sábado, maio 30, 2020

A Memória das Prateleiras (36/n) - Kubrick e a Web saloiice



A Memória das Prateleiras (36/n)
Kubrick e a Web saloiice
O confinamento permitiu-me ver novamente "2001 Odisseia no Espaço", o extraordinário filme do Kubrick.
Quando ele foi estreado em Portugal eu estava na guerra, na Guiné, por isso só pude vê-lo mais tarde, quando em 1970 entrei para a IBM.
As pessoas de hoje devem ter dificuldade em imaginar o impacto do filme naquela época, ao mostrar um computador que conversava com os astronautas e que acabava por "tomar o freio nos dentes".
Para se ter uma ideia desse impacto basta dizer que na IBM em Lisboa, na maior empresa do ramo das TIC, os computadores com que eu trabalhava eram alimentados com cartões perfurados, faziam (lentamente) uma tarefa de cada vez e comunicavam com o operador escrevendo na impressora (não havia qualquer terminal com écran).
O filme era assumidamente especulativo e, pelo que li, cientificamente credível.
Quis o acaso que eu associasse o filme com o Web Summit, que os nossos tecnológicamente iletrados governantes cavalgam como "a última Coca-Cola no deserto".
Será que fazem ideia do número de coisas do género, muito em voga nos anos 80 e 90 do século passado, que já aconteceram por esse mundo fora? Nesses eventos não apareciam, a pavonear-se, primeiros ministros nem presidentes da república.
Eu próprio frequentei algumas dessas realizações em Berlim, Nova York , São Paulo e São Francisco (por exemplo), o que era aliás comum para todas as pessoas profissionalmente envolvidas nas questões da computação
A memória é curta embora as dos computadores não parem de embaratecer e expandir-se.
Algumas das buzzwords actuais têm barbas. Há décadas que se anuncia para breve a explosão da "inteligência artificial" e dos robots em casa a limpar o pó. Hoje a IA voltou a estar na moda embora, em muitos casos, virada essencialmente para exploração de gigantescos bancos de dados. O interesse comercial e político dessas abordagens é inquestionável, mas não tem nada a ver com a ilusão ficcional tradicional dos computadores antropomórficos, com vontade e aspirações como têm os humanos.
Como dizia o Azimov, citando de memória: “se ao menos conseguíssemos fazer algo tão inteligente como uma formiga”. Claro que ele se referia à capacidade de uma formiga para reagir à imprevisibilidade do mundo real.
O mal destas coisas é o sensacionalismo com que são apresentadas não só pelos jornais, o que seria compreensível, mas até por pessoas com cargos importantes nas empresas de tecnologia e na política.
Fogem, uns e outros, do debate sério e fundamentado que nos faça compreender as consequências laborais e sociais da revolução tecnológica iniciada com a invenção da representação binária da informação.
Essa raiz digital da gigantesca árvore tecnológica que hoje presenciamos não é convenientemente explicada nas escolas, para que se perceba de onde surgiu tudo o que hoje nos maravilha.
Uma das coisas que mais me divertiu no filme do Kubrik foi ver como os objectos de uso comum em 2001 eram imaginados em 1968.
Lá estava a video-chamada, mas não ao nível do telemóvel como hoje temos. A máquina fotográfica usada numa das cenas não tinha nada a ver com as que usamos desde o princípio do século XXI.
Isso não é de espantar num filme de ficção. A verdade é que ninguém, mesmo ninguém, previu alguns dos desenvolvimentos mais marcantes da nossa época; as redes sociais, o mapeamento do mundo conjugado com GPS e até o advento da maior fonte de automação actual os "utilizadores/funcionários".
Quase todos nós acabamos por preencher formulários, escrever textos e publicar imagens on-line. São elas que abastecem os bancos de dados das grandes corporações privadas e dos organismos públicos. Dispensando-os de contratar os empregados que deveriam executar esses serviços.

sexta-feira, maio 29, 2020

A Memória das Prateleiras (35/n) - O Carimbo



A Memória das Prateleiras (35/n)
O Carimbo

No tempo da outra senhora os carimbos eram muito úteis na actividade clandestina.
Quando se precisava de enviar correspondência usava-se um carimbo de casa comercial, fictícia, para dar ao envelope um ar insuspeito.
Foi por causa disso que eu descobri, para meu espanto, que era fácil encomendar carimbos da “Fábrica Mundial de Carretos, Lda” ou da “Electrificadora Ideal da Pampulha, SARL”, sem nos pedirem qualquer documento ou identificação.
Várias vezes recorri, para o efeito, a uma loja de gaveto, na Rua do Ouro. A princípio temeroso, prescrutando o rosto dos funcionários à procura de um sinal de falsidade. Olhando à volta para perceber se alguém se interessava pela minha encomenda. Mais tarde, confiante, e desinibido.
O carimbo é talvez o melhor símbolo da burocracia. Mas o fundamento da burocracia são sempre regras absurdas, ou demasiado complexas, que só alguém com um carimbo (lá está) pode desbloquear. Com ou sem suborno material.
Voltei a recorrer ao carimbo uns anos mais tarde.
O meu pai, que viajara para os Estados Unidos numa estadia longa, em visita à minha irmã, pediu-me que lhe recebesse e depositasse a pensão de reforma.
Como não havia transferência automática para o banco, todos os meses eu tinha uma via sacra. Recebia o aviso na caixa do correio do meu pai e ia levantar o dinheiro nos Correios para depois efectuar o depósito na conta bancária dele.
Ora nos Correios, não sei por que carga de água, exigiam um carimbo do comércio local, para atestar a conformidade dos documentos. Todos os meses eu tinha portanto que importunar algum lojista que, enfadado, carimbava de cruz a papelada.
Farto da situação lembrei-me da loja de carimbos da Rua do Ouro. Mandei fazer um carimbo onde figurava “Representações Portela, Lda”, tendo por baixo a minha morada.
Se virmos bem eu até estava a actuar em representação do meu pai, e isso ocorria na Portela. Portanto o carimbo não enganava ninguém.
Nos Correios nem pestanejaram. Ou seja, tratava-se de um pro-forma que ninguém verificava e que, como grande parte das burocracias, só servia para incomodar. Ao cidadão assiste o direito de resistir, por todas as formas, a tais desconchavos.
Mais tarde, estava minha mãe nos oitenta e muitos, tive uma nova experiência com a burocracia.
Ela, felizmente, tinha mantido uma invejável mobilidade e ganhara o hábito de frequentar o jardim fronteiro aos Jerónimos. Nunca cheguei a saber se isso também tinha a ver com uma “cegueira” que nunca a abandonou: o jogo. Eu adivinhava-a frequentadora de bingos e, claro, grande consumidora de lotarias. A minha mãe teria delirado com a raspadinha actual.
Ora para ir até Belém a minha mãe tomava o autocarro. Descobri que ela por vezes se “esquecia” de comprar bilhete no dia em que, alvoroçada, me mostrou uma notificação da Carris. Um “revisor” mais justiceiro apanhara a vetusta senhora sem bilhete e aplicara-lhe uma multa. Que era preciso ir liquidar.
Dirigi-me a Alcântara onde me mandaram para uma grande nave com guichets uns ao lado dos outros. No guichet número 7 apresentei a notificação, no guichet número 2 produziram a guia de liquidação e, finalmente, no guichet número 5 procedi ao pagamento.
Mas foi o mesmo empregado que me atendeu nos diferentes guichets e eu podia vê-lo, lá dentro, fazendo o mesmo percurso que eu fazia do lado de fora, saltando de uns guichets para os outros.
Uma cena que Federico Fellini não desdenharia.
O carimbo ainda hoje o mantenho, para o que der e vier.

