quinta-feira, março 29, 2007

"O Novo Capital", etc. e tal...

Há dias comecei a receber convites para o lançamento do livro “O Novo Capital” de Francisco Jaime Quesado.






Instituições como a APDSI, a Ordem dos Economistas e até o Instituto de Estudos Estratégicos e Internacionais anunciaram e promoveram a obra.
O Expresso de 17 de Março inseria mesmo uma referência com o suculento título “Afinal Karl Marx tem razão” completada com o destaque “Jaime Quesado recupera ensinamentos do filósofo alemão e aplica-os, no seu último livro, à Sociedade do Conhecimento”.

Fiquei entusiasmado já que, sendo o autor “gestor do POSC” Programa Operacional Sociedade do Conhecimento, um livro com tão ambicioso título trataria certamente das teorias de Marx à luz dos desenvolvimentos tecnológicos e organizativos da produção actual, ou vice-versa.
Quando consegui obter um exemplar deparei, logo na página 3, com uma reprodução do frontespício do “Das Kapital” seguida, em letra grande, da frase “Afinal, Karl Marx tinha Razão”. Tomei isso como uma confirmação das minhas expectativas.
Saltei para o fim do livro à procura da bibliografia, para saber que obras usara Quesado na sua análise. Não havia. Repito: não havia qualquer lista de livros consultados ou recomendados.
Fiquei um pouco surpreendido mas não desisti. Varri o livro de uma ponta à outra, são apenas 135 páginas em letra de formato grande e muitas fotografias, em busca das referências a Marx. Encontrei finalmente, a páginas 132, e resumem-se a isto:

“Nunca como agora Karl Marx passou a ter razão. Na moderna Sociedade do Conhecimento, os meios de produção, sob a forma de computadores, estão na posse dos trabalhadores que deles fazem o instrumento central duma geração de valor baseada nos imperativos da criatividade e da diferença estratégica. Caberá a estes “trabalhadores do conhecimento” imortalizados por Peter Drucker a difícil tarefa de demonstrar que a necessidade colectiva das organizações da utilização dos talentos tem que ser equilibrada com uma vontade individual dos talentos de se relacionarem com as organizações.”

E pronto. De Karl Marx estamos conversados.
Custou-me a acreditar que tudo se resumisse a uma “treta” de café ainda por cima muito mal contada.
Não é verdade que os computadores estejam “na posse dos trabalhadores” pois são na generalidade dos casos propriedade das empresas empregadoras, tal como não estão na posse dos trabalhadores as redes, a maior parte das bases de dados, a maior parte dos programas, e muitos outros componentes da infra-estrutura tecnológica actual.
Também é grave confundir computadores com criatividade pois pode não ter nada a ver uma coisa com a outra; pode-se ser muito criativo sem usar computadores e o inverso também é verdadeiro.

A utilização por Quesado da figura de Marx como “objecto decorativo”, para aumentar a visibilidade do seu livro, constitui um atrevimento detestável. Não se trata de considerar que Marx seja intocável para o comum dos mortais mas sim de exigir que um trabalho que tem pretensões ensaísticas seja feito com um mínimo de rigor e de seriedade. Este caso também revela uma total inconsciência já que o autor não parece perceber o ridículo a que se expõe.

Agora de um ponto de vista mais geral o livro aparece como uma manta de retalhos que tenta organizar, sob um mesmo “chapéu”, material que provavelmente terá sido usado em comunicações e apresentações avulsas.
É no entanto esclarecedor que esse trabalho de montagem apresente notórias faltas de cuidado; por exemplo o quadro de 5 pontos da pag. 67 aparece repetido com ligeiras diferenças nas pgs. 71 e 105. Há também lapsos de revisão que truncam palavras ou repetem bocados de frases (ex. pag. 71) tornando-as insondáveis.

Apesar dessas falhas que revelam uma menor consideração pelos leitores, não é condenável o facto de alguém reaproveitar trabalho seu anteriormente feito.
O que é mais gravoso é o facto de, para além de uma colecção de todas as “buzzwords” que soam nos círculos em que o autor se move, e abundantes citações dos autores estrangeiros de maior nomeada (prémio absoluto para a pag. 87 onde são citados 3 num único parágrafo), pouca matéria de fundo se descortinar no livro que não pudesse ter sido o conteúdo de um qualquer discurso de campanha feito por um dos nossos políticos “oficiais”.
Fez-me lembrar um programa que tínhamos na IBM, onde eu programava em COBOL ao tempo em que Quesado frequentava a primária, que a partir de tabelas de expressões e da escolha de um tema produzia tantas páginas de discurso quantas pedíssemos...

