terça-feira, outubro 06, 2020

Regressar ao passado em sítios actuais


Regressar ao passado em sítios actuais
Há dias estive na Praça de Alvalade e à minha volta só via intrusos, inconscientes do passado daquele local.
Eu estava algures nos anos 70 ou 80 e todas as outras pessoas moviam-se no ano 2020.
Tinha ido ao cinema Alvalade (a que hoje chamam City) e depois dera uma volta na Avenida da Igreja. Aquela praça e aquela rua foram o meu habitat diário entre 1974 e 1993.
Naquela época havia ali algumas grandes empresas; a IBM, a Profabril, as Páginas Amarelas, etc. No conjunto empregavam muitas centenas de bem pagos profissionais que garantiam o sucesso do comércio da zona.
À hora de almoço havia grupos de colegas que percorriam a Av. da Igreja, para cima e para baixo, beberricavam o seu café e espiolhavam as montras.
O Centro Comercial, na primeira cave, tinha requintes desaparecidos; ourivesarias e iguarias gourmet.
O próprio bairro de Alvalade era habitado por quadros superiores e chefes de repartição, que garantiam um certo estadão nas esplanadas.
O tempo encarregou-se de tudo transformar.
As empresas fecharam ou fugiram, fustigadas pelas mudanças tecnológicas.
A rua foi invadida por todo o tipo de restaurantes rápidos e foi difícil encontrar vestígios do outro tempo. A meio da avenida resiste a geladaria, que não foi remodelada e continua a vender as suas "conchanatas" (um nome equívoco mas carregado de memórias).
A Charcutaria Riviera, do outro lado da rua, já não tem o ambiente cuidado e pomposo dos queijos da serra por encomenda; vende fruta no exterior e começa a parecer-se com qualquer mercearia.
O Centro Comercial abastardou-se com a inclusão de um prosaico supermercado e debaixo das arcadas, antes monumentais suportes dos potentados económicos que habitavam mais acima, pululam agora as pizzarias e outros malefícios modernos.
Mas o verdadeiro choque aconteceu quando dei de caras com o Grog, que já era bar há 40 anos e cujo visual se mantém inalterado. Os vidros cobertos com psicadelismos negros deixam ver, como antes, apenas laivos do seu interior.
De repente todos os rostos com que me cruzava me pareceram perdidos num presente raso, sem terem a noção de tudo o que nós vivemos, pessoal, profissional e políticamente, naquele espaço agora quotidianamente profanado.

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