quarta-feira, maio 04, 2005

O mal





O Mal

por Miguel Poiares Maduro



Fui ver A Queda e gostei. Trata-se do muito discutido filme sobre os últimos dias de Hitler no seu bunker em Berlim. Alguns criticam uma hipotética humanização de Hitler no filme. Não estou de acordo. O filme demonstra que Hitler é humano mas isso é bem diferente de o humanizar. Não nos suscita compaixão por ele. Apenas nos demonstra que Hitler é também "um de nós". E isso é o que o filme tem de perturbador e importante. É que só reconhecendo Hitler como humano podemos entender como é que ele foi possível e impedir a sua repetição. O filme permite-nos reflectir sobre a natureza do mal. O mal que se manifesta na figura de Hitler mas também o mal muito mais disperso e difuso que permitiu Hitler e o nazismo.

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2 comentários:

Rosa Redondo disse...

Dos comentários do Miguel Poiares Maduro, com os quais concordo, gostaria de destacar como mais originais e relevantes os dois últimos parágrafos: “O "sucesso" nazi assentou na diluição da responsabilidade individual e na eliminação do juízo crítico . (etc. etc.”)
Porquê? Porque são exactamente a diluição da responsabilidade individual e a eliminação do juízo crítico dois dos componentes básicos da nossa cultura sócio-politica! Sendo o 3º, directamente relacionado com aqueles dois, a expectativa da salvação vinda do “alto”( pai, patrão, estado, deus, etc.).
Embora tendo a noção de que a partir dos mesmos elementos não se chega necessariamente ao mesmo resultado (nem na química, quanto mais nas sociedades humanas!), tudo isto leva a questionar se, com o “homem certo” agitando a “bandeira adequada,” não teríamos em Portugal um terreno fértil para projectos que andariam muito longe dos princípios humanistas que todos, arreigadamente e sem excepção, afirmamos defender...
Mesmo sem chegar a extremos dessa ordem, parece evidente, como diz Poiares Maduro, que a capacidade de juízo crítico ou de auto-reflexão individual está a ser “substituída ou pela adesão a uma certa moral que nos é dada ou, no pólo contrário, pela diluição da nossa capacidade de pensar e juízo crítico numa hipotética natureza estranha à nossa vontade.” Curiosamente esta desordem do metabolismo ético-intelectual parece ser selectiva, no sentido em que, por exemplo, uma pessoa pode demonstrar grande espírito crítico na análise politica e perder toda a capacidade de reflexão quando está em causa o seu clube de futebol! Receio bem até que ela seja como aquelas bactérias de que todos somos portadores, mas muitas vezes assintomáticos!
Do ponto de vista prático individual a prevenção passa por cada um de nós reconhecer que não é imune à infecção!
Do ponto de vista da intervenção social, a questão é mais complicada pois aponta ao cerne da nossa vida politica: a organização partidária. À qual assenta como uma luva a frase: ”Uma filiação identitária ou uma desculpa naturalista que nos permite evitar aquilo que é realmente difícil mas necessário: um processo de reflexão pessoal dominado por um juízo crítico”. Ou para ser ainda mais rigorosa, aponta à própria organização ideológica.

O Raio disse...

Há uma certa tendência para personificar "O Mal" em Hitler.
Não concordo de nenhuma forma com esta atitude. Hitler era um político criminoso, dos piores, mas era um ser humano, e como tal o devemos considerar, quanto mais não seja para não cairmos noutra.
Depois isto de colocar Hitler a personificar "O Mal" iliba outros tão maus ou piores.
Por exemplo, Leopoldo II, Rei dos belgas deve ter batido amplamente Hitler em número de mortos tendo reduzido numa dezena de anos a população do Congo a menos de metade. E, no entanto, Hitler personificaria o mal e quanto a Leopoldo II nem o Estado Belga lhe reconhece a qualidade de criminoso...