quinta-feira, maio 28, 2020

A Memória das Prateleiras (34/n) - O Mandado de Captura



A Memória das Prateleiras (34/n)
O Mandado de Captura

A mulher a dias já me tinha dito que a GNR batia à porta, de vez em quando, depois de eu ter saído para o trabalho.
Eu, na altura, por razões profissionais, era multado muitas vezes por dificuldades no estacionamento quando visitava os clientes. Calculei que devia ser essa a razão e não dei grande importância.
Meses antes tinha sido visitado no emprego por um polícia fardado anunciado telefónicamente pelo recepcionista:”Senhor engenheiro, está aqui um guarda à sua procura”. “Desço já”. Ao sair do elevador fui abordado pelo agente que, com ar compungido, deixou desdobrar uma colecção de multas como se fosse uma espécie de cauteleiro (não da sorte mas do azar). Lá me livrei dele com uma multiplicidade de promessas.
Já tinha desenvolvido um método para lidar com os guardas autoantes, quando era apanhado em flagrante delito. Consistia em reconhecer imediatamente a minha culpa e iniciar um crescendo sobre a gravidade do acto que acabara de cometer. Em minha opinião eu não merecia qualquer perdão.
Era certo e sabido que, ao fim de algum tempo, o próprio guarda, chocado com tal exagero, começava a relativizar o sucedido. Nesse ponto convinha iniciar uma aproximação ao tema “quem nunca pecou que atire a primeira pedra” e quase sempre a conversa terminava com o guarda a confidenciar as agruras da sua profissão.
Certa vez até houve um que me explicou a dificuldade de ir a tribunal com casos de mau estacionamento, dois ou três anos depois das ocorrências, quando a memória do caso em apreço já se desvanecera. Aproximando a sua cara disse-me: “Quando vejo que o juiz está a fraquejar, a tender para o perdão do faltoso, só tenho um remédio. Digo que o multei por ter visto um ceguinho tropeçar no carro que estacionara em cima do passeio. A condenação era garantida.”.
Vivíamos naqueles gloriosos tempos em que a tramitação das multas se prolongava anos a fio, o que permitia sonhar com a prescrição ou com uma visita papal e a correspondente amnistia. Muita gente mandava os avisos de multa para o lixo.
Ora um belo dia, às 7 da manhã, ainda eu estava deitado, tocam à porta. Vou abrir em pijama e dou de caras com dois GNRs que me entregaram o "mandado" e me disseram que me íam levar para o posto.
Eu, cocei a cabeça, e disse-lhes com o meu ar de Chveik que não me dava jeito nenhum. Que tinha muito que fazer nessa manhã. Prometi ir entregar-me a seguir ao almoço. Os guardas olharam um para o outro, hesitaram, e depois aceitaram a minha oferta.
Às duas e tal apresentei-me, obedientemente, no posto de Sacavém onde um cabo amanuense lutou com a máquina de escrever, ferrugenta, e lá produziu um auto de captura.
O sargento, todo lampeiro, gritou então para um praça "Vá lá buscar o jeep para levar o preso". Mas o outro retorquiu "Oh meu sargento, o jeep está avariado há mais de uma semana".
O sargento, com ar insinuante, perguntou-me se eu me importava de transportar o preso, ou seja eu próprio, e mais o soldado GNR que me ía escoltar até ao tribunal de polícia (que ficava ali para os lados de Campolide, apropriadamente ao lado da Penitenciária).
Com a simpatia que me caracteriza disponibilizei-me e lá fui, em amena cavaqueira com o soldado, que passou toda a viagem a lamentar-se da falta de meios para cumprir a sua árdua missão.
Quando chegámos, escoltou-me até um balcão aonde liquidei as minhas dívidas ao Estado. Depois, embora já em total liberdade, ainda tive pena do soldado e fui devolvê-lo ao posto da GNR de Sacavém.

