sexta-feira, junho 12, 2020

A Memória das Prateleiras (44/n) - Excursões de Finalistas




A Memória das Prateleiras (44/n)
Excursões de Finalistas

Naquele tempo as excursões de finalistas ainda não eram uma indústria, nem faziam títulos de jornais.
Em 1961 eu era finalista do equivalente ao nono ano actual e fiz a minha primeira viagem internacional, a Madrid. Em 1964, quando já frequentava a universidade, no ISCEF, participei numa viagem do Técnico a Paris.
Ambas as deslocações foram feitas de combóio, quase sem dinheiro, num ambiente que pouco tinha a ver com o que se passa hoje. Mas não se pense que estou a falar de puritanismo. Como verão, as viagens também tiveram o seu lado picante.
Foam jornadas longuíssimas, com certos troços ainda feitos em combóios a vapor.
No caso da ida a Madrid, ainda me lembro de ter passado a noite no combóio. Havia paragens em desoladas povoações de Castela, com um ar poeirento que contrastava com o muros caiados do nosso lado da fronteira.
Chegámos a Madrid ao amanhecer e fomos transportados para umas instalações estudantis, na Casa de Campo, com bastante frio. Tudo era frugal, as camas muito básicas e os duches não tinham água quente.
Levaram-nos depois, em romagem, como era de esperar, ao Vale dos Caídos.
Houve duas coisas que me impressionaram imenso em Madrid; haver semáforos em todos os cruzamentos e as guapas salerosas e pestanudas, que subiam e desciam a Gran Via (o centro de Madrid teve entretanto a degradação de todas as grandes cidades e agora, quando lá vou, lamento não sentir o deslumbramento daqueles tempos).
A noite de regresso a casa, com toda a malta estafada e amontoada a esmo, e as carruagens na semi-obscuridade, selou alguns primeiros beijos de namoros juvenis.
A viagem a Paris, feita três anos mais tarde, durou umas intermináveis 34 horas, incluindo um transbordo; largando um combóio em Irun e tomando outro Hendaye. Os alojamentos em Paris situavam-se no Quartier Latin, em àguas furtadas, como se fossemos artistas românticos. Eu, com 19 anos, conseguira espremer do meu pai umas parcas centenas de escudos para viver nove dias na dispendiosa “cidade luz”.
Na manhã seguinte precipitei-me, porta fora, para me ir encontrar com uma correspondente (sim, nessa época trocávamos cartas), que vivia em Chartres mas prometera encontrar-se comigo junto ao obelisco da Place de la Concorde.
Ainda estou para saber como me orientei no Metro, algo novo para mim. Ao sair no destino, quando subia a escada para a superfície, avistei um casal que se beijava longamente na boca. Olhei em volta, à espera de ver um polícia interropmpê-los. Era essa a experiência que levava de Lisboa. Percebi então que me encontrava num mundo diferente (ao longo dos anos, até à Revolução de 1974, sempre que ia a Paris, passava o tempo no cinema para ver uma carrada de filmes proibidos em Portugal).
Mas voltemos à Place de la Concorde. Estou ao pé do obelisco, uma enorme peça de pedra vinda de Tebas, onde durante milénios tinha ornamentado a entrada do palácio de Ramsés II. Mas isso não interessa nada pois o meu radar girava em volta, tentando descobrir a tal moça de Chartres.
Esperei, esperei e desanimei. Quando me preparava para abandonar o infausto local fui interpelado por um senhor de bigode (ver na fotografia) que me pediu para o retratar ao pé do pedregulho.
Confidenciou ser saudita e estar em Paris para uma reunião de trabalho; era empregado, como não podia deixar de ser, numa petrolífera (vim a conhecer mais tarde um saudita numa reunião internacional; o homem não conseguia perceber as nossas discussões sobre salários brutos e salários líquidos pois desconhecia o flagelo dos impostos).
O nosso saudita de la Concorde fez-me então uma proposta surpreendente. Como carecia de um compincha propôs-me acompanhá-lo durante aqueles dias, e que não me preocupasse com as despesas.
Ora eu, que já praticava remo no CNL, e alcançava um bom palmo a mais que o Abdulah, não me sentia em risco de me tornar vítima de abuso sexual. Por isso aceitei confiadamente.
Durante uma semana fomos companheiros inseparáveis, e fizemos um bom inventário de Pigalle e de outros centros culturais. Fomos ao Crazy Horse, ao Moulin Rouge e a muitos outros animados santuários femininos. Coisas que teriam sido impossíveis sem os subsídios do Abdulah.
Quando acabaram esses dias felizes, em que fui eu a viver à custa dos xeques (e dos cheques) do petróleo, e não o costumeiro inverso, sentia-me a cinderela ao soar das doze badaladas.
Abasteci na mercearia, com os poucos francos que me sobraram, uns yogurtes e umas maçãs e lá embarquei no combóio para Lisboa com tal farnel.
Ao pararmos em Irun, para o transbordo, já me encontrava bastante depauperado. Não resisti, e pedi ao meu amigo Jorge a caridade de uma sandes jamon. A melhor que comi em toda a minha vida.

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