes, digo eu. Depois lá distribui umas ferroadas aos do Não. Mas esta preocupação de Pacheco Pereira, de distribuir equitativamente a radicalidade de modo a ele ficar sempre no centro sensato, não o impediu de, mais uma vez, fazer as análises mais justas da noite, tendo como contraponto os dislates de Marcelo, na RTP, para quem a vitória do Sim se devia quase exclusivamente a intervenção em força do Primeiro-Ministro, ou os dos yes men Vitorino, na RTP, e Jorge Coelho, na SIC (não vi a TVI). PP afirmava que o tinha vencido era uma alteração das mentalidades e que não se podia confundir a vitória do Sim com opções estritamente partidárias, dado que as posições relativamente à problemática da IVG eram uma questão civilizacional. PP também referiu a influência da Igreja Católica na distribuição da votação, tema que tanto Marcelo e como Vitorino fugiram, como o Diabo foge da cruz, de abordar.
É evidente, que o que estava em causa, para além dos problemas sempre reais da penalização das mulheres que abortam e das questões de saúde pública resultantes do aborto clandestino, era o combate ideológico, nos termos em que o marxismo formula este conceito, entre o reaccionarismo da Igreja, quer da hierarquia quer dos leigos, e o laicismo e o livre pensamento dos defensores do Sim. Ontem encontravam-se do mesmo lado da barricada a esquerda progressista, sempre defensora destas causas, o velho republicanismo laico e anticlerical, ou seja, a maçonaria, a social-democracia europeísta e terceira-via, a direita neoliberal, não vinculada à Igreja, e até alguns Católicos, ainda herdeiros daquela corrente minoritária que, num tempo já passado, era designada por Católicos progressistas. Do outro, a do Não, o Portugal de sempre, acolhido na Santa Madre Igreja, que foi salazarista e hoje, porque se considera desempoeirado, defende a democracia e a ciência, porque lhe dá jeito, mas continua como sempre agarrado aos mesmos preconceitos morais relativos à sexualidade humana.

sábado, fevereiro 10, 2007

CUBA 2007


O Mário Redondo visitou Cuba em Janeiro 2007. Veja AQUI as fotografias que ele fez.

quinta-feira, fevereiro 08, 2007

Reflexões sobre o referendo IV - Os "radicais" e os "moderados"


Como já afirmei na reflexão nº I, o sim afinou desta vez os temas que queria discutir, limitando-os unicamente a 2: a despenalização da IVG e a resolução do problema do aborto clandestino, com a realização do mesmo, a pedido da mulher, em estabelecimento autorizado. Por isso, não se pode afirmar, e isto tem sido dito por muitos comentadores, que o sim tenha radicalizado a sua argumentação. Marcelo Rebelo de Sousa, num furor que me parece pretender o desmascaramento do sim, tem mesmo vindo a afirmar que a campanha deste campo é light ou que resvala para a unicidade, remetendo para a velha questão da unicidade sindical, defendida à 33 anos pela CGTP (a utilização desta terminologia, por quem é, nada tem de inocente).
No entanto, os profissionais da moderação, tentando distribuir os as culpas pelos dois lados lá vêm mais uma vez falar do radicalismo do sim e do não.
No programa A Quadratura do Círculo, da SIC Notícias, todos os três intervenientes falam dos radicais, apesar de Jorge Coelho ter reconhecido que eles se manifestam mais do lado do não. Pacheco Pereira no seu afã, que eu já denunciei, aqui ao lado, no nosso Fórum, de não ser confundido com os radicais, insiste nas suas posições moderadas. O que se passa com este comentarista é que, quando não se sente obrigado a separara-se dos tais radicais, costuma fazer análises bastante interessantes. Ainda ontem, referiu o peso que a intelectualidade católica, representada por Professores Universitários ou profissionais liberais de reconhecido mérito, têm nas posições defendidas pelo “não”, provocando muitas vezes o próprio espanto da esquerda, que esperava que aquelas posições fossem defendidas pelos pastores e os seus rebanhos e não por tão eméritos cidadãos.
Voltando à dicotomia radicais versus moderados, o não, numa pirueta de última hora, resolve agora que a pergunta é enganadora e que estaria disposto a, se vencer, propor de imediato uma alteração legislativa que despenalizasse as mulheres que praticam a IVG. Pretendendo afirmar, neste passo de mágica, que se cedeu na parte referente à despenalização, compete agora à outra parte manter o aborto clandestino (é evidente que os termos são meus). E quando Sócrates afirma o óbvio, quem votar não está a pugnar pela manutenção da actual situação, Marques Mendes, utilizando a demagogia mais asquerosa, classifica Sócrates, quem o diria, de radical e extremista. Ou seja, o que é proposto, em vésperas de realização de um referendo popular, é que Sócrates e Marques Mendes se encontrassem, e nas costas dos eleitores, tal como o fizeram, há 8 anos, Marcelo e Guterres ao arrepio da decisão da Assembleia da República, dividiam a pergunta ao meio e Sócrates ficava com a despenalização e Marques Mendes com a manutenção do aborto clandestino. Ora isto é impensável e revela uma profunda má fé. Mas, mais uma vez, o que se pretende é lançar sobre o adversário o epíteto de radical. Tal como o representante do PSD no “Debate da Nação” na RTP 1, acusou, a insuspeita Lídia Jorge, de radical e insensível, porque nos Prós e Contras tinha chamado coisa ao feto. Ou seja, desde o princípio, que aquilo que se pretende é acusar os defensores do sim de radicais, de modo a isolá-los e acantoná-los às posições do Bloco de Esquerda e às suas posições ditas fracturantes sobre a sociedade.
Não queria terminar, sem chamar a atenção para um texto de Rui Ramos, um dos ideólogos do neo-conservadorismo nacional, que, em artigo de opinião no “Público” de quarta-feira, entende que o referendo não serve para nada e que resulta do manobrismo político de alguma central da subversão contra os partidos do centrão político. E mais uma vez, para ilustrar tão brilhante reflexão, lá vem a fotografia de uma barriga de mulher com a inscrição aqui mando eu, tentando encostar o sim à radicalidade. No dia 11 iremos saber se tão perigosos radicais venceram ou foram mais uma vez encostados á parede pelo Portugal Católico e Bem-pensante.