quarta-feira, maio 27, 2020

A Memória das Prateleiras (33/n) - É vedado vedar



A Memória das Prateleiras (33/n)
É vedado vedar

Era uma vez um belo país à beira mar plantado.
De repente instalou-se uma vontade indómita de corrigir as assimetrias que a natureza, na sua inconsciência, vai produzindo com impacto na sociedade.
Por exemplo, a injustiça dos muros. Alguém mais sensível lembrou-se de dizer que os muros, pelo menos os que têm entre um metro e dois metros de altura, dividem a população em dois grupos: os que vêem e os que não vêem por cima do muro.
Trata-se de uma intolerável discriminação, com base nas características físicas, de todos aqueles que são mais baixos do que o muro. Qualquer pessoa sabe, ou devia saber, que ter horizontes largos é um direito inalienável de todos os cidadãos, mesmo dos baixinhos.
Instalada a polémica, entre os que eram a favor e os que eram contra, estes últimos tentaram apaziguar a querela aceitando abrir umas ranhuras nos muros para que todos pudessem ver para lá deles. Nada feito, isso era prolongar a discriminação pondo os baixinhos a espreitar a paisagem através de orifícios o que não era nada dignificante.
Houve também quem dissesse que a paisagem era quase sempre desinteressante e que, dado o adiantado estado de degradação dos muros, em breve todos acabariam por ruir resolvendo o problema naturalmente. Foi-lhes respondido que cada um devia poder olhar para onde quisesse, mesmo que desinteressante, e já!
Os políticos, sempre atentos aos votos flutuantes, resolveram legislar que os muros teriam que ser reconstruídos por forma a medirem menos do que um metro ou mais do que dois metros de altura. Foi um alvoroço pois, alertou-se, isso não resolveria o problema dos anões nem dos basquetebolistas estrangeiros que amiúde nos visitam.
Os limites foram então alterados para os cinquenta centímetros e para os dois metros e meio. Apesar de uma petição reaccionária a legislação foi finalmente aprovada. Mas tudo recomeçou pois alguém se lembrou de dizer que os muros de dois metros e meio criavam uma distinção entre os que passavam a cavalo e os que passavam a pé. Foi então aprovada a proibição total de qualquer muro, sebe ou vedação em todo o país.
Como é normal a nova legislação gerou alguns inconvenientes que desencadearam alertas da sociedade civil.
A Direcção do Serviços Prisionais pediu intruções claras e até mesmo o proverbial reforço de verbas. O mesmo aconteceu com a Direcção Geral dos Hospícios e Manicómios (havia quem dissesse que, neste caso, a ausência de muros não se iria notar por aí além).
As largadas de touros, e a pecuária em geral, solicitaram subsídios e uma nova linha de crédito, quiçá uma ajuda de emergência da União Europeia.
A indústria dos Festivais de Verão ao ar livre, que tanto contribui para o progresso cultural do país e da indústria cervejeira, bateu à porta do Ministério da Cultura.
Até as fabriquetas de letreiros “Cuidado com o cão” ameaçaram cortar postos de trabalho e fizeram uma manif.
Foram todos remetidos para a próxima legislatura.

terça-feira, maio 26, 2020

A Memória das Prateleiras (32/n) - Furadouro







A Memória das Prateleiras (32/n)
Furadouro

Em Junho de 1967 o boletim do CCUL, Cineclube Universitário de Lisboa, publicava uma reportagem feita por mim e por uma colega. Uma reportagem que tratava das campanhas de pesca no Furadouro.
Curiosamente, no mesmo número do boletim, constava também uma entrevista com Paulo Rocha, o realizador do filme que inspirara a nossa reportagem; “Mudar de Vida”. O mesmo Paulo Rocha que realizara, em 1963, o marcante “Verdes Anos”, com o inesquecível tema de Carlos Paredes.
Integrado no Novo Cinema Português “Mudar de Vida” foi, se não me falha a memória, o primeiro filme a abordar temas não urbanos.

No princípio de 1967, com 21 anos, eu cursava Economia no antigo ISCEF e dava aulas na Escola Comercial Patrício Prazeres em Lisboa.
Era também membro da direcção do Cineclube Universitário de Lisboa e militava clandestinamente no PCP.
Impressionado pelo filme de Paulo Rocha, imbuído do entusiasmo próprio da idade e da sensibilidade já desperta para as injustiças sociais, decidi conhecer directamente a realidade nele retratada.

Chegámos ao Furadouro debaixo de mau tempo, provávelmente nas férias da Páscoa, e alguém teve que ir abrir o Hotel para nos alojar. Depois escrevi:
“Quem chegar ao Furadouro como eu cheguei não pode deixar de sentir a mesma sensação de frio e de abandono que me assaltou. A longa recta que me trazia de Ovar transformou-se subitamente na rua principal da povoação, perpendicularmente à costa... fomos notando a ausência quase absoluta de gente; só nos três ou quatro estabelecimentos escoando uma luz mortiça se divisava momentâneamente o caixeiro amodorrado atrás do balcão ou encostado à ombreira da porta olhando para nós como para uma andorinha que chegasse antes da Primavera”.

Andei por lá dois dias, a fotografar os palheiros e os barcos. Entrevistei crianças, pescadores e lojistas para um pequeno gravador. E depois escrevi:
“...a terra é pequena e como que fomando-lhe uma casca do lado Sul, por ruas coalhadas de charcos, encontrámos os palheiros amontoados dos homens do mar. Este bairro de madeira desemboca directamente na areia da praia por onde o mar vem quando calha, como fera de rapina, devorar algum palheiro e deixar mais uma das grandes famílias de pescadores sem casa”.

Lá aprendi o significado da “arte xávega”; saltar as ondas e largar a rede num semicirculo, para depois puxar pelos dois extremos arrastando o peixe até à praia.
Percebi a intermitência e o perigo daquela actividade e pude tocar nos remos enormes que só por vários homens podiam ser manejados.
Ouvi, e registei, a “coincidência” de os armadores dos barcos terem também interesses nas lojas em que se abasteciam os pescadores.

Quando o mar estava demasiado bravo para que os barcos saltassem por cima das ondas, toda aquela gente dos palheiros trabalhava “na areia”, carregando-a em grandes caixotes de madeira pelo areal fora.
Enfim, uma vida duríssima como eu nunca observara.

