quarta-feira, junho 10, 2020

A Memória das Prateleiras (43/n) - Uma parábola para Saramago



A Memória das Prateleiras (43/n)
Uma parábola para Saramago

Descobri Saramago com "Levantado do Chão", que me maravilhou, muito antes de ele se tornar famoso. O "Memorial...", o "Ricardo Reis...", "O cerco de Lisboa" e o "Evangelho..." também deixaram em mim marcas muito fortes. Não tenho dúvidas sobre a sua enorme estatura literária.
Tenho, porém, cada vez mais dificuldade em ler os seus últimos livros. Estou convencido de que, em arte, é muito mais importante mergulhar nas dúvidas, nas perguntas e na complexidade, do que partir de uma base simplista de certezas.
A grandiosidade das metáforas de Saramago cada vez mais me parece inquinada por uma arrogância apologética que é, por natureza, o contrário da arte tal como a concebo. Por alguma razão Saramago convenceu-se de que lhe competia vestir-se como um misto de juiz e de pitonisa o que costuma, tarde ou cedo, levar à produção de obras enfadonhas.
Esta nova fase de Saramago é uma afloração do vício que vem atacando o pensamento progressista, ou que assim se julga. De modo um tanto infantil julga-se que todas as chagas do mundo têm que ter um culpado, e um culpado que faz o mal de propósito. Nos casos mais agudos da doença esse culpado é sempre o mesmo.
Explicando melhor, em linguagem futebolística: são como aqueles avançados que tendo à sua frente espaço para progredir, ou boas "linhas de passe", insistem em ir ao encontro dos defesas para os fintar e acabam por perder a bola.
A mim o que me atormenta são os fanatismos, o vício humano de querer impor aos outros, de forma mais ou menos violenta, os comportamentos "correctos". E, como Saramago devia saber, os fanatismos não são exclusivo das religiões e baseiam-se quase sempre em livros.
Nesta conformidade resolvi, também eu, produzir uma parábola de pendor moralista, que dedico ao nosso genial Prémio Nobel. Aqui vai:
De repente as pessoas começaram a perder a memória. Levantavam-se de manhã e não sabiam quem eram. A memória do eu desvanecia-se em poucos instantes, como aqueles sonhos que sonhamos e se esvaiem por entre os dedos mal nos levantamos.
As pessoas que agora descobriam uma existência sem identidade não marchavam, imaculadas e atónitas, por entre os clubismos dos outros. Os clubismos tornam-se impossíveis quando ninguém sabe quem verdadeiramente é.
Ninguém sabia qual o seu clube, nem o seu partido, nem a sua condição social, nem a sua família. De um momento para o outro também tinham desaparecido antigas embirrações, melindres e ódios.
Ninguém ousava a violência por não saber se quem a sofreria não era afinal o seu amigo ou o seu irmão. Ninguém acusava ou incensava os outros por não saber que pecados próprios, ou heroísmos, carregava consigo sem saber.
Não havia remorsos nem vaidades. Cada um tinha que conviver com a sua natureza mais profunda finalmente liberta das camadas que a etiqueta social lhe sobrepusera, numa espécie de nudismo do espírito.
Os dias eram feitos de interrogações sobre o porquê de se estar ali e todos partilhavam as deduções, pois só em comum tinham a possibilidade de inventar um significado para as suas vidas.
Durante as primeiras semanas ainda houve os que tentavam resistir ao sono para preservar, por mais algum tempo, as descobertas de cada dia. Acabavam sempre por adormecer e esquecer.
Até que todos se convenceram de que não restava aos homens senão redescobrir-se e redescobrir os outros, renascidos sem rótulos, todos os dias da sua vida.
Foi então, que um tipo mais empreendedor, criou uma app para telemóvel que, mal é ligado, nos faz um update e nos informa de tudo o que importa saber para sermos aquilo que somos.
Ganhou uma pipa de massa.

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