sábado, junho 13, 2020

A Memória das Prateleiras (45/n) - Pula Lei e Pula Grei




A Memória das Prateleiras (45/n)
Pula Lei e Pula Grei

Muito se tem dito e escrito sobre a melhor forma de comemorar os grandes acontecimentos em tempos de pandemia.
Ainda recentemente o nosso querido Presidente Marcelo Rebelo de Sousa apresentou a sua versão, desunindo meia dúzia de pessoas em cadeiras tresmalhadas no vetusto claustro dos Jerónimos.
O 25 de Abril decorreu na Assembleia da República, em forma adelgaçada, sob uma chuva de críticas quiçá injustas. O Presidente da Assembleia declarou, enfático, que não alinhava em mascaradas mas ninguém o levou muito a sério.
O primeiro de Maio teve lugar na Alameda. Com os participantes alinhados e respeitando a geometria das engenhosas marcas colocadas no relvado. (Eu sei que é inconveniente mas não consegui enxotar da memória umas coisas em que participei, contra vontade, no Estádio Nacional, ao serviço da Mocidade Portuguesa).
Nos dias subsequentes discutiu-se interminávelmente o trajecto dos autocarros até ao local da manifestação e o tipo de objectiva que tinha sido usado nas fotografias feitas durante o dispersar da multidão. Com uma teleobjectiva, dizia-se, é possível mostrar qualquer grupo de cidadãos como se fosse sardinha em lata ou carruagem da linha de Sintra. Jogando com a perspectiva.
Mais a Norte muita gente iria à Cova de Iria, mas na verdade, ninguém lá foi.
Com todas estas vicissitudes em mente, e bastante preocupado, encontrei esta reportagem de umas comemorações não sei de quê, ocorridas num país que não lembro, em ano que não recordo.
Talvez possamos tirar dela alguns ensinamentos para o futuro. Aqui vai:
À hora aprazada, abriram-se as portas do salão nobre e começaram a surgir na varanda alta, de mármore, os presidentes.
O senhor presidente da comissão comemorativa, os senhores presidentes dos partidos da oposição, o senhor presidente do partido do governo, o senhor presidente da assembleia, o senhor presidente da câmara, o senhor presidente do governo e o senhor presidente da república.
Por trás, em magote, avultavam aqueles que nestas coisas fazem sempre de cenário.
As colunas da fachada suportavam a custo o peso de tantas gravatas, comendas, faixas e medalhas que, ao longo das décadas, fizeram do país aquilo que ele é hoje.
E então começaram os discursos comemorativos.
Um dos oradores explicou piedosamente que “comemorar” significa relembrar em comum. Como vivemos em democracia, no povo que enchia a praça fronteira, vinte metros mais abaixo, havia quem pensasse que as arengas eram demasiado “cume moratórias”.
No momento mais solene a banda tocou o hino e a bandeira foi içada.
Sem que nada o permitisse prever, os notáveis da varanda galgaram um degrau invisível e ficaram empoleirados no parapeito de pedra, de mãos dadas, gritando “pula lei e pula grei”. Logo pularam para o vazio, esmagando-se no empedrado.
Foi um gesto supremo de abnegação republicana, que deixou o povo um pouco enojado e com cara de orquestra que se vê obrigada a tocar sem maestro.
Só muito mais tarde se percebeu que esse acto heróico o tinha finalmente convencido a assumir as suas próprias responsabilidades.
O povo tomou o destino nas suas próprias mãos, e estrangulou-o.

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