Não tenho ideia nenhuma da câmara fotográfica que então usei e não sei o que foi feito dos negativos que com ela produzi; julgo que os entreguei nas tipografias em Lisboa e que nunca mais mos devolveram.
Tudo o que me ficou foi um conjunto de fotografias em papel, com 10 por 15 centímetros, que guardo religiosamente.

Fotografei muito os garotos e um deles, de pistola de pau em punho, disse-me, meio a sério meio a brincar, que quando fosse grande queria ser assaltante. Um calafrio. Foi junto ao edifício em ruínas a que chamam "Chalé do Matos", cuja construção parece ter ocorrido em 1914.
Outro garoto, o Armando, autonomeou-se nosso guia e acompanhou-nos por toda a parte.

O material recolhido no Furadouro, sem dúvida o meu primeiro trabalho fotográfico relevante, foi publicado no boletim do Cineclube e também no Diário de Lisboa Juvenil, no dia 20 de Junho de 1967, tendo ganho um prémio de reportagem.

Voltei recentemente ao Furadouro, à procura daquele passado, com as fotografias na mão. Os pescadores já não vivem nos seus palheiros à beira do areal. Fizeram-lhes um bairro de casas económicas.
O Armando e os outros garotos não os encontrei. Hoje serão sexagenários.
De porta em porta fui sabendo das mortes, das emigrações e até das cadeias para onde os atirou a precariedade das suas vidas.


segunda-feira, maio 25, 2020

A Memória das Prateleiras (31/n) - Musica antiga






A Memória das Prateleiras (31/n)
Musica antiga

A igreja matriz está a abarrotar de gente para assistir ao concerto. Sucedem-se os oradores.
O senhor prior, muito coloquial, faz as honras da casa.
O senhor bispo da diocese, com os seus olhos pequeninos, desenrola umas matreirices.
O senhor presidente da câmara entra nas frases mas percebe-se que não sabe muito bem como há-de sair.

Cada orador tenta ultrapassar o anterior na lista dos agradecimentos. Começam sempre em "sua eminência" e vão descendo até chegar aos "prezados concidadãos".
Os bancos de madeira da vetusta igreja já esgotaram o tempo em que não se dá por eles e começam a provocar formigueiros e incómodos.

Entra em cena o responsável pela organização que a todos esclarece sobre a história do local em que nos encontramos. Várias gerações de beatos, confrarias e brasonados fizeram da matriz da vila um repositório de tesouros, insuspeitados nesta remota província.

Para ilustrar o discurso o sacristão transporta, penosamente, a custódia de prata dourada que um conde qualquer ofereceu à vila no século XVIII, e pousa-a com orgulho numa peanha do altar-mor. Uma peça preciosa que só se mostra em momentos lustrosos.

O estimado público é feito de engenheiros da câmara e de notários locais, gente que precisa de ali ser vista. Contém igualmente o volátil turista de segunda habitação, mal trajado e que faz gala do seu cosmopolitismo agitando o rabo nas cadeiras de pau.

Mas chegou finalmente a hora da música. Os virtuosos vão revelar-nos a devoção barroca do senhor Heinrich Schütz.
Acabam de se lançar no motete quando irrompe o estrondo de uma mota (inevitavelmente de alta cilindrada). Cruzou o adro, com os seus dois ocupantes, estancou à porta da matriz, e enquanto um aguarda o outro irrompe na nave e grita, abrutalhado:
- Todos com as fuças no chão !

A ordem, dada de supetão, aterroriza o estimado público que fisicamente não tem onde cair morto, salvo seja. Não há mármore que chegue para deitar tantos corpos, ainda por cima com a dificuldade adicional dos bancos corridos e do genuflexório.
O brutamontes, no intuito de dominar a algazarra, dispara a fusca e atinge S. Sebastião no altar da epístola numa premonitória coincidência. Gastando desnecessariamente munições num santo que já se encontrava suficientemente crivado de setas.
E o brutamontes, um bronco que parece não perceber que as peúgas são para enfiar nos pés e não na cabeça, avança pela coxia direito à custódia. Percebe-se que está prestes a convidá-la, sem direito a escusa, para dar uma volta na Suzuki.

Eis senão quando o careca lhe afinfa com o braço da tiorba. Metro e meio de madeira e cordas, num ruído plangente que precede na partitura o estrondo do brutamontes a cair no tabuado do altar-mor.
O virtuoso instrumentista foi de tal afinação que deixou o encapuçado sem conserto. Ele e o resto do estimado público.

P.S. Caro leitor, esta história que acabou de ler foi inventada precisamente para aliviar o tédio, durante os longos discursos que antecederam um belíssimo concerto do festival “Terras Sem Sombra”. O Festival leva, há anos, música de grande qualidade a templos disseminados por todo o Baixo Alentejo.

domingo, maio 24, 2020

A Memória das Prateleiras (30/n) - A Nossa Senhora de Éfeso




A Memória das prateleiras (30/n)

A Nossa Senhora de Éfeso


Estávamos maravilhados com as riquezas naturais e culturais da Turquia mas o guia insistiu em nos ir mostrar a casa da Nossa Senhora. Já lá vamos depois de perceber o contexto.

Começámos em Ankara, no centro do imenso país, visitando o museu das culturas da Anatólia, a ver coisas da cultura hitita e, o maior espanto, baixos relevos assírios com os seus arqueiros barbudos montados em "quadrigas".

Dali saltámos para o deserto calcário da Capadócia, uma exposição de esculturas naturais, cavernosas, que se estendem até cada novo horizonte.

Depois metemo-nos à estrada em direcção ao mar Egeu, por uma meseta seca e quente que faz lembrar Castela, mas em maior. Centenas de quilómetros numa camioneta sem ar condicionado, num desespero de janelas abertas e cortinas de pano esvoçando à frente dos olhos.

Antes de chegar à placidez marítima de Esmirna ainda passámos noutra maravilha. Pamukkale e os seus terraços de carbonato de cálcio, piscinas naturais, brancas, sobrepostas em escadaria encosta abaixo. Com vestígios romanos ao lado (os romanos podiam lá deixar passar uma oportunidade termal com cenário hollywoodesco).

