sexta-feira, junho 19, 2020

A Memória das Prateleiras (50/50) - Já fui



A Memória das Prateleiras (50/50)
Já fui

Chegámos à prateleira número 50. É tempo de parar.
Nos últimos dois meses, desde 15 de Abril, publiquei 50 crónicas de confinamento, neste tempo em que todos fomos forçados a olhar para o interior.
Quando percorro a casa os objectos vão sugerindo temas, que gravitam sempre à volta das minhas manias; fotografia, política, poesia, tecnologia, filmes, livros, viagens, música...
Até eu me surpreendi, tão numerosas as sugestões me pareceram. Tive a sensação de que poderia continuar eternamente às voltas pela casa, com coisas a saltar-me das prateleiras. Ainda por cima tenho prateleiras em duas casas.
Visto de outro ângulo o conjunto dos escritos resulta autobiográfico; somos todos, de certa maneira, novelos de histórias e obsessões.
Agora que estamos a desconfinar cada vez mais resolvi parar ou, digamos, suspender estes escritos (talvez haja uma segunda vaga de Covid).
Vou acrescentar algumas coisas à definição de mim próprio, feita há tempos, com base naquilo que já fui. Depois do Covid ficaram a faltar-lhe as palavras confinado, desconfinado, desinfectado, mascarado, distanciado.
Felizmente não tenho que acrescentar a palavra "contagiado" à lista que se segue:

JÁ FUI
Já fui criança, adolescente, adulto, maduro, cota e velho.
Já fui caixeiro, e fiz inquéritos a domicílio.
Já fui empresário, tecnólogo, dos sistemas engenheiro,
analista, programador e sindicalista.
Já fui poeta, marinheiro, combatente, tenente e fuzileiro.
Fui repetente, caminheiro, doente, paciente, mal da vista,
atleta, maratonista.
Já fui director, articulista, melómano, coralista, professor,
cineclubista, fotógrafo e artista.
Já fui amigo, inimigo, traído, embarretado e vivaço.
Já fui pobre, remediado, e abastado.
Já fui empregado, patrão, cliente, fornecedor, accionista,
reformado e distribuidor.
Já fui clandestino, fanático, militante, orador e talvez Irritante.
Já fui prisioneiro, conspirador, clubista, por mundo distante.
Já fui viajante, turista e navegante.
Já fui escritor, filatelista e coleccionador.
Já fui vizinho, proprietário, senhorio, condómino e arrendatário.
Já fui filho e neto, irmão e primo, tio e sobrinho, padrinho e afilhado.
Já fui marido, namorado e apaixonado.
Já fui pai e avô.
Ainda me falta ser defunto, mas o tempo
resolverá também esse assunto.
Poderei então dizer, em todos os sentidos,  e definitivamente
JÁ FUI

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