sexta-feira, junho 05, 2020

A Memória das Prateleiras (40/n) - A Terceira Vaga



A Memória das Prateleiras (40/n)
A Terceira Vaga

Poucos livros me influenciaram tanto como “A Terceira Vaga” de Alvin Toffler. Por vezes tenho dificuldade em perceber, quando olho para o que tenho reflectido e produzido, em que medida o plagiei e em que medida o recriei.
Escrito em 1980, dez anos depois do seu “O Choque do Futuro”, chegou-me às mãos em 1984 nesta edição Livros do Brasil. Nessa época de paz podre muita gente de esquerda estava preparada, sem o saber, para um fenómeno do tipo Gorbatchev.
Toffler, um ex-marxista assumido, oferecia uma abordagem que, mimetizando o mestre, parecia querer abrir novas vias para avançar.
Por um lado, matinha a lógica “progessista”, das épocas que se sucedem no caminho ascendente da humanidade; “...a Primeira Vaga começou por volta do ano 8000 a.C. e dominou a Terra, sem qualquer desafio, até cerca dos anos 1650-1750 da nossa era. A partir desse momento, a Primeira Vaga perdeu balanço, enquanto a Segunda Vaga o adquiria. A civilização industrial, o produto desta Segunda Vaga, dominou então o planeta por sua vez e atingiu também o seu ponto mais alto. Este último ponto de viragem histórico ocorreu nos Estados Unidos durante a década que começou por volta de 1955- a década em que pela primeira vez os trabalhadores de escritório e serviços ultrapassaram numericamente os operários. Foi nesta mesma década que se assistiu à introdução vasta do computador, da viagem comercial a jacto, da pílula anticoncepcional e de muitas outras inovações de grande impacto”.
Não é difícil detectar nesta formulação o paralelismo com os conceitos de “formação económica e social” e “modo de produção” introduzidos por Marx. Mas enquanto o Marx da vulgata punha todo o ênfase no voluntarismo da luta de classes, Toffler deslocava o centro de gravidade para as tecnologias.
Estando eu mergulhado nas tecnologias mais impactantes da época, na área da computação, tinha os ouvidos especialmente sensíveis a esta “nuance”.
Pode colocar-se a questão tomando como ponto de partida a tão citada frase “A história da humanidade é a história da luta de classes” que Marx e Engels incluíram no Manifesto Comunista. Eu não tinha qualquer dificuldade em aceitar que as lutas entre as classes têm sido uma constante na vida social, mas disso não resulta necessariamente que os saltos históricos as tenham como causa principal.
Uma outra consequência da abordagem do Toffler era obrigar a distinguir entre os horizontes de curto e longo prazo na acção política. Num ambiente político como o português, em que a militância de esquerda tinha um pendor voluntarista e tarefeiro muito vincado, sempre com as próximas legislativas ou autárquicas no horizonte, tal distinção não era fácil e raramente acontecia.
Os tempos longos da maturação e desenvolvimento tecnológico radical sensibilizavam pouco os militantes educados no sonho da insurreição (o acto instantâneo que, nas suas cabeças, mas só nas suas cabeças, virava o mudo de pernas para o ar).
O 25 de Abril na sua imagem mais instantânea, omitindo os muitos anos de luta política subterrânea que o antecederam, visto como um levantamento da coragem que mudou o regime em poucas horas, não fez senão reforçar este equívoco.
Mas as mudanças profundas do modo de produção e das relações de produção são uma coisa muito diferente, que não se resolve de um momento para o outro. O falhanço da experiência histórica da URSS talvez se explique pela inexistência de uma revolução tecnológica na base da Revolução de Outubro.
Ao longo da história o surgimento de um “mundo novo” andou sempre associado a saltos tecnológicos. A URSS nasceu talvez cinquenta anos antes do tempo certo, e esse “erro” original nunca o conseguiu redimir.
Mas Toffler, tal como Marx antes dele, foi subterrado pelos desenvolvimentos tecnológicos e sociais, que mesmo o seu brilhantismo não podia conceber em toda a sua extensão.
Passados setenta anos do início da Terceira Vaga que ele anunciou ao mundo tropeçamos todos os dias em destroços da Segunda Vaga, em anacronismos e saudosismos, que nos dão a sensação do fim de uma era e não do começo de uma nova.
A tecnologia já existe. Um “novo teórico”, ou um “novo político”, procura-se.
Dão-se alvíssaras.

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