Para nos livrarmos da praga...


1- Um método que realmente funciona:

Ao receber uma chamada de telemarketing a oferecer um produto ou um serviço, diga apenas, com toda a cortesia: "Por favor, aguarde um momento...". Dito isto, deixe o telefone sobre a mesa e vá fazer outras tarefas (em vez de simplesmente desligar o telefone de imediato). Isso vai fazer com que cada chamada de telemarketing para o seu telefone tenha uma duração longuíssima, ultrapassando em muito os limites impostos ao indivíduo que lhe ligou.
De vez em quando, verifique se o sujeitinho ou menina ainda está em linha. Reponha o telefone na posição de repouso apenas quando tiver a certeza de que desligaram. Não tenha dúvida de que esta é uma lição de custo elevado para os intrusos.




2 - Já alguma vez lhe sucedeu atender o telefone e parecer que não há ninguém do outro lado?
Se sim, fique a saber que esta é uma técnica de telemarketing executada por um sistema computorizado, o qual estabelece a ligação e regista a hora em que a pessoa atendeu o telefone. Esta técnica é utilizada por alguns serviços de marketing para determinar a melhor hora do dia em que uma pessoa dos serviços poderá ligar-lhe, evitando assim que o "precioso" tempo de ligação deles venha a ser desperdiçado, se não encontrar ninguém em casa.
Neste caso, ao receber este tipo de ligação, não desligue. Ao invés, pressione imediatamente a tecla "#" do aparelho, seis ou sete vezes seguidas e em sequência rápida. Normalmente, este procedimento confunde o computador que discou o seu número, fazendo-o registar que o número é inválido, eliminando-o assim da base de dados.



3 - Publicidade inserida nas contas recebidas pelo correio

Todos os meses recebemos publicidade indesejada inserida nas contas de telefone, luz, água, cartões de crédito, etc. Muitas vezes essa propaganda vem acompanhada de um envelope-resposta, que "não precisa selar; o selo será pago por..."
Insira nesses envelopes pré-pagos a publicidade recebida e coloque-a no correio, endereçada de volta o a essas companhias. Caso queira preservar a sua privacidade, antes de inserir a publicidade no envelope remova todo e qualquer item que possa identificá-lo.
Este é um método que funciona excelentemente para ofertas de artões, empréstimos, e outro material não solicitado. Portanto, não atire fora esses envelopes pré-pagos! Ao devolvê-los com a propaganda recebida, está a fazer com que as referidas empresas paguem duas vezes pela publicidade enviada. Se quiser adicionar uma pitada de malvadez, aproveite para inserir anúncios da pizzaria do seu bairro, da lavandaria, do dentista, de canalizadores, fabricantes de marquises de alumínio, ou qualquer outro item importuno que esteja à mão.



Há já várias pessoas a usarem estes métodos de devolver a lixarada publicitária. Está na altura de mandarmos o nosso recado às empresas. É preciso, no entanto, que existam números expressivos de pessoas a aplicar estas técnicas eficazes de protesto. Talvez não seja má ideia passar este mail aos seus amigos.

terça-feira, fevereiro 06, 2007

Patagónia, um novo "far-west"



No Sul da Patagónia, dividido pela Argentina e pelo Chile,há grandes paisagens intocadas e povoações com ar precário e caótico.
Os índios primitivos foram quase totalmente exterminados.

