segunda-feira, junho 15, 2020

Memória das Prateleiras (46/n) - Virar a mesa do jogo






Memória das Prateleiras (46/n)
Virar a mesa do jogo

Em 1993, como membro da CT da IBM, participei numa experiência muito interessante. Fizemos uma Assembleia Geral para votar as qualidades dos  directores de topo da empresa, incluindo o Director Geral. As suas qualidades tal como eram percepcionadas pelos empregados seus subordinados.

Eu estava na CT desde 1981, consecutivamente, e uma boa parte do tempo tratávamos de questões relacionadas com as "reformas antecipadas", coisa que foi muito fomentada pelos governos com o pretexto de arranjar emprego para as novas gerações. Hoje queixam-se do peso das pensões de reforma no Orçamento do Estado.

A motivação das empresas era admitir jovens que ganhavam ordenados muito inferiores aos trabalhadores, mais experientes, que eram substituídos.
A partir dos cinquenta anos os empregados da nossa empresa, como de outras, começavam a estar sujeitos a propostas de cessação do contrato de trabalho. Em contrapartida tinham direito a compensações financeiras para suportar os anos remanescentes até à idade da reforma estabelecida na lei.

A CT era muitas vezes chamada a analisar os aspectos económicos da proposta mas, em muitos outros casos, o trabalhador precisava era de apoio psicológico. Sempre que se sentia demasiado pressionado para sair ou quando tinha a sensação de que o seu trabalho estava a ser injustamente tratado como descartável.

Foi neste quadro que nos pareceu interessante fazer os gestores de topo sentirem "na pele" o que custa ser julgado e, eventualmente, injustamente avaliado. Abaixo deste grupo de nove directores do topo havia dois ou três díveis hierárquicos pelo que as chefias intermédias, numerosas, representavam à volta de vinte por cento do total dos efectivos.

O boletim de voto (imagem que figura neste post e em que os nomes dos gestores visados foram substituídos pela expressão "Director A, B, etc" foi distribuído três dias antes da Assembleia em que se realizou a votação. Para ser ponderadamente preenchido.

O boletim continha uma lista de qualidades "positivas" que se podiam, ou não, atribuir a cada um dos gestores, escolhendo uma classificação de 1 (aplica-se muito) até 5 (não se aplica de maneira nenhuma). A classificação de 1 a 5 era aquela que se usava na empresa para avaliação do desempenho de todos os trabalhadores.

Como se compreende o anúncio de uma tal iniciativa causou um certo alvoroço, tendo mesmo o Director Geral, ele próprio avaliado no "Inquérito",  feito publicar um comunicado manifestando a sua preocupação. A CT respondeu com a promessa de discrição na publicação dos resultados para o exterior e estranhando que eles fossem antecipadamente considerados  depreciativos para os visados.

No dia 3 de Junho de 1993 foram recolhidos quase 200 votos, que correspondiam a cerca de 30% da força laboral da empresa.

Cada um dos nove directores de topo da IBM ficou a conhecer o que pensavam dele, e por quê, os empregados que haviam participado na votação.

O director mais bem classificado obteve "muito bom" em 11 dos 14 critérios considerados. Os três piores classificados não obtiveram "muito bom" em qualquer dos critérios. O Director Geral em funções alcançou apenas um "muito bom".
Houve quem tivesse 4 ou 5 classificações de "muito mau".

Poucos meses depois a IBM procedeu uma grande remodelação da Direcção da Companhia e tornou-se evidente a influência dos resultados desta votação organizada pela CT. Com a saída dos "maus" e a promoção dos "bons".
A IBM mostrava mais uma vez não ser uma companhia qualquer.

Numa empresa com nível salarial muito elevado, condições de trabalho muito acima da média e dispersão dos trabalhadoes por projectos em grande parte executados "em casa" dos clientes, as formas de luta sindicais eram quase sempre invulgares.

Mas a correcta adequação das reivindicações, e a imaginação no desenho das formas de luta, deveriam na verdade ser uma preocupação constante em qualquer sector de actividade e em qualquer tipo de empresa.

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