quinta-feira, junho 18, 2020

A Memória das Prateleiras (49/n) - Fábula para 2050



A Memória das Prateleiras (49/n)
Fábula para 2050

Alguém disse que os 1.300 milhões de chineses são, neste momento, o mais importante recurso natural do planeta e que o século XXI será, em grande medida, o resultado da forma como tal recurso vier a ser usado. 
Resistindo ao mecanicismo de tal opinião prefiro dizer que o futuro da sociedade humana será brutalmente influenciado por aquilo em que se tornarem os incontáveis chineses (e também os indianos). 
Estamos a redescobrir a China como se fosse um novo planeta, não só pelo seu gigantismo mas também pela estranheza que sentimos perante a sua cultura milenar, a sua caligrafia impenetrável e o ineditismo das suas soluções económicas e políticas.
Um partido comunista, com poderes quase absolutos, aceitou fazer singrar a economia com base num receituário que parecia, à partida, ideologicamente inaceitável. Vendeu a única coisa que tinha, uma gigantesca força de trabalho. Mas vendeu barato, como chamariz, para construir uma classe média.
Agora usa essa gigantesca classe média como forma de pressão sobre todos aqueles que dependem de tão enorme mercado para escoar os seus produtos. E a pouco e pouco vai aprendendo a substituir essas importações muitas vezes comprando as próprias empresas a quem adquiria os produtos.
Só que ninguém consegue perceber o que o que fará a China, para lá da tarefa hercúlea de tirar da miséria extrema centenas de milhões de homens e mulheres.
Esse enigma paira sobre as nossas cabeças: estarão apenas congelados os grandes princípios do comunismo, aguardando as condições económicas e tecnológicas para se realizar? ou aquilo a que estamos a assistir é um mero sonho nacionalista que apenas pretende vingar as humilhações históricas da China através do domínio económico do mundo globalizado?
Como não sou adivinho prefiro escrever uma fábula com horizonte em 2050:

Foi em 2020 que a tendência começou a ser notada.
Algumas empresas, médias e grandes, com antigas tradições europeias, transferiram as suas sedes para a China. Em certos casos encerraram as operações na Europa.
Por volta de 2030 o processo tinha-se tornado comum e alastrara aos Estados Unidos.
Só cá ficaram os pequenos comércios, fabriquetas e oficinas sem capacidade económica para partir.

Instalou-se um sentimento de perplexidade, de perda, perante esta nova emigração.
Muitas destas grandes empresas que partiam já anteriormente não pagavam impostos nos seus países de origem mas, enquanto tiveram empregados nesses países, os Governos tinham, ao menos, podido taxá-los para acorrer aos enormes gastos sociais.
Os sindicatos mostravam uma certa desorientação, não sabendo muito bem o que fazer sem capitalistas e sem os grandes grupos económicos..

Comissões  de especialistas nomeadas pelas autoridades concluíram que as empresas tinham deixado de achar interessantes, ou seja rentáveis, as suas operações na Europa.
Os europeus, diziam eles, já não eram atractivos nem como trabalhadores assalariados nem como consumidores. Comparativamente pouco numerosos estavam de tal forma endividados que tornavam penosa a operação de os espremer para tirar algum sumo.

Foi nesse momento, depois de perderem definitivamente o alibi de acusar quem os explorava, que os europeus inventaram uma nova forma de organizar a produção social que suplantou, em produtividade e humanismo, tudo o que o mundo até então conhecera.

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