quarta-feira, junho 17, 2020

A Memória das Prateleiras (48/n) - DL Juvenil




A Memória das Prateleiras (48/n)
DL Juvenil


Estava para começar este texto com uma referência, de passagem, ao Diário de Lisboa. De repente reparei que os meus leitores que tenham menos de quarenta e cinco anos nunca devem ter tido a oportunidade de comprar um exemplar do jornal.

Convém explicar-lhes que o DL era um vespertino que foi publicado entre 1921 e 1990. Nesses tempos "à atrasado" havia jornais que saíam ao fim da tarde, sim.
O cidadão lia os da manhã, com as noticias da véspera e podia ler também os da tarde, que já falavam de coisas acontecidas no próprio dia.
Convém lembrar que a SIC Notícias e os noticiários permanentes ainda não tinham sido inventados.

Para quem tenha curiosidade, e queira saber mais sobre o DL, informo que todos os números do jornal foram digitalizados e estão disponíveis no site da fundação Mário Soares.

Ora esse jornal tinha, nos anos 60, um suplemento chamado "Juvenil", coordenado pelo Mário Castrim e depois também pela Alice Vieira que se tornara sua mulher. Nesses tempos escuros da ditadura o jornal, em tamanho tabloide, disponibilizava quatro páginas para obras literárias enviadas por autores jovens.

Entre 1965 e 1967 publiquei lá quinze vezes, quase sempre poemas mas também uma reportagem e uma crítica de cinema. Depois, tudo se modificou. Em Setembro de 67 entrei na Escola Naval e passados oito meses estava em guerra na Guiné.

No Juvenil publicaram alguns jovens que vieram a prosseguir uma carreira literária e outros, como eu, que seguiram caminhos mais prosaicos. Em qualquer dos casos a obra de Mário Castrim, como fomentador de talentos, nunca será suficientemente elogiada.

Foi durante esse período em que escrevia no "Juvenil", e ia ansiosamente buscá-lo à Praça do Chile para não ter que esperar pela distribuição nas papelarias do bairro, que fui recrutado para o PCP. Um momento chave para o resto da minha vida.
Quando agora leio os poemas que publiquei no "Juvenil" em 1965, vejo um jovem à procura da sua identidade, mas quando leio os poemas de 1967 já consigo divisar o militante empenhado. Aqui ficam dois poemas que mostram este salto.

POR ENTRE AS GRADES (18 de Maio de 1965)

O meu problema
é nunca saber quem sou
O meu EU é uma multidão de eus
Um monte de máscaras
que se põem ao sabor do momento

Por vezes só vejo para além do que vejo
Outras sinto-me uma pedra entre as pedras
Um bicho no meio dos bichos
inconsciente

Ser lúcido é compreender isto
Se eu fosse só um
não era lúcido era só um
Se eu fosse só um
era um prisioneiro sem poder olhar por entre as grades


SAUDAÇÃO (9 de Maio 1967)

poema para childe, brecht,
komarov, apolinário e
para vós todos astronautas
para todos os que se esmagam
(mas principalmente para os que sobrevivem)
por perseguir horizontes

para todos os astronautas
de todas as fábricas a fazerem
parafusos e chapas e plásticos e ferramentas
com que se sonham as máquinas
que dão novas dimensões cósmicas
à liberdade de movimentos
do homem

para todos vós pescadores do futuro
o meu braço acena
das cavernas primitivas às crateras da lua
pois o mundo é passível de modificação
e eu recebi em plena face
trazida plo vento da tarde
a última mensagem da cápsula que se despenhava
e que dizia em código
que por cada flor estrangulada
há milhões de sementes a florir

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