terça-feira, junho 09, 2020

A Memória das Prateleiras (42/n) - A minha vida na Expo



A Memória das Prateleiras (42/n)

A minha vida na Expo


Declaro desde já que nunca me habituarei a dizer "Parque das Nações", que está para a Expo como a "Praça do Comércio" está para o "Terreiro do Paço". Com laivos de novoriquismo saloio para épater o europeu.

Eu comecei a frequentar a Expo ainda em miúdo. Quando a Expo era toda aquela frente do Tejo, abandonada e maltratada, até onde, por vezes, a garotada da minha rua descia. Vale Escuro abaixo, numa grande aventura.

Tomo consciência disso enquanto olho esta fotografia do meu Alfa, posando junto a uma das docas, com um background de madeiras preciosas acabadas de chegar de África. O Alfa Romeo foi um devaneio do princípio dos anos 70; para os mais invejosos adianto que o comprei quando ele já tinha mais de uma década de estrada.

Por falar em doca...Perdeu-se completamente a memória do Aeroporto Marítimo de Cabo Ruivo, construído a partir de 1938, tal como o da Portela, e operado pela Pan American até 1945. Os hidroviões, que estacionavam precisamente no local onde hoje é o Oceanário, transportaram muitos dos que fugiam ao nazismo para o Novo Mundo.

Na minha juventude, junto à Doca dos Olivais, ainda apodrecia um desses aparelhos anfíbios. Muito perto dele costumava namorar-se dentro do carro, beneficiando da pacatez do local e do automático embaciamento dos vidros.
Alguns GNR gostavam de interromper, no pior momento, e davam-se ao luxo de identificar os "pecadores".

Numa ocasião em que tal me aconteceu, com o soar de uns nós dos dedos no vidro traseiro, eu coloquei o meu boné e saí do automóvel, envergando a minha resplandecente farda de cadete da Armada. Não consegui chegar à fala com o agente da autoridade pois ele, devido à falta de luz e talvez à deficiente avaliação da minha importância hierárquica, pusera-se a milhas balbuciando "Desculpe...desculpe..."

Toda aquela desolada zona ribeirinha, contraponto da opulenta Costa do Sol, era passeio de domingo e pesca de amadores ou, vá lá, sortida criativa de algum fotógrafo em busca de exotismos industriais.

A casa onde actualmente vivo, para onde me mudei em 1973, fica a dois passos da Expo. Por causa disso observei de perto toda a construção e sofri os horrores do trânsito em torno da minha casa. Cheguei a dormir num hotel para ter a certeza de estar no trabalho a tempo de uma reunião crucial.

Mas as minha longas relações com a Expo não ficaram por aqui.
Visitei-a quase todos os dias, enquanto esteve aberta.
O meu filho mais velho era actor na "Peregrinação", o famoso desfile de carros alegóricos do fim da tarde, onde ele aparecia vestido de pirata, para gáudio de toda a família.
Ainda tenho cá em casa vários objectos de países remotos, lá comprados com espírito internacionalista.

Para o último dia da Expo, o dia do encerramento, reservei lugares num restaurante com vista para o fogo de artifício. Foram convidados todos os empregados da empresa que eu então possuía e governava. Eram os festejos do quinto aniversário.
A afluência ao recito era tão grande nesse dia que alguns dos convivas só conseguiram aparecer para o jantar já perto da meia noite.

Actualmente sou frequentador assíduo dos equipamentos comerciais e culturais da zona. Dia sim dia não faço na Expo as minhas longas caminhadas, e continuo a fotografar coisas que lá descobri há mais de vinte anos.
Vi crescer, piso a piso, o Hotel Sana, sobre as estacas e não resisti a almoçar um dia no restaurante do topo da Torre Vasco da Gama. Os preços são quase tão altos quanto a torre.

Não se pode dizer que a Expo seja um bairro, falta-lhe ambiente. Do ponto de vista urbanístico há certas situações incómodas; ruas demasiados estreitas, falta de estacionamentos, etc.

Dá a ideia de ter sido povoada, em grande parte, por altos funcionários, gestores públicos e pessoal das embaixadas.
Algumas lojas de decoração que por lá encontro têm as montras atafulhadas de bibelôs enormes; o cão em tamanho sobrenatural, a armadura reluzente, o candelabro que chega quase ao tecto. Muitos doirados, cromados e envidraçados.

Divirto-me a imaginar a gente que compra aquilo.

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