segunda-feira, junho 08, 2020

A Memória das Prateleiras (41/n) - "Fare il portoghese"



A Memória das Prateleiras (41/n)
"Fare il portoghese"
"Fare il portoghese", em Itália, significa entrar habilidosamente num local que não nos é permitido.
Ao contrário do que parece, não se trata de atribuir esse hábito aos nossos compatriotas; na verdade eram os italianos que o faziam quando, em 1514, o papa Leão X, agradecido pela embaixada de D. Manuel (a tal que incluía um rinoceronte), outorgou uma autorização especial de entrada nas festas aos portugueses.
No também já remoto ano de 1979 vivi dois meses em Milão. Nesse fim de Primavera abrasador e tempestuoso, frequentei um curso tecnológico nas instalações da IBM em Segrate, nos arredores da grande urbe.
O meu hotel situava-se muito perto da Stazione di Milano Centrale e era lá que eu tomava o autocarro da empresa que me levava até ao centro de formação.
Aquele mastodonte ferroviário de pedra, inaugurado em 1931, constituiu então uma manifestação de força do governo fascista de Mussolini (que, por sinal, não esteve presente na inauguração).
As naves imensas e a profusão de estatuária pesada, de um certo mau gosto, são o cenário percorrido diáriamente por milhares de pessoas que, elas próprias, constituem um formigueiro fascinante.
Quando regressava do curso, ao fim da tarde, gostava de me demorar na stazione a apreciar o vai-vem. Foi assim que descobri, junto a uma porta lateral, um magote de gente à volta de qualquer coisa que, ao longe, não se percebia.
Era uma banca de vermelhinha, com três copos de plástico colorido virados de borco, coisa que eu só imaginava em feiras de aldeia.
Comecei a observar, dias a fio, aquele processo mafioso de vigarizar incautos.
O grupo de meliantes era bastantes extenso; incluía o banqueiro, que manejava os copos, mas também alguns tipos que fingiam estar a jogar bem como várias "antenas", dispostas à distância, para detectar a polícia.
Era uma espécie de teia de aranha, tecida para apanhar alguém mais ingénuo que desembarcasse na grande estação.
A teia funcionava por fases; primeiro era preciso despertar o interesse dos passantes, fazendo algum alarido. Quando alguém, por curiosidade, se aproximava do circulo exterior do grupo, iam disfarçadamente abrindo espaço para que chegasse até à fila da frente. Se já se encontrava perto da banca, em posição de observar o jogo de perto, era preciso convencer a vítima de que tinha compreendido o seu funcionamento.
Era preciso que a presa pensasse que estava em condições de descobrir debaixo de que copo se encontrava a bolinha vermelha.
As técnicas para tal eram variadas e, dia após dia, vi muita gente perder dinheiro; por vezes todo o seu dinheiro. O que mais me chocava eram os jovens vindos do Sul da Itália, em busca de trabalho, e que perdiam os parcos haveres logo à saída do combóio. Traziam-me à memória a trama de "Rocco e os seus irmãos", a grande obra neo-realista de Visconti nos anos 60.
Uma coisa era certa; quando alguém perdia, o seu dinheiro nunca ficava na banca. Era imediatamente entregue a um dos presentes, como se estivesse a ser usado num qualquer acerto de contas. E quem o recebia ausentava-se de imediato. Desta forma, um eventual protesto do esbulhado era rebatido dizendo-lhe que o seu dinheiro partira para parte incerta, minutos antes.
Os mais recalcitrantes acabavam por ser sujeitos a ameaças vindas de dois ou três rapazes corpolentos, pretensos espectadores, mas que eu sabia pertencerem ao gang.
O meu estatuto era de observador. Estabelecera um acordo tácito com os mafiosos a quem a minha constante presença chegara a criar a suspeita de poder pertencer às forças da ordem (que por acaso nunca por ali vi). Eu limitava-me a observar os acontecimentos, como se fosse um sociólogo, e eles pela sua parte não me incomodavam.
Quando eu chegava, e me encostava discretamente à parede, era até saudado efusivamente com gritos de "arrivato il portoghese". E lá estava eu, de facto, todos os dias, a "fare il portoghese".
Das 9 às 5 aprendia os meandros tecnológicos das mais recentes inovações.
Ao fim da tarde, na stazione, recebia lições da mais velha arte do mundo; o teatro dos enganos com que, de uma forma ou de outra, tratamos de governar as nossas vidas.

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