Finalmente, esbaforidos, chegámos a Esmirna, num golfo recôndito do Egeu, mas foi apenas um ponto de passagem em direcção a Éfeso.

Éfeso é um dos mais importantes monumentos clássicos da Turquia.
A fachada da biblioteca de Celso, com a suas colunas em dois níveis, a fonte de Trajano e o gigantesco anfiteatro com 25.000 lugares, tornam as ruínas de Éfeso inesquecíveis.

Mas o guia insistia em nos levar à casa da Nossa Senhora.

Lá seguimos mais para Sul ao encontro do local que Anna Catarina Emmerich, uma freira agostiniana alemã no princípio do século XIX, no meio das suas visões místicas, identificou como tendo sido morada da Virgem Maria até ao momento da Assunção.

Quando lá chegámos fomos encontrar uma capela modesta, ladeada por alguns muros de pedra onde se diz terem sido os aposentos de Maria.
A igreja católica nunca se pronunciou sobre a autenticidade desta lenda, que teve origem nos escritos de um tal Clemens Brentano. Poeta e romancista, encarregou-se de dar à estampa as descrições que supostamente lhe relatou a freira, no intervalos das visões.

Qual não foi o meu espanto quando, ao entrar no recinto, comecei a ouvir uma homilia em português e verifiquei que decorria uma missa dedicada a um grupo de excursionistas vindos do Norte do nosso país (apurei mais tarde que muitas paróquias organizam regularmente viagens à Turquia para este efeito).

Ladeámos a celebração e lá fomos espreitar os edifícios, mais adiante, com que não se gasta mais de um quarto de hora, em especial sob sol inclemente como era o caso.

Satisfeito e impante, o guia conduziu-nos para fora do recinto.
Para lá dos portões a chusma dos vendedores ambulantes desatou a gritar: Portugal, Portugal, Portugal.

Como não se via qualquer televisor que transmitisse as milagrosas fintas do Ronaldo, assaltou-me a hipótese de se tratar de manobra de marketing dirigida aos portugueses que assistiam à missa.

Nem uma coisa nem outra. Fiquei a saber que na Turquia, e noutros países da região balcânica, chamam Portugal às laranjas e, no caso em apreço, os vendedores estavam simplesmente a propagandear um refrescante sumo de laranja.

As laranjas doces, que tanto apreciamos, foram trazidas da China e levadas para aqueles países, pelos portugueses, no século XVI.
Podia agora iniciar uma dissertação sobre a saga marítima dos portugueses mas não sei se devo usar o termo descobertas, descobrimentos, expansão, ou mesmo aparições.
Como não quero ser acusado de colonialismo fico-me por aqui.

sábado, maio 23, 2020

A Memória das Prateleiras (29/n) - Querida Lisboa





A Memória das Prateleiras (29/n)
Querida Lisboa

Em 2007 as eleições em Lisboa tiveram laivos de pirataria. Houve acusações de corrupção para derrubar o executivo de Carmona Rodrigues, que os tribunais vieram mais tarde a considerar não terem fundamento.
Enquanto uns se instalavam confortávelmente no poder autárquico, aqueles para cima de quem fora atirada uma bola de lama, andaram a penar nos tribunais, durante dez anos, para conseguirem a absolvição.
O Parque Mayer e a antiga Feira Popular continuam baldios e o futuro dirá que outros prejuizos cairão sobre Lisboa.
Tudo isso inspirou nessa época a minha produção de cartoons, que publico em anexo, inspirados num filme de piratas.
Levou-me a desenterrar, como lisboeta de gema, este meu poema de 1987.

a minha cidade comove-me
pois estes passos que se cruzam
vêm de há séculos caminhando
sobre estas pedras que ressoam

esta teia de gente sem destino
de trabalho de crime ou de cantigas
ponto de encontro átrio e viagem
de quem caminhando pisa sempre o mesmo chão

e não há outra cidade para mim
por mais gente que cruze as suas ruas
pois só minha cidade me alimenta
com a fome e o suor dos que passaram

só aqui se cumpre a minha vida
mais um passo do passado para o futuro
só aqui eu consigo acreditar
que tudo o que fazemos faz caminho

aqui é que eu faço filhos com os meus velhos sapatos
de quem sempre me despeço com desgosto
e nada me anima como subir estas calçadas
arfando e respirando este ar poluído

aqui é que me gasto como quem gasta as solas
e a morte faz sentido junto destas pedras
que me protegerão como uma mãe
sossegada e fresca como um beco

aqui onde o vento cheira a mar
é que apodrecemos voluntariamente
com o desplante dos cigarros
com que queimamos a impaciência

aqui é que os sons e as cores
falam a língua da memória
e só posso desculpar aqueles que partem
para não morrer de fome

aqui é que devemos entregar-nos à vida
para ela fazer de nós o que entendermos
aqui partilhando as ruas com todos
pois na rua somos quase iguais

aqui na nossa cidade não há lonjuras
entre nós só os preconceitos
a nossa cidade é o sonho quase feito
a grande festa que só espera um foguete

nela viajo estas noites clandestinas
que são o fel de cada manhã
na minha boca que não desiste
do segredo escrito pelas solas dos séculos

sobre as pedras lisas como crâneos semi-enterrados
continuaremos a cruzar-nos em todos os sentidos
da rosa dos ventos e da palavra
e só por causa disso eu não me canso

Lisboa, 1979
(Publicado em "O Diário", 1987)

sexta-feira, maio 22, 2020

A Memória das Prateleiras (28/n) - O ano de 1968



A Memória das Prateleiras (28/n)

O ano de 1968

É o ano da «explosão» e da contes­tação total: a da juventude contra a sociedade, a dos negros contra os brancos, a dos comunistas contra Moscovo, a dos católicos contra o Vaticano...