Se o autor fosse um cidadão qualquer que opinasse num “blog”, ou numa coluna de jornal, tudo se resumiria ao exercício da liberdade de expressão.
Tratando-se de um autor com particulares responsabilidades na execução de políticas relevantes, que gasta dinheiro dos cidadãos, e de uma obra tão entusiasticamente anunciada, constatar que a “montanha pariu um rato” não ajudará em nada as “Pessoas Normais” (a que o autor se refere na pag. 62) a confiar na clarividência das “Elites Locais” para as guiar perante “os desafios da globalização”.


A sessão de lançamento e o próprio livro contaram com a participação e mesmo os elogios de vários “notáveis” com destaque para o meio académico. Como é possível que tanta gente responsável, e tantas instituições, pactuem com a falta de rigor e de criatividade patentes neste livro de Quesado (apesar de por ele tantas vezes invocados) ?

A chave poderá estar nesta modesta declaração de Quesado sobre a sua própria carreira:

“Devo a riqueza única desse percurso, em larga medida confundido com a história mais recente do nosso país, à inelutável amizade de muitos “companheiros de geração”, imbuídos desde sempre de um ideal de reformismo positivo para o qual tenho tentado também dar o meu contributo.”

Será que os altos cargos públicos e o poder neles implícito, para além de todas as mordomias já conhecidas garantem agora, também, a irresponsabilidade intelectual ?

3 comentários:

Jorge Nascimento Rodrigues disse...

A questão de Marx prender-se-á ao facto – que não sei se está citado no livro, não me recordo – de um dos pontos de vista do falecido Peter Drucker sobre os trabalhadores do conhecimento poderem controlar os seus meios de produção, pela razão de que detém um activo fundamental, mais importante do que os factores clássicos de produção: o conhecimento. Em contraste, os proletários do século XIX-XX não deteriam o saber suficiente para poder obter o controlo dos meios de produção. O saber capaz de criar valor de mercado, na altura, estava na cabeça dos capitães de indústria e depois nos financistas da época do imperialismo.

A coisa começa a complicar-se quando surgem os executivos, os gestores a partir dos anos 1920/1930, com saber capaz de gerir os negócios sem necessidade dos proprietários formais das empresas.

O novo capital (termo que o Drucker não usou, mas que pode ser um conceito fácil de apreender; tem sex appeal, confesso) é o conhecimento/o saber pessoal quando efectivamente usado (quando transformado em valor – quando passa de valor de uso a valor de mercado, seguindo a linha de raciocínio do Kapital, se me lembro bem de algo que li há quase 40 anos) e quando os protagonistas disso tomam consciência (consciência subjectiva, de si próprios como “novos capitalistas”).

O Drucker chamava a atenção de que esta consciência alterava o comportamento deste tipo de gente e da forma de negociação e de relação contratual que estabeleciam com os donos do velho capital. Mas, no fundo, ele dizia que era a ampliação do que os profissionais liberais (que basicamente usam o conhecimento) em actividades muito restritas sempre fizeram no passado.

Drucker remetia para a forma como Marx abordara o assunto na sua época (em relação ao proletariado alienado dos meios de produção) e daí disse a dado passo que o objectivo de desalienação, de apropriação, se consumava agora, paradoxalmente, com uma nova camada social emergente formada quer por uma elite, como pelos tecnólogos (uma camada mais “baixa”) que viviam do seu trabalho (intelectual ou intelecto-manual), que se massificaria no século XXI.

Há um reitor canadiano, seguidor de Drucker neste assunto, que é ainda mais radical, e anteviu a possibilidade de uma nova luta pelo poder entre esta camada emergente e os actuais detentores do poder económico (os financeiros e os capitalistas tradicionais em geral) algures durante o século XXI. Entrevistei-o há uns anos.

Bom, esta treta toda para dizer que agitar o tema do novo capital me parece boa ideia. Relevo esse aspecto, independentemente de aspectos de crítica.

Quanto ao fundo do problema, se Marx tinha ou não razão – é outro debate. Ele apercebeu-se de um protagonista emergente no sec XIX e definiu uma teoria, uma visão (uma sociedade ideal) e uma politica em torno disso. Viveu aliás em 1848 e em 1871 essa evidencia. Mas a História trocou (lhe) as voltas, pois troca sempre as voltas aos idealismos.

Esse protagonista nunca efectivamente teve poder – uma camada radical de profissionais da politica (que o Lenine chamaria de pequeno-burguesa, onde se inseria ele próprio e várias gerações desde os anos 20, incluindo a minha) exerceu o poder politico em seu nome, mas o sistema que desenvolveu implodiu (Russia) ou teve de se reformar (China).

