terça-feira, junho 02, 2020

A Memória das Prateleiros (38/n) - Um baraço de corda e um chaparro




A Memória das Prateleiras (38/n)
Um baraço de corda e um chaparro

O Alentejo é de novo motivo de piadas no tempo da pandemia, por lá não ter o vírus grande sucesso. Por enquanto.
Mas nos montes do Alentejo há males bem piores, que não abrem os telejornais. A solidão é pesada e as terras queimadas de sol mantêm o horizonte demasiado longe.
O senhor Matias é alentejano há 76 anos. Das janelas da aldeia avista-se, à distância, a casa do senhor Matias.
Ainda o conheci garboso, a caminho da taberna para cinco dedos de conversa. Já lá não vai, o que para aqueles lados é como deixar o mundo.
O senhor Matias começou a guardar porcos quando tinha onze anos e a sua vida foi uma sucessão de rebanhos, parelhas e juntas.
Amanhava terras por toda a região, de renda, e levava o gado de uma leiras para as outras, a toque de caixa e mão firme.
Agora está sentado num banquito em frente à casa, imóvel, com as costas apoiadas na taipa. Virado para nascente, onde o Sol não bateu durante a longa tarde.
Anoitece.
A mulher foi a Grândola, "ao tratamento". Cortaram-lhe uma perna há semanas. Foi a diabetes, parece.
Só volta já noite cerrada, na ambulância dos bombeiros.
O senhor Matias ouve os cães ladrar por trás da casa, mas não vê bem as ovelhas que mordiscam as poucas ervas verdes do fim do Verão. Tem os olhos embaciados pelas cataratas e pela tristeza.
O senhor Matias podia ir enxotar as ovelhas, que talvez tenham fugido para a estrada, mas a ciática não deixa.
O senhor Matias já não a sentia há trinta anos e pensava que lhe escapara mas, há uns meses, ela voltou com redobrada força.
As galinhas andam a esmo e põem os ovos onde calha.
Já comeu a janta que a filha lhe deixou na véspera. Ela vai passando pelo monte, mas também tem os gaiatos para cuidar. O doutor da quinta grande arranjou-lhe para a Junta. Tem um salário todos os meses e dois pelas férias e pelo Natal.
O senhor Matias e a patroa já tentaram ir viver junto com a filha mas não se sentiam à vontade. Ela trouxe há tempos um aparelho lá para casa, mas a televisão complica-lhes com a vista e estão sempre a falar de coisas que eles não entendem.
Para ali estão com as alfaias a enferrujar, e a cerca derribada, na casa em que sempre moraram. As vidas também anoitecem.
Já tremelicam umas luzitas para os lados da aldeia mas o senhor Matias não as vê.
A ambulância dos bombeiros ainda tarda e os sacanas dos cães nunca mais se calam. Podia ir lá atrás dar-lhes um berro mas não se atreve a cair, ao tropeço de uma pedra.
Não há aumento de pensões que resolva esta tristeza, que o problema do senhor Matias nem é económico. Que o digam as ovelhas e os porcos que chafurdam no fim do quintal.
Não há geringonça de esquerda, ou de direita, capaz de acabar com esta tristeza que desce quando a noite cai. Quando um dos dois se vai.
Talvez um baraço de corda e um chaparro.

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