Acaba o pacifismo: Martin Luther King é abatido a tiro, em Memphis; as "panteras negras" manifestam-se nas olimpíadas do México; Robert Kennedy, outro norte-americano conhecido pelas suas posições a favor da integração racial, antigo braço direito do seu ir­mão John Kennedy enquanto este foi presidente dos Estados Unidos, é igualmente abatido a tiro.

Em Fevereiro a ofensiva vietcong do Tet surpreende os americanos em 100 cidades e bases militares no Vietname. Na América os estudantes gritam «Get out of Vietnam» e põem Chicago de pernas para o ar em Agosto, durante a Convenção do Partido Democrático, com um balanço de 700 feridos.

Em França, a 4 de Maio, estudantes e professo­res da Sorbonne desencadeiam uma greve que alastra por todo o país. E quase a guerra civil. A Fran­ça está paralisada, combate-se nas ruas de Paris; Mao, Mihn e Guevara são os «heróis», Daniel Cohen-Bendit, lider do «Maio de 68» fala de «democracia directa».
Marcuse é o teólogo do movi­mento, tanto como Malcolm X é da revolta dos negros ou o checoslovaco Dubcek do «não» a Moscovo.

Uma gigantesca manifestação de apoio a De Gaulle, a 30 de Maio, a que se seguiu a maior maioria absoluta da história da democracia Francesa, nas eleições de Junho, acabaram com a experiência que ainda hoje é recordada com emoção por todos aqueles que a viveram.

Se a França vive o seu "inverno social e político», a Checoslováquia respira «Primavera». A Primavera de Praga como ficou conhecida a libe­ralização lançada pelos dirigentes comunistas checoeslovacos que ou­sam dizer «não» ao Kremlin, «abrin­do-se» a Ocidente: no dia 20 de Agosto, tanques do Pacto de Varsó­via invadem a Checoslováquia e, pe­la força, põem termo a tanta ousadia.

Em Setembro, a Inglaterra pode assistir à estreia do musical «Hair» sem qualquer obstrução à ideia ori­ginal dos seus autores: tinha sido abolida a censura teatral e o nu su­bia ao palco tal como nos Estados Unidos.

O cosmonauta norte-americano Frankie Bornam lê os primeiros versículos do «Génesis» a dois pas­sos da Lua. Nasce a "Teologia da Libertação" na Assembleia do Episcopado Latino-Americano.

Em Portugal, vítima de queda, Salazar é hospitalizado a 7 de Setembro. 19 dias mais tarde, em comunicação ao País, Américo To­más põe termo aos 40 anos de po­der do ditador de Santa Comba. No­meia Marcelo Caetano para substi­tuir Salazar. E o substituto diz: «quero os portugueses todos uni­dos, mas sem pactuar com o comunismo».

Mário Soares é deportado para S. Tomé e um grupo de católicos desafia o regime numa vigília na Igreja de S. Domingos em Lisboa. A RTP 2 inicia as emissões e Cardoso Pires publica "O Delfim".

«2001 Odisseia no Espaço» de Kubrick, «Bullit», «Rosemary's Baby», «The Thomas Crown Affair» são os filmes do ano, Steve McQueen a grande vedeta.

Dos Beatles vê-se «Yellow Submarine» e ouve-se «Hello Goodbye», «Hey Jude» (primeiros lugares nos Esta­dos Unidos e em Inglaterra) e «Lady Madonna» (1.° lugar em Inglaterra). «Hey Jude» é mesmo a canção do ano: 9 semanas em n.° 1 nos EUA.
A revelação chama-se Joe Cocker com a incomparável versão de «With A Little Help From My Friends» canção da autoria da du­pla beatleniana Lennon/McCartney. Pois, de quem havia de ser?

Eu, enquanto tudo isto estava a acontecer, casei e depois parti para a remota Guiné onde só chegavam tímidos sinais. Fui combater na guerra colonial.

quinta-feira, maio 21, 2020

A Memória das Prateleiras (27/n) - Palombella Rossa



A Memória das Prateleiras (27/n)
Palombella Rossa

"Iguais são os espectadores do jogo de polo aquático ou os jogadores de cada uma das equipas, entre si, embora a identidade de uma equipa só tenha sentido pela diferença relativamente ao adversário. O jogadores das duas equipas são todos idênticos se contrapostos ao árbitro ou aos espectadores.
Pertencemos simultaneamente aos múltiplos conjuntos com que nos identificamos em cada momento (por exemplo: bancários, inquilinos, solteiros, sindicalizados, diabéticos, filatelistas, orfãos, etc, etc,). Essa lista define socialmente quem somos.
Pertencemos hoje, temporáriamente, ao conjunto dos espectadores de "Palombella Rossa", lado a lado com comunistas em crise e com yupies confiantes. Quando saímos a porta do cinema podemos integrar-nos num desses conjuntos, ou noutro qualquer; isto todos os dias, a todas as horas, até fazermos todos parte do grande conjunto dos mortos."

Escrevi estas notas há muitos anos, quando vi o filme do Nanni Moretti pela primeira vez. Feito em 1989, "Palombella Rossa" caíu em cheio sobre a crise desencadeada pela queda do muro de Berlim.
Era muito fácil nessa época resumi-lo à pergunta "que significa hoje ser comunista?", pronunciada pelo protagonista Michele, um comunista jogador de polo aquático que um acidente rodoviário deixara amnésico. Havia a tentação de tomar "Palombella" como uma dissertação sobre a decadência do PCI.

O filme reapareceu em DVD e somos inevitavelmente tentados a verificar a impressão que nos causa hoje. Num tempo em que a massificação da comunicação, e das modas, acaba por gerar um paradoxo; a brutal diversidade das escolhas a redundar numa assustadora perda de identidade.
A primeira constatação é que a pergunta de Michele, "que significa hoje ser comunista?",  continua sem resposta. "Palombella" não a dá e penso mesmo que não tinha essa intenção. As suas perguntas do filme, não formuladas, são muito mais vastas; o que resta de nós quando desaparecem os laços que nos ligam aos clubes, igrejas e partidos? é possível intervir socialmente sem ceder ao clubismo e ao fanatismo? A sociedade, como sabemos, não é nada tolerante com tais situações.