E, ironia da história, ironia da dialéctica materialista (que só prega partidas), a transformação do sistema, sobretudo a partir dos anos 1970, seria levada a cabo por uma camada de novos capitalistas (ligados ou filhos das inovações tecnológicas dos anos 40 a 60) e pela tal massificação dos trabalhadores do conhecimento.

Voltamos ao princípio desta conversa – o proletariado industrial não detinha o saber, o conhecimento, para controlar os meios de produção, e muito menos gerir a sociedade (apesar do dito de Lenine de que o poder deveria sair do pedestal e poder ser exercido por uma mulher de limpeza). Uma camada pequeno burguesa, profissional da politica, utilizou efectivamente conhecimento acumulado através de um novo tipo de organização para controlar esses meios e gerir a sociedade. Mas a roda da mudança da História tornou o conhecimento de que dispunham obsoleto e como eram organizações e sociedades sem dinâmica de inovação não conseguiram alterar-se.

F. Penim Redondo disse...

Caro Jorge,

A sua intervenção é bastante rica acerca do Drucker mas, como sabe, o meu texto não se destinava a criticar os livros do Drucker mas sim o livro do Quesado.

Embora eu admire Drucker discordo dele em vários pontos a saber:

- Ele considera que o conhecimento é uma categoria económica independente e eu penso que conhecimento e trabalho são uma e a mesma categoria
- Não confundo trabalho e trabalho assalariado pois não são a mesma coisa
- Não gosto muito do conceito "trabalhadores do conhecimento", embora a perceba, pois prefiro a ideia de que todos os trabalhadores, em graus diferentes, aplicam conhecimento.
As noções de trabalho e de conhecimento necessitam aliás de muita reflexão pois a maior parte dos autores ainda confunde por exempo conhecimento e informação.

Penso que no meu livro deixei estas ideias bastantes claras.

Voltando ao livro do Quesado. Eu embirro um bocado com a formula "Novo Capital" porque penso que o que está a acontecer é sim o surgimento de um "Novo Trabalho", não repetitivo, criativo, etc, etc.
A expressão "Novo Capital" encerra também uma opção ideológica e, implicitamente, propõe a perpetuação da sociedade capitalista sob novas roupagens.

Neste contexto as frases bombásticas como "Tudo será diferente" são óbviamente equívocas porque aqueles que as dizem afinal querem continuar a organizar a economia à volta das empresas que são "velhas" entidades surgidas no dealbar do capitalismo.

Também não gosto de pegar nestas questões pelo lado da propriedade como faz o Toffler no seu último livro (2006). Digamos que eu considero, e escrevi em 2003, que a propriedade é apenas um pretexto, uma justificação, para o estabelecimento de relações de produção parasitárias.

Ao nível das relações de produção é que se estão a dar as grandes transformações e o resto virá por acréscimo.

O que me levou desagradou neste livro do Quesado foi ele ter aflorado, levianamente, uma questão que tanto me tem dado que pensar desde pelo menos 1990. Constato, embora já o devesse saber, que todo o trabalho muito mais profundo que eu penso ter feito nunca conseguirá ter a visibilidade merecida só porque eu não pertenço a determinados "clubes".

Confrange-me que tantas pessoas influentes continuem apenas a papaguear os gurus do momento, sem uma reflexão própria e sem lhes acrescentar nada.

Como todos sabemos aqueles que só copiam e não inovam nunca passam da cepa torta.

Jorge Nascimento Rodrigues disse...

FPR - Ele considera que o conhecimento é uma categoria económica independente e eu penso que conhecimento e trabalho são uma e a mesma categoria.

JNR: Nunca discuti essa questão com ele.

FPR - Não confundo trabalho e trabalho assalariado pois não são a mesma coisa

JNR: efectivamente; além do mais há trabalho que nem é assalariado nem por lucro /há trabalho non profit/

FPR - Não gosto muito do conceito "trabalhadores do conhecimento", embora a perceba, pois prefiro a ideia de que todos os trabalhadores, em graus diferentes, aplicam conhecimento.

JNR: Todos aplicam de facto, e desde a idade da pedra; mas o problema é a capacidade de fazer desse conhecimento pessoal implícito uma massa crítica que permite transformá-lo num negócio. Isso começou com as profissões liberais mas foi-se massificando. O Drucker acrescenta além dos trabalhadores do conhecimento “puros”, os tecnólogos (que têm um mix de conhecimento e “manual”, como ele diz). O valor que vejo no conceito é politico – apesar do Drucker sempre recusar isso. Politico no sentido – de definir um segmento emergente, claramente identificável, que sobressai da massa de trabalhadores (e investidores e capitalistas).Além do mais a meu ver há uma fracção que eu chamaria de capitalistas do conhecimento (inovadores, investidores, criadores de start ups, que além de trabalhadores são também capitalistas no sentido comum do termo).

FPR - As noções de trabalho e de conhecimento necessitam aliás de muita reflexão pois a maior parte dos autores ainda confunde por exempo conhecimento e informação.

JNR: Exacto; conhecimento não é informação. Na apresentação do livro confundiu essas coisas. As pessoas falam muito ligeiramente de sociedade de informação.

FPR - Penso que no meu livro deixei estas ideias bastantes claras. Voltando ao livro do Quesado. Eu embirro um bocado com a formula "Novo Capital" porque penso que o que está a acontecer é sim o surgimento de um "Novo Trabalho", não repetitivo, criativo, etc, etc. A expressão "Novo Capital" encerra também uma opção ideológica e, implicitamente, propõe a perpetuação da sociedade capitalista sob novas roupagens.

JNR: Pois é nesse ponto que divergimos – não meto a ideologia na análise. Por causa disso os comunistas andaram dezenas de anos a falar do fim eminente do capitalismo. Mas isso é outra discussão.

Eu creio que o segmento emergente não é só de trabalhadores, mas também de um novo tipo de capitalistas, baseados no conhecimento implícito e explicito. Aliás entre os trabalhadores do conhecimento e os capitalistas do conhecimento a fronteira é fluida, e cada vez mais fluida.

Há as duas coisas, novo trabalho, e novo capital.
Há também uma nova fracção do capital financeiro que ultrapassa em muito o velho conceito do Hilferding (e que Lenine usou). È um capital financeiro que alavanca precisamente a revolução do conhecimento (capitalistas de risco, business angels, fundos de private equity que são conglomerados de participaçoes em negócios do conhecimento em que intervém directamente na inovaçao , novos ricos baseados em negócios do conhecimento, criados por eles próprios – EUA e India está cheio deles).

Avançamos de facto para um novo novo estádio supremo, se assim quiser, do capitalismo –não faço ideia se será “final”.

Não se trata de perpetuação no sentido histórico – isto do capitalismo (no sentido comum do termo), é coisa de uns 300/400 anos não mais; é coisa ainda recente em termos históricos. Há quem o defina com a Revol Industrial, outros com o aparecimento das primeiras companhias societárias e bancos na Holanda e em Inglaterra em 1600 e picos.

Só se marcarmos o início no capitalismo no capitalismo comercial e institucional chinês do século IX-X (muito anterior ao europeu mediterrâneco), poderemos dizer que já é milenar. mas nesse caso teve transformações, do comercial inicial, para o industrial, depois para o financeiro (que Hilferding analisou) e mais recentemente para o baseado no conhecimento (?),digo eu.

FPR - Neste contexto as frases bombásticas como "Tudo será diferente" são óbviamente equívocas porque aqueles que as dizem afinal querem continuar a organizar a economia à volta das empresas que são "velhas" entidades surgidas no dealbar do capitalismo.

JNR: Não sei se será por razoes de ideologia; creio que as pessoas dizem essas frases por razoes mais comezinhas, de puro discurso da treta, que é moda. Muitas vezes nem sabem muito bem o que isso implica.


FPR - Também não gosto de pegar nestas questões pelo lado da propriedade como faz o Toffler no seu último livro (2006). Digamos que eu considero, e escrevi em 2003, que a propriedade é apenas um pretexto, uma justificação, para o estabelecimento de relações de produção parasitárias.

JNR: Pois aí, Discordo. A propriedade não é pretexto só de relações de produção parasitárias (o parasitário está mais ligado ao sentido “rentista”, rentier, pelo menos a mim me soa assim, não será?). Se se quer referir à questão da exploração da mais valia, isso já nos manda para outra discussão.

A questão da propriedade é hoje ainda mais central no enquadramento legal e jurídico das coisas – a propriedade intelectual do conhecimento implícito que cada um dos tais trabalhadores e capitalistas do conhecimento tem. Que eu e você temos, apesar de trabalhadores pequeno burgueses do conhecimento. Uma das batalhas do futuro será em torno destes direitos de propriedade.

FPR - Ao nível das relações de produção é que se estão a dar as grandes transformações e o resto virá por acréscimo.

JNR: Creio que a matriz clássica economista (Ricardo, etc) e do próprio Marx já não chega para analisar o que se passa. Aliás o próprio Marx ao recorrer à dialéctica, ia para além disso. Sempre tive grande mal-estar com essa coisa do “vir por acréscimo”.

Ora com a massificação do conhecimento implícito como meio de produção, o tal “imaterial” sobredetermina (se quiser um palavrão althusseriano de há 30-40 anos atrás) o resto cada vez mais. Foi isso que alguns trabalhadores, inovadores, investidores e novos capitalistas descobriram e por isso estão realizando valor em quantidades inacreditáveis.