Acabo de publicar sessenta imagens, recolhidas por mim nessas longínquas terras austrais, que podem ver clicando AQUI

domingo, fevereiro 04, 2007

Reflexões sobre o Referendo III - Quando Começa a Vida


Um dos temas que mais tem sido levantado pelo partidários do não é o do começo da vida, alguns acrescentam da vida humana, outros generalizam tudo e afirmam que são pela vida, considerando sempre que ela começa quando o espermatozóide fecunda o óvulo. Numa variante mais rebuscada apresentam-se como defensores dos direitos humanos, combatendo toda forma de discriminação, considerando que ao eliminar-se uma vida até às 10 semanas, com base na não formação do seu sistema nervoso central, estar-se-ia a introduzir uma outra forma de discriminação que era considerar que na evolução do “ser humano” haveria etapas com menos direitos e dignidade que outras. A acrescentar a isto e recorrendo à evolução técnica das ecografias fazem vibrar os corações enternecidos das mães, afirmando que naquela etapa do desenvolvimento o embrião já tem semelhança humana e um coração a bater. Tudo isto em nome da ciência e da informação científica. Todo este aparato ideológico, que nada tem de científico, quanto muito de técnico, leva alguns defensores do sim, como Maria de Belém (debate da SIC Notícias) a afirmar que não podemos aceitar o fundamentalismo biológico, invertendo os dados do problema, pois estamos é perante fundamentalismo religioso ou moral, que se serve da ciência, pois são modernos e desempoeirados, para justiçar as suas opções.
Estando o debate neste tom, senti necessidade de ir consultar um texto de um grande professor da Faculdade de Ciências de Lisboa, já falecido, que me recordava de ter lido: Biologia e Sociedade de G. F. Sacarrão. Neste seu livro, bastante interessante por outros aspectos, dedica aquele Professor de Zoologia um capítulo à Metafísica do embrião humano. Começa assim este seu texto “qual o momento do desenvolvimento do embrião ou do feto que marca o começo do ser humano como indivíduo, com a sua natureza, os seus direitos, a sua dignidade. O problema não pertence ao âmbito da ciência, visto que ao biólogo essa questão não se põe, não o preocupa como cientista. Mas o problema é levantado sempre que se discute a questão do aborto,..., de modo que a posição e os limites da biologia não podem ser ignorados, dado o abuso que em geral se faz dos conceitos científicos e a confusão que se gera entre estes últimos e os chamados valores humanos.”... “ Do ponto de vista científico não há possibilidade de dar uma resposta objectiva à questão de quando a vida humana começa”.
Partindo pois desta premissa começa a enumerar as razões porque “não há possibilidade de dar uma resposta objectiva á questão de quando é que a vida humana começa”.
Assim, se parece incontestável que a fecundação do óvulo pelo espermatozóide dá início à história de um novo indivíduo, pergunta: “será o óvulo menos humano que o ovo?” “Sem condições e propriedades que lhe vêm de estados anteriores o óvulo não engendrará o ser humano”. Mesmo que não seja um ser humano, “contém em si as potencialidades da sua realização, de modo que a sua destruição, para muitos, poderá ser um acto imoral e criminoso”. O que de facto sucede, acrescento eu, com a condenação pela Igreja Católica dos métodos anticoncepcionais que conduzam, como a pílula, à inviabilidade dos óvulos. A Igreja só aceita os métodos ditos “naturais”, ou seja, aqueles que permitem determinar o período não fértil da mulher para ter relações. Os óvulos, neste caso, são também sagrados.
Mas não são só os óvulos que potencialmente podem dar origem a um ser humano, também os espermatozóides são indispensáveis para a sua concretização. Por esse motivo, também aí a Igreja interdita o uso do preservativo (conclusão minha). Mas “os espermatozóides morrem por centenas de milhões em cada emissão ejaculatória, e todavia tal desperdício e morte de potencialidades humanas não produz o mais insignificante abalo moral.”
Por outro lado, na espécie humana não é impossível a partenogénese natural, ou seja, o desenvolvimento de um novo ser a partir exclusivamente do óvulo, facto que se verifica em inúmeros animais. Se este facto é excepcional, não ultrapassando as primeiras divisões ovulares, e podendo por isso ser desprezado, os avanços da biotecnologia poderão no futuro torná-lo viável. A clonagem, por exemplo, utilizando outros processos, conduz na prática a obter um indivíduo idêntico ao original, sem necessidade da fecundação do óvulo pelo espermatozóide. Tudo isto são hipóteses em aberto que tornam mais difícil determinar quando começa e o que é a vida humana.
