segunda-feira, dezembro 09, 2013

É um equívoco propor o derrube imediato do governo

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- É um equívoco propor o derrube imediato do governo ? 
- É ! 
- Porquê ?


Por duas razões evidentes:
1. Não sabemos o que fazer a seguir
2. Faz supor que a remoção do governo, só por si, resolveria os nossos problemas o que impede de nos concentrarmos nas questões fulcrais.

É incrível o número de pessoas sérias e inteligentes que continuam a acreditar na narrativa infantil que nos diz que os nossos problemas se devem:

1. À ganância do capital e aos desmandos da banca.
Eles realmente existem, mas já existem há muito tempo e em todas as latitudes. Se fosse essa a única causa dos problemas actuais ela ter-se-ia feito sentir anteriormente e em todos os países, e não só em alguns.

2. Aos erros do actual governo, motivados pela incompetência e fanatismo ideológico.
O governo actual cometeu sem dúvida muitos erros e, como não podia deixar de ser, governa de acordo com a sua ideologia.
Mas ninguém ignora que os problemas já existiam quando tomou posse e que nunca conseguiria, em pouco mais de dois anos, pôr o país no estado em que ele está mesmo aplicando uma ideologia por mais hedionda que ela fosse.

Quais são então os factores, para além da proverbial ganância capital e dos erros do governo, que devíamos ter em conta:

1. A globalização
A procura e a oferta tornam-se cada vez mais globais, todos concorrem com todos na obtenção de encomendas, matérias primas, mão-de-obra barata e investimento.
As gigantescas disparidades criadas pelo sistema colonial, e pelas suas sequelas, geraram uma espécie de vórtice gigantesco que aspira a actividade económica dos países ricos para os países emergentes. A escassez de capitais para investir e portanto a subida dos juros, bem como o desemprego, são as consequências mais notáveis que se traduzem no empobrecimento gradual do “ocidente”
  
2. A revolução tecnológica
É uma das forças por trás da globalização, mas tem outras consequências menos óbvias.
A automatização do trabalho repetitivo, quer manual quer intelectual, levou ao aparecimento de produtos cuja quantidade não depende directamente do trabalho aplicado.
Por outro lado as novas potencialidades da comunicação transformaram a relação dos consumidores com as mercadorias; deixaram de ser presenciais e baseiam-se agora na “imagem”, fazendo transitar o conceito de criação de valor da actividade produtiva/industrial para a área da concepção/marketing.
Estas poderosas tendências lançam em crise profunda o modelo de relações de produção do capitalismo tradicional, baseado no assalariamento.

3. Os erros acumulados nas últimas décadas
Há muito que a globalização e a revolução tecnológica deveriam ter estado no centro de importantes decisões estratégicas que os sucessivos governos, nas últimas décadas, não tomaram.
Instalados confortavelmente na “Europa” pensávamos estar protegidos do tsunami que se estava a formar; com arrogância invocávamos a superioridade dos nossos sistemas sociais, como se alguma entidade superior os pudesse garantir mesmo quando a nossa economia soçobrasse.
As questões da tecnologia eram vistas só como questões do ensino e da “qualificação” sem perceber que o que está em causa é a necessidade de um novo quadro de relações na produção.
Quando os capitais debandaram para oriente, chamados por rentabilidades muito superiores, de repente a política de projectos para “encher o olho”, não reprodutivos, entrou em acelerada decomposição.
Foi assim que caímos na crise actual; por não fazermos os investimentos necessários e por fazermos os investimentos com que nos endividámos.

Conclusão
O equilíbrio das contas públicas e das trocas com o exterior é imprescindível mas não garante nada.
Se não houver a compreensão dos desafios globais e tecnológicos, se não houver  congregação de esforços e disciplina, o empobrecimento e a decadência do nosso país (tal como de muitos outros na Europa) é apenas uma questão de tempo.
Concentrar as atenções e as motivações no derrube do governo é não só uma trapaça como também uma condenação ao insucesso.


5 comentários:

Anónimo disse...

Penso, Fernando, que te perdeste.
Qualquer dona de casa iletrada tem solução para o assunto. E embora reconheça que és muito letrado penso que te perdeste no teu labirinto. Sê simples - e verás que o sonho é possível, que comanda a vida: que não ficamos à espera, que não queremos assistir, sentados, à destruição das nossas vidas, de sermos conduzidos a novas escravidões.

João Pedro (digitalizado)

PS: Não venhas aí com o fel, sff.

F. Penim Redondo disse...

João Pedro,
não achas que já é tempo de parar de cometer sempre os mesmos erros?
O resultado da tua acção, irreflectida, é apenas levar ao poder o Seguro, ou outro parecido, contra o qual estarás a gritar logo depois.
Pára um pouco para pensar, é preciso encontrar novos caminhos

Anónimo disse...


Caro Fernando, como bem sabes, o Mundo move-se ! Não estamos condenados a escolher o algoz que nos vai tratar da saúde, chame-se ele Passos, Seguro ou outro da mesma laia. Outro Mundo é possível. Só os que desistiram de lutar não pensam assim.

João Pedro

Luis disse...

Fernando: Sem entrar em muitas conjecturas parece evidente que ainda nos resta alguma soberania e , nesse pressuposto,temos que cuidar da nossa casinha e limpá-la de todos os trastes.A receita do FMI e quejandos( e tu sabes)é sempre igual e com consequências desastrosas.Não, não há bodes espiatórios e, de facto,temos o país que temos com as pessoas que nele habitam.Temos uma democracia recente,construída aos encontrões e sobre um povo
pouco habituado a pensar e avesso à dialéctica do diálogo e a considerar-se cidadão.Que fazer?

Luis disse...

Fernando: Sem entrar em muitas conjecturas parece evidente que ainda nos resta alguma soberania e , nesse pressuposto,temos que cuidar da nossa casinha e limpá-la de todos os trastes.A receita do FMI e quejandos( e tu sabes)é sempre igual e com consequências desastrosas.Não, não há bodes espiatórios e, de facto,temos o país que temos com as pessoas que nele habitam.Temos uma democracia recente,construída aos encontrões e sobre um povo
pouco habituado a pensar e avesso à dialéctica do diálogo e a considerar-se cidadão.Que fazer?