O facto de o amnésico Michele ser comunista está longe de ser irrelevante, mas um filme muito parecido podia também ser feito com um militante da Democrazia Cristiana na mesma situação de perda da memória. O que verdadeiramente está em causa é o enigma de perdermos a memória dos códigos e rituais que caracterizam a nossa pertença aos grupos com que nos identificamos e que, no limite, nos definem.
Na história de Michele, que podia perfeitamente ser vivida por qualquer um de nós, ele tenta recuperar a sua identidade através da redescoberta dos códigos do polo aquático e do partido comunista, mas acaba por perceber que esses códigos, por serem apenas formalismos, não lhe dão a chave de que precisa.
O próprio filme, construído sobre uma codificação que Nanni Moretti não revela, obriga o espectador que o queira "compreender" a viver uma perplexidade similar à de um amnésico.

As frases "tu és como nós" e "sabes em que somos diferentes?" atravessam todo o filme, ditas por diversas personagens, impondo o tema da semelhança, da diferença e da necessidade que elas têm uma da outra.
Essa dialéctica pode ser ilustrada com a militância comunista, cuja redescoberta causa tanta perplexidade a Michele: os comunistas constatam as injustiças (diferenças) sociais e propõem a igualdade (semelhança) dos homens. Para isso organizam um partido "diferente" dos outros que no entanto precisa de convencer os trabalhadores a desenvolver uma atitude "semelhante" contra a opressão económica.
Michele repete que "os comunistas são como os outros" acrescentando, após uma pequena pausa, "mas também são diferentes".

Para Michele torna-se insuportavel lidar com o uso desleixado das palavras no preciso momento em que se confronta com a tarefa de reconstruir as suas referências de leitura do mundo. Ele grita "as palavras são importantes" e mais tarde, talvez já sem esperança, "um conceito logo que é escrito torna-se uma mentira" e "tem que se inventar uma linguagem nova".

No que toca ao equilíbrio entre "semelhança" e "diferença" a linguagem é um caso paradigmático; não pode ser usada nem de forma demasiado convencional (semelhante) nem de forma demasiado criativa (diferente) sob pena de não se alcançar a comunicação.
Para Michele, que perdeu as suas memórias/referências, todas as palavras serão portanto o ponto de partida para uma linguagem nova e uma forma nova de entender a realidade.

A aventura dessa linguagem nova tem, para Michele como para nós, um preço; o perigo da incomunicabilidade.

quarta-feira, maio 20, 2020

A Memória das Prateleiras (26/n) - O século dos meus pais





A Memória das Prateleiras (26/n)
O século dos meus pais
Os meus pais nasceram em vésperas da Primeira Guerra Mundial, e morreram por altura da crise financeira do Subprime. Talvez as verdadeiras balizas do século XX, que eu e os meus filhos vivemos parcialmente.
Somos sem dúvida o produto de uma impressionante transição social que se processou durante esses 100 anos e da qual a nossa família, como tantas outras, é uma boa ilustração. As minhas opiniões sobre a pobreza, sobre o trabalho, sobre o Estado e em geral sobre política , que por vezes surpreendem os meus amigos, talvez se percebam melhor à luz das minhas experiências de vida.
O meu pai nasceu numa aldeia da Beira Baixa e a minha mãe igualmente numa aldeia da zona de Tomar. Ambos analfabetos, filhos de pequeníssimos agricultores vieram para Lisboa na adolescência; ela como criadita “de servir” e ele, que fugira de casa, conduzindo por Lisboa um burro com que praticava o “leva as folhas, leva as cascas” (recolhia os restos pelos mercados e restaurantes e vendia nas vacarias então existentes dentro da cidade).
Quando a minha irmã nasceu em 1937 o meu pai, que aprendera a ler no regimento, tornara-se operário da construção e a minha mãe comprava e vendia roupa em segunda mão ao domicílio. Viviam numa parte de casa, ou seja, partilhavam uma casa com várias famílias.
Quando eu nasci ainda vivíamos nessa mesma casa e as minhas memórias de infância retiveram o “pantomineiro”, que vivia lá também, alimentando os seus répteis para fazer uns vagos espectáculos de venda de banha da cobra, bem como a mulher sempre de robe brilhante e grande cabeleira frisada. A dona da casa, uma velha camponesa transplantada para o Alto do Pina, dava-me a provar do tinto desde a tenra infância, às escondidas dos meus pais.
Nessa casa, onde vivi até ir para a marinha (numa altura em que a minha família já morava sózinha), havia um mastodôntico fogão a lenha para uso colectivo e um jarrão em barro repousando no proverbial “pial do pote”. O fogareiro a petróleo constituiu uma revolução nas operações da cozinha, permitindo veleidades independentistas.
Ouvi muitas vezes os meus pais discutirem sobre a necessidade de recorrer ao penhorista no dia seguinte para, em troca dos brincos ou das alianças (o património da família), obter algum dinheiro e sobreviver em períodos de crise ou falta de trabalho. Qualquer doença era um grande contratempo económico e a gravidez inoportuna era prontamente interrompida por umas senhoras que apareciam lá em casa, nem sempre de forma discreta.
A roupa era feita em casa, ou comprada usada, e ninguém sabia o que era “roupa de marca”.
A certa altura o meu pai começou a negociar em velharias ao domicílio e acabou por conseguir uma loja onde vendia mobílias “importadas” de Paços de Ferreira, Rebordosa e Baltar. Tornou-se patrão de dois ou três polidores (as mobílias compradas “em branco” eram polidas em Lisboa) e passou a desfrutar de um certo desafogo económico que lhe permitiu mandar-me para a universidade (a minha irmã, oito anos mais velha, não teve essa sorte).
Aos domingos partíamos no carrito Hillman verde para a “volta dos tristes” que incluía sempre um almoço em restaurante económico de Cascais.
Aos sessenta anos a mãe, motivada pelas cartas da minha irmã, entretanto emigrada na América, aprendeu algumas luzes de leitura.
Depois de muitos anos de trabalho o meu pai amealhou o suficiente para construir um pequeno prédio na Póvoa de S. Adrião, que nessa altura era um sítio remoto e despovoado. Tratava-se de arranjar um rendimento que permitisse viver confortavelmente quando os anos pesassem e ele tivesse que deixar de trabalhar. O posterior congelamento das rendas e as inflacções enormes dos anos 80 deitaram por terra, impiedosamente, o seu simulacro de pensão de reforma.
Viveria o resto da sua vida com bastantes dificuldades económicas se não fosse alguma ajuda dos filhos.
O meu pai ainda conheceu a primeira república, a penuria durante a segunda guerra mundial, e detestou toda a vida, em surdina, o regime fascista. Cultivava, em privado, um anti-clericalismo radical.
Já a minha geração foi protagonista de uma gigantesca viragem cultural e política nos anos 60. Conspirámos contra o regime, fomos à guerra colonial em África e tentámos uma Revolução em contra-ciclo.
Ao longo de pelo menos cinco gerações nunca ninguém da família viveu do erário público, nem como empregado, nem como subsidiado nem como fornecedor. Para uma família como esta, que na minha infância rondava o neo-realismo, o Estado foi quase sempre o polícia, a proibição e a multa, o guichet mal encarado, a repressão política, a arrogância do médico e do professor perante a modéstia do doente e do aluno.
Eu, como não tinha queda para as mobílias, adoptei uma profissão nas tecnologias emergentes e vivi dela até à minha reforma. Trabalhei para uma grande multinacional, fui sindicalista e empresário. Corri meio mundo. Tive acesso às mais elevadas formas de cultura.
Pude, assim, proporcionar aos meus dois filhos as oportunidades que eles entendessem aproveitar.
Espero que em 2045 eles possam também fazer um balanço positivo do "meu século".