Mais, utilizando as experiências da clonagem efectuadas em animais ou, de acordo com avanços científicos posteriores a este livro, as efectuadas nas células estaminais do embrião conclui-se que “o programa genético para edificar um ser humano existe em cada uma das suas células... Ora se as potencialidades genéticas do ser humano não estão presentes apenas no ovo, matar qualquer das suas células representaria, na mesma ordem de ideias, um crime.” E pergunta Sacarrão “tendo todas as células do corpo os mesmos genes, porque é que só o óvulo e o embrião que ele engendra são sagrados?” E responde de seguida “não é à biologia que cabe dar resposta a questões que respeitem a diferenças, no plano moral ou religioso, entre os elementos da linha germinal ou ontogenética e o resto do corpo.” E continua Sacarrão “o começo do ser humano não pode situar-se exclusivamente no ovo fecundado, nem o ovo é a única célula que possui a sua programação básica. Por outro lado, mesmo que situemos esse nascer do ser humano no ovo,... O que será o novo ser humano depende das condições em que se diferenciou o óvulo no ovário até à sua maturação, ruptura do folículo e entrada do óvulo na trompa. É no ovário que se constroem grande parte dos alicerces do futuro ser humano, que afinal emerge do ovário materno, que deriva afinal da própria substância da mãe”.
A seguir Sacarrão interroga-se sobre “o que devemos entender por humano. O mesmo que perguntar: o que é que na realidade separa os homens dos outros mamíferos, particularmente dos restantes primatas com os quis está estritamente aparentado? Decerto que não será uma forma determinada e fixa que assinala o fenómeno humano, visto isso equivaleria a rejeitar como seres humanos as diversas configurações físicas que têm balizado a nossa evolução desde, pelo menos, há 3 ou 4 milhões de anos”. Assim, “nem na evolução filogenética, nem na embriogénese, a biologia pode marcar o momento em que começa o ser humano. Para ele trata-se de um falso problema.”
E sem percorrer todo o amplo campo de reflexão desenvolvido por Sacarrão gostaria de recorrer às suas considerações finais sobre este assunto e que me parecem extremamente produtivas: “No fundo, o debate sobre o verdadeiro começo da vida humana traduz um persistente regresso à questão das essências. No processo de desenvolvimento (ontogénico e evolucional) quando começa a essência humana? E a essência chimpanzé? Questão insolúvel para o biólogo (nem mesmo é uma questão para ele) porque a mudança seja ela individual ou histórica, é incompatível, em biologia, com a existência de essências como entidades intransmutáveis, conceito que Darwin desmantelou ao considerar a natureza e a origem das espécies. Darwin desdivinizou o homem, e com ele a biologia violou um domínio sagrado, o da origem e natureza do homem. Hoje entrou-se numa área intocável, a da reprodução e da hereditariedade, com intervenção nos alicerces do ser humano, na sua área germinal e embrionária, na sua própria fonte. À guerra do macaco vem juntar-se agora a guerra do embrião, numa ampla retórica metafísica”.
Isto escreveu Sacarrão em 1989, em 2007 o problema ainda não está resolvido e os defensores do “não” continuam, com a aparência de grandes verdades científicas, que chegam a ofuscar os do “sim”, quando ingloriamente se metem por estes caminhos, a utilizar a retórica metafísica para justificar as suas opções morais que, em última instância, são religiosas.

sábado, fevereiro 03, 2007

S. Cruz de Almodôvar



Assisti hoje a mais um concerto da série "TERRAS SEM SOMBRA", desta vez na encantadora igreja Matriz de S. Cruz, a Sul de Almodôvar. Agora isolado no meio do campo este templo do século XVI nasceu junto a um antigo caminho percorrido então pelos peregrinos de Compostela.

O "Consort Português Mal Temperado", com as suas flautas, deu-nos a ouvir música do manuscrito 964 da Biblioteca Pública de Braga.

Neste local tão especial as belas sonoridades das flautas faziam-me lembrar os orgãos de igreja para os quais as peças interpretadas foram originalmente escritas.

quinta-feira, fevereiro 01, 2007

Tendências Mundiais do Emprego


A OIT, Organização Internacional do Trabalho, publicou recentemente um relatório sobre o emprego a nível mundial.

A constatação mais importante é que o emprego gerado pelo crescimento económico, apesar de este ser elevado, não acompanha o crescimento da população.

A relação emprego/população apresenta um valor cada vez mais baixo.

Veja um resumo do relatório "Tendências Mundiais do Emprego" ou um vídeo do discurso de apresentação.