sexta-feira, maio 01, 2026

PROJECTO GLOBAL


PROJECTO GLOBAL
O filme de Ivo Ferreira ajuda a repensar finalmente o radicalismo armado de esquerda dos anos 80, em plena democracia.
Ponho-me a pensar sobre o efeito deste filme em quem não viveu o 25 de Novembro e os "anos de chumbo" que se lhe seguiram. Não chego a nenhuma conclusão.
Quem, como eu, viveu esses tempos na militância do PCP esteve mais protegido dos desesperos e desvarios que o filme mostra. Ou seja, eu percebo como as pessoas das FP-25 chegaram ao ponto a que chegaram. Mas não aceito que a "esquerda folclórica" (como nós diziamos então) tenha transformado o seu irrealismo vagamente simpático numa tragédia sangrenta.
Eu sei que a ideia da insurreição, que o próprio 25 de Abril como que santificou, nunca foi posta nas suas proporções, ou seja, mesmo os partidos responsáveis nunca explicaram que as insurreições podem substituir regimes políticos mas não substituem sistemas sócio-económicos ("modos de produção" nos termos de Marx).
Por isso não faz sentido dar tiros em alguns "patrões" avulsos, por muito gananciosos que sejam, como forma de acabar com o capitalismo e, ainda menos, do imperialismo.
As ideologias mal assimiladas, aprendidas em panfletos de resumo, continuam infelizmente a existir passados 46 anos.
Entre o 25 de Novembro 75 e 1980, o início das FP-25, o povo votou duas maiorias da AD de direita, acima dos 45%. Nas presidenciais de 1980 Otelo, o símbolo do 25 de Abril, teve menos de 1,5% dos votos.
É preciso estar completamente alienado da realidade social, a funcionar num circuito fechado de amigos consensuais, para pensar que o povo só espera alguns atentados e bravatas para derrubar o capitalismo (mesmo que fosse claro o que seria posto no lugar dele).
Foi com nostalgia e assombro que assisti ao filme e ao descalabro inevitável em episódios que, conspirativamente, oscilavam entre o ridículo e o trágico.
Os espectadores interessados podem aprender muito com este filme de excelente manufactura. Por exemplo, o mal que pode vir das verdades absolutas e da diabolização dos adversários políticos. Também é importante perceber de onde vêm os verdadeiros perigos e que forma têm os mais perigosos adversários. Tal como em 1980 contiuamos a ver exorcizar o "fascismo", quando aquilo que realmente se perfila no nosso tempo vem sendo designado por "tecno-feudalismo".
Males que perduram e a que as redes sociais deram novo alento.
Não sei por que razão o filme é projectado com legendas em inglês. Alguém se esqueceu de que os portugueses estão, desde pequeninos, automatizados; quando surgem as letrinhas há que as ler rapidamente. Agora imaginem o inferno de estar a ler em inglês enquanto se ouve em português. É pena.

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