segunda-feira, maio 18, 2020

A Memória das Prateleiras (25/n) - O ábaco



A Memória das Prateleiras (25/n)
O ábaco
Este ábaco foi comprado em Londres, numa viagem dos anos 70. Nessa época nutri algum fascínio por “máquinas de calcular”, numa espécie de doença profissional causada pelo contacto diário, profissional, com as primeiras gerações dos computadores.
Quem me havia de dizer que iria encontrar o ábaco em múltiplas situações durante a minha primeira viagem à URSS em 1980. Claro que a grande potência também desenvolvia sistemas de computação poderosos. Até países periféricos do “socialismo real” tinham as suas indústrias de dispositivos computacionais (em 1987 estive numa viagem de estudo, de carácter sindical, na Bulgária, onde para meu espanto visitei fábricas de equipamentos electrónicos para a informática).

Em Moscovo, na grande exposição permanente das “Realizações Económicas” qualquer turista embasbacava com uma réplica do Lunokhod, o veículo que se passeara na Lua. É claro que tal façanha nunca teria sido possível sem sofisticados sistemas de cálculo.
Mas ao nível do dia a dia, em mercados e em lojas, de Leninegrado a Vladivostok, o ábaco reinava. Lembro-me de os ter visto no mercado de frescos em Alma Ata no Cazaquistão e numa farmácia em Irkutsk (nesses tempos em Lisboa já andavam de mão em mão as pequenas máquinas de calcular “japonesas”). Mas a utilização do ábaco que mais me impressionou ocorreu em Moscovo.
Andávamos numa visita ao Kremlin e, como é habitual nestas coisas, ao fim de umas horas estava toda a gente derreada. Com tempo agradável, numa paragem para descansar, resolvi recorrer a uma casinha de madeira, em pleno parque, onde vendiam gelados.
Constatei imediatamente que havia uma bicha para comprar o gelado, que se estendia por duas dezenas de metros até uma espécie de *guichet *de atendimento. Não atribuí grande importância ao assunto e lá encarreirei.
À medida que o tempo ia passando comecei a ficar mais nervoso, com receio de fazer esperar os meus companheiros de viagem. Até que consegui chegar ao tal guichet e, só então, perceber o motivo de tão estranha demora.
A matrona que aviava os gelados, equipada a rigor, com touca e tudo, tinha uma complicada rotina.
Primeiro entornava o produto, girando a torneira do depósito, para dentro do cone de bolacha como se faz em qualquer outro país. Mas depois pesava cada um dos cones numa balança, para saber quantos gramas continha, e ficávamos a ver as oscilações dos braços até se equivalerem.
Determinado o peso do cada gelado, pegava num ábaco para determinar o preço a pagar, considerando o peso do gelado e o preço por quilo.
O valor a pagar nunca era o mesmo; um cliente pagava 43 kopecks, o seguinte pagava 47 e o anterior tinha pago 45. Isso bastava para criar um demorado processo de pagamento, com remexer nas algibeiras à procura de moedas e depois o cálculo e a conferência do troco recebido.
Em suma, cada candidato a um gelado passava em frente ao guichet muito mais tempo do que seria necessário se o preço fosse fixo e dispensasse a pesagem, o ábaco e uma complicada troca de dinheiros.
Fiquei a matutar como era possível não haver ninguém que tivesse reparado em tal ineficiência e, por respeito pelos clientes, adoptado medidas para abreviar o atendimento.
Esta historieta aparentemente banal é melhor do que as grandes teses para perceber por que razão aquele sistema económico, e aquela utopia política, acabaram por soçobrar.
Em contrapartida, havia em Moscovo uma coisa espantosamente bem pensada do ponto de vista da utilização por milhões de pessoas.
No Metro de Moscovo, lendário pela decoração das suas estações, não se vendiam bilhetes.
Para entrar na rede bastava meter uma modesta moeda de cinco kopecks, provavelmente a mais comum de todas, numa ranhura (um rublo equivalia a 100 kopecks) .
Perguntarão vocês: e se não tivéssemos as moedas de cinco kopecks? É fácil, havia em todas as estações umas máquinas que convertiam qualquer quantia em moedas de cinco.