quarta-feira, maio 19, 2010

Histórias da Idade de Oiro

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Fui ver o filme "Histórias da Idade de Oiro" ou, em romeno, "Amintiri din epoca de aur".

Os últimos 15 anos do regime de Ceausescu devem ter sido os piores na história da Roménia. No entanto, a máquina de propaganda referiu-se a essa época como os anos de oiro… Mitos urbanos surpreendentes, cómicos, bizarros abundavam, mitos que derivavam de acontecimentos por vezes surreais do quotidiano.

Cinco histórias anedóticas, da autoria de Cristian Mungiu, tratadas por cinco diferentes realizadores, compõem este filme divertidamente amargo.
Nós, os mais velhos, sabemos que a Roménia destes tempos era um regime repressivo, em que imperava o culto da personalidade do "grande líder".
Mas o quadro só fica completo se acrescentarmos a penúria geral, e a geral interiorização da repressão. Um regime baseado no faz de conta.
Os cidadão faziam de conta que amavam o "grande líder", as aldeias faziam de conta que estavam alfabetizadas a 99%, os jornais faziam de conta que Ceausescu era mais alto do que Giscard d'Estaing e todos fingiam ir a caminho do Comunismo.
O problema é que, num regime destes, mesmo um ingénuo estratagema de sobrevivência fácilmente se transforma num enorme crime.

A penúria, a auto-repressão, o incensar do líder, e o fazer de conta continuam infelizmente, em dosagens variáveis, a surgir nas mais insuspeitas situações, mesmo quando o verniz democrático ainda não estalou.
Vendo bem só passaram vinte anos sobre a execução de Ceausescu.
Moral da história: há que estar atento aos fundamentos de qualquer engenharia social que nos proponham. Os nossos projectos de futuro já se terão libertado completamente do  Ceausescu que existe por trás de cada esquina, senão mesmo dentro de cada um de nós ?


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3 comentários:

Manuel Vilarinho Pires disse...

Comentário brilhante, Fernando!
Eu, mesmo nos meus tempos de miúdo reaccionário a lançar provocações aos colegas comunas no escritório, nunca conseguiria fazer tão engraçado!
Um abraço!

Luis disse...

O teu comentário reflecte a ironia com que são representados aspectos caricatos da sociedade socialista romena; claro que eu não retiraria as ilacções implacáveis e definitivas desse modêlo; ao fim e ao cabo o filme transpira uma vida do faz de conta no quadro de um quotidiano medíocre mas igualitário. Não haverá quem goste e aspire a uma vida conventual?

F. Penim Redondo disse...

A grande questão, que ainda não está resolvida, é a do equilíbrio entre o voluntarismo e a compreensão dos mecanismos sociais.

Se é verdade que só uma visão esclarecidamente vanguardista permite fazer avançar a sociedade humana para patamares mais elevados também é verdade que nem todos os resultados são possíveis a partir de um determinado ponto inicial.