terça-feira, junho 16, 2020

A Memória das Prateleiras (47/n) - Confesso que vi...vi!



A Memória das Prateleiras (47/n)
Confesso que vi...vi!
Há muitos anos vi o filme "Falstaff" (Chimes at midnight, 1965) de Orson Welles.
Desde então há uma frase que nunca mais esqueci: "Jesus, as coisas que nós vimos".
No filme Welles usa textos de várias peças de Shakespeare mas a cena que aqui me interessa está em Henrique IV (II), terceiro acto.
Dois velhos rememoram junto a uma lareira:

SHALLOW
Ha, cousin Silence, if only you’d seen what this knight and I have seen!
Ha! Am I right, Sir John?
FALSTAFF
We've seen the clock strike midnight, Master Shallow.
SHALLOW
We sure have, we sure have, we sure have. I swear, Sir John, we sure have. Our slogan was “Down the hatch, boys!” Come, let’s have lunch, let’s have lunch. Jesus, the days that we have seen! Come, come.

O próprio Welles, que além de realizador foi o interprete de Falstaff, considerava que o tema central do filme eram as amizades traídas. A mim, o que mais me tocou foi o peso da velhice, o peso do que foi visto durante uma vida longa (que inclui as amizades traídas, bem entendido).
Não falo genéricamente das memórias que carregamos no fim da vida, falo especialmente de tudo o que vimos com os olhos e o cérebro. A maior parte das nossas percepções e interacções com o mundo faz-se através da visão.
Esse filme que fizemos com os nossos olhos, durante 80 anos, é uma obra descomunal. Se qualquer casamento de uma sobrinha produz um video com dezenas de gigabytes, imaginem o que seria necessário para conter o filme da nossa vida.
É verdade que vamos fazendo a "compressão" da informação, temos muitas "pastas zipadas" na nossa mente (queira Deus que não se perca nunca o softare para as unzipar).
Também temos as câmaras fotográficas e as fotografias, claro.
Não deve ser por acaso que juntei quase quinhentas máquinas e com elas gastei centenas de rolos de filme. Reconstruindo memórias das próprias câmaras. objectos cuja principal função é criar memórias para os outros. Amor com amor de paga.
Esse processo de recuperar e dar sentido ao passado estende-se, no meu caso, a uma outra obsessão: manter organizadas e fácilmente acessíveis centenas de milhares de fotografias que fui fazendo ao longo dos últimos 60 anos. Imagens que nasceram sob a forma de filme, a preto e branco ou diapositivo, mas também as catadupas que o processo digital propiciou.
São imagens de todos os géneros, desde as estritamente familiares até às de viagem ou feitas para projectos de carácter artístico.
Este tipo de acervo, e o estudo do seu significado, fez-me um dia cunhar o termo vitafotologia. Pode ser que pegue.
Desde que nascemos e abrimos os olhos iniciamos um processo que nunca terá fim; interpretar e dar sentido àquilo que vemos. Começa por ser algo desfocado, manchas que se movem, depois rostos que se tornam familiares e o resto do mundo vem por arrasto.
Julgo que o fascínio da fotografia está aí. Na esperança que temos, até ao fim, de encontrar revelações emocionantes em cada imagem.
Se, fisicamente, somos aquilo que comemos, espiritualmente somos aquilo que vemos.
As milhentas imagens que me rodeiam, são uma memória exterior em permanente diálogo com a memória interior. Uma biblioteca imensa onde procurarei sempre, sem encontrar um livro com a minha verdadeira biografia.

Parafraseando Pablo Neruda, e o título da sua autobiografia: Confesso que